Salmos
Salmo 70 (Salmo 69 na Vulgata)
O Salmo 70 que você procura é o Salmo 69 da Vulgata — o 'Deus, in adiutorium meum intende', o brado de socorro que abre cada Hora do Ofício Divino. Texto completo em português e latim, significado e como rezar.

O Salmo 70 é um dos mais curtos e mais usados de todo o Saltério: um brado breve e urgente de quem se sente cercado e clama a Deus por socorro imediato. Suas primeiras palavras — "Ó Deus, atende ao meu socorro; Senhor, vinde logo para ajudar-me" — são tão queridas da Igreja que abrem cada uma das Horas do Ofício Divino, milhares de vezes ao dia, em todos os mosteiros do mundo. Antes de rezá-lo, convém esclarecer uma confusão comum sobre o número.
Salmo 70 ou Salmo 69? A dupla numeração
O salmo que você procura ao digitar "salmo 70" é, na numeração tradicional da Igreja — a da Vulgata latina de São Jerônimo —, o Salmo 69. Não é erro nem contradição: existem duas maneiras de numerar os salmos.
A numeração da Vulgata (herdada da Septuaginta grega) é a que a Igreja Católica usou por mais de mil e quinhentos anos em sua liturgia, em seu Breviário e nos comentários dos Padres. Nela, este salmo é o 69, que começa em latim "Deus, in adiutórium meum inténde". A numeração hebraica, mais moderna, conta-o como 70. A diferença nasce do modo de agrupar dois salmos do começo do Saltério.
Portanto: Salmo 70 (numeração hebraica) = Salmo 69 (numeração da Vulgata). É o mesmo salmo, o mesmo brado de socorro. Neste artigo seguimos o texto e a numeração tradicionais — Salmo 69 da Vulgata —, que é como a Igreja sempre o rezou.
O texto completo do Salmo
Damos primeiro o texto em português, na tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo sobre a Vulgata — a Bíblia católica clássica em nossa língua —, e em seguida o latim da Vulgata, âncora canônica de toda oração da Igreja.
Salmo 69 (70)
Ao regente do coro, salmo de Davi. Em memória do que o Senhor o havia salvado.
Ó Deus, atende ao meu socorro: Senhor, vinde logo para ajudar-me.
Confundidos sejam, e envergonhados, os que buscam a minha alma.
Voltem-se atrás, e sejam envergonhados os que me desejam males. Voltem-se logo cheios de confusão os que me dizem: Bem, bem.
Regozijem-se, e alegrem-se em ti todos os que te buscam, e os que amam a tua salvação digam sempre: Engrandecido seja o Senhor.
Mas eu sou necessitado e pobre: Ó Deus, socorre-me. O meu favorecedor, e o meu libertador és tu: Senhor, não te demores.
No latim da Vulgata, o salmo abre com as palavras mais repetidas da liturgia católica:
Deus, in adiutórium meum inténde; Dómine, ad adiuvándum me festína.
Confundántur et revereántur, qui quærunt ánimam meam...
Quem reza o Ofício reconhece de imediato esse versículo: é com ele, seguido do Glória ao Pai, que se começam todas as Horas — o pulso constante da oração da Igreja ao longo do dia.
O significado do Salmo 70
O Salmo 70 é, em sua essência, um clamor de socorro. Davi se vê cercado por inimigos que buscam a sua vida e zombam de sua aflição, e não tem força nem méritos a apresentar: confessa-se "necessitado e pobre". Toda a sua segurança está em uma só coisa — que Deus venha depressa.
Três movimentos atravessam o salmo, e dão a chave do seu significado:
- A urgência. "Vinde logo... não te demores." O salmista não pede uma ajuda qualquer no futuro; pede que Deus se apresse. É a oração da alma que chegou ao limite e sabe que só o Céu a pode socorrer a tempo.
- A pobreza reconhecida. "Eu sou necessitado e pobre." Não há aqui jactância nem confiança nas próprias forças. O orante se apresenta vazio, e por isso mesmo capaz de receber tudo de Deus.
- A confiança que vence o medo. No meio da angústia, o salmo já antevê a alegria dos que buscam a Deus. O socorro pedido é tão certo que se transforma em ação de graças antes mesmo de chegar.
Os Padres viram nesse breve grito a oração de toda a Igreja peregrina, e de cada alma em luta contra o pecado e o demônio. Por isso ele se tornou, na tradição, uma poderosa invocação contra as tentações e os assaltos do inimigo. É o mesmo clamor do justo injustamente perseguido que, no Salmo 7, entrega toda a sua causa ao juízo de Deus. Quem brada "vinde logo" sabe, no fundo, que Deus já está presente: é a certeza cantada no Salmo 139, o grande salmo da onisciência e da onipresença de Deus, de quem nunca está longe da alma que o chama.
O uso tradicional: o brado que abre toda oração
A história mais bela deste salmo está em São João Cassiano, que viveu entre os monges do deserto do Egito nos séculos IV e V. Em suas Colações, Cassiano conta que os Padres do Deserto haviam escolhido o versículo "Deus, in adiutorium meum intende" como a fórmula breve que o monge deveria repetir sem cessar, em toda hora e circunstância. Era, para eles, a oração que resumia todas as outras: o reconhecimento de que sem Deus nada podemos, e o pedido de que Ele venha sempre, e depressa.
Dessa prática do deserto, a Igreja fez o versículo introdutório de todas as Horas do Ofício Divino. Até hoje, no Breviário Romano tradicional, cada Hora começa assim:
V. Deus, in adiutórium meum inténde. — Ó Deus, vinde em meu auxílio.
R. Dómine, ad adiuvándum me festína. — Senhor, apressai-vos em socorrer-me.
Seguido sempre do Glória ao Pai. É como se a Igreja, antes de cada oração, confessasse que nem rezar consegue sem o auxílio da graça — e o pedisse com as próprias palavras do Salmo 70.
Como e quando rezar o Salmo 70
Por sua brevidade e sua força, o Salmo 70 é ideal para muitos momentos:
- Ao começar qualquer oração. Seguindo a tradição da Igreja, comece o seu tempo de oração com o versículo "Ó Deus, vinde em meu auxílio; Senhor, apressai-vos em socorrer-me", seguido do Glória ao Pai. É o melhor modo de pôr toda a oração nas mãos de Deus.
- Na tentação ou no medo súbito. Quando o inimigo aperta, repita o brado dos Padres do Deserto: "Deus, vinde em meu auxílio." É uma jaculatória que cabe em qualquer instante do dia.
- Nas Completas, antes de dormir. Junto com o Salmo 91, a grande oração de proteção da noite, o Salmo 70 entrega a Deus o cansaço e os perigos do dia que termina.
- Como salmo penitencial e de confiança. Reze-o devagar quando se sentir pobre, cercado, sem forças — e deixe que a sua última palavra, "não te demores", se torne o seu próprio suspiro a Deus.
Você pode unir o Salmo 70 a outras grandes orações de socorro e confiança, como a oração de São Bento contra o mal, ou rezá-lo no contexto de uma novena, em que cada dia se abre com este pedido humilde de auxílio.
Perguntas Frequentes
Por que o Salmo 70 também é chamado Salmo 69?
Porque há duas numerações dos salmos. A Igreja, em sua Vulgata latina e em toda a sua liturgia tradicional, segue a numeração da Septuaginta, em que este é o Salmo 69. A numeração hebraica moderna o conta como 70. É o mesmo salmo.
Qual é a oração mais conhecida do Salmo 70?
O seu primeiro versículo: "Ó Deus, vinde em meu auxílio; Senhor, apressai-vos em socorrer-me" (Deus, in adiutorium meum intende; Domine, ad adiuvandum me festina). É a invocação que abre todas as Horas do Ofício Divino.
O Salmo 70 serve contra as tentações?
Sim. Os Padres do Deserto, segundo São João Cassiano, repetiam o seu primeiro versículo justamente como arma contra as tentações e os ataques do demônio. É uma jaculatória breve e poderosa para os momentos de luta.
Quando devo rezar o Salmo 70?
Tradicionalmente, no início de qualquer oração, nas Completas antes de dormir, e a qualquer hora em que você se sentir cercado, tentado ou sem forças. Por ser tão curto, presta-se a ser rezado muitas vezes ao dia.
O Salmo 70 é de quem?
A tradição o atribui ao rei Davi, como indica o próprio título: "salmo de Davi". É um clamor de quem está em perigo e confia que só Deus o pode salvar a tempo.
O Salmo 70 é um salmo penitencial?
Não está entre os sete Salmos Penitenciais oficiais, mas tem um forte tom de humildade e contrição: o orante se reconhece "necessitado e pobre" e põe toda a sua esperança na misericórdia de Deus. Por isso é muito rezado como oração de penitência e confiança.
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Fontes. Bíblia Sagrada, tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (sobre a Vulgata); Vulgata Latina; Catecismo de São Pio X; Breviário Romano (tradicional).