A Fé
O Que é a Missa? O Santo Sacrifício
O que é a Missa: o Santo Sacrifício do altar, a renovação incruenta do Calvário e a Presença Real de Cristo. As partes da Missa e a beleza da Missa tridentina tradicional, à luz da Sagrada Escritura.

Quando perguntamos o que é a Missa, é fácil responder pelo que se vê: um templo, um altar, um sacerdote, fiéis em oração. Mas tudo isso são apenas os sinais de uma realidade que os olhos não alcançam. A Missa não é, antes de tudo, uma reunião nem uma celebração da comunidade. Ela é o Santo Sacrifício — o mesmo Sacrifício do Calvário, oferecido de novo sobre o altar, de modo incruento. Nós o cremos com toda a Igreja: na Missa, o Céu desce à terra, e o que Jesus fez uma vez na Cruz se torna presente para nós.
O que significa a Missa: o Sacrifício renovado
Para compreender o que significa a Missa, é preciso voltar à noite em que ela nasceu. Na Última Ceia, na véspera da sua Paixão, o Senhor instituiu de uma só vez o Sacrifício do altar e o sacerdócio que o havia de perpetuar. São Lucas no-lo conta com exatidão: "Também depois de tomar o pão deu graças, e partiu-o, e deu-lho, dizendo: Êste é o meu corpo, que se dá por vós: Fazei isto em memória de mim" (Lc 22,19).
Repare nas palavras. Cristo não diz "isto representa o meu corpo", mas "Êste é o meu corpo". E ao mandar "Fazei isto em memória de mim", Ele confia aos Apóstolos — e aos seus sucessores — o poder de renovar o que acabava de fazer. São Paulo recebeu e transmitiu a mesma tradição: "o Senhor Jesus, na noite em que foi entregue, tomou o pão" (1Cor 11,23), e acrescenta: "Porque tôdas as vezes que comerdes êste pão, e beberdes êste cálice: Anunciareis a morte do Senhor, até que êle venha" (1Cor 11,26).
A Missa é, pois, memorial no sentido bíblico: não uma simples lembrança, mas a renovação real do único Sacrifício. No Calvário, Cristo se ofereceu de modo cruento, derramando o sangue. No altar, o mesmo Cristo, pelas mãos do sacerdote, se oferece de modo incruento, sob as espécies do pão e do vinho. A Vítima é a mesma; muda apenas o modo. Por isso o Sacrifício da Missa não acrescenta nada à Cruz: ele a torna presente e aplica os seus frutos a cada geração, até o fim do mundo — frutos que aproveitam não só aos vivos, mas também às almas que aguardam a purificação depois de o que acontece após a morte.
Esse Sacrifício foi prefigurado e profetizado. Já Melquisedeque, sacerdote do Altíssimo, oferecera pão e vinho — figura que a Igreja sempre leu como anúncio da Eucaristia (veja quem foi Melquisedeque). E o profeta Malaquias anunciou a oblação universal e pura: "desde o nascente do sol até o poente... em todo o lugar se sacrifica, e se oferece ao meu nome uma oblação pura" (Ml 1,11). Esta oblação pura, oferecida em toda a terra, é a Santa Missa.
A Presença Real: verdadeiramente o Corpo e o Sangue
Não cremos numa presença simbólica. Cremos que, depois da consagração, sob as aparências de pão e de vinho, está real, verdadeira e substancialmente o próprio Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. A isto chamamos a Presença Real, o coração do sacramento da Eucaristia — a mesma Presença que a Igreja adora e leva em procissão na festa de Corpus Christi.
O fundamento está na palavra do próprio Senhor, no discurso do pão da vida. As suas afirmações não admitem rodeios: "Eu sou o pão vivo, que desci do Céu" (Jo 6,51), e ainda: "a minha carne verdadeiramente é comida: E o meu sangue verdadeiramente é bebida" (Jo 6,55). Muitos discípulos murmuraram e se afastaram (Jo 6,61.67); Jesus, porém, não os reteve corrigindo o "exagero", porque não havia exagero algum: Ele falava literalmente.
A quem objeta — como fazem nossos irmãos separados — que tudo isso seria apenas figura, respondemos com caridade, mas com firmeza, pela mesma Escritura. São Paulo é categórico: "todo aquêle que comer êste pão, ou beber êste cálice do Senhor indignamente, será réu do corpo, e do sangue do Senhor" (1Cor 11,27). Ninguém se torna réu do corpo e do sangue de Cristo por desprezar um mero símbolo: só há culpa diante de uma Presença verdadeira. A fé da Igreja, desde os Apóstolos, jamais foi outra.
As partes da Missa
Quem busca as partes da Missa descobre que ela se compõe de dois grandes momentos, herdados da própria estrutura da Última Ceia: a Missa dos Catecúmenos e a Missa dos Fiéis.
A Missa dos Catecúmenos é a parte da Palavra e da preparação. Compreende:
- as orações ao pé do altar, em que o sacerdote se confessa pecador e pede a purificação para subir ao altar de Deus;
- o Intróito, o Kyrie e o Glória, que abrem o louvor;
- a Coleta, a Epístola e o Evangelho (entenda o que são os Evangelhos), com a leitura da Sagrada Escritura;
- o Credo, em que confessamos a fé recebida (reze conosco o Credo).
A Missa dos Fiéis é o coração do Sacrifício. Compreende:
- o Ofertório, em que se oferecem o pão e o vinho;
- o Prefácio e o Cânon — a grande oração de consagração;
- a Consagração, momento supremo em que o pão e o vinho se tornam o Corpo e o Sangue de Cristo;
- o Pai-Nosso, oração do Senhor antes da Comunhão (veja o Pai-Nosso);
- a Comunhão, em que recebemos o próprio Cristo;
- a bênção final e o Último Evangelho (o prólogo de São João).
Esta mesma armação sustenta também o louvor cotidiano da Igreja no ofício divino, que rodeia o Sacrifício do altar com a oração de todas as horas.
A Missa tridentina: a Missa de sempre
Ao falar das partes da Missa, descrevemos a forma venerável da Missa tridentina — a Missa romana tradicional, celebrada em latim, codificada por São Pio V depois do Concílio de Trento e rezada substancialmente do mesmo modo por incontáveis santos ao longo dos séculos. Por isso muitos a chamam, com razão, a Missa de sempre.
Nela tudo fala do Sacrifício: o sacerdote voltado para o Senhor, o silêncio sagrado do Cânon, o canto gregoriano, os gestos de reverência diante da Presença Real. Não se trata de saudade do passado, mas de fidelidade. A Missa tridentina exprime, com clareza singular, aquilo que cremos: que ali se renova o Calvário e ali está, verdadeiramente, o Cordeiro de Deus.
Aprofundar o que é a Missa é, no fim, aprender a assistir a ela com fé viva. Quem ali entende que está aos pés da Cruz não assiste mais como espectador distraído, mas adora, oferece-se com Cristo e dEle recebe a vida. A piedade tradicional nos ensina a unir à Missa outras devoções, como o santo Rosário (aprenda a rezar o terço), prolongando em casa o que recebemos no altar.
Perguntas Frequentes
A Missa é um sacrifício ou apenas uma refeição?
É verdadeira e propriamente um sacrifício — o mesmo do Calvário, oferecido de modo incruento. É também banquete, porque na Comunhão recebemos a Vítima oferecida. Mas a refeição supõe o sacrifício: comemos o Cordeiro porque o Cordeiro foi imolado. "Anunciareis a morte do Senhor" (1Cor 11,26), diz São Paulo da Missa.
Por que dizemos que a Missa renova o Calvário sem repeti-lo?
Porque a Vítima e o Sacerdote principal são os mesmos: Jesus Cristo. Na Cruz, Ele se ofereceu uma vez, de modo cruento e definitivo. Na Missa, esse único Sacrifício é tornado presente e aplicado a nós, de modo incruento. Não se acrescenta nada à Cruz; recebem-se os seus frutos.
O pão e o vinho são só símbolos do Corpo de Cristo?
Não. Cremos na Presença Real: depois da consagração, há verdadeiramente o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade de Cristo. O próprio Senhor disse "Êste é o meu corpo" (Lc 22,19) e "a minha carne verdadeiramente é comida" (Jo 6,55). São Paulo adverte que quem comunga indignamente se faz "réu do corpo, e do sangue do Senhor" (1Cor 11,27).
Qual a diferença da Missa tridentina para outras formas?
A Missa tridentina é a forma romana tradicional, em latim, fixada por São Pio V após o Concílio de Trento. Conserva com grande clareza o caráter sacrificial da Missa e a reverência à Presença Real.
Quem pode oferecer o Santo Sacrifício?
Somente o sacerdote validamente ordenado, que age na pessoa de Cristo. Foi aos Apóstolos que o Senhor disse "Fazei isto em memória de mim" (Lc 22,19), instituindo o sacerdócio que perpetua a Eucaristia. Os fiéis se unem à oferta, mas é o sacerdote quem consagra.
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Fontes. Sagrada Escritura na tradução do Padre António Pereira de Figueiredo (Evangelho de São Lucas 22; São João 6; I Coríntios 10–11; São Mateus 26; Malaquias 1); Catecismo do Concílio de Trento; ordinário da Missa romana tradicional.