Salmos
Salmo 6 (Salmo 6 na Vulgata)
O Salmo 6 é o primeiro dos sete Salmos Penitenciais: o grito do pecador enfermo que implora a misericórdia de Deus. Texto completo na Bíblia de Figueiredo e em latim, com a explicação da numeração, o significado e o uso tradicional na oração.

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Quem procura o Salmo 6 encontra, em poucas linhas, um dos gritos mais comoventes de toda a Escritura: o do homem doente, exausto de chorar, que se lança na misericórdia de Deus. É o primeiro dos sete Salmos Penitenciais que a Igreja sempre rezou em tempos de penitência e contrição. Neste artigo damos o texto completo do Salmo 6 na tradução da Bíblia de Figueiredo e no latim da Vulgata de São Jerônimo, explicamos a sua numeração, e mostramos o significado e o uso tradicional desta breve e poderosa oração.
A numeração: o Salmo 6 é o mesmo nas duas tradições
Muitos salmos têm dois números — um na contagem hebraica (seguida pela maioria das Bíblias modernas) e outro na contagem grega e latina (a da Septuaginta e da Vulgata de São Jerônimo, usada na liturgia tradicional da Igreja). Essa diferença, porém, só começa no Salmo 9, quando a Septuaginta uniu num só os salmos que o hebraico conta como 9 e 10.
Antes disso, do Salmo 1 ao Salmo 8, as duas tradições coincidem. Por isso o Salmo 6 é o Salmo 6 em ambas as numerações — não há aqui a defasagem de "um número atrás" que aparece mais adiante no Saltério. A única diferença é menor e de detalhe: na Vulgata, o título ("Para o fim, em cânticos, salmo de Davi, para a oitava") conta como o versículo 1, de modo que o conhecido "Senhor, não me arguas no teu furor" é o versículo 2. Em muitas Bíblias de numeração hebraica esse mesmo verso aparece como versículo 1, porque o título não é numerado. O salmo é exatamente o mesmo; muda apenas onde começa a contagem dos versos.
A Bíblia de Figueiredo, traduzida diretamente da Vulgata latina, traz este salmo sob o número 6, com o título contado como versículo 1.
Salmo 6 — texto na Bíblia de Figueiredo
Eis o texto completo, na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata latina:
¹ Ao regente do côro, com acompanhamento de instrumentos de corda, salmo de Davi, com vozes graves.
² Senhor, não me arguas no teu furor, nem me castigues na tua ira.
³ Tem misericórdia de mim, Senhor, porque sou enfêrmo: Sara-me, Senhor, porque os meus ossos estão comovidos.
⁴ E a minha alma se turbou em extremo: Mas tu, Senhor, até quando?
⁵ Volta-te, Senhor, e livra a minha alma: Salva-me pela tua misericórdia.
⁶ Porque na morte não há quem se lembre de ti: E no inferno quem te louvará?
⁷ Trabalhado me vejo no meu gemido, lavarei tôdas as noites o meu leito: Regarei com minhas lágrimas o meu estrado.
⁸ O meu ôlho se turvou à vista do furor: Tenho envelhecido no meio de todos os meus inimigos.
⁹ Apartai-vos de mim todos os que obrais iniqüidade: Porque o Senhor ouviu a voz do meu pranto.
¹⁰ O Senhor ouviu o meu humilde rogo, o Senhor recebeu a minha oração.
¹¹ Sejam confundidos, e em extremo conturbados todos os meus inimigos: Convertam-se, e sejam cobertos de ignomínia num instante.
O texto latino da Vulgata (Psalmus 6)
Na liturgia tradicional o salmo é rezado em latim. Esta é a forma da Vulgata Clementina:
¹ In finem, in carminibus. Psalmus David. Pro octava.
² Domine, ne in furore tuo arguas me, neque in ira tua corripias me.
³ Miserere mei, Domine, quoniam infirmus sum; sana me, Domine, quoniam conturbata sunt ossa mea.
⁴ Et anima mea turbata est valde; sed tu, Domine, usquequo?
⁵ Convertere, Domine, et eripe animam meam; salvum me fac propter misericordiam tuam.
⁶ Quoniam non est in morte qui memor sit tui; in inferno autem quis confitebitur tibi?
⁷ Laboravi in gemitu meo; lavabo per singulas noctes lectum meum; lacrimis meis stratum meum rigabo.
⁸ Turbatus est a furore oculus meus; inveteravi inter omnes inimicos meos.
⁹ Discedite a me omnes qui operamini iniquitatem, quoniam exaudivit Dominus vocem fletus mei.
¹⁰ Exaudivit Dominus deprecationem meam; Dominus orationem meam suscepit.
¹¹ Erubescant, et conturbentur vehementer omnes inimici mei; convertantur, et erubescant valde velociter.
O significado do Salmo 6
O Salmo 6 é atribuído ao rei Davi e abre a série dos sete Salmos Penitenciais (6, 31, 37, 50, 101, 129 e 142, na numeração da Vulgata) — aqueles em que a alma reconhece o seu pecado e implora o perdão. É um salmo curto, mas percorre todo o arco da oração de contrição: do gemido à confiança serena.
Começa com um pedido cheio de temor: "Senhor, não me arguas no teu furor, nem me castigues na tua ira." O orante não nega que merece o castigo; pede apenas que Deus o trate não com a justiça que pune, mas com a misericórdia que cura. E logo se descreve como um doente: "porque sou enfêrmo... os meus ossos estão comovidos... a minha alma se turbou em extremo." A tradição lê essa enfermidade não só como dor do corpo, mas como a doença mais profunda — a do pecado, que abala a alma inteira.
No centro do salmo está o grito mais humano de todos: "Mas tu, Senhor, até quando?" É a oração da alma que sofre e não sabe quanto durará a provação. E há um motivo tocante para o pedido: "Porque na morte não há quem se lembre de ti." O orante quer viver para continuar a louvar a Deus — quer o perdão para poder ainda cantar as misericórdias do Senhor.
Vem então o quadro das lágrimas noturnas: "lavarei tôdas as noites o meu leito: Regarei com minhas lágrimas o meu estrado." É a imagem clássica da penitência — o pranto que purifica, o coração contrito que vela na noite. E, no fim, a reviravolta: o tom muda de repente. "Apartai-vos de mim todos os que obrais iniqüidade: Porque o Senhor ouviu a voz do meu pranto." O penitente recebe a certeza de ser ouvido: "O Senhor recebeu a minha oração." O salmo que começou no medo termina na confiança — não porque a provação acabou, mas porque a alma sabe que foi escutada.
Para os Padres da Igreja, este é o salmo do pecador que se converte e do justo que vela em vigílias. Santo Agostinho via nele a alma que, atemorizada pelo juízo, foge da ira para o seio da misericórdia — e ali encontra repouso.
Como rezar o Salmo 6 na tradição
Na tradição da Igreja, o Salmo 6 abre os sete Salmos Penitenciais, rezados sobretudo na Quaresma, nas Têmporas e em todo tempo de contrição. No Ofício Divino, integra o Saltério distribuído ao longo da semana. Mas a sua brevidade e o seu fervor o tornam ideal também para a oração pessoal, em alguns momentos privilegiados:
- No exame de consciência e antes da Confissão, para fazer nosso o ato de contrição: pedir a misericórdia que cura, e não a justiça que pune.
- Na doença e no sofrimento, fazendo nossas as palavras "sou enfêrmo... Mas tu, Senhor, até quando?" — entregando a provação às mãos de Deus.
- À noite, antes de dormir, como salmo de penitência e de confiança, deixando que as lágrimas do orante se tornem nossas.
Reze-o devagar, deixando que cada versículo se torne oração. Para entender o lugar dos salmos no conjunto da Escritura, veja também o que a Bíblia fala sobre; e, para a oração das horas, o Ofício de Nossa Senhora e o Divinum Officium.
Perguntas Frequentes
O Salmo 6 tem dois números, como outros salmos?
Não no número do salmo: o Salmo 6 é o Salmo 6 tanto na numeração hebraica quanto na latina da Vulgata, porque a defasagem entre as duas tradições só começa no Salmo 9. A única diferença é nos versículos: a Vulgata conta o título como versículo 1, de modo que "Senhor, não me arguas no teu furor" é o versículo 2; em muitas Bíblias modernas esse mesmo verso é o versículo 1.
Por que o Salmo 6 é chamado de Salmo Penitencial?
Porque é o primeiro dos sete salmos em que a alma reconhece o seu pecado e implora o perdão de Deus. Os sete Salmos Penitenciais, na numeração da Vulgata, são o 6, o 31, o 37, o 50 (o Miserere), o 101, o 129 (o De profundis) e o 142. A Igreja sempre os rezou em tempos de penitência, sobretudo na Quaresma.
Quem escreveu o Salmo 6?
O título do próprio salmo o atribui a Davi. A tradição vê nele o rei penitente que, consciente do seu pecado, foge da ira de Deus para a sua misericórdia.
Qual é o tema central do Salmo 6?
A misericórdia de Deus implorada pelo pecador. O orante, "enfêrmo" no corpo e na alma, pede para ser tratado não com a justiça que pune, mas com a misericórdia que cura — e termina na certeza de ter sido ouvido: "o Senhor recebeu a minha oração."
O que significa "na morte não há quem se lembre de ti"?
É o pedido do orante para continuar vivo a fim de louvar a Deus: ele suplica o perdão e a cura para poder ainda cantar as misericórdias do Senhor nesta vida. Lido à luz do Novo Testamento e da Ressurreição de Cristo, este verso é um clamor da Antiga Aliança que a vinda do Redentor veio plenamente iluminar.
Posso rezar o Salmo 6 em latim?
Sim. A liturgia tradicional sempre rezou os salmos no latim da Vulgata, e nada impede que o fiel o faça em sua oração pessoal. O texto latino completo está acima; pode rezá-lo em latim, em português, ou alternando os dois.
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Fontes. Bíblia Sagrada, tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (sobre a Vulgata Latina), Salmo 6; texto latino da Vulgata Clementina, Psalmus 6.