Salmos
Salmo 51 (Salmo 50 na Vulgata)
O Salmo 51 que você procura é o Salmo 50 da Vulgata — o 'Miserere', o grande salmo penitencial da Igreja, o pranto de arrependimento de Davi. Texto completo em português e latim, significado e como rezá-lo.

O Salmo 51 é o maior dos salmos de arrependimento: o pranto do rei Davi depois do seu pecado, transformado pela Igreja na oração penitencial que ela reza há quase dois mil anos. É o salmo que se reza pedindo perdão, e por isso convém esclarecer logo um ponto que confunde muita gente.
Salmo 51 ou Salmo 50? A dupla numeração
O salmo que você procura quando digita "salmo 51" é, na numeração tradicional da Igreja — a da Vulgata latina de São Jerônimo —, o Salmo 50. Não é erro nem contradição: existem duas formas de numerar os salmos.
A numeração da Vulgata (e da Septuaginta grega) é a que a Igreja Católica usou por mais de mil e quinhentos anos em sua liturgia, em seu Breviário e nos comentários dos Padres. Nela, este salmo é o 50, que começa em latim "Miserére mei, Deus" ("Tende piedade de mim, ó Deus"). A numeração hebraica, mais moderna, conta-o como 51. A diferença vem do modo de agrupar dois salmos no começo do Saltério.
Portanto: Salmo 51 (numeração hebraica) = Salmo 50 (numeração da Vulgata). É o mesmo salmo, o mesmo Miserere. Neste artigo seguimos o texto e a numeração tradicionais — Salmo 50 da Vulgata —, que é como a Igreja sempre o rezou.
O texto completo do Salmo
Damos primeiro o texto em português, na tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo sobre a Vulgata — a Bíblia católica clássica em nossa língua —, e em seguida o latim da Vulgata, âncora canônica de toda oração da Igreja.
Salmo 50 (51)
Ao regente do coro, salmo de Davi.
Quando veio buscá-lo o profeta Natan, depois de haver pecado com Betsabée.
Tem piedade de mim, ó Deus, segundo a tua grande misericórdia. E segundo as muitas mostras da tua clemência, apaga a minha maldade.
Lava-me mais e mais da minha iniquidade: E purifica-me do meu pecado.
Porque a minha maldade eu a conheço: E o meu pecado diante de mim está sempre.
Contra ti só pequei, e fiz o mal diante dos teus olhos: Para que sejas justificado nas tuas palavras e venças quando fores julgado.
Eis-aqui sabes que eu fui concebido em iniquidades: E em pecados me concebeu minha mãe.
E bem vejo que tu amaste a verdade: E me revelaste o segredo, e o escondido do teu saber.
Tu me borrifarás com o hissope, e serei purificado: Lavar-me-ás, e me tornarei mais branco que a neve.
Ao meu ouvido darás gozo e alegria: E se regozijarão os meus ossos humilhados.
Aparta o teu rosto dos meus pecados: E apaga todas as minhas maldades.
Cria em mim, ó Deus, um coração puro: E renova nas minhas entranhas um espírito reto.
Não me arremesses da tua presença: E não tires de mim o teu espírito santo.
Dá-me a alegria da tua salvação: E conforta-me por meio do espírito principal.
Ensinarei aos iníquos os teus caminhos: E os ímpios se converterão a ti.
Livra-me dos sangues, Deus, Deus da minha salvação: E a minha língua exaltará a tua justiça.
Senhor, abrirás os meus lábios: E a minha boca anunciará o teu louvor.
Porque se tu quiseres sacrifício, o houvera na verdade oferecido: Tu não te deleitarás com holocaustos.
Sacrifício para Deus é o espírito atribulado: Ao coração contrito, e humilhado não o desprezarás, ó Deus.
Senhor, faze bem a Sião de tua vontade: Para que se edifiquem os muros de Jerusalém.
Então aceitarás sacrifício de justiça, oferendas, e holocaustos: Então porão sobre o teu altar bezerros.
E o mesmo salmo em latim, na Vulgata Clementina, exatamente como a Igreja o canta:
Psalmus 50 — Miserere
In finem, Psalmus David, cum venit ad eum Nathan propheta, quando intravit ad Bethsabee.
Miserére mei, Deus, secúndum magnam misericórdiam tuam. Et secúndum multitúdinem miseratiónum tuárum, dele iniquitátem meam.
Ámplius lava me ab iniquitáte mea: et a peccáto meo munda me.
Quóniam iniquitátem meam ego cognósco: et peccátum meum contra me est semper.
Tibi soli peccávi, et malum coram te feci: ut justificéris in sermónibus tuis, et vincas cum judicáris.
Ecce enim in iniquitátibus concéptus sum: et in peccátis concépit me mater mea.
Ecce enim veritátem dilexísti: incérta et occúlta sapiéntiæ tuæ manifestásti mihi.
Aspérges me hyssópo, et mundábor: lavábis me, et super nivem dealbábor.
Audítui meo dabis gáudium et lætítiam: et exsultábunt ossa humiliáta.
Avérte fáciem tuam a peccátis meis: et omnes iniquitátes meas dele.
Cor mundum crea in me, Deus: et spíritum rectum ínnova in viscéribus meis.
Ne projícias me a fácie tua: et spíritum sanctum tuum ne áuferas a me.
Redde mihi lætítiam salutáris tui: et spíritu principáli confírma me.
Docébo iníquos vias tuas: et ímpii ad te converténtur.
Líbera me de sanguínibus, Deus, Deus salútis meæ: et exsultábit lingua mea justítiam tuam.
Dómine, lábia mea apéries: et os meum annuntiábit laudem tuam.
Quóniam si voluísses sacrifícium, dedíssem útique: holocáustis non delectáberis.
Sacrifícium Deo spíritus contribulátus: cor contrítum, et humiliátum, Deus, non despícies.
Benígne fac, Dómine, in bona voluntáte tua Sion: ut ædificéntur muri Jerúsalem.
Tunc acceptábis sacrifícium justítiæ, oblatiónes, et holocáusta: tunc impónent super altáre tuum vítulos.
O significado do Salmo 51
Este é o quarto e maior dos sete salmos penitenciais da Igreja. Seu pano de fundo é conhecido: depois de cair no adultério com Betsabée e de mandar matar Urias, o rei Davi é repreendido pelo profeta Natan — e em vez de se justificar, prostra-se. O Miserere é o grito da alma que reconhece seu pecado e se atira inteiramente na misericórdia de Deus.
O salmo tem uma ordem espiritual perfeita, que é o próprio caminho da contrição. Primeiro o pedido de perdão ("Tem piedade de mim, ó Deus"); depois a confissão sincera ("a minha maldade eu a conheço"); em seguida o reconhecimento de que o pecado ofende antes de tudo a Deus ("Contra ti só pequei"); então o pedido de purificação ("Lavar-me-ás, e me tornarei mais branco que a neve") e de renovação interior ("Cria em mim, ó Deus, um coração puro"). Por fim, o penitente promete frutos: ensinar os caminhos de Deus aos outros e oferecer-Lhe o único sacrifício que Ele não despreza — "o espírito atribulado, o coração contrito e humilhado".
É este o ensinamento central do salmo, e o ensinamento de toda a tradição católica sobre a penitência: Deus não quer holocaustos exteriores, mas o coração arrependido. O verso "Aspérges me hyssópo" — "tu me borrifarás com o hissope, e serei purificado" — foi sempre lido pelos Padres como figura do Batismo e da absolvição, a água e o sangue que lavam a alma. E o Catecismo de São Pio X ensina exatamente isto sobre a contrição: que ela deve ser interior, sobrenatural, sumamente intensa e universal, com dor de ter ofendido a Deus e firme propósito de não pecar mais. O Miserere é essa contrição feita oração.
O uso tradicional do salmo
Poucos salmos têm presença tão constante na vida da Igreja quanto o Salmo 50. Ele é o salmo penitencial por excelência:
- No Ofício Divino, faz parte das Laudes de cada dia no rito romano tradicional (como as Completas fecham a noite) — de modo que a Igreja começa cada manhã pedindo perdão antes de louvar.
- Na Quaresma e nos tempos de penitência, é rezado e cantado constantemente; é o salmo da Quarta-feira de Cinzas e o pano de fundo de toda a espiritualidade penitencial.
- No sacramento da Confissão, muitos sacerdotes e fiéis o usam como ato de contrição e como penitência dada após a absolvição.
- Na hora da morte e nas exéquias, é rezado pelos agonizantes e pelos defuntos, pedindo a misericórdia de Deus sobre a alma.
- Na aspersão com água benta (Asperges me), o início do salmo é cantado antes da Missa, recordando a purificação batismal.
A tradição musical da Igreja o cobriu de glória: o Miserere de Gregorio Allegri, cantado na Capela Sistina durante a Semana Santa, tornou-se uma das peças mais célebres de toda a música sacra — sinal de quanto a alma cristã se reconhece neste salmo.
Como e quando rezar o Salmo 51
O Miserere serve para todos os momentos, mas a tradição sugere alguns de modo especial:
- Pela manhã, como faz a Igreja nas Laudes, começando o dia com um coração contrito.
- Antes ou depois da Confissão, como ato de contrição: leia-o devagar, fazendo seu cada verso, pedindo de fato o "coração puro" que ele implora.
- Em tempo de pecado, queda ou angústia da alma, quando você precisa voltar a Deus. Este é o salmo de quem caiu e quer se levantar — não há pecado grande demais para a "grande misericórdia" que ele invoca.
- Pelos defuntos e pelos agonizantes, confiando-os à misericórdia divina.
- Em latim, ao menos o primeiro verso. Decorar o "Miserére mei, Deus, secúndum magnam misericórdiam tuam" é unir-se à voz penitente da Igreja de todos os séculos.
Reze-o sem pressa, deixando cada verso pesar na consciência. Termine, como faz a Igreja, com o Glória ao Pai (Glória Patri). E lembre-se de que a força do salmo não está nas palavras, mas n'Aquele a quem se dirigem: Deus, que "não despreza o coração contrito e humilhado". Se você busca outras orações de confiança e súplica, veja também o Salmo 7 e o Salmo 41, o Salmo 42, o cântico da alma que tem sede de Deus, bem como o Salmo 6 e o Salmo 130, igualmente penitenciais, e o nosso guia de orações católicas para rezar todos os dias.
Perguntas Frequentes
Por que o Salmo 51 é chamado de Salmo 50?
Por causa de duas numerações. A Vulgata latina e a Septuaginta grega — usadas pela Igreja por mais de mil e quinhentos anos — contam-no como Salmo 50. A numeração hebraica, mais recente, conta-o como 51. É o mesmo salmo, o Miserere.
Qual é o significado do Salmo 51?
É o grande salmo de arrependimento. Davi, depois de seu pecado, pede perdão a Deus, confessa sua culpa e implora um coração puro. Seu significado central é que Deus não quer sacrifícios exteriores, mas o coração contrito e humilhado.
Quando devo rezar o Salmo 51?
A Igreja o reza todas as manhãs nas Laudes. Você pode rezá-lo de manhã, antes ou depois da Confissão, em tempos de pecado e arrependimento, e pelos defuntos. É o salmo por excelência para pedir a misericórdia de Deus.
O que é o "Miserere"?
Miserere é a primeira palavra latina deste salmo: "Miserére mei, Deus", "Tende piedade de mim, ó Deus". Por isso o Salmo 50 é conhecido em toda a tradição simplesmente como o Miserere, o salmo da misericórdia.
O Salmo 51 serve como ato de contrição?
Sim. Ele é o ato de contrição mais perfeito da Sagrada Escritura: contém o reconhecimento do pecado, a dor de ter ofendido a Deus e o propósito de emenda. Muitos o usam antes ou depois da Confissão, como ensina a tradição da Igreja.
Posso rezar o Salmo 51 em latim?
Sim, e é louvável. Rezá-lo em latim — começando pelo "Miserére mei, Deus" — une você à oração penitente da Igreja de todos os séculos, a mesma que ressoa no célebre Miserere de Allegri cantado na Semana Santa.
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Fontes. Salmo 50 em português: Bíblia Sagrada, tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo sobre a Vulgata (corpus Iter Fidei, bible-figueiredo, Salmos 50, 1–21). Texto latino: Vulgata Clementina, Psalmus 50 (Miserere). Doutrina sobre a contrição e a penitência: Catecismo de São Pio X (Da Penitência e da contrição). Uso litúrgico do Salmo 50 nas Laudes, na Quaresma, no Asperges e nas exéquias: rubricas do Breviarium Romanum e do Missale Romanum (tradição do rito romano).