Salmos
Salmo 111 (Salmo 110 na Vulgata)
O Salmo 111 — louvor agradecido às obras de Deus, fidelidade da Aliança e o temor do Senhor como princípio da sabedoria. Texto completo de Figueiredo, latim da Vulgata, sentido tradicional e como rezá-lo.

O Salmo 111 é uma oração de louvor e ação de graças: o salmista bendiz a Deus de todo o coração pelas suas obras grandiosas, recorda a fidelidade da Aliança e conclui com a célebre sentença — "o temor do Senhor é princípio da sabedoria". Reze-o quando quiser dar graças, reconhecer a bondade de Deus na sua vida e pedir o dom da verdadeira sabedoria.
Salmo 111 ou Salmo 110? A dupla numeração
Antes de tudo, esclareçamos uma confusão comum. Você procura o Salmo 111, mas nas Bíblias católicas tradicionais como a de Pe. Antônio Pereira de Figueiredo e na Vulgata latina ele aparece como Salmo 110.
A diferença vem de duas tradições de contagem: a numeração hebraica (moderna), que a maioria das Bíblias hoje segue, e a numeração grega dos Setenta (Septuaginta) e latina da Vulgata, adotada pela Igreja por séculos. Entre os Salmos 9/10 e 146/147, a numeração da Vulgata fica geralmente uma unidade atrás. Portanto:
Salmo 111 (hebraico/moderno) = Salmo 110 (Vulgata/Figueiredo)
São o mesmo salmo. Tudo o que segue refere-se a este único texto.
O texto completo (tradução de Figueiredo)
Aleluia. Louvar-te-ei, Senhor, com todo o meu coração: no conselho dos justos, e na congregação.
Grandes são as obras do Senhor: apropriadas a todas as suas vontades.
A obra dele é glória, e magnificência: e a sua justiça permanece pelo século do século.
Deixou memória das suas maravilhas, o Senhor, que é misericordioso e compassivo:
Deu sustento aos que o temem: lembrar-se-á eternamente da sua aliança:
Anunciará ao seu povo a virtude das suas obras.
Para lhes dar a eles a herança das gentes: as obras das suas mãos são verdade, e justiça.
Fiéis são todos os seus mandamentos: confirmados em todos os séculos, feitos em liberdade e em equidade.
Redenção enviou ao seu povo: estabeleceu para sempre a sua aliança. Santo, e terrível é o nome dele:
O temor do Senhor é princípio da sabedoria. É bom entendimento o de todos os que obram como ele: o seu louvor permanece para sempre.
O latim da Vulgata
Na Igreja latina, este salmo começa com as palavras que lhe deram o nome tradicional — Confitebor tibi, Domine ("Louvar-te-ei, Senhor"):
Alleluia. Confitebor tibi, Domine, in toto corde meo, in consilio justorum, et congregatione. Magna opera Domini: exquisita in omnes voluntates ejus. Confessio et magnificentia opus ejus, et justitia ejus manet in saeculum saeculi. (...) Initium sapientiae timor Domini; intellectus bonus omnibus facientibus eum: laudatio ejus manet in saeculum saeculi.
O salmo é, no hebraico original, um acróstico alfabético: cada verso curto começa por uma letra sucessiva do alfabeto hebraico. É um poema cuidadosamente composto para a memória e para a oração comunitária no templo.
O tema e o sentido tradicional
O Salmo 111 é um dos grandes salmos de louvor (hallel). Seu fio condutor é simples e profundo: contemplar as obras de Deus e responder com gratidão. Quem reza assim aproxima-se também dos salmos de cura, em que a confiança nas obras do Senhor restaura a alma.
- Louvor de todo o coração (v. 1): o salmista não louva por obrigação, mas com toda a alma, na assembleia dos fiéis. A oração nasce no coração, mas se completa na comunidade que reza junta.
- As obras do Senhor (v. 2-4): a criação, a providência, a libertação do Egito — "grandes são as obras do Senhor". Deus é "misericordioso e compassivo", e deixou memória dessas maravilhas, isto é, os sacramentos e a liturgia que as tornam presentes.
- A fidelidade da Aliança (v. 5-9): Deus dá sustento aos que o temem, lembra-se eternamente da sua aliança e envia a redenção ao seu povo. Os Padres veem aqui um anúncio da Eucaristia — "deu sustento aos que o temem" — e da Redenção em Cristo.
- O temor do Senhor (v. 10): o salmo culmina na frase mais citada de toda a sabedoria bíblica: "o temor do Senhor é princípio da sabedoria". Não o medo servil, mas a reverência filial que reconhece a santidade de Deus e dela faz o ponto de partida de toda a vida reta.
Explicação do Salmo 111 versículo por versículo
Para quem busca uma explicação mais detalhada, acompanhamos abaixo o salmo seguindo a numeração tradicional dos versículos:
- v. 1 — "Louvar-te-ei, Senhor, com todo o meu coração." O ponto de partida é o louvor inteiro, sem reservas, e feito "no conselho dos justos, e na congregação" — isto é, junto com a Igreja, não isoladamente.
- v. 2-3 — "Grandes são as obras do Senhor." Olhar para o que Deus fez: a criação, a história da salvação, a redenção. A sua justiça "permanece pelo século do século".
- v. 4 — "Deixou memória das suas maravilhas." Deus é "misericordioso e compassivo" e quis que as suas obras fossem lembradas — o que a Igreja realiza na liturgia e nos sacramentos.
- v. 5 — "Deu sustento aos que o temem." Os Padres leem aqui uma figura do Pão eucarístico; literalmente, o maná e a providência cotidiana.
- v. 6-8 — As obras de Deus são "verdade, e justiça" e os seus mandamentos são "fiéis", "confirmados em todos os séculos". A Lei divina não muda.
- v. 9 — "Redenção enviou ao seu povo." O anúncio velado de Cristo Redentor; "santo, e terrível é o nome dele".
- v. 10 — "O temor do Senhor é princípio da sabedoria." O coroamento, que tratamos à parte abaixo.
O Salmo 111, 10: "o temor do Senhor é princípio da sabedoria"
Muitos procuram especificamente o versículo 10 do Salmo 111 (Salmo 110, 10 na Vulgata), o mais célebre de todo o salmo:
"O temor do Senhor é princípio da sabedoria. É bom entendimento o de todos os que obram como ele: o seu louvor permanece para sempre."
Initium sapientiae timor Domini. Não se trata de medo servil — o pavor de um escravo diante do castigo —, mas do temor filial, a reverência amorosa do filho que não quer ofender o Pai. É o dom do Espírito Santo que, segundo o Catecismo de São Pio X, "nos faz respeitar a Deus e recear ofendê-lo". Por isso este versículo é o fundamento de toda a vida espiritual: quem coloca Deus no centro recebe o primeiro grau da verdadeira sabedoria.
Como e quando rezar o Salmo 111
Na liturgia tradicional, o Confitebor tibi tem lugar de honra: pertence aos salmos das Vésperas de domingo no Breviário Romano, rezado ao entardecer como ação de graças pelo dia e pela obra de Deus. Ao fim do dia, completa-se naturalmente com as orações das Completas, o último ofício antes do repouso.
Para a sua oração pessoal, sugerimos:
- Como oração de ação de graças. Quando receber uma graça, uma cura, um favor — antes de pedir qualquer outra coisa, reze este salmo para reconhecer que "as obras das suas mãos são verdade, e justiça".
- Ao entardecer. Seguindo o uso das Vésperas, faça dele o seu louvor do fim do dia.
- Como introdução ao pedido de sabedoria. Reze-o devagar, detendo-se no último verso, antes de tomar uma decisão importante.
- Antes ou depois da Santa Missa. O verso sobre o sustento dado aos que temem a Deus prepara o coração para a Comunhão.
Comece sempre com o sinal da cruz e, ao final, é piedoso acrescentar o Glória ao Pai, como na recitação litúrgica de todos os salmos.
Quem deseja avançar na vida de oração faz bem em rezar os salmos em sequência. Recomendamos depois o Salmo 112, seu "irmão" gêmeo que começa igualmente por Beatus vir, o louvor do Salmo 103 — "bendize, ó minha alma, ao Senhor" —, o penitencial Salmo 51 (Miserere) e o Salmo 46, em que "Deus é o nosso refúgio e fortaleza", para firmar o coração na confiança que nasce do louvor. Veja também a nossa página de orações católicas e os salmos de proteção para integrar os salmos à sua rotina diária.
Salmo 111 "do amor", casamento e alma gêmea: o que a Igreja ensina
Circula muito na internet a ideia do Salmo 111 "do amor", recomendado para o amor, para o casamento ou para encontrar a alma gêmea. É preciso esclarecer com caridade e com a verdade.
O Salmo 111 (110 na Vulgata) não é um salmo romântico nem uma fórmula para atrair afetos. É um salmo de louvor às obras de Deus e à fidelidade da sua Aliança. Usá-lo como simpatia, amuleto ou "oração para conquistar alguém" é desvirtuar a oração e cair em superstição — algo que a Igreja sempre reprovou, pois transforma o diálogo com Deus em técnica mágica.
Dito isso, há um modo católico e legítimo de rezar este salmo no contexto do amor e do matrimônio:
- Para o casamento, os noivos e esposos podem rezá-lo em ação de graças, pedindo que o seu amor seja fiel como é fiel a Aliança de Deus — "lembrar-se-á eternamente da sua aliança". O matrimônio cristão é, justamente, imagem dessa fidelidade.
- Para encontrar a pessoa certa, em vez de buscar "alma gêmea" por meios supersticiosos, peça a Deus, na confiança do v. 10, o dom da sabedoria para discernir e a graça de um amor ordenado à sua vontade.
- Pelo amor verdadeiro, contemple que o "amor" celebrado pelo salmo é a misericórdia fiel de Deus — modelo de todo amor humano que queira durar.
Para intenções matrimoniais, são mais próprios os patronos do amor casto e do bom casamento, como São José e Santa Ana, a quem se pode dirigir orações específicas.
O Salmo 111 cantado
Na tradição da Igreja, os salmos são cantados, não apenas recitados. O Salmo 111 (Confitebor tibi, Domine) tem melodias próprias no canto gregoriano, sobretudo para as Vésperas de domingo, onde figura entre os salmos do ofício vespertino. Cada um dos oito tons salmódicos podia ser aplicado a ele conforme a antífona do dia. Cantar ou salmodiar este texto — ainda que em recitação simples, numa só nota — é o modo mais próprio de rezá-lo, pois prolonga o louvor "que permanece para sempre".
Perguntas Frequentes
Por que o Salmo 111 também é chamado de Salmo 110?
Porque há duas numerações dos salmos. A hebraica (moderna), usada hoje pela maioria das Bíblias, o chama de Salmo 111; a grega da Septuaginta e a latina da Vulgata, seguidas tradicionalmente pela Igreja e pela tradução de Figueiredo, o chamam de Salmo 110. É o mesmo salmo.
Qual é o significado do Salmo 111?
É um salmo de louvor e ação de graças. O fiel bendiz a Deus de todo o coração pelas suas obras grandiosas e pela fidelidade da sua Aliança, e conclui ensinando que o temor do Senhor é o princípio da sabedoria.
Quando devo rezar o Salmo 111?
Especialmente em ações de graças, ao entardecer (seguindo o uso das Vésperas tradicionais), antes de decisões importantes para pedir sabedoria, e como preparação ou agradecimento em torno da Santa Missa.
O que significa "o temor do Senhor é princípio da sabedoria"?
Não se trata de medo servil, mas de uma reverência filial e amorosa diante da santidade de Deus. Quem reconhece Deus como Senhor e ordena a sua vida segundo Ele dá o primeiro passo da verdadeira sabedoria, como ensina também o Catecismo de São Pio X sobre o dom do temor de Deus.
O Salmo 111 é o "salmo do amor"?
Não no sentido romântico que muitos buscam. O Salmo 111 (110 na Vulgata) é um salmo de louvor às obras de Deus e à fidelidade da sua Aliança, que culmina no temor do Senhor como princípio da sabedoria. O "amor" que ele celebra é a misericórdia fiel de Deus para com o seu povo — não um amuleto para conquistar afetos. A piedade católica não usa os salmos como simpatia ou fórmula mágica, mas como oração dirigida a Deus.
Para que serve o Salmo 111?
Serve sobretudo como oração de ação de graças e de louvor: para reconhecer as obras de Deus, firmar a alma na confiança da sua providência e pedir o dom da sabedoria, que nasce do temor filial do Senhor (v. 10). É também o salmo das Vésperas de domingo na liturgia tradicional.
O Salmo 111 serve como oração de proteção?
Mais que proteção, é um salmo de confiança e gratidão. Ao recordar que Deus "deu sustento aos que o temem" e "se lembra eternamente da sua aliança", o coração se firma na certeza da providência divina — e dessa confiança nasce a verdadeira paz.
Por que se diz que o Salmo 111 anuncia a Eucaristia?
Os Padres da Igreja viram no verso "deu sustento aos que o temem" uma figura do Pão eucarístico, e em "redenção enviou ao seu povo" um anúncio de Cristo Redentor. Por isso o salmo é tão caro à piedade católica em torno da Missa.
O Salmo 111 serve para o casamento?
Pode ser rezado por noivos e esposos como ação de graças, pedindo que o seu amor seja fiel como é fiel a Aliança de Deus, que o salmo celebra. Não, porém, como "simpatia" ou fórmula para conquistar alguém: isso seria superstição, contrária à fé católica. O salmo é oração a Deus, não amuleto.
Como rezar o Salmo 111 para encontrar a alma gêmea?
Em vez de buscar a "alma gêmea" por meios supersticiosos, reze o salmo pedindo a Deus, na confiança do versículo 10 ("o temor do Senhor é princípio da sabedoria"), o dom de discernir e a graça de um amor ordenado à sua vontade. A escolha de um cônjuge se confia à Providência, não a fórmulas mágicas.
O que diz o Salmo 111, 10?
"O temor do Senhor é princípio da sabedoria" (Initium sapientiae timor Domini). É o versículo mais célebre do salmo: ensina que o ponto de partida da verdadeira sabedoria é a reverência filial e amorosa diante de Deus, e não o medo servil do castigo.
Onde encontro o Salmo 111 na Bíblia católica?
Na Bíblia católica tradicional — como a de Pe. Antônio Pereira de Figueiredo — e na Vulgata latina, este salmo aparece numerado como Salmo 110, começando por "Louvar-te-ei, Senhor" (Confitebor tibi, Domine). É o mesmo texto que as Bíblias modernas numeram como Salmo 111.
O Salmo 111 pode ser cantado?
Sim. Na liturgia tradicional ele é cantado em canto gregoriano, sobretudo nas Vésperas de domingo. Mesmo na oração pessoal, pode-se salmodiá-lo em recitação simples — cantar o louvor é o modo mais próprio de rezar os salmos.
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Fontes. Bíblia Sagrada, tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo; Vulgata Clementina; Catecismo de São Pio X; Breviário Romano.