Salmos
Salmo 22 (Salmo 21 na Vulgata)
O Salmo 22 — 'Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?' — na tradução de Figueiredo e no latim da Vulgata. O salmo da Paixão de Cristo, seu significado e uso tradicional na oração.

O salmo 22 que você procura abre com o grito que o próprio Senhor pronunciou na Cruz: "Deus, Deus meu, olha para mim: Por que me desamparaste?" É o grande salmo profético da Paixão de Cristo, escrito por Davi mil anos antes do Calvário, e nele estão descritos, com espantosa exatidão, o escárnio, as mãos e os pés trespassados e a divisão das vestes do Crucificado. Damos abaixo o texto completo na tradução de Figueiredo e no latim da Vulgata, explicamos por que ele tem dois números, e mostramos seu significado e seu uso tradicional na oração da Igreja.
Por que dois números: Salmo 22 ou Salmo 21?
Antes de tudo, é preciso desfazer uma confusão muito comum. Se você abre uma Bíblia moderna procura o "Salmo 22"; mas se abre um missal antigo, o Breviário, ou a Bíblia de Figueiredo, o mesmo salmo aparece como Salmo 21. Não são dois salmos diferentes — é o mesmo, com dois sistemas de numeração.
A diferença vem da origem das traduções. A Vulgata latina de São Jerônimo, que a Igreja usou por mais de mil e quinhentos anos, seguiu a numeração da Septuaginta, a antiga tradução grega do Antigo Testamento. As Bíblias modernas seguem a numeração do texto hebraico (massorético). A divergência nasce de uma diferença de divisão nos salmos 9 e 10: o hebraico os conta como dois, a Septuaginta e a Vulgata os contam como um só. Por isso, do Salmo 10 ao 146, a numeração da Vulgata fica sempre uma unidade atrás:
Salmo 22 (hebraico/moderno) = Salmo 21 (Vulgata/Septuaginta)
A Bíblia de Figueiredo, traduzida da Vulgata, traz portanto este salmo como Salmo 21. É o texto que reproduzimos. Quando este artigo fala em "Salmo 22", é o mesmo salmo que você encontrará como "21" no seu missal e no Breviário.
Salmo 22 — texto completo (Figueiredo)
Ao regente do côro, salmo de Davi, com o tom do canto Ayyeleth asch-schakhar.
Deus, Deus meu, olha para mim: Por que me desamparaste? Os clamores de meus pecados são causa de estar longe de mim a salvação.
Meu Deus, clamarei durante o dia, e me não ouvirás: Clamarei de noite, e não por insipiência minha.
Mas tu moras no lugar santo, ó Glória de Israel.
Em ti esperaram nossos pais: Esperaram, e os livraste.
A ti clamaram, e foram salvos: Em ti esperaram, e não foram confundidos.
Mas eu sou bichinho, e não homem: O opróbrio dos homens, e a abjeção da plebe.
Todos os que me viam escarneceram de mim: Falaram com os lábios, e menearam a cabeça.
Esperou no Senhor, livre-o: Salve-o: se é que o ama.
Porque tu és o que me tiraste do ventre: A minha esperança desde os peitos de minha mãe.
Eu fui lançado nos teus braços desde o seu seio: Tu és o meu Deus desde o ventre de minha mãe.
Não te retires de mim: Porque a tribulação está próxima: Porque não há quem me ajude.
Um grande número de novilhos me cercaram: Eu me vi sitiado de gordos touros.
Abriram sôbre mim a sua bôca, como leão roubador e que dá rugidos.
Eu me derramei como água, e todos os meus ossos se desconjuntaram. O meu coração no meio das minhas entranhas se tornou como cêra que se derrete.
Secou-se como barro cozido o meu vigor, e a minha língua se pegou às minhas fauces: E me tens conduzido até ao pó da sepultura.
Porquanto me rodearam muitos cães: Uma turba de malignos me sitiou. Êles trespassaram as minhas mãos e os meus pés:
Contaram todos os meus ossos. E êles mesmos me estiveram considerando e olhando:
Repartiram entre si os meus vestidos, e lançaram sorte sôbre a minha túnica.
Mas tu, Senhor, não afastes de mim o teu socorro: Aplica-te a me defenderes.
Livra, ó Deus, a minha alma da espada: E da mão do cão a minha vida.
Salva-me a mim da bôca do leão: E a minha humildade dos cornos dos unicórnios.
Então anunciarei o teu nome a meus irmãos: No meio da Igreja te louvarei.
Vós os que temeis ao Senhor, louvai-o: Vós todos os que sois a descendência de Jacó, glorificai-o:
Tema-o tôda a posteridade de Israel: Porque êle não desprezou, nem se indignou da humilde súplica do pobre: Nem apartou de mim a sua face: Mas êle me ouviu quando eu lhe clamava.
Para contigo o meu louvor na Igreja grande: Eu cumprirei os meus votos em presença dos que o temem.
Os pobres comerão, e serão fartos: E os que buscam ao Senhor louvá-lo-ão: Os seus corações viverão pelos séculos dos séculos.
Lembrar-se-ão, e converter-se-ão ao Senhor todos os limites da terra: E adorarão na sua presença tôdas as famílias das gentes.
Porquanto do Senhor é o reino, êle mesmo reinará sôbre as gentes.
Comeram e o adoraram todos os poderosos da terra: Diante dêle se prostraram todos os que descem à terra.
E a minha alma viverá para êle: E a minha descendência o servirá a êle mesmo.
A geração que há de vir será chamada com o nome do Senhor: E anunciarão os céus a justiça dêle ao povo que há de nascer, ao qual fêz o Senhor.
Salmo 22 em latim (Vulgata, Salmo 21)
Para a oração e o canto, eis o latim da Vulgata Clementina — o mesmo texto que ressoa no Breviário e na liturgia da Sexta-feira Santa:
Deus, Deus meus, respice in me: quare me dereliquisti? longe a salute mea verba delictorum meorum.
Deus meus, clamabo per diem, et non exaudies; et nocte, et non ad insipientiam mihi.
Tu autem in sancto habitas, laus Israel.
Ego autem sum vermis, et non homo; opprobrium hominum, et abjectio plebis.
Omnes videntes me deriserunt me; locuti sunt labiis, et moverunt caput.
Foderunt manus meas et pedes meos, dinumeraverunt omnia ossa mea.
Diviserunt sibi vestimenta mea, et super vestem meam miserunt sortem.
Narrabo nomen tuum fratribus meis; in medio ecclesiae laudabo te.
O significado do Salmo 22: o salmo da Paixão
O significado do Salmo 22 só se revela inteiro à luz da Cruz. Davi, no Espírito Santo, descreve um justo abandonado e cercado de inimigos; mas o Senhor, ao tomá-lo nos lábios do alto da Cruz, mostrou que era Dele que o salmo falava desde o princípio. Os Evangelhos registram que Jesus gritou: "Eli, Eli, lammá sabactháni? — isto é: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" (Mateus 27, 46). Não era um lamento de desespero, mas a primeira palavra de um salmo que os ouvintes conheciam de cor — e que termina em triunfo e ressurreição.
O salmo é uma profecia minuciosa do Calvário, escrita séculos antes da crucificação ser sequer praticada como suplício:
- "Todos os que me viam escarneceram de mim... menearam a cabeça" — o escárnio dos que passavam (Mateus 27, 39).
- "Esperou no Senhor, livre-o, se é que o ama" — as palavras exatas dos príncipes dos sacerdotes (Mateus 27, 43).
- "Trespassaram as minhas mãos e os meus pés" — os cravos, descritos antes que a Israel se conhecesse este modo de execução.
- "Repartiram entre si os meus vestidos, e lançaram sorte sôbre a minha túnica" — citado por São João como cumprido ao pé da Cruz (João 19, 24).
Mas o salmo não para na agonia. Na segunda metade ele se ergue: "Anunciarei o teu nome a meus irmãos" — palavra que a Carta aos Hebreus aplica a Cristo ressuscitado (Hebreus 2, 12) — e termina anunciando que "do Senhor é o reino" e que todos os limites da terra se converterão. Da treva do abandono nasce o reinado universal do Crucificado. Este é o significado profundo: a Cruz não é o fim, mas o caminho da glória — o mesmo movimento de confiança que ressoa no Salmo 23, onde o justo, mesmo no vale da sombra da morte, sabe que nada lhe faltará. E essa glória que aqui se anuncia ao fim da agonia canta-se plenamente no Salmo 21, o cântico do Rei vitorioso: "Senhor, o rei se alegrará na tua fortaleza" — pois o que neste salmo se vê na Paixão, no seguinte se contempla já no triunfo.
O Salmo 22 na oração tradicional
Na liturgia tradicional, este salmo pertence de modo todo especial à Semana Santa. Era cantado nas Matinas da Sexta-feira Santa e suas palavras atravessam todo o ofício da Paixão. Por isso a Igreja sempre o rezou de olhos postos no Crucificado, à semelhança de outros salmos de cura e consolo que ela toma nos lábios diante da dor.
Como o usar na oração pessoal? Reze-o devagar, especialmente nas sextas-feiras, em união com a Paixão do Senhor, ou diante de um crucifixo. Ele é também a oração perfeita para os momentos de abandono e provação: quando sentimos que Deus está longe, este salmo nos ensina a gritar com Cristo, sem perder a esperança, sabendo que o mesmo grito que começa em "por que me desamparaste?" termina em vitória e louvor. Reze-o ainda em ação de graças pela Redenção, lembrando que cada verso foi cumprido por amor de você. Quando o sofrimento for o do arrependimento, ele se irmana ao Salmo 51, o grande salmo penitencial, e à oração da noite que a Igreja confia às Completas — e pode ser inserido na sua vida de orações católicas ao lado dos outros salmos.
Perguntas Frequentes
O Salmo 22 e o Salmo 21 são o mesmo salmo?
Sim. É o mesmo salmo com dois números. As Bíblias modernas, que seguem o texto hebraico, chamam-no de Salmo 22; a Vulgata e a Bíblia de Figueiredo, que seguem a numeração grega da Septuaginta, chamam-no de Salmo 21. A diferença de um número, do Salmo 10 ao 146, vem de uma divisão diferente nos salmos 9 e 10.
Quem escreveu o Salmo 22 e sobre quem ele fala?
Foi composto por Davi, cerca de mil anos antes de Cristo, como indica o próprio título ("salmo de Davi"). Embora descreva o sofrimento de um justo, ele é, em sentido pleno e profético, sobre Jesus Cristo em sua Paixão — como o Senhor mesmo confirmou ao rezá-lo na Cruz.
Por que Jesus rezou o Salmo 22 na Cruz?
Ao gritar "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?", Jesus não cedeu ao desespero: pronunciou o primeiro verso de um salmo que toda a Israel conhecia, declarando que aquela profecia da Paixão se cumpria nele naquele momento. E como o salmo termina em triunfo, suas palavras já anunciavam a vitória da Ressurreição.
Para que serve rezar o Salmo 22?
É uma oração privilegiada para a Semana Santa e para as sextas-feiras, em união com a Paixão de Cristo. É também a oração dos momentos de abandono, sofrimento e prova, em que nos sentimos longe de Deus: o salmo nos ensina a clamar com confiança, sabendo que o abandono aparente desemboca na esperança.
Onde encontro o Salmo 22 na liturgia tradicional?
Ele tem lugar de destaque no ofício da Sexta-feira Santa, cantado nas Matinas da Paixão, e suas palavras retornam ao longo da Semana Santa. No Breviário e no missal antigos, procure-o sempre pelo número da Vulgata: Salmo 21.
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Fontes. Bíblia Sagrada, tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (da Vulgata); Vulgata Clementina, Salmo 21; Evangelhos de São Mateus (27) e São João (19); Carta aos Hebreus (2).