Doutrina
Oração de Caritas: por que não é católica
A Oração de Caritas, atribuída a 'Caritas de Bordéus', tem origem espírita (kardecista), não católica. Explicamos honestamente de onde ela vem e oferecemos a verdadeira oração da caridade segundo a tradição da Igreja.

Talvez você tenha encontrado a oração de caritas — "Deus, nosso Pai, que sois todo poder e bondade, dai força àquele que passa pela provação..." — num grupo de oração, num cartão, ou compartilhada por alguém de boa vontade. É um texto suave, comovente, que fala em consolo e caridade. E justamente por isso é preciso dizer, com franqueza e sem desprezo por ninguém: a Oração de Caritas não é uma oração católica. Sua origem é espírita. Vamos explicar de onde ela vem, por que isso importa, e dar a você a verdadeira oração da caridade, aquela que a Igreja sempre rezou.
De onde vem a Oração de Caritas
A Oração de Caritas foi recebida em 1873, na cidade de Bordéus, na França, por um grupo de seguidores de Allan Kardec, o codificador do Espiritismo. Segundo o próprio relato do movimento espírita, o texto teria sido "ditado" por um espírito que se apresentava com o nome de Caritas — daí o nome da oração. Ela foi depois recolhida na Coleção de Orações Espíritas e é, até hoje, uma das orações mais conhecidas e usadas nos centros kardecistas do Brasil e do mundo.
Não há aqui nenhuma fonte cristã antiga, nenhum santo, nenhum Padre da Igreja, nenhum manuscrito tradicional que a sustente. Ela nasce, datada e localizada, dentro de uma doutrina que a Igreja Católica condenou. Nós, que bebemos sempre das fontes tradicionais, temos por princípio dizer a verdade sobre a procedência de cada texto — como já fizemos, por exemplo, ao mostrar que a célebre "Oração da Paz" não é de São Francisco de Assis. A verdade edifica, mesmo quando contraria um costume.
Oração de Caritas ou "prece de Caritas"? É a mesma coisa
Muitas pessoas procuram pela prece de Caritas, outras pela oração de Caritas, e há ainda quem busque no plural — orações de Caritas, orações Caritas. Trata-se sempre do mesmo texto. "Prece" e "oração" são sinônimos; "prece de Caritas" é simplesmente a forma como o meio espírita costuma chamá-la, ao passo que "oração de Caritas" é a expressão mais comum no falar católico de quem a encontrou sem conhecer-lhe a origem. Não existe uma "versão católica" oficial dela com outro nome: o texto é um só, e a sua procedência é a que descrevemos acima. Por isso, quando alguém pergunta se a "prece de Caritas" é diferente da "oração de Caritas", a resposta é não — e a recomendação é a mesma para ambas.
Quem foi "Caritas"?
Esta é talvez a pergunta mais importante, e a resposta surpreende muitos. "Caritas" não foi uma pessoa, nem uma santa, nem uma figura histórica da Igreja. É o nome que um suposto espírito teria usado ao "ditar" a oração ao grupo de Bordéus, em 1873. Na literatura espírita, "Caritas" aparece como uma entidade que se manifestava por médiuns daquele círculo — não há nenhum registro de uma santa, mártir ou personagem cristã com esse nome ligada a este texto.
A palavra, em si, é latina e significa caridade (voltaremos a isso adiante). Por isso convém desfazer um equívoco comum: não houve nenhuma "Santa Caritas" autora da oração. Existiu, sim, na tradição cristã antiga, o grupo de mártires romanas Fé, Esperança e Caridade (em latim, Fides, Spes e Caritas), filhas de Santa Sofia — mas elas nada têm a ver com este texto de 1873, e seria um anacronismo atribuir-lhes a oração. Quem foi "Caritas", portanto, é uma entidade do espiritismo, não uma figura do santoral católico.
A oração de Caritas escrita, completa — e por que a damos aqui
Quem busca a oração de Caritas escrita ou a oração de Caritas completa em geral quer apenas ler o texto inteiro para saber do que se trata. Reproduzimo-lo aqui, na íntegra, não para que seja rezado, mas para que seja reconhecido — pois conhecer um texto é o primeiro passo para discerni-lo:
"Deus, nosso Pai, que sois todo poder e bondade, dai força àquele que passa pela provação, dai luz àquele que procura a verdade, ponde no coração do homem a compaixão e a caridade. Deus, dai ao viajante a estrela-guia, ao aflito a consolação, ao doente o repouso. Pai, dai ao culpado o arrependimento, ao Espírito a verdade, à criança o guia, ao órfão o pai. Senhor, que a vossa bondade se estenda sobre tudo o que criastes. Piedade, Senhor, para aqueles que vos não conhecem, esperança para aqueles que sofrem. Que a vossa bondade permita aos Espíritos consoladores derramarem por toda parte a paz, a esperança e a fé. Deus, um raio, uma faísca do vosso amor pode abrasar a terra; deixai-nos beber nas fontes dessa bondade fecunda e infinita, e todas as lágrimas secarão, todas as dores se acalmarão. Um só coração, um só pensamento subirá até vós, como um grito de reconhecimento e de amor. Como Moisés sobre a montanha, nós vos esperamos com os braços abertos, ó poder, ó bondade, ó beleza, ó perfeição, e queremos de alguma sorte merecer a vossa misericórdia. Deus, dai-nos a força de ajudar o progresso a fim de subirmos até vós; dai-nos a caridade pura, dai-nos a fé e a razão; dai-nos a simplicidade que fará de nossas almas o espelho onde se refletirá a vossa imagem."
Note-se um traço revelador no próprio texto: o pedido para que "os Espíritos consoladores" derramem a paz, e a menção à ideia de "progresso" das almas — expressões caras à doutrina kardecista (a comunicação com espíritos e a reencarnação como caminho de "progresso"), e estranhas à fé católica. O texto traz, nas suas próprias palavras, a marca da escola de onde nasceu. É bom, é doce na superfície — e justamente por isso pedimos atenção ao que ele supõe.
Por que a Igreja não aprova o Espiritismo
O Espiritismo — a prática de comunicar-se com os mortos, de receber "mensagens" de espíritos por médiuns, de "psicografar" textos ditados pelo além — foi condenado pela Igreja muito antes de Kardec, e por uma razão que vem das próprias Escrituras. Já na Lei antiga, Deus advertia o seu povo contra os que consultam os mortos. A Igreja, fiel a essa palavra, sempre ensinou que não devemos buscar revelações fora daquilo que Deus nos deu por Cristo e pela sua Igreja.
O ponto não é a beleza literária do texto. Uma oração pode soar piedosa e, ainda assim, vir de uma fonte que afasta a alma da fé. O Espiritismo nega ou desfigura verdades centrais da fé católica — a divindade de Cristo, a redenção pela Cruz, a existência do inferno e do purgatório tal como a Igreja os ensina, a unicidade da vida terrena. Por isso o Santo Ofício, em decreto reafirmado nas décadas anteriores ao Concílio, declarou ilícito assistir a sessões espíritas, ainda que com a intenção de apenas "observar". O que está em jogo não é uma palavra, mas a porta espiritual que se abre quando se reza com a doutrina de um movimento que a Igreja reprovou.
Rezar a Oração de Caritas, portanto, não é "rezar errado" no sentido de uma falha de gramática. É tomar como própria uma oração que pertence a outra religião e que carrega, no seu nascimento, uma visão do mundo invisível que não é a da fé católica. Quem a reza de boa-fé, sem saber, não comete pecado deliberado — mas, sabendo, deve preferir as fontes da própria Igreja.
A "oração de Caritas da missa de hoje": um mal-entendido
Há quem procure pela oração de Caritas "da missa de hoje", como se o texto fizesse parte da liturgia católica. Não faz, e nunca fez. A Oração de Caritas jamais constou de nenhum missal, de nenhum leccionário, de nenhuma coleta da Santa Missa. A confusão costuma nascer de listas de "orações do dia" compartilhadas em redes sociais, que misturam textos de origens variadas sem distinguir o que é católico do que não é.
A Missa tem, sim, uma oração própria de cada dia — a Collecta, a oração coletiva que o sacerdote canta antes da Epístola, fixada no Missal segundo o calendário. Essa, sim, é a "oração do dia" da Igreja, e dela tratamos ao apresentar a missa tridentina. Se o seu desejo é rezar com a Igreja "a oração de hoje", procure a coleta do dia no Missal, não um texto espírita de 1873.
"Prece de Caritas e Salmo 91": separe o que é da Igreja do que não é
Circula muito, sobretudo em imagens devocionais, a associação da prece de Caritas com o Salmo 91. Convém distinguir com clareza as duas coisas, porque elas não têm a mesma procedência.
O Salmo 91 (na numeração da Vulgata, o Salmo 90, "Qui habitat in adjutorio Altissimi" — "Aquele que habita à sombra do Altíssimo") é plenamente católico: é palavra de Deus, salmo inspirado, que a Igreja reza há milênios — em particular nas Completas, a oração da noite, como proteção contra os perigos das trevas. Rezá-lo é rezar com toda a Igreja.
A prece de Caritas, ao contrário, é o texto espírita de Bordéus. Que as duas apareçam juntas num mesmo cartão não as torna da mesma fonte. Nosso conselho é simples: fique com o Salmo 91, que é da Igreja, e dispense a prece de Caritas, que não é. O Salmo 91 sozinho já é uma das mais belas orações de confiança e proteção que existem:
"Aquele que habita debaixo do auxílio do Altíssimo, descansará à sombra do Deus do céu. (...) Porque aos seus Anjos mandou a teu respeito que te guardem em todos os teus caminhos." (Salmo 90, 1.11 — Figueiredo)
Encontra-o, com outros, entre os nossos salmos de proteção e salmos de cura.
"Oração de Caritas de Emmanuel" e a "oração de Bezerra de Menezes"
Duas atribuições aparecem com frequência ligadas a este texto, e ambas confirmam — em vez de desmentir — a sua origem espírita.
A "oração de Caritas de Emmanuel" refere-se a "Emmanuel", o suposto espírito apresentado como guia do médium Francisco Cândido Xavier (Chico Xavier). "Emmanuel" é, no espiritismo brasileiro, uma das entidades mais conhecidas, à qual se atribuem inúmeras "psicografias". Ligar a oração a "Emmanuel" é, portanto, situá-la de cheio dentro do universo kardecista — não do católico. (Note-se de passagem: Emmanuel, "Deus conosco", é também um título de Cristo nas Escrituras, e nisso nada tem a ver com a entidade espírita de mesmo nome.)
A "oração a Bezerra de Menezes" invoca Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti (1831–1900), médico e político brasileiro tido pelos espíritas como uma de suas grandes figuras, por vezes chamado o "Kardec brasileiro". Não é um santo da Igreja, nem causa de canonização foi aberta a seu respeito. As orações a ele dirigidas são devoções espíritas, não católicas.
Em ambos os casos vale o mesmo princípio que percorre todo este artigo: o católico não invoca espíritos nem entidades, mas dirige-se a Deus, à Santíssima Virgem e aos santos canonizados pela Igreja. Se o que se busca é um intercessor para os doentes, a Igreja oferece, por exemplo, São Camilo de Léllis e São João de Deus, padroeiros dos enfermos — santos reconhecidos, e não médiuns.
O que é a verdadeira caridade
O nome "Caritas" é, ele mesmo, uma palavra católica preciosa: em latim, caritas é a caridade, a maior das três virtudes teologais. E aqui está a ironia consoladora: a Igreja tem, sobre a caridade, palavras infinitamente mais altas do que qualquer mensagem "ditada" em Bordéus. São Paulo, escrevendo aos Coríntios, deixou o hino que atravessou os séculos:
"Se eu falar as línguas dos homens, e dos Anjos, e não tiver caridade, sou como o metal que soa, ou como o sino que tine. (...) A caridade é paciente, é benigna, a caridade não é invejosa, não obra temerária, nem precipitadamente, não se ensoberbece." (1 Coríntios 13, 1.4 — Figueiredo)
E conclui com a sentença que resume toda a vida cristã:
"Agora pois permanecem a Fé, a Esperança, a Caridade, estas três virtudes; porém, a maior delas é a Caridade." (1 Coríntios 13, 13 — Figueiredo)
A caridade não é um sentimento vago de bondade universal. São João nos ensina o seu fundamento: "Aquele que não ama, não conhece a Deus: Porque Deus é caridade" (1 João 4, 8 — Figueiredo). E mais: "Portanto, amemos nós a Deus, porque Deus nos amou primeiro" (1 João 4, 19 — Figueiredo). A caridade cristã brota de Deus, volta-se para Deus, e por amor d'Ele se derrama sobre o próximo — não como uma energia impessoal, mas como participação no próprio amor com que o Pai nos amou em Cristo.
A alternativa católica: orações de caridade
Se o que tocou o seu coração na Oração de Caritas foi o desejo de pedir força para os que sofrem e de crescer na caridade, a Igreja tem para você orações verdadeiramente cristãs, nascidas dos santos.
A mais célebre é a oração diante do crucifixo de São Damião, de São Francisco, que pede precisamente as três virtudes teologais:
Summe et gloriose Deus, (Altíssimo e glorioso Deus,)
illumina tenebras cordis mei. (iluminai as trevas do meu coração.)
Et da mihi fidem rectam, (E dai-me fé reta,)
spem certam et caritatem perfectam. (esperança certa e caridade perfeita.)
Você pode também rezar, pelos que passam por provação, um Pai-Nosso e uma Ave-Maria com a intenção de obter-lhes consolo, ou recorrer aos Salmos de cura, que a Igreja reza há milênios pelos aflitos. E quando quiser agradecer ou pedir crescimento na vida da graça, sirva-se das nossas orações de agradecimento e do tesouro das orações católicas que reunimos das fontes tradicionais.
Eis um modelo simples, todo católico, para pedir a caridade e a força nas provações:
Ó Deus, Pai de toda misericórdia, fonte de toda caridade, dai força aos que passam pela provação e consolo aos que choram. Acendei em nosso coração a vossa caridade, para que, amando-vos sobre tôdas as coisas e ao próximo por amor de vós, mereçamos um dia possuir-vos no Céu. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.
Perguntas Frequentes
A Oração de Caritas é católica?
Não. A Oração de Caritas tem origem espírita: foi recebida em 1873, em Bordéus, por seguidores de Allan Kardec, atribuída a um espírito chamado "Caritas". Não tem nenhuma fonte cristã anterior e pertence à doutrina espírita, que a Igreja Católica reprova.
Posso rezar a Oração de Caritas se for católico?
A Igreja desaconselha. Mesmo que o texto pareça piedoso, ele provém de um movimento que nega verdades da fé católica. Quem o rezou sem saber, de boa-fé, não pecou deliberadamente; mas, conhecendo a origem, é preferível usar as orações da própria tradição da Igreja.
Por que a Igreja condena o Espiritismo?
Porque o Espiritismo busca comunicação com os mortos e revelações "ditadas" por espíritos, prática que as Escrituras proíbem, e porque sua doutrina desfigura verdades centrais — a divindade de Cristo, a redenção pela Cruz, o juízo e os Novíssimos. O Santo Ofício declarou ilícito participar de sessões espíritas.
Qual é a oração católica que substitui a de Caritas?
Para pedir caridade e força nas provações, reze a oração de São Francisco diante do crucifixo de São Damião, um Pai-Nosso e uma Ave-Maria pelos que sofrem, os Salmos de cura, ou a oração-modelo dada acima. Todas brotam da própria fé da Igreja.
O que significa a palavra "Caritas"?
Caritas é a palavra latina para caridade, a maior das três virtudes teologais (fé, esperança e caridade), segundo 1 Coríntios 13, 13. O nome é católico; o que não é católico é a oração que o tomou emprestado em 1873.
Quem foi Caritas?
"Caritas" não foi uma santa nem uma pessoa histórica. É o nome atribuído a um suposto espírito que teria "ditado" a oração ao grupo espírita de Bordéus, em 1873. Não há nenhuma figura do santoral católico chamada Caritas ligada a este texto. A palavra significa apenas "caridade" em latim.
"Prece de Caritas" e "oração de Caritas" são diferentes?
Não. São dois nomes para o mesmo texto. "Prece" e "oração" são sinônimos; "prece de Caritas" é a forma mais usada no meio espírita, e "oração de Caritas" a mais comum entre católicos que a encontraram sem conhecer a origem. A recomendação é a mesma para ambas.
A oração de Caritas faz parte da missa?
Não. A Oração de Caritas nunca constou de nenhum missal nem das orações da Santa Missa. A verdadeira "oração do dia" da Igreja é a Collecta, a coleta própria de cada data no calendário litúrgico, e não este texto espírita.
Posso rezar a prece de Caritas junto com o Salmo 91?
O Salmo 91 (Salmo 90 na Vulgata) é plenamente católico — palavra de Deus, rezada nas Completas há séculos. A prece de Caritas é de origem espírita. Aparecerem juntas num cartão não as iguala: fique com o Salmo 91 e dispense a prece de Caritas.
O que é a "oração de Caritas de Emmanuel" ou a "oração a Bezerra de Menezes"?
São atribuições do meio espírita. "Emmanuel" é o suposto espírito-guia de Chico Xavier; Bezerra de Menezes (1831–1900) foi um médico tido pelos espíritas como uma de suas figuras maiores. Nenhum é santo da Igreja. O católico não invoca espíritos nem entidades, mas Deus, a Virgem e os santos canonizados.
O aplicativo Iter Fidei traz as orações, os salmos e as novenas, em latim e português, com áudio. Baixe aqui.
Fontes. Bíblia Sagrada, tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (1 Coríntios 13; 1 João 4; Salmo 90/91); orações de São Francisco de Assis segundo as fontes franciscanas; decretos tradicionais do Santo Ofício sobre o Espiritismo; Salmo 90 (Vulgata) no ofício de Completas segundo o Breviário Romano. Sobre a origem da Oração de Caritas e as atribuições a "Emmanuel" e a Bezerra de Menezes, a própria literatura espírita (Coleção de Orações Espíritas, Bordéus, 1873).