A Fé
As Obras de Misericórdia: Corporais e Espirituais
As 14 obras de misericórdia na enumeração católica tradicional: as 7 obras de misericórdia corporais e as 7 espirituais, fundadas no Evangelho do Juízo Final (São Mateus xxv) na Bíblia de Figueiredo, com a explicação de cada uma.

Você procura as obras de misericórdia na sua forma autêntica, tal como a Igreja sempre as ensinou e as fez decorar no catecismo. São catorze ao todo: sete obras de misericórdia corporais, que socorrem o corpo do próximo, e sete obras de misericórdia espirituais, que socorrem a sua alma. Não são uma lista piedosa e facultativa, mas a própria medida pela qual o Senhor há de nos julgar no último dia. Quem ama a Deus ama o próximo por amor de Deus, e esse amor não fica nas palavras: faz-se obra. A fé sem obras é morta (Tiago ii, 26).
O fundamento das obras de misericórdia no Evangelho
Toda a doutrina das obras de misericórdia nasce de uma só página do Evangelho: o discurso de Nosso Senhor sobre o Juízo Final, em São Mateus, capítulo xxv. Ali o Filho do homem, sentado no trono da sua majestade, separa as ovelhas dos cabritos, os salvos dos condenados, e o critério da separação são justamente as obras de caridade feitas ou omitidas:
Então dirá o rei aos que hão de estar à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí o reino que vos está preparado desde o princípio do mundo: Porque tive fome, e destes-me de comer: Tive sêde, e destes-me de beber: Era hóspede, e recolhestes-me: Estava nu, e cobristes-me: Estava enfermo, e visitastes-me: Estava no cárcere, e viestes ver-me. (São Mateus xxv, 34-36)
E quando os justos perguntam quando foi que viram o Senhor faminto ou sedento, Ele responde com a palavra que dá a toda obra de misericórdia o seu peso eterno:
Na verdade vos digo, que quantas vezes vós fizestes isto a um dêstes meus irmãos mais pequeninos, a mim é que o fizestes. (São Mateus xxv, 40)
Eis o segredo da misericórdia cristã: no pobre, no enfermo, no preso, é o próprio Cristo que socorremos. Por isso a omissão também é julgada: aos da esquerda Ele dirá apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno (São Mateus xxv, 41), não por terem feito o mal, mas por terem deixado de fazer o bem. E irão êstes para o suplício eterno, e os justos para a vida eterna (São Mateus xxv, 46).
As 7 obras de misericórdia corporais
Seis destas obras estão nomeadas literalmente no texto de São Mateus xxv; a sétima, sepultar os mortos, a tradição a juntou seguindo o exemplo do santo Tobias, que cuidadoso dava sepultura aos falecidos (Tobias i, 20). Estas são as obras de misericórdia corporais, que assistem o próximo nas suas necessidades do corpo:
- Dar de comer a quem tem fome. Tive fome, e destes-me de comer (São Mateus xxv, 35). A primeira e mais elementar caridade: partilhar o pão com o faminto.
- Dar de beber a quem tem sede. Tive sêde, e destes-me de beber (São Mateus xxv, 35). Até um copo de água dado em nome de Cristo não fica sem recompensa.
- Vestir os nus. Estava nu, e cobristes-me (São Mateus xxv, 36). Cobrir a indigência do próximo, como já fazia Tobias, que vestia os nus (Tobias i, 20).
- Dar pousada aos peregrinos. Era hóspede, e recolhestes-me (São Mateus xxv, 35). Acolher o forasteiro e o sem-teto, hospitalidade que Deus mesmo recebe.
- Visitar os enfermos. Estava enfermo, e visitastes-me (São Mateus xxv, 36). Não abandonar o doente, mas estar ao seu lado no sofrimento. A Igreja une a isto o cuidado de chamar o sacerdote para a unção dos enfermos.
- Visitar os presos (e resgatar os cativos). Estava no cárcere, e viestes ver-me (São Mateus xxv, 36). Não esquecer aquele que o mundo tranca e esquece.
- Enterrar os mortos. Obra de piedade para com o corpo, templo do Espírito Santo, destinado à ressurreição. O santo Tobias arriscava a própria vida sepultando os corpos jogados nas ruas (Tobias ii, 7-9), e por isso foi louvado por Deus.
Estas obras não dispensam a justiça nem a oração; são o seu fruto. E quem as pratica não compra o céu com elas, mas mostra que a graça de Deus vive nele, porque a caridade cobre a multidão dos pecados (I Pedro iv, 8).
As 7 obras de misericórdia espirituais
Mais altas ainda que as corporais são as obras de misericórdia espirituais, porque socorrem não o corpo, que perece, mas a alma, que é imortal. Curar a fome do corpo é grande; curar a cegueira da alma é maior. Estas são as sete:
- Ensinar os ignorantes. Instruir na fé quem não a conhece, dar a doutrina a quem nunca a recebeu. A maior obra de caridade é dar a Deus a alma que O ignorava.
- Dar bom conselho a quem precisa. Guiar com prudência cristã o que está em dúvida ou perigo, mostrando-lhe o caminho da salvação.
- Corrigir os que erram. Advertir com caridade o pecador, porque aquêle que fizer converter a um pecador do êrro do seu descaminho, salvará a sua alma da morte (Tiago v, 20).
- Consolar os aflitos. Levantar o coração abatido, sustentar com a esperança cristã quem chora.
- Perdoar as injúrias. Perdoar a quem nos ofende, como Cristo perdoou na cruz e como pedimos a cada dia no Pai-Nosso: perdoai-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores.
- Sofrer com paciência as fraquezas do próximo. Suportar com mansidão os defeitos alheios, sem amargura nem desprezo.
- Rogar a Deus pelos vivos e pelos defuntos. Orar pela conversão dos que vivem e pelo descanso das almas do purgatório, que não podem mais merecer por si.
Vê-se que estas obras pertencem a todos, ricos e pobres. Quem nada tem para dar de esmola ainda pode ensinar, consolar, perdoar e, sobretudo, rezar. A oração pelos vivos e pelos mortos é a obra que nenhuma pobreza impede, e a Igreja a multiplica nas suas orações e nas suas missas. Quem quiser nutrir este espírito de caridade pode rezar a Oração de Caritas, que pede a Deus o dom de amar a todos os homens.
Por que a misericórdia, e não só a fé?
Aqui a doutrina católica é firme e não cede. Há quem ensine, contra a Escritura, que basta crer para ser salvo, e que as obras nada acrescentam. Mas o Apóstolo São Tiago, inspirado por Deus, responde sem rodeios:
Mostra-me tu a tua fé sem obras: E eu te mostrarei a mínha fé pelas minhas obras. (Tiago ii, 18)
Queres tu, pois, saber, ó homem vão, que a fé sem obras é morta? (Tiago ii, 20)
E o próprio Cristo, no Juízo, não pergunta apenas creste?, mas deste de comer? vestiste? visitaste?. A fé verdadeira é viva, e a vida da fé é a caridade que opera. Não dizemos, como o erro luterano, que nos salvamos por nossas obras separadas da graça; dizemos, com toda a Escritura, que a fé sem caridade está morta, e que a graça de Deus, recebida com fé, frutifica necessariamente em boas obras. Por isso a Igreja sempre uniu numa só lei o amor a Deus e o amor ao próximo: Amarás ao Senhor teu Deus... e ao teu próximo como a ti mesmo (cf. São Mateus xxii, 37-39). As obras de misericórdia são esse segundo mandamento posto em prática.
Perguntas Frequentes
Quantas são as obras de misericórdia?
São catorze ao todo: sete obras de misericórdia corporais e sete obras de misericórdia espirituais. As corporais socorrem as necessidades do corpo (fome, sede, nudez, enfermidade, etc.) e as espirituais socorrem a alma (ensinar, aconselhar, corrigir, consolar, perdoar, suportar e rezar).
Onde estão as obras de misericórdia na Bíblia?
A fonte principal é o Evangelho do Juízo Final, em São Mateus xxv, 31-46, onde Cristo enumera seis das obras corporais e faz delas o critério da salvação. A sétima corporal, sepultar os mortos, vem do exemplo de Tobias (Tobias i, 20; ii, 7-9). As espirituais estão dispersas na Escritura, como o corrigir o pecador em Tiago v, 20.
Qual é a diferença entre obras de misericórdia corporais e espirituais?
As corporais assistem o corpo do próximo nas suas necessidades materiais e visíveis. As espirituais assistem a alma nas suas necessidades sobrenaturais. As espirituais são em si mais excelentes, porque a alma vale mais que o corpo, mas ambas são obrigatórias segundo a capacidade de cada um.
As obras de misericórdia são obrigatórias ou facultativas?
São obrigatórias. No Juízo, os condenados são castigados precisamente por terem omitido essas obras (São Mateus xxv, 42-43). Cada um as pratica conforme suas posses e seu estado, mas ninguém está dispensado da caridade. Mesmo o mais pobre pode rezar, perdoar e consolar.
Praticar as obras de misericórdia salva por si só?
Não como mérito separado da graça. Salva a fé viva, isto é, a fé que opera pela caridade. As obras de misericórdia são o sinal e o fruto dessa fé viva: a fé sem obras é morta (Tiago ii, 26). Sem a graça de Deus, nenhuma obra basta; com a graça, as boas obras são necessárias e meritórias.
A misericórdia é a porta do céu. Examine cada dia se deu, vestiu, visitou, ensinou, perdoou, rezou. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Comece hoje por uma só obra, feita ao mais pequenino dos irmãos de Cristo, que é o próprio Cristo. No nosso tempo, Santa Dulce dos Pobres fez dessas obras a sua vida inteira, servindo os doentes e os mais pobres da Bahia.
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Fontes. Bíblia Sagrada, tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (São Mateus xxv, 31-46; Tobias i, 20 e ii, 7-9; Tiago ii, 18-26 e v, 20; I Pedro iv, 8). Enumeração tradicional das obras de misericórdia conforme o catecismo católico.