Orações
Oração de São Jerônimo, Tradutor da Vulgata
A oração tradicional de São Jerônimo, Padre e Doutor da Igreja que verteu toda a Bíblia para o latim — a Vulgata, fonte da nossa Bíblia de Figueiredo. O texto da oração, o amor do santo à Escritura e a sua vida no deserto de Belém.

A oração de são jerônimo que damos abaixo nasce de uma vida inteira debruçada sobre a Palavra de Deus. Nenhum santo serviu tanto à Sagrada Escritura quanto este monge irascível e genial que, numa gruta de Belém, verteu toda a Bíblia para o latim — a Vulgata, o texto que a Igreja leu, cantou e amou por mil e quinhentos anos, e do qual descende, em linha direta, a nossa Bíblia de Figueiredo. Quando você abre a Figueiredo, está bebendo de uma fonte que São Jerônimo cavou. Por isso vale rezar com ele, e rezar para que Deus nos dê o seu amor à Escritura.
A oração de São Jerônimo
A oração tradicional mais ligada ao santo é um pedido de luz para compreender e amar a Palavra de Deus — porque foi essa a paixão de toda a sua vida:
Ó glorioso São Jerônimo, doutor admirável da Igreja, que pela penitência e pelo estudo das Sagradas Letras merecestes de Deus penetrar os tesouros escondidos da sua Palavra: alcançai-nos, vos rogamos, o amor ardente que tivestes pela Sagrada Escritura, para que nela busquemos, não a vã ciência, mas o conhecimento de Jesus Cristo crucificado. Obtende-nos a graça da verdadeira penitência, o desprezo do mundo e o desejo das coisas do Céu; e, assim como vós passastes a vida a meditar a lei do Senhor, dai-nos meditá-la dia e noite, para que, instruídos na justiça, sejamos achados perfeitos e preparados para toda a boa obra. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.
E esta jaculatória breve, para guardar de cor e repetir antes de abrir a Bíblia:
São Jerônimo, amante da Palavra de Deus, ensinai-nos a amá-la convosco. Ora pro nobis.
Reze esta oração antes da leitura espiritual da Bíblia, sobretudo se você usa a Figueiredo. Peça com ela aquilo que Jerônimo pedia para si: não erudição que incha, mas o conhecimento amoroso de Cristo, que está escondido em cada página das Escrituras.
Oração antes de ler a Bíblia
Como o próprio Jerônimo ensina, abrir a Escritura sem oração é entrar na casa de Deus pela porta dos fundos. Antes de cada leitura, sobretudo na lectio divina, faça primeiro o sinal da cruz e reze esta breve invocação ao Espírito Santo, que é quem inspirou os Livros Sagrados:
Vinde, Espírito Santo, e iluminai a minha inteligência, para que eu entenda; e inflamai o meu coração, para que eu ame a vossa Palavra. Falai, Senhor, que o vosso servo escuta. Por intercessão de São Jerônimo, doutor das Escrituras, fazei que eu encontre nelas, não vãos saberes, mas o vosso Filho Jesus Cristo. Amém.
A última frase — "Falai, Senhor, que o vosso servo escuta" — é a resposta do jovem Samuel (I Reis 3, 9-10, na Figueiredo) e dá o tom certo para toda leitura: a Bíblia não é um texto que examinamos de fora, mas uma voz a que obedecemos.
"Ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo"
A frase mais célebre de São Jerônimo resume tudo o que ele foi. No seu comentário ao profeta Isaías, ele escreveu: "A ignorância das Escrituras é a ignorância de Cristo" (em latim, Ignoratio Scripturarum, ignoratio Christi est).
Não é um exagero de monge entusiasmado. É a tradução exata do que o próprio Senhor disse aos que se diziam conhecedores da Lei:
Examinai as Escrituras, pois julgais ter nelas a vida eterna: E elas mesmas são as que dão testemunho de mim. (João 5, 39)
Para Jerônimo, ler a Bíblia não era um exercício de curiosidade nem um passatempo piedoso: era encontrar Cristo, que está oculto em todo o Antigo Testamento e revelado em todo o Novo. Quem não conhece as Escrituras não conhece a Cristo. Por isso ele consagrou a saúde, os olhos e os últimos trinta e cinco anos de sua vida a torná-las acessíveis ao povo cristão de língua latina.
Este é também o coração da fé católica diante da Palavra. Nós cremos, com São Paulo — que Jerônimo traduziu —, que
Toda a Escritura divinamente inspirada, é útil para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, estando preparado para toda a boa obra. (II Timóteo 3, 16-17)
Repare bem nestas palavras, porque elas desfazem um mal-entendido comum. Muitos irmãos evangélicos citam este versículo para defender que a Bíblia basta sozinha, sem a Igreja. Mas o texto não diz isso. São Paulo escreve que a Escritura é "útil" — não diz "suficiente sozinha" — e a escreve a Timóteo, um bispo que ele mesmo ordenou e a quem confia a guarda do que recebeu (II Timóteo 3, 14). A mesma Escritura que louvamos foi entregue, traduzida e guardada pela Igreja. Sem a Igreja, não saberíamos sequer quais livros são a Bíblia, nem teríamos a Vulgata de Jerônimo. A Palavra de Deus e a Igreja de Deus não se opõem: a segunda é a mãe que nos põe a primeira nas mãos. Quem ama de verdade a Escritura — como Jerônimo amou — ama também a Igreja que a transmitiu.
A Vulgata: a fonte da nossa Bíblia de Figueiredo
Eis o grande feito da vida de São Jerônimo. No século IV, os cristãos de língua latina liam a Bíblia em traduções antigas, dispersas e cheias de erros, feitas a partir do grego — as chamadas versões "Vetus Latina". O Papa São Dâmaso percebeu o problema e, por volta de 382, encarregou Jerônimo, o homem mais sábio do seu tempo em línguas, de pôr ordem nisto.
Jerônimo começou revendo os Evangelhos. Mas, com a humildade dos verdadeiros sábios, percebeu que para o Antigo Testamento não bastava corrigir traduções: era preciso voltar ao original hebraico. Aprendeu o hebraico já adulto, com mestres judeus, e retirou-se para Belém, junto à gruta da Natividade, onde por mais de duas décadas traduziu, livro por livro, quase toda a Sagrada Escritura diretamente das línguas originais.
O resultado foi a Vulgata — do latim vulgata editio, "a edição difundida", isto é, a Bíblia do povo, em latim corrente e fiel. A Igreja a adotou pouco a pouco, e o Concílio de Trento, em 1546, declarou-a a versão autêntica para uso oficial. Por mais de mil anos, toda a piedade do Ocidente — a Missa, o Breviário, os santos, os doutores — bebeu da Vulgata de Jerônimo.
E aqui está o que isso tem a ver com você. A nossa Bíblia de Figueiredo, a mais venerável tradução católica em português, feita pelo Padre Antônio Pereira de Figueiredo no século XVIII, foi traduzida a partir da Vulgata de São Jerônimo. Quando você lê a Figueiredo, lê em português aquilo que Jerônimo verteu para o latim daquela gruta de Belém. É a mesma água, vinda da mesma nascente. Por isso, todo leitor da Figueiredo deveria conhecer e amar o santo a quem a deve.
Quem foi São Jerônimo
Eusébio Sofrônio Jerônimo nasceu em Estridão, na fronteira da Dalmácia (atual Croácia/Eslovênia), por volta de 347. Filho de pais cristãos abastados, foi enviado a Roma para estudar, onde se tornou um latinista exímio e apaixonado pelos autores clássicos — paixão da qual mais tarde se penitenciou. Batizado já jovem adulto, sentiu o chamado à vida ascética.
Viveu como eremita no deserto da Síria, em Cálcis, onde, para domar as paixões da carne, jejuava, chorava os pecados e — gesto célebre — pôs-se a estudar hebraico, "para não dar trégua aos maus pensamentos". É dessa época a imagem que a arte consagrou: o velho de barbas, meio nu na gruta, com o crânio, o livro aberto, e o leão a seus pés — segundo a lenda piedosa, um leão a quem ele teria tirado um espinho da pata e que se tornou seu companheiro fiel.
Ordenado sacerdote, foi por algum tempo secretário do Papa São Dâmaso em Roma. Língua afiada e temperamento de fogo, fez inimigos com sua franqueza ao denunciar a mundanidade do clero. Retirou-se enfim para Belém, onde fundou mosteiros, dirigiu espiritualmente um grupo de nobres romanas santas — como Santa Paula e Santa Eustáquio —, combateu as heresias de seu tempo e, sobretudo, traduziu a Bíblia. Morreu em Belém em 30 de setembro de 420, e seus restos hoje repousam em Roma, na Basílica de Santa Maria Maior, junto às relíquias da manjedoura.
A Igreja o conta entre os quatro grandes Doutores do Ocidente — ao lado de Santo Agostinho, Santo Ambrósio e São Gregório Magno — e o chama, com justiça, o Doutor Máximo na exposição das Sagradas Escrituras. Sua festa é em 30 de setembro.
São Jerônimo, padroeiro dos tradutores e estudiosos
Porque consagrou a vida a transpor a Palavra de Deus de uma língua para outra, com fidelidade ao original e amor ao texto, a Igreja deu a São Jerônimo como padroeiro dos tradutores, dos intérpretes, dos bibliotecários e de quantos estudam as Sagradas Escrituras. O dia 30 de setembro, sua festa, é celebrado no mundo inteiro como o Dia Internacional da Tradução, em sua honra.
É um padroado que toca muita gente: o tradutor que verte um texto, o professor que explica a Bíblia, o estudante de teologia, o bibliotecário que guarda os livros, mas também o simples fiel que se debruça sobre a Escritura e pede luz para entendê-la. A todos esses Jerônimo é intercessor próximo. Eis uma invocação curta para quem trabalha com a Palavra ou com livros:
São Jerônimo, tradutor fiel da Palavra de Deus, alcançai-me fidelidade ao que é verdadeiro, clareza no que escrevo e digo, e humildade diante do que não compreendo. Que todo o meu estudo me leve a Cristo, e não a mim mesmo. Amém.
A festa de São Jerônimo, 30 de setembro
São Jerônimo é celebrado em 30 de setembro, dia de sua morte em Belém, no ano de 420. No calendário tradicional da Igreja a data é guardada como festa de Doutor, com a cor litúrgica branca. É um bom dia para tomar a sério o seu exemplo: ler com mais cuidado a Bíblia, rezar a sua oração, e talvez começar o hábito da lectio divina.
Quem quiser preparar a festa pode rezar nos nove dias que a antecedem (de 21 a 29 de setembro) uma pequena novena, repetindo a cada dia a oração de São Jerônimo dada acima, acrescida de um Pai-Nosso, uma Ave-Maria e um Glória, e pedindo ao santo a graça concreta de amar e entender a Sagrada Escritura. Não é preciso fórmula complicada: o melhor preparo para a festa de Jerônimo é abrir a Bíblia todos os dias.
Como rezar com São Jerônimo
A melhor maneira de honrar São Jerônimo não é só recitar a sua oração, mas imitar o seu amor à Palavra. Tome o hábito da lectio divina: cada dia, leia um trecho da Bíblia — de preferência na Figueiredo — devagar, meditando, perguntando a cada versículo onde está Cristo aqui. Antes de começar, reze a oração acima; ao terminar, agradeça.
Guarde também, como lema, a sentença do santo: "Ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo." Que ela o convença de uma coisa simples e urgente — que a Bíblia não é um livro para a estante, e sim o pão de cada dia da alma. Como ensina o salmista, "Tocha resplandecente para os meus pés é a tua palavra, e luz para os meus caminhos" (Salmos 118, 105).
Para crescer nesse caminho, veja também a nossa oração de Santo Agostinho, companheiro de Jerônimo entre os Doutores do Ocidente, o artigo a Bíblia fala sobre e a nossa explicação de quem escreveu os Salmos, que Jerônimo tanto traduziu. Como em todo santo que velou pela pureza da fé contra os erros, a sua intercessão se aparenta à oração de São Cipriano, bispo e mártir; e, para os doentes e moribundos, à oração de São Peregrino e à caridade da oração de São Vicente de Paulo. Conheça ainda outros santos católicos e percorra a nossa coletânea de orações católicas.
Perguntas Frequentes
Quem foi São Jerônimo?
Foi um Padre e Doutor da Igreja, nascido em Estridão por volta de 347 e falecido em Belém em 420. Sábio em latim, grego e hebraico, traduziu quase toda a Bíblia para o latim — a Vulgata — a pedido do Papa São Dâmaso. A Igreja o chama o Doutor Máximo na exposição das Sagradas Escrituras, e o celebra em 30 de setembro.
O que é a Vulgata de São Jerônimo?
É a tradução latina completa da Bíblia feita por São Jerônimo a partir do hebraico e do grego originais, entre os séculos IV e V. Chama-se Vulgata ("a difundida") porque se tornou a Bíblia do povo cristão de língua latina. O Concílio de Trento (1546) declarou-a a versão autêntica da Igreja, e ela foi lida no Ocidente por mais de mil anos.
Qual é a relação da Vulgata com a Bíblia de Figueiredo?
Direta. A Bíblia de Figueiredo, traduzida pelo Padre Antônio Pereira de Figueiredo no século XVIII, é a clássica versão católica em português feita a partir da Vulgata de São Jerônimo. Ou seja, ao ler a Figueiredo, você lê em português o texto que Jerônimo verteu para o latim. É a mesma fonte.
Qual é a frase mais famosa de São Jerônimo?
É "A ignorância das Escrituras é a ignorância de Cristo" (em latim, Ignoratio Scripturarum, ignoratio Christi est), do seu comentário ao profeta Isaías. Significa que conhecer a Bíblia é conhecer o próprio Cristo, que ela testemunha — e quem não a conhece não conhece o Senhor.
São Jerônimo é o padroeiro de quê?
São Jerônimo é o padroeiro dos tradutores, dos bibliotecários e dos estudiosos da Sagrada Escritura — por ter sido o maior tradutor da Bíblia de toda a história da Igreja. Quem trabalha com livros, traduções ou estudos sagrados o tem por intercessor.
Quando é a festa de São Jerônimo?
A festa de São Jerônimo é em 30 de setembro, dia da sua morte em Belém, no ano de 420. No calendário tradicional é celebrada como festa de Doutor da Igreja, com a cor branca. A mesma data é hoje o Dia Internacional da Tradução, em sua honra.
Que oração rezar antes de ler a Bíblia?
Antes da leitura, faça o sinal da cruz e peça luz ao Espírito Santo, que inspirou as Escrituras — por exemplo: "Vinde, Espírito Santo, iluminai a minha inteligência e inflamai o meu coração; falai, Senhor, que o vosso servo escuta." Pode acrescentar a oração de São Jerônimo, que pede o seu amor ardente à Palavra de Deus. O essencial é ler buscando Cristo, e não vã erudição.
Por que São Jerônimo aparece com um leão?
É uma lenda piedosa medieval: conta-se que, no mosteiro de Belém, Jerônimo teria tirado um espinho da pata de um leão ferido, e que o animal, agradecido, se tornou seu companheiro manso. Por isso a arte cristã o representa com um leão a seus pés, junto ao crânio (sinal da penitência) e ao livro das Escrituras.
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Fontes. Oração tradicional a São Jerônimo (coletânea de orações católicas aos Doutores da Igreja). Sentença Ignoratio Scripturarum, ignoratio Christi est: São Jerônimo, Comentário a Isaías, Prólogo. Texto bíblico: Bíblia Sagrada, tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, a partir da Vulgata latina — João 5, 39; II Timóteo 3, 14-17; Salmos 118, 105. Sobre a Vulgata e a sua autenticidade: Concílio de Trento, Sessão IV (1546), Decreto sobre a edição e o uso dos Livros Sagrados. Vida de São Jerônimo: Acta Sanctorum; Breviário Romano, ofício de 30 de setembro; e os próprios prólogos e cartas do santo (sobretudo a Carta 22, a Eustáquio, e os prefácios à Vulgata).