A Fé
As Indulgências: O Que São e Como Ganhá-las
O que são as indulgências, a diferença entre indulgência plenária e parcial, as condições para ganhá-las e o tesouro da Igreja: a doutrina do Concílio de Trento e de São Pio X, fundada na Escritura de Figueiredo.

Poucas palavras geram tanto mal-entendido quanto esta. Para uns, soa a venda de perdão; para outros, a superstição medieval. Mas as indulgências são, na verdade, uma das maiores ternuras que a Igreja oferece a seus filhos. Se você se pergunta o que são indulgências, qual a diferença entre uma indulgência plenária e uma parcial, ou simplesmente como ganhar indulgências, este artigo expõe a doutrina que a Igreja sempre creu — e separa, com firmeza, a verdade católica do abuso histórico que a deturpou.
O que são indulgências
Cremos, com a Igreja de sempre, que a indulgência é a remissão, diante de Deus, da pena temporal devida pelos pecados já perdoados quanto à culpa. Para entender isto, é preciso distinguir duas coisas que se confundem facilmente.
Quando pecamos gravemente, contraímos uma culpa — uma ofensa a Deus que nos afasta dele — e uma pena. Pela contrição e pela confissão sacramental, Deus perdoa a culpa e remite a pena eterna (o inferno). Mas resta muitas vezes uma pena temporal: uma dívida de reparação, uma desordem que a alma ainda deve satisfazer, aqui na terra pela penitência, ou depois da morte no purgatório.
A própria Escritura mostra que o perdão da culpa não apaga sempre toda a pena: Davi foi perdoado de seu pecado, mas o filho lhe morreu assim mesmo. O perdão é real, e a satisfação também é real. A indulgência é o ato pelo qual a Igreja, usando do poder que Cristo lhe deu, salda essa dívida temporal aplicando à alma os méritos infinitos de Nosso Senhor e dos santos.
Plenária e parcial: a diferença
A Igreja distingue duas espécies de indulgência, e a distinção é simples.
A indulgência plenária remite toda a pena temporal devida pelos pecados até aquele momento. Se ganha integralmente e a alma morresse logo em seguida, iria direto ao céu, sem passar pelo purgatório. É uma graça imensa — e, justamente por isso, exige condições rigorosas, porque supõe que o coração esteja inteiramente desapegado de todo pecado, ainda dos veniais.
A indulgência parcial remite apenas parte dessa pena. A Igreja já não a mede em "dias" e "anos", como antigamente (esses números nunca foram tempo de purgatório, mas equivalências com as antigas penitências públicas); hoje a concede a inúmeras orações e obras piedosas do dia a dia — uma jaculatória, o sinal da cruz feito com devoção, a leitura da Escritura, a visita ao Santíssimo. O fiel diligente vive, assim, colhendo indulgências parciais a cada passo do dia.
Como ganhar uma indulgência plenária: as condições
Eis o ponto prático. Para ganhar indulgências plenárias, a Igreja pede que se cumpra a obra à qual a indulgência está ligada (rezar o Terço em comum, fazer a Via-Sacra, adorar o Santíssimo por meia hora, ler a Escritura por meia hora, e outras), e mais quatro condições:
- Confissão sacramental — feita nos dias próximos, antes ou depois da obra. Uma só confissão basta para várias indulgências plenárias.
- Comunhão eucarística — recebida em estado de graça, de preferência no mesmo dia da obra. Aqui está o coração de tudo, pois o maior tesouro é a Santa Missa e a Eucaristia.
- Oração nas intenções do Sumo Pontífice — um Pai-Nosso e uma Ave-Maria, ao menos, pelas intenções do Papa (não pela pessoa dele, mas pelo bem que ele pede à Igreja).
- Desapego total de todo pecado, ainda do venial. Esta é a mais exigente: se falta o desapego perfeito, a indulgência é só parcial.
Note que a confissão é indispensável. O protestante que objeta "por que os católicos se confessam?" tem aqui parte da resposta: porque o próprio Cristo deu aos Apóstolos o poder de perdoar. Quem quiser entender o sacramento por inteiro pode ver o nosso guia de como se confessar.
O tesouro da Igreja e o poder das chaves
De onde a Igreja tira o que distribui nas indulgências? De um tesouro que não é dela, mas que ela administra: os méritos infinitos de Cristo e os méritos superabundantes da Virgem e dos santos. São Paulo o supõe quando escreve, com palavra admirável:
"Eu, que agora me alegro nas penalidades que sofro por vós, e que cumpro na minha carne o que resta a padecer a Jesus Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja." (Colossenses 1, 24)
Os santos, sofrendo unidos a Cristo, juntam um tesouro de satisfação que transborda das suas próprias necessidades. Esse tesouro é comum a todo o Corpo Místico — é a comunhão dos santos em ato.
E quem tem o poder de abrir esse tesouro? A Igreja, pelo poder das chaves que o Senhor confiou a Pedro:
"E eu te darei as chaves do reino dos Céus. E tudo o que ligares sôbre a terra, será ligado também nos céus: E tudo o que desatares sôbre a terra, será desatado também nos Céus." (Mateus 16, 19)
Esse "desatar" alcança a pena temporal. É a Igreja, com a autoridade de Cristo, soltando o que prendia. O Concílio de Trento o definiu solenemente: "O poder de conferir indulgências foi concedido por Cristo à Igreja, e ela usou deste poder, divinamente dado, desde os tempos mais antigos." E anatematizou tanto quem as despreza quanto quem nega que a Igreja tenha o poder de concedê-las (Sessão XXV, 1563).
E os abusos? A verdade contra a calúnia
Aqui sejamos justos e firmes. Houve, sim, abusos no fim da Idade Média — pregadores que, na prática, davam a impressão de vender indulgências em troca de esmolas, ligando-as a ofertas em dinheiro de modo escandaloso. Foi um abuso real, e a Igreja o condenou ela mesma. O próprio Concílio de Trento, em seu decreto sobre as indulgências, mandou abolir "todos os ganhos torpes" e os abusos que deram ocasião à heresia, ordenando aos bispos que extirpassem as corruptelas.
Mas — e isto é decisivo — o abuso de uma coisa não prova que a coisa seja má. Os homens abusaram do dinheiro, do sacerdócio, da própria Escritura; nem por isso são maus. A doutrina das indulgências jamais foi "compra do perdão": o perdão da culpa vem só da contrição e da confissão, gratuitamente. A indulgência toca apenas a pena temporal, e nunca dependeu de dinheiro, mas de oração e de estado de graça. O protestante que a rejeita por causa do abuso joga fora o trigo com o joio.
Indulgências pelos mortos
A graça mais consoladora: nós podemos aplicar uma indulgência por outra alma — não pelos vivos, mas pelos defuntos que se purificam no purgatório. Por modo de sufrágio, oferecemos a Deus essa remissão em favor de uma alma que já não pode merecer por si. A Escritura nos garante que orar pelos mortos é santo e proveitoso:
"E' logo um santo, e saudável pensamento orar pelos mortos, para que sejam livres dos seus pecados." (II Macabeus 12, 46)
São Pio X, na Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, exortava insistentemente os fiéis a socorrerem as almas com indulgências. Os dias em torno de Finados são tempo riquíssimo de indulgências plenárias aplicáveis aos defuntos, sobretudo pela visita ao cemitério e pela oração nas igrejas. E a forma mais constante de fazê-lo é a Novena das Almas do Purgatório.
Perguntas Frequentes
As indulgências são a "venda do perdão"?
Não, e nunca foram. O perdão dos pecados (a culpa) vem só da contrição e da confissão sacramental, gratuitamente. A indulgência remite apenas a pena temporal que resta depois do perdão, e jamais dependeu de dinheiro — depende de oração, penitência e estado de graça. O que houve no fim da Idade Média foi um abuso de homens, condenado pela própria Igreja em Trento.
Qual a diferença entre indulgência plenária e parcial?
A indulgência plenária remite toda a pena temporal devida até aquele momento; a parcial remite apenas parte dela. A plenária exige condições rigorosas, em especial o desapego total de todo pecado, ainda do venial — sem o qual ela se reduz a parcial.
Quais são as condições para ganhar uma indulgência plenária?
Cumprir a obra prescrita (Terço em comum, Via-Sacra, meia hora de adoração ou de leitura da Escritura, etc.) e, além disso: confissão sacramental, comunhão eucarística, oração nas intenções do Papa (um Pai-Nosso e uma Ave-Maria) e desapego de todo pecado. As três primeiras nos dias próximos; a última no momento da obra.
Onde está o fundamento das indulgências na Bíblia?
No poder das chaves dado a Pedro de "ligar e desatar" (Mateus 16, 19; 18, 18), que alcança a pena temporal; no tesouro dos méritos dos santos que "cumprem o que resta a padecer a Cristo" (Colossenses 1, 24); e no santo costume de orar e satisfazer pelos mortos (II Macabeus 12, 46).
Posso ganhar uma indulgência por outra pessoa?
Pelos vivos, não; mas pelos defuntos, sim. As indulgências podem ser aplicadas, por modo de sufrágio, às almas do purgatório, que já não podem merecer por si. É um dos maiores atos de caridade que a Igreja nos permite fazer pelos nossos mortos.
Quantas indulgências plenárias posso ganhar por dia?
Em regra, uma só indulgência plenária por dia (salvo no momento da morte). Indulgências parciais, porém, você pode colher quantas vezes quiser ao longo do dia, repetindo as orações e obras a que elas estão ligadas.
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Fontes. II Macabeus 12; Mateus 16 e 18; Colossenses 1 — Bíblia Sagrada, tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo. Concílio de Trento, Sessão XXV, Decreto sobre as Indulgências (1563). São Pio X, exortações sobre o sufrágio pelos defuntos. Doutrina tradicional sobre o tesouro da Igreja e a pena temporal.