Novenas
Novena das Almas do Purgatório
A novena tradicional pelas almas do purgatório: o salmo De profundis na Bíblia de Figueiredo, a oração Réquiem aeternam em latim e português, a estrutura dos nove dias e seu fundamento na Escritura.

A novena das almas é uma das obras de misericórdia mais antigas e mais esquecidas da piedade católica: nove dias seguidos de oração oferecidos pelos fiéis defuntos que se purificam no purgatório, esperando a visão de Deus. Se você procura como rezar a novena das almas do purgatório, encontrará aqui a estrutura tradicional dos nove dias, o salmo De profundis na Bíblia de Figueiredo, e a oração pelas almas do purgatório por excelência — o Réquiem aeternam — em latim e em português, como o reza a Igreja no ofício divino.
O que é o purgatório
Cremos, com a Igreja de sempre, que há um estado de purificação para as almas que morrem na graça de Deus, mas ainda não inteiramente purificadas de suas faltas. Essas almas estão salvas — nada lhes pode tirar o céu —, mas devem antes satisfazer pela pena temporal que ainda lhes resta. A elas a Escritura promete o repouso:
"Mas as almas dos justos estão na mão de Deus, e não os tocará o tormento da morte. Pareceu aos olhos dos insensatos que morriam: E o seu trânsito foi reputado por aflição: E a jornada que fazem separando-se de nós, extermínio: Mas êles estão em paz." (Sabedoria 3, 1-3)
Essas almas não podem mais merecer por si mesmas. Mas nós, que ainda peregrinamos, podemos socorrê-las. É a comunhão dos santos: o que nos sobra de oração e de penitência pode ser aplicado a elas em sufrágio. E a própria Escritura nos ensina que esse socorro é santo e agradável a Deus.
O fundamento na Escritura
A prática de orar pelos mortos não é invenção tardia. Está no Antigo Testamento, no gesto de Judas Macabeu, que mandou oferecer sacrifício pelos soldados caídos:
"E porque êle considerava que os que haviam falecido na piedade tinham uma grandíssima misericórdia reservada. E' logo um santo, e saudável pensamento orar pelos mortos, para que sejam livres dos seus pecados." (II Macabeus 12, 45-46)
A Escritura é explícita: orar pelos defuntos seria "uma coisa supérflua e vã" se os mortos não houvessem de ressuscitar (II Macabeus 12, 44). Mas porque ressuscitarão, a oração os alcança. E o Senhor nos garante a vida que os espera:
"Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida: O que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá. E todo o que vive e crê em mim, não morrerá eternamente." (João 11, 25-26)
Eis por que rezamos. Não choramos como os que não têm esperança; suplicamos como quem sabe que a misericórdia de Deus pode abreviar a purificação daqueles que partiram. Esta novena tem seu lugar entre as grandes orações católicas da tradição.
A palavra "novena"
A palavra vem do latim novem, "nove". Uma novena é uma oração feita durante nove dias consecutivos com uma mesma intenção. A prática tem raiz no Cenáculo: depois da Ascensão, os Apóstolos e Nossa Senhora perseveraram em oração nove dias, até Pentecostes. Foi a primeira novena da Igreja. Aplicada aos defuntos, a novena traduz em nove dias de constância o socorro que devemos aos que nos precederam — e a mais indicada para rezá-la é a que antecede o dia de Finados, de 24 de outubro a 1º de novembro, embora ela possa ser feita em qualquer tempo, sobretudo pela morte de um ente querido.
O De profundis — Salmo 129
O coração da oração pelos defuntos é o Salmo 129, o De profundis — o salmo que a Igreja canta junto a todo túmulo e em todo ofício dos mortos. É o grito da alma que clama do fundo, confiando na misericórdia que redime — o mesmo De profundis que figura entre os salmos penitenciais. Reze-o a cada dia da novena, na tradução de Figueiredo:
"Cântico gradual. Desde o mais profundo clamei a ti, Senhor: Senhor, ouve a minha voz: Estejam atentos os teus ouvidos à voz da minha deprecação. Se observares, Senhor, as nossas maldades: Quem, Senhor, poderá subsistir? Mas em ti se acha a propiciação: E pela tua lei pus em ti, Senhor, a minha confiança. A minha alma está confiada na sua palavra: A minha alma esperou no Senhor. Desde a vigília da manhã até à noite: Espere Israel no Senhor. Porque no Senhor está a misericórdia: E nêle há copiosa redenção. E êle mesmo redimirá a Israel de tôdas as suas iniqüidades." (Salmos 129, 1-8)
A oração Réquiem aeternam
Concluído o salmo, rezamos a antífona dos defuntos, a oração pelas almas do purgatório que a Igreja repete em latim há séculos — o Réquiem aeternam. À Igreja são concedidas indulgências por ela, aplicáveis em sufrágio:
Em latim:
Réquiem aetérnam dona eis, Dómine,
et lux perpétua lúceat eis.
Requiéscant in pace. Amen.
Em português:
Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno,
e brilhe para eles a luz perpétua.
Descansem em paz. Amém.
A estrutura dos nove dias
A novena tradicional pelas almas, na forma transmitida por Santo Afonso Maria de Ligório, segue a cada dia esta ordem simples e segura. Reze-a com fé, oferecendo cada dia por uma alma ou por um defunto querido:
- Sinal da Cruz e um Ato de Contrição, pedindo a Deus o perdão de seus próprios pecados — pois quem reza pelos defuntos primeiro purifica o coração.
- O Salmo 129 (De profundis), dito por inteiro, conforme acima.
- Cinco Pai-Nossos e cinco Ave-Marias, oferecidos pelas almas que mais padecem e que mais perto estão de entrar no céu.
- A oração Réquiem aeternam, em latim ou em português.
- Uma resolução para o dia: ouvir uma Missa, fazer uma esmola, uma pequena mortificação ou abstinência, aplicando-lhe o fruto em favor dos defuntos.
Acima de todos os sufrágios está o Santo Sacrifício da Missa. Por isso, se puder, mande celebrar uma Missa pelos defuntos durante a novena, e ofereça uma boa confissão — pois "o maior sufrágio" que podemos prestar nasce de um coração que se reconcilia primeiro com Deus.
Por que rezar pelas almas
Rezar pelos mortos é dever de justiça e de caridade. Estas almas estão salvas e seu purgatório terá fim — bem diferente da sorte dos que se perderam para sempre, pois o inferno existe e é eterno. Um dia também nós precisaremos dessa oração. As almas que hoje socorremos não esquecem: agradecidas, rogarão por nós diante de Deus quando enfim contemplarem a sua face. É um comércio santo — damos um pouco de oração, e recebemos a amizade de quem reina na paz. Fora da novena, a tradição também nos deixou súplicas breves pelos que partiram, como a oração das três almas, que se pode rezar em qualquer dia. "Espere Israel no Senhor", canta o salmo, "porque no Senhor está a misericórdia: E nêle há copiosa redenção" (Salmos 129, 6-7).
Perguntas Frequentes
Quando devo rezar a novena das almas?
Pode ser rezada em qualquer época do ano, especialmente pela morte de um ente querido. A época mais tradicional, porém, é a que antecede o dia de Finados: de 24 de outubro a 1º de novembro, concluindo na Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos.
Qual é a oração mais importante pelas almas do purgatório?
O Santo Sacrifício da Missa é o sufrágio supremo. Entre as orações, destacam-se o Salmo 129 (De profundis) e a antífona Réquiem aeternam — "Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno" —, repetida pela Igreja em todo ofício dos mortos.
O que é o De profundis?
É o Salmo 129, na numeração da Vulgata seguida por Figueiredo, chamado De profundis por suas primeiras palavras: "Desde o mais profundo clamei a ti, Senhor". É o salmo penitencial que a Igreja reza junto aos túmulos e pelos defuntos.
A Bíblia ensina mesmo a orar pelos mortos?
Sim. O segundo livro dos Macabeus diz expressamente: "É logo um santo, e saudável pensamento orar pelos mortos, para que sejam livres dos seus pecados" (II Macabeus 12, 46). É o fundamento escriturístico da oração pelas almas.
Posso rezar o Réquiem aeternam fora da novena?
Sim, e é louvável fazê-lo. A Igreja a recomenda como jaculatória diária pelos fiéis defuntos, sobretudo ao passar diante de um cemitério ou ao lembrar de um falecido. A ela são ligadas indulgências aplicáveis em sufrágio das almas.
Preciso rezar os nove dias sem falhar?
A novena pede perseverança, mas a misericórdia de Deus não se prende a fórmulas. Se um dia for perdido, retome com confiança no dia seguinte. O que importa é o coração que ora pelos defuntos com fé e caridade constantes.
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Fontes. Salmos 129; Sabedoria 3; II Macabeus 12; João 11 — Bíblia Sagrada, tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo. Antífona Réquiem aeternam do Ofício dos Defuntos (Rito Romano). Estrutura da novena segundo a tradição de Santo Afonso Maria de Ligório.