Salmos
Salmo 109 (Salmo 108 na Vulgata)
O Salmo 109 (Salmo 108 na Vulgata) é uma oração de quem é traído sem culpa. Texto completo na Bíblia de Figueiredo, latim, a dupla numeração e o sentido tradicional.

Quem procura o Salmo 109 quase sempre chega com uma ferida: foi traído por um amigo, caluniado, devolveram-lhe mal por bem. É exatamente sobre isto que este salmo fala. Antes de qualquer coisa, porém, é preciso resolver uma confusão de numeração que assusta muita gente — o Salmo 109 das Bíblias modernas é o Salmo 108 na Vulgata latina, a Bíblia que a Igreja rezou por séculos. Não são dois salmos: é o mesmo, contado de dois modos.
Neste artigo, damos o texto completo na tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, o latim da Vulgata, explicamos a dupla numeração e mostramos como a tradição católica sempre leu esta oração — não como uma maldição vingativa, mas como o grito do justo perseguido, e até como profecia da Paixão de Cristo.
A dupla numeração: por que Salmo 109 e Salmo 108?
A diferença vem de duas contagens antigas do Saltério. O texto hebraico (seguido pelas Bíblias protestantes e por traduções católicas mais recentes) e o texto grego dos Setenta (seguido pela Vulgata latina de São Jerônimo) dividem alguns salmos de maneira distinta. A partir do Salmo 9, a numeração da Vulgata fica geralmente uma unidade atrás da hebraica.
Por isso:
- Numeração hebraica / moderna: Salmo 109
- Numeração grega / Vulgata / litúrgica tradicional: Salmo 108
Quando você abre um breviário tradicional, um missal antigo ou a Bíblia de Figueiredo, encontra este salmo sob o número 108. Quando abre uma Bíblia atual, o mesmo texto aparece como 109. É o mesmo salmo, palavra por palavra. Tratamos disto também no nosso texto sobre os salmos na Vulgata e a numeração, para quem quer entender o critério geral.
Salmo 109 (Salmo 108 na Vulgata): texto completo
Segue o texto na tradução de Figueiredo, fiel à Vulgata, fonte usada em todo o nosso corpus:
1 Ao regente do coro, salmo de Davi.
2 Ó Deus, não cales o meu louvor: porque a boca do pecador, e a boca do traidor se abriu contra mim.
3 Falaram contra mim com línguas aleivosas, e com palavras de ódio me cercaram: e sem causa me têm feito guerra.
4 Em vez de amar-me, diziam mal de mim: mas eu orava.
5 E tornaram contra mim males por bens: e ódio em câmbio do amor que lhes tinha.
6 Põe sobre ele o pecador: e o diabo esteja à sua direita.
7 Quando for julgado, saia condenado: e a sua oração se lhe impute a pecado.
8 Sejam abreviados os seus dias: e receba outro o seu bispado.
9 Fiquem seus filhos órfãos: e sua mulher viúva.
10 Prófugos andem de um lugar para outro seus filhos, e mendiguem: e sejam lançados fora das suas habitações.
11 O usurário dê caça a todos os seus bens: e os estranhos roubem o fruto dos seus trabalhos.
12 Não tenha quem o ajude: nem haja quem se compadeça dos seus órfãos.
13 Sejam seus filhos para extermínio: em uma só geração fique apagado o seu nome.
14 A iniquidade de seus pais reviva na presença do Senhor ocorrendo à sua lembrança: e o pecado de sua mãe não seja apagado.
15 Estejam sempre diante do Senhor, e seja riscada da terra a memória deles.
16 Porquanto se não lembrou de usar de misericórdia.
17 E perseguiu ao homem sem amparo, e ao mendigo, e ao quebrantado de coração para o entregar à morte.
18 E como amou a maldição, ela lhe virá: e como não quis a bênção ela se apartará dele. E vestiu-se de maldição como dum vestido, e entrou como água nas suas entranhas, e como azeite nos seus ossos.
19 Seja-lhe como o vestido, com que se cobre: e como a cinta, com que sempre se cinge.
20 Esta é diante do Senhor a obra daqueles que dizem mal de mim: e que falam males contra a minha alma.
21 E tu, Senhor, Senhor, toma à tua conta a minha defesa por amor de teu Nome: porque suave é a tua misericórdia. Livra-me.
22 Porque eu sou necessitado, e pobre: e o meu coração está turbado dentro de mim.
23 Tenho desaparecido, como a sombra que vai caindo: e tenho sido arrojado como os gafanhotos.
24 Os meus joelhos se têm debilitado pelo jejum: e minha carne se tem mudado pelo azeite.
25 E eu tenho chegado a ser o opróbrio deles: viram-me e menearam as suas cabeças.
26 Assiste-me, Senhor Deus meu: salva-me segundo a tua misericórdia.
27 E saibam que isto é um golpe da tua mão: e que tu, Senhor, tens feito estas coisas.
28 Eles me amaldiçoarão, e tu me abençoarás: confundidos sejam os que se levantam contra mim: mas o teu servo se alegrará.
29 Vestidos sejam de afronta os que me caluniam: e fiquem cobertos da sua confusão como de uma capa dobrada.
30 Glorificarei altamente ao Senhor com a minha boca: e no meio de muitos o louvarei.
31 Porque se pôs à direita do pobre, para salvar a minha alma dos perseguidores.
Salmo 109 em linguagem de hoje: o sentido versículo a versículo
Para quem busca o Salmo 109 em linguagem de hoje, mais simples, eis o fio do salmo dito em português corrente, sem perder a fidelidade ao texto de Figueiredo:
- vv. 2-5 — "Senhor, não te cales: mentem contra mim, cercam-me com ódio, atacam-me sem motivo. Paguei o amor deles com amor; eles pagaram o meu com calúnia. E eu, em resposta, só rezava."
- vv. 6-15 — a longa série de imprecações: que o traidor seja julgado e condenado, que a sua injustiça caia sobre ele e sobre o que construiu. Não é desejo de vingança, mas o anúncio do fim a que leva a maldade obstinada (ver a explicação abaixo).
- vv. 16-20 — "Tudo isto porque ele não teve misericórdia: perseguiu o pobre e o quebrantado. Amou a maldição; pois que a maldição o alcance."
- vv. 21-29 — a virada: "Mas tu, Senhor, defende-me por amor do teu Nome. Sou pobre e ferido, minha força se esvai. Ajuda-me, salva-me, para que vejam que foi a tua mão. Que me amaldiçoem; tu me abençoarás."
- vv. 30-31 — o fim em louvor: "Darei graças ao Senhor em voz alta, no meio de muitos, porque ele se pôs ao lado do pobre para salvá-lo."
O salmo, lido assim, tem um movimento claro: da queixa, passa pelas imprecações, e desemboca na confiança e no louvor. É sempre nesse último ponto que a oração cristã deve repousar.
Salmo 109, 9-14: o que dizem os versículos mais duros
Os versículos 9 a 14 são os que mais inquietam o leitor: falam de filhos órfãos, de viúva, de nome apagado, da iniquidade dos pais. Lidos isoladamente, parecem uma maldição contra uma família inteira.
A tradição católica oferece a chave: são profecia, não desejo, e descrevem a ruína a que conduz a traição obstinada. A Igreja primitiva aplicou justamente este bloco a Judas Iscariotes — aquele que, tendo recebido o lugar de apóstolo, o perdeu por inteiro, "em uma só geração" (v. 13). Não rezamos estes versículos para pedir desgraça a ninguém; rezamo-los reconhecendo, com temor, que rejeitar a misericórdia (v. 16: "porquanto se não lembrou de usar de misericórdia") tem consequências reais. A leitura sadia destes versículos é um exame de consciência: peço a Deus não ser eu mesmo o traidor, e rogo a conversão de quem persiste no mal.
Salmo 109, 8 e 17: os versículos mais citados
Versículo 8 — "Sejam abreviados os seus dias: e receba outro o seu bispado" (Fiant dies ejus pauci, et episcopatum ejus accipiat alter). É o versículo decisivo do salmo, porque São Pedro o cita nos Atos dos Apóstolos (At 1, 20) para fundamentar a eleição de São Matias no lugar de Judas. Por isso a forma "salmo 109:8" é tão procurada: é a ponte explícita entre o salmo e a Paixão de Cristo.
Versículo 17 — "E perseguiu ao homem sem amparo, e ao mendigo, e ao quebrantado de coração para o entregar à morte." Aqui o salmo revela o pecado de fundo do perseguidor: a crueldade contra o fraco. É a explicação moral de todas as imprecações anteriores — não há castigo anunciado sem que antes se mostre a culpa que o causou.
O texto em latim (Vulgata)
A oração que a Igreja latina rezou ao longo dos séculos começa assim:
Deus, laudem meam ne tacueris, quia os peccatoris et os dolosi super me apertum est.
Locuti sunt adversum me lingua dolosa, et sermonibus odii circumdederunt me: et expugnaverunt me gratis.
Pro eo ut me diligerent, detrahebant mihi; ego autem orabam. (vv. 2-4)
E o versículo decisivo, que a tradição lê como profecia, no versículo 8:
Fiant dies ejus pauci, et episcopatum ejus accipiat alter.
"Sejam abreviados os seus dias: e receba outro o seu bispado."
Significado do Salmo 109 na tradição católica
À primeira vista, o Salmo 109 assusta. Está cheio de imprecações duríssimas contra um inimigo. Por isso é classificado entre os salmos imprecatórios. Como pode um cristão rezar pedidos tão severos?
A resposta da tradição é clara e tem três chaves.
Primeira chave: é a voz do justo perseguido, não do vingativo. O salmista não toma a justiça nas próprias mãos. Pelo contrário: "em vez de amar-me, diziam mal de mim — mas eu orava" (v. 4). Ele entrega tudo a Deus e roga: "toma à tua conta a minha defesa" (v. 21). É um ato de fé na justiça divina por parte de quem foi vencido pela calúnia e não tem outra arma senão a oração.
Segunda chave: as imprecações são profecia, não desejo. Os Padres ensinam que muitos verbos do salmo, no original, têm força de anúncio: "isto lhe acontecerá", e não simplesmente "que isto lhe aconteça". O justo não inventa o castigo do ímpio; ele constata, sob a luz de Deus, aonde leva o caminho da traição obstinada.
Terceira chave: o salmo aponta para Cristo e para Judas. Esta é a leitura mais antiga e mais importante. O versículo 8 — "receba outro o seu bispado" — é citado por São Pedro no livro dos Atos dos Apóstolos (At 1, 20), precisamente quando a Igreja escolhe São Matias para ocupar o lugar deixado vago por Judas, o traidor. Toda a comunidade primitiva, portanto, leu este salmo como descrição do amigo que vende o Mestre por dinheiro. Na carne do salmista perseguido, a Igreja reconheceu a Paixão de Cristo, traído com um beijo, devolvendo amor por ódio, calando-se diante dos acusadores e entregando a causa ao Pai.
É por isso que a tradição empregou o Salmo 108 em contextos muito concretos: contra os que usurpavam os bens da Igreja e na deposição de pastores indignos. Não era um instrumento de ódio pessoal, mas a oração da Igreja ferida pela traição dos seus.
Como rezar o Salmo 109
Rezamos este salmo de modo cristão sempre que:
- somos caluniados ou traídos e queremos resistir à tentação da vingança, colocando a causa nas mãos de Deus;
- pedimos a conversão dos que perseguem a Igreja, lembrando que o próprio salmo termina em louvor e confiança (vv. 30-31);
- contemplamos a Paixão do Senhor, sobretudo na Semana Santa, unindo o nosso sofrimento ao d'Ele.
Um modo simples e seguro de rezá-lo: leia o salmo inteiro devagar; em cada imprecação, não deseje o mal a ninguém, mas peça que a injustiça seja desfeita e que o pecador se converta. Termine sempre nos últimos versículos, que são pura confiança: "Glorificarei altamente ao Senhor com a minha boca... porque se pôs à direita do pobre."
Para a vida de oração diária, vale conhecer também a estrutura do Saltério na liturgia tradicional e a oração do Ofício Divino, onde os salmos são rezados em seu lugar próprio.
Oração do Salmo 109 contra a calúnia e a traição
Para quem busca uma oração do Salmo 109 breve, eis uma forma cristã e segura, tirada dos próprios versículos finais, para rezar diante da calúnia ou da traição:
Senhor, Senhor, toma à tua conta a minha defesa por amor do teu Nome,
porque suave é a tua misericórdia: livra-me.
Sou necessitado e pobre, e o meu coração está turbado dentro de mim.
Que me amaldiçoem, e tu me abençoarás.
Não guardo ódio a ninguém; entrego-te a minha causa e rogo a conversão dos que me ferem.
Glorificarei altamente ao Senhor com a minha boca,
porque se pôs à direita do pobre, para salvar a minha alma dos perseguidores. Amém.
(Versículos 21-22, 28 e 30-31, na tradução de Figueiredo.) Note que toda a oração termina em louvor e confiança, nunca em maldição.
Salmo 109 para inimigos: como rezar sem pecar
Muita gente procura o Salmo 109 "para inimigos". É preciso dizer com clareza: o cristão não reza nenhum salmo para causar mal a quem quer que seja. Pedir a desgraça de outra pessoa, ou usar o salmo como "feitiço" ou superstição, é contrário à fé. Quem foi traído ou caluniado reza o Salmo 109 para três fins legítimos: entregar a Deus a sua causa em vez de se vingar (v. 21); pedir proteção contra a injustiça; e rogar a conversão do perseguidor — porque o salmo termina querendo que o ímpio se confunda, isto é, reconheça o seu erro, e não que pereça. Esta é a única leitura católica possível.
Salmo 109 para imprimir e a versão de Cid Moreira
O texto completo deste artigo, em português (Figueiredo) e em latim, pode ser copiado e impresso livremente para uso de oração — basta selecionar os versículos acima. No aplicativo Iter Fidei o salmo está disponível com áudio para acompanhar a leitura.
Quanto à conhecida leitura narrada por Cid Moreira, ela popularizou os salmos no Brasil e ajuda quem prefere ouvir a rezar; convém apenas saber que se trata, em geral, de uma tradução moderna em linguagem corrente, não da tradução de Figueiredo a partir da Vulgata que adotamos aqui. Para a oração tradicional e litúrgica, recomendamos o texto fiel à Vulgata apresentado neste artigo.
Perguntas Frequentes
Salmo 109 e Salmo 108 são o mesmo salmo?
Sim. É o mesmo salmo com dois números. O Salmo 109 segue a numeração hebraica, usada nas Bíblias modernas; o Salmo 108 segue a numeração grega dos Setenta e da Vulgata latina, usada na liturgia tradicional e na Bíblia de Figueiredo. O texto é idêntico.
O Salmo 109 é um salmo de maldição?
É classificado entre os salmos imprecatórios, porque contém pedidos severos contra um inimigo. Mas a tradição católica não o lê como vingança pessoal: é o grito do justo perseguido que entrega a sua causa a Deus, e ao mesmo tempo uma profecia sobre o destino do traidor obstinado, lida pela Igreja à luz de Cristo e de Judas.
Para que serve o Salmo 109?
Na tradição católica, o Salmo 109 (108 na Vulgata) serve para entregar a Deus a causa de quem foi traído, caluniado ou perseguido injustamente, resistindo à tentação da vingança. Serve também para contemplar a Paixão de Cristo — traído por Judas — e para pedir a conversão dos que perseguem a Igreja. Não é uma fórmula para "amaldiçoar inimigos", mas a oração do justo que confia a sua defesa ao Senhor: "toma à tua conta a minha defesa" (v. 21).
Posso rezar o Salmo 109 contra meus inimigos?
Não para desejar mal a alguém. O cristão reza este salmo para pedir a Deus justiça e proteção contra a calúnia, e para rogar a conversão dos perseguidores. A vingança não cabe a nós: "toma à tua conta a minha defesa", diz o próprio salmo (v. 21). Termine sempre nos versículos de louvor e confiança.
Qual a relação do Salmo 109 com Judas Iscariotes?
O versículo 8 — "receba outro o seu bispado" — é citado por São Pedro nos Atos dos Apóstolos (At 1, 20) quando a Igreja elege São Matias para ocupar o lugar de Judas. Desde a era apostólica, portanto, este salmo é entendido como retrato do amigo que trai o Mestre, e assim como profecia da Paixão de Cristo.
O que significa o Salmo 109, 8?
"Sejam abreviados os seus dias: e receba outro o seu bispado" (v. 8). É o versículo mais citado do salmo, porque São Pedro o aplica nos Atos dos Apóstolos (At 1, 20) à eleição de São Matias no lugar de Judas. Significa que o ofício abandonado pelo traidor passa a outro: é a chave que liga o Salmo 109 (108 na Vulgata) à traição de Judas e à Paixão de Cristo.
O que dizem os versículos 9 a 14 do Salmo 109?
São os versículos mais duros, falando de filhos órfãos, viúva e nome apagado. A tradição católica os lê como profecia da ruína a que conduz a traição obstinada — a Igreja primitiva os aplicou a Judas —, e não como maldição contra uma família. Não pedimos desgraça a ninguém ao rezá-los; reconhecemos que rejeitar a misericórdia tem consequências e rogamos a conversão do pecador.
Existe o Salmo 109 em linguagem de hoje?
Sim, há traduções em português corrente. Neste artigo demos o texto na tradução tradicional do Pe. Figueiredo (fiel à Vulgata) e, para facilitar, um resumo do sentido versículo a versículo em linguagem simples. Para a oração litúrgica e tradicional, preferimos sempre o texto fiel à Vulgata.
Em que tradução está o texto deste artigo?
Na tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, feita a partir da Vulgata latina e tradicional na língua portuguesa. Demos também o texto latino da Vulgata Clementina, tal como a Igreja o rezou por séculos.
O aplicativo Iter Fidei traz a Bíblia de Figueiredo, os salmos, as orações e novenas, em latim e português, com áudio. Baixe aqui.
Fontes. Texto português: Bíblia Sagrada, tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (a partir da Vulgata). Texto latino: Vulgata Clementina, Salmo 108. Comentário tradicional: Haydock's Catholic Bible Commentary, Salmo 108; aplicação do versículo 8 a Judas e São Matias em Atos dos Apóstolos 1, 20.