Salmos
Salmo 4 (Salmo 4 na Vulgata)
O Salmo 4 é a oração da confiança serena ao fim do dia: 'Em paz dormirei e repousarei.' Texto completo em português (Figueiredo) e latim da Vulgata, significado, uso tradicional nas Completas e como rezá-lo.

O Salmo 4 é a grande oração da confiança serena ao fim do dia: depois de invocar a justiça de Deus e de exortar os homens a buscarem a verdade em vez da vaidade, o salmista se entrega ao descanso com uma das frases mais doces de todo o saltério — "Em paz dormirei e repousarei." É o salmo que a Igreja escolheu, há mais de mil e quinhentos anos, para rezar todas as noites nas Completas, antes de dormir.
Salmo 4: a numeração é a mesma na Vulgata
Para quem se confunde com a dupla numeração dos salmos, uma boa notícia: aqui não há divergência. O Salmo 4 que você procura é o Salmo 4 também na numeração tradicional da Igreja, a da Vulgata latina de São Jerônimo e da Septuaginta grega.
A diferença entre a numeração hebraica (moderna) e a da Vulgata só começa a partir do Salmo 9. Nos primeiros oito salmos as duas contagens coincidem. Portanto: Salmo 4 (hebraico) = Salmo 4 (Vulgata). É exatamente o mesmo salmo, sem confusão de número — diferente do que acontece, por exemplo, com o Salmo 91, que na Vulgata é o Salmo 90.
O texto completo do Salmo 4
Damos primeiro o texto em português, na tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo sobre a Vulgata — a Bíblia católica clássica em nossa língua —, e em seguida o latim da Vulgata, âncora canônica de toda oração da Igreja.
Salmo 4
Ao regente do coro, com acompanhamento de instrumentos de corda, salmo de Davi.
Quando eu invoco o Senhor da minha justiça, Ele me ouve, e na tribulação o seu auxílio expande a minha alma. Tem compaixão de mim, e ouve a minha oração.
Filhos dos homens, até quando sereis de pesado coração? por que amais a vaidade, e buscais a mentira?
Sabei pois que o Senhor exaltou ao seu santo, o Senhor me ouvirá quando eu clamar a Ele.
Irai-vos e não queirais pecar: Do que dizeis nos vossos corações compungi-vos nos vossos leitos.
Sacrificai sacrifício de justiça, e esperai no Senhor: Muitos dizem: Quem nos patenteará os bens?
Gravado está, Senhor, sobre nós o lume do teu rosto: Deste alegria no meu coração.
Pelo produto do seu trigo, vinho e azeite se multiplicaram.
Em paz dormirei nele mesmo, e repousarei.
Porque tu, Senhor, de uma maneira singular me tens firmado na esperança.
E o incipit em latim, na Vulgata, com que a Igreja sempre o rezou:
Cum invocárem exaudívit me Deus iustítiæ meæ: in tribulatióne dilatásti mihi.
Miserére mei, et exáudi oratiónem meam.
(...) In pace in idípsum dórmiam et requiéscam.
O que significa o Salmo 4
O salmo é atribuído a Davi e tem a forma de uma oração da tarde, talvez nascida de uma noite de aflição em que o rei, cercado de inimigos e de murmuradores, encontra a sua paz não nas circunstâncias, mas em Deus. A tradição o lê em três movimentos.
1. O clamor confiante (v. 2). O salmista começa lembrando que Deus já o ouviu antes: "na tribulação o seu auxílio expande a minha alma." Quem reza não parte do nada — parte da experiência de um Deus que já se mostrou fiel, e por isso ousa pedir de novo: "Tem compaixão de mim, e ouve a minha oração."
2. A exortação aos homens (vv. 3-6). Davi se volta aos "filhos dos homens" e os repreende com ternura: por que amar a "vaidade" e buscar a "mentira", quando o Senhor exalta os seus santos? Vem aqui o verso que São Paulo retomaria (Ef 4,26): "Irai-vos e não queirais pecar" — isto é, deixai o coração se aquietar à noite, examinai-vos no leito e não deixeis que a ira ou o pecado durmam convosco. O remédio é "sacrificar sacrifício de justiça" e esperar no Senhor.
3. A paz do justo (vv. 7-10). Enquanto muitos perguntam "quem nos patenteará os bens?" — buscando felicidade nas coisas —, o salmista já a possui: "Gravado está, Senhor, sobre nós o lume do teu rosto: Deste alegria no meu coração." A alegria que vem do rosto de Deus é maior que a abundância de trigo, vinho e azeite. E o salmo culmina no descanso confiante: "Em paz dormirei e repousarei. Porque tu, Senhor, de uma maneira singular me tens firmado na esperança."
Por isso o Salmo 4 é, ao mesmo tempo, um salmo de confiança (entrego-me a Deus), de proteção (durmo seguro sob o seu olhar) e, no verso "compungi-vos nos vossos leitos", um salmo com nota penitencial: ele nos chama a fazer o exame de consciência antes de dormir. Os Padres viram ainda no sono do justo uma figura da morte e da ressurreição: "em paz dormirei" é também a entrega serena de quem espera despertar em Deus.
Uso tradicional e como rezar o Salmo 4
Na liturgia tradicional da Igreja, o Salmo 4 é, antes de tudo, o primeiro salmo das Completas — a última hora do Ofício Divino, rezada à noite antes de dormir. Junto com o Salmo 91 e o Salmo 134, ele compõe o pequeno saltério noturno que monges, clérigos e fiéis rezam há séculos para encomendar o sono a Deus. Antes mesmo dele, cada Hora do Ofício se abre com o brado do Salmo 70, o "Deus, in adiutorium meum intende" — "Deus, vinde em meu auxílio" —, de modo que o cristão começa pedindo socorro e termina, com este Salmo 4, dormindo em paz. O verso "In pace in idípsum dórmiam" é, na prática, a oração que a Igreja inteira faz toda noite.
Reze o Salmo 4 quando:
- For deitar-se — é a oração noturna por excelência, para adormecer "em paz" sob o olhar de Deus;
- Estiver inquieto ou irado — o verso "irai-vos e não queirais pecar... compungi-vos nos vossos leitos" convida a aquietar o coração e a não levar o pecado para a noite;
- Buscar a verdadeira alegria — quando a alma se vê tentada a procurar a felicidade na "vaidade", o salmo a reconduz ao "lume do rosto" de Deus.
Um modo simples de rezá-lo: faça o sinal da cruz, examine brevemente o dia, leia o salmo devagar — demorando-se em "Em paz dormirei e repousarei" — e conclua com o Glória ao Pai (Glória Patri), como faz a Igreja ao fim de cada salmo no Ofício. Quem quiser pode unir o Salmo 4 ao Salmo 91, o outro grande salmo das Completas, ou rezá-lo junto com um ato de contrição antes de dormir.
Perguntas Frequentes
O Salmo 4 é o mesmo na Vulgata e na numeração moderna?
Sim. Diferente de salmos mais adiante, o Salmo 4 tem o mesmo número nas duas contagens: é o Salmo 4 tanto na numeração hebraica (moderna) quanto na da Vulgata latina e da Septuaginta. A divergência entre as numerações só começa a partir do Salmo 9.
Para que serve o Salmo 4?
É a oração de confiança e paz para o fim do dia. Serve para entregar o sono e a noite a Deus, para aquietar um coração inquieto ou irado, e para reencontrar a verdadeira alegria — a que vem do "lume do rosto" do Senhor — em vez de buscá-la na vaidade.
Quando a Igreja reza o Salmo 4?
No Breviário Romano tradicional, o Salmo 4 é o primeiro salmo das Completas, a hora rezada todas as noites antes de dormir. É, por isso, um dos salmos mais conhecidos e queridos do Ofício Divino.
Por que o Salmo 4 fala em dormir e repousar?
Porque é uma oração da noite: o justo se deita confiando inteiramente em Deus — "Em paz dormirei e repousarei" — sabendo que o Senhor o "firma na esperança". A tradição também vê nesse sono uma figura da morte cristã, descanso confiante de quem espera despertar na ressurreição.
Como rezar o Salmo 4 corretamente?
Faça o sinal da cruz, examine brevemente a consciência, leia o salmo com atenção — sobretudo o início, "Quando eu invoco o Senhor da minha justiça, Ele me ouve", e o fim, "Em paz dormirei" — e termine com o Glória ao Pai, como a Igreja faz no Ofício.
O que diz o Catecismo sobre rezar os Salmos?
O Catecismo de São Pio X ensina que a oração é elevar a alma a Deus para adorá-lo, agradecer-lhe e pedir-lhe as graças necessárias. Os Salmos, inspirados pelo Espírito Santo, são a oração que o próprio Deus nos deu: rezá-los é unir nossa voz à da Igreja de todos os séculos.
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Fontes. Bíblia Sagrada, tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (sobre a Vulgata); Vulgata Clementina; Catecismo de São Pio X; Breviário Romano.