Orações
Consagração a Nossa Senhora: Como se Consagrar a Maria
A consagração total a Maria segundo São Luís de Montfort — o 'Totus Tuus' —, com a oração de consagração em português e latim, a história do santo, o método dos trinta e três dias de preparação e como renová-la na vida cristã.

A consagração a Nossa Senhora não é um sentimento passageiro nem uma devoção a mais entre tantas. É um ato pelo qual a alma se entrega inteira a Maria — corpo, alma, bens e méritos — para que, por suas mãos, tudo seja oferecido a Jesus Cristo. São Luís Maria Grignion de Montfort, que a Igreja deu como mestre desta via, a chamou de "escravidão de amor": o caminho mais curto, mais seguro e mais perfeito para chegar a Cristo. Aqui você encontra a oração de consagração — em português e em latim —, a história do santo, o método tradicional de preparação e como viver dela todos os dias.
A oração de consagração a Maria
O coração da consagração montfortina é este ato, que se reza de joelhos, de preferência diante de uma imagem de Nossa Senhora, ao fim da preparação:
Eu vos escolho hoje, ó Maria, na presença de toda a corte celeste, por minha Mãe e Senhora. Eu vos entrego e consagro, na qualidade de vosso escravo, meu corpo e minha alma, meus bens interiores e exteriores, e o valor mesmo de minhas boas ações passadas, presentes e futuras, deixando-vos inteiro e pleno direito de dispor de mim e de tudo o que me pertence, sem exceção, segundo o vosso beneplácito, para a maior glória de Deus, no tempo e na eternidade.
Totus tuus ego sum, et omnia mea tua sunt. Accipio te in mea omnia. Praebe mihi cor tuum, Maria.
("Sou todo vosso, e tudo o que é meu é vosso. Recebo-vos em tudo o que me pertence. Dai-me o vosso coração, ó Maria.")
A fórmula longa, em português, é a que São Luís nos deixou para o dia da consagração; a fórmula breve em latim — Totus tuus — é o resumo que se reza cada dia, e foi a divisa que o santo cunhou para que a alma nunca esquecesse a quem pertence. Não se trata de uma figura de retórica: "todo vosso" quer dizer tudo. Consagrar-se é colocar nas mãos de Maria não só as preces, mas a vida inteira, certo de que ela nada guarda para si e tudo remete a seu Filho.
Quem foi São Luís de Montfort
Luís Maria Grignion nasceu em Montfort, na Bretanha, em 1673. Sacerdote, pregador incansável de missões populares pelo oeste da França, andou pelas estradas pobre como os pobres a quem pregava, ensinando o terço e a confiança em Maria a um povo cansado de jansenismo. Foi contestado e expulso de dioceses; o Papa Clemente XI o mandou de volta como "missionário apostólico" da própria França. Morreu esgotado aos quarenta e três anos, em 1716.
Seu pequeno livro, o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, ficou perdido por mais de um século, encontrado num baú em 1842. Desde então tornou-se um dos textos marianos mais lidos da Igreja. Pio XII canonizou São Luís em 1947.
A consagração lida à luz da Escritura
A "escravidão de amor" não é invenção devota: tem raiz no Evangelho. Em Caná, foi por intercessão de Maria que Jesus antecipou sua hora, e foi ela quem deu aos homens a regra de toda consagração:
Disse a mãe de Jesus aos que serviam: Fazei tudo o que êle vos disser. — São João 2, 5 (Figueiredo)
Consagrar-se a Maria é justamente isto: deixá-la conduzir-nos a fazer tudo o que Cristo dispuser. E o fundamento último está no alto da Cruz, no instante em que o Senhor, antes de morrer, deu sua própria Mãe a cada discípulo:
Jesus pois tendo visto sua mãe, e ao discípulo que êle amava, que estava presente, disse a sua mãe: Mulher, eis aí teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E desta hora em diante a tomou o discípulo para sua casa. — São João 19, 26-27 (Figueiredo)
A tradição sempre leu nesse discípulo a figura de todo cristão. "Tomá-la para sua casa" é exatamente o que faz quem se consagra: recebe Maria como Mãe e lhe abre toda a vida. A consagração não acrescenta nada ao Evangelho — apenas leva a sério o que o Senhor pediu da Cruz.
Por que se consagrar a Maria
Alguns temem que dar tanto a Maria seja tirar algo de Cristo. É o contrário. São Luís ensina que Maria é o caminho que o próprio Deus escolheu para vir a nós — pela Encarnação — e que ela quer ser o caminho pelo qual voltamos a Ele. Tudo o que se lhe entrega, ela purifica e oferece ao Filho, revestido de seus méritos. Por isso a consagração é chamada "o caminho mais curto e mais seguro": mais curto, porque Maria conduz depressa à conformidade com Cristo; mais seguro, porque sob seu manto a alma está guardada das ilusões do amor-próprio. Consagrar-se não é depender menos de Jesus — é depender d'Ele pelo modo que Ele mesmo dispôs.
Como se consagrar a Nossa Senhora: o método tradicional
São Luís não quis que a consagração fosse um gesto improvisado. Ele propôs uma preparação de trinta e três dias, ao fim da qual se faz o ato, de preferência numa festa de Nossa Senhora. À maneira tradicional, o método se divide assim:
- Doze dias prévios para "despojar-se do espírito do mundo", contrário ao espírito de Cristo. Reza-se o terço, examina-se a consciência, busca-se romper com o apego desordenado às criaturas.
- Primeira semana (7 dias): conhecimento de si mesmo. A alma se vê pequena, pecadora, incapaz de se santificar por suas forças, e por isso necessitada de Maria.
- Segunda semana (7 dias): conhecimento da Santíssima Virgem. Medita-se quem é Maria, suas virtudes, seu papel no plano da salvação, sua maternidade espiritual.
- Terceira semana (7 dias): conhecimento de Jesus Cristo. Pois toda a devoção a Maria tem por fim Jesus: ad Iesum per Mariam — a Jesus por Maria.
Em cada dia rezam-se o terço, as ladainhas de Nossa Senhora e orações próprias da fase e faz-se a leitura espiritual indicada. No trigésimo quarto dia, depois de uma boa confissão e da Comunhão, reza-se o ato de consagração transcrito acima. É costume escolher uma festa mariana para a data, de modo que o aniversário da consagração coincida com o da Mãe.
Quem não puder seguir os trinta e três dias pode começar rezando a fórmula breve, Totus tuus, cada manhã. Mas a consagração plena, feita com preparação, é a que São Luís recomenda e a que melhor frutifica.
Como viver a consagração
Consagrar-se uma vez não basta: a consagração se vive. Tradicionalmente, ela se renova diariamente com o Totus tuus ao despertar, e de modo solene a cada ano, na festa escolhida. São Luís resume a vida do consagrado em quatro palavras — fazer tudo por Maria, com Maria, em Maria e para Maria —, isto é, deixar que ela seja o molde no qual Cristo se forma em nós. O terço diário, os sacramentos frequentes e o pequeno ato de oferecer a ela cada ação são os meios ordinários de manter viva a entrega. Muitos consagrados trazem ainda sobre si um sinal visível dessa pertença, como o escapulário do Carmo, que é como uma pequena consagração usada dia e noite. Quem deseja uma oração mariana cotidiana mais ampla pode rezar também o Ofício de Nossa Senhora, e encontra na vasta tradição de orações católicas — entre elas a oração a Nossa Senhora das Graças e a novena a Nossa Senhora Desatadora dos Nós — outros modos de confiar-se à Mãe. A consagração, então, deixa de ser uma data e se torna um modo de ser cristão: viver como quem pertence, de fato, a Nossa Senhora.
A fórmula de consagração a Nossa Senhora (texto completo)
Muitos procuram simplesmente a fórmula de consagração a Nossa Senhora para rezá-la. Damos aqui de novo, à parte, o texto que São Luís deixou para o dia da entrega, e que se pode imprimir e rezar de joelhos diante de uma imagem da Mãe:
Eu vos escolho hoje, ó Maria, na presença de toda a corte celeste, por minha Mãe e Senhora. Eu vos entrego e consagro, na qualidade de vosso escravo, meu corpo e minha alma, meus bens interiores e exteriores, e o valor mesmo de minhas boas ações passadas, presentes e futuras, deixando-vos inteiro e pleno direito de dispor de mim e de tudo o que me pertence, sem exceção, segundo o vosso beneplácito, para a maior glória de Deus, no tempo e na eternidade.
Quem busca a fórmula de consagração de Montfort em PDF encontra esse mesmo texto nas edições tradicionais do Tratado da Verdadeira Devoção; o essencial não é a impressão, mas o ato interior de entregar tudo. Existe ainda um ato de consagração mais breve, que serve quando não há a longa preparação:
Ó Senhora minha, ó minha Mãe, eu me ofereço todo a vós; e, em prova da minha devoção para convosco, eu vos consagro neste dia os meus olhos, os meus ouvidos, a minha boca, o meu coração, e inteiramente todo o meu ser. E porque assim sou vosso, ó incomparável Mãe, guardai-me e defendei-me como coisa e propriedade vossa. Amém.
Essa segunda fórmula é a célebre oração de Santo Afonso de Ligório, rezada por gerações no fim do terço e em todo ato de entrega a Maria.
O Tratado da Verdadeira Devoção: o livro da consagração
O tratado de consagração a Nossa Senhora é o pequeno livro de São Luís de Montfort, o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Nele o santo expõe por que Maria é o caminho que Deus escolheu, distingue as devoções falsas das verdadeiras e descreve a "perfeita devoção", que é a consagração total. É a leitura espiritual recomendada durante a preparação, e quem procura um livro de consagração a Nossa Senhora deve começar por ele. A ele se junta, como complemento, O Segredo de Maria, resumo do mesmo ensinamento. São obras curtas, escritas para o povo, e continuam sendo o melhor guia para quem quer se consagrar.
A cadeia e a pulseira de consagração
Quem se consagra costuma trazer um sinal visível dessa pertença. A tradição montfortina conhece as cadeias de consagração a Nossa Senhora — pequenas correntes de ferro usadas ao pescoço, no braço ou no tornozelo, que São Luís recomendava como lembrança da feliz "escravidão de amor". O ferro, material vil, recorda que nos fizemos servos de Maria por amor; trazê-lo é renovar em silêncio, ao longo do dia, a entrega feita. Hoje muitos usam também uma pulseira de consagração a Nossa Senhora com a inscrição Totus tuus, com o mesmo sentido: não um amuleto, mas um lembrete. O sinal não tem valor mágico — vale na medida em que sustenta a fidelidade interior de quem o usa. À mesma lógica pertence o escapulário do Carmo, que é como uma consagração trazida dia e noite.
A consagração a Nossa Senhora Aparecida
Muitos fiéis no Brasil desejam consagrar-se especialmente sob o título de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do país. Importa entender bem: a consagração não muda de natureza conforme a invocação. Maria é uma só; consagrar-se "a Nossa Senhora Aparecida", "a Nossa Senhora das Graças" ou "a Nossa Senhora do Carmo" é consagrar-se à mesma Mãe sob títulos diferentes. Quem deseja fazer a entrega no dia 12 de outubro, ou diante da imagem de Aparecida, reza o mesmo ato de consagração, acrescentando, se quiser, uma invocação ao título:
Ó Mãe Aparecida, padroeira do Brasil, a vós me consagro inteiramente: tomai-me por vosso, guardai a minha fé e conduzi-me, com toda a minha pátria, ao vosso Filho Jesus. Amém.
A consagração nacional do Brasil a Nossa Senhora Aparecida foi, aliás, renovada solenemente em várias ocasiões pela hierarquia; o fiel particular une-se a esse mesmo movimento ao consagrar-se a ela. O caminho de São Luís — os trinta e três dias, o Totus tuus — vale igualmente quem o faz sob o título de Aparecida.
Consagrar-se sob outros títulos de Nossa Senhora
Da mesma forma, é legítimo e antigo consagrar-se sob qualquer título mariano caro à alma:
- Nossa Senhora das Graças, da medalha milagrosa, sob cujas mãos abertas descem as graças que Deus quer dar por Maria — veja a oração a Nossa Senhora das Graças.
- Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, invocada como auxílio seguro nas necessidades, cuja antiga imagem mostra o Menino refugiado nos braços da Mãe.
- Nossa Senhora de Nazaré, venerada sobretudo no Norte do Brasil, no Círio de Belém, como Mãe que acompanha o povo em peregrinação.
Em todos os casos, o ato é o mesmo: entregar-se inteiro à única Mãe, que sob cada título nos conduz ao mesmo Filho. A invocação escolhida apenas dá um colorido próprio à devoção; a substância da consagração não muda.
E a música "Consagração a Nossa Senhora"?
Muitos chegam a este tema por causa de uma canção intitulada "Consagração a Nossa Senhora", difundida no meio católico contemporâneo, e procuram a sua letra, cifra ou música. Por respeito aos direitos dos autores, não reproduzimos aqui a letra dessas composições recentes, que se encontram nos canais oficiais dos intérpretes. Vale, porém, lembrar uma distinção: uma canção pode dispor o coração e exprimir o desejo de pertencer a Maria, mas a consagração propriamente dita é o ato descrito acima — a entrega total feita com preparação e renovada cada dia. Cantar é bom; consagrar-se é mais. Quem deseja uma oração mariana de raiz tradicional, para cantar ou rezar, encontra-a nas ladainhas de Nossa Senhora e no Ofício de Nossa Senhora, que a Igreja reza há séculos.
Perguntas Frequentes
O que é a consagração a Nossa Senhora?
É o ato pelo qual a alma se entrega inteiramente a Maria — corpo, alma, bens e méritos — para que, por suas mãos, tudo seja oferecido a Jesus Cristo. São Luís de Montfort a chamou de "escravidão de amor" e a apresentou como o caminho mais curto e seguro para a santidade. Resume-se na divisa Totus tuus, "todo vosso".
Como fazer a consagração a Nossa Senhora?
Pelo método tradicional dos trinta e três dias de São Luís de Montfort: doze dias para se despojar do espírito do mundo, depois três semanas dedicadas ao conhecimento de si, de Maria e de Jesus Cristo. Ao fim, após uma boa confissão e a Comunhão, reza-se o ato de consagração, de preferência numa festa de Nossa Senhora.
Como funciona a consagração a Nossa Senhora?
Funciona como uma entrega total: a alma toma Maria por Mãe e Senhora e lhe confia tudo o que é e tem, para que ela ofereça ao Filho. Faz-se uma vez com solenidade, após a preparação, e depois se renova cada dia com o Totus tuus e a cada ano na festa escolhida — ad Iesum per Mariam, a Jesus por Maria.
Consagrar-se a Maria tira algo de Jesus?
Não. Toda a devoção mariana tem por fim Cristo — a Jesus por Maria. Maria é o caminho que o próprio Deus escolheu para vir a nós na Encarnação, e ela nada guarda para si: tudo o que se lhe entrega, ela remete ao Filho, purificado e enriquecido com seus méritos. Consagrar-se a Maria é depender de Jesus pelo modo que Ele mesmo dispôs na Cruz.
Qual é a fórmula breve da consagração?
É o Totus tuus: "Totus tuus ego sum, et omnia mea tua sunt" — "Sou todo vosso, e tudo o que é meu é vosso." Foi a divisa de São Luís de Montfort. Reza-se cada dia, ao acordar, para renovar a entrega e lembrar a quem se pertence.
Preciso fazer os trinta e três dias para me consagrar?
A consagração plena, com a preparação dos trinta e três dias, é a que São Luís recomenda e a que mais frutifica. Mas quem ainda não pode segui-la pode começar rezando o Totus tuus cada manhã e entregando o dia a Maria, e mais tarde fazer a consagração solene com a devida preparação.
Em que dia é melhor fazer a consagração?
A tradição aconselha escolher uma festa de Nossa Senhora — a Imaculada Conceição (8 de dezembro), a Anunciação (25 de março), a Assunção (15 de agosto) ou a Natividade de Maria (8 de setembro) —, contando os trinta e três dias para trás, de modo que o aniversário da consagração caia sempre numa festa da Mãe.
Qual é o tratado de consagração a Nossa Senhora?
É o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, de São Luís Maria Grignion de Montfort. Nesse pequeno livro o santo expõe o fundamento da consagração total e descreve a "perfeita devoção" a Maria. É a leitura recomendada durante a preparação dos trinta e três dias, junto com O Segredo de Maria, resumo do mesmo ensinamento.
Posso me consagrar a Nossa Senhora Aparecida?
Sim. Maria é uma só, e consagrar-se sob o título de Aparecida — ou de qualquer outro título mariano — é consagrar-se à mesma Mãe. Reza-se o mesmo ato de consagração, de preferência diante da imagem de Aparecida ou no dia 12 de outubro, podendo-se acrescentar uma invocação ao título. O método de São Luís vale igualmente nesse caso.
O que é a cadeia de consagração a Nossa Senhora?
É uma pequena corrente de ferro que São Luís de Montfort recomendava aos consagrados como sinal visível da "escravidão de amor" a Maria. Usada ao pescoço, no braço ou no tornozelo, recorda a entrega feita. Hoje muitos usam, com o mesmo sentido, uma pulseira com a inscrição Totus tuus. Não é amuleto: vale como lembrete que sustenta a fidelidade interior.
A consagração a Nossa Senhora é uma música?
Existe uma canção católica contemporânea com esse título, cuja letra e cifra muitos procuram, mas a consagração propriamente dita não é uma música: é o ato de entrega total a Maria descrito por São Luís de Montfort. Uma canção pode dispor o coração e exprimir o desejo de pertencer à Mãe, mas a consagração se faz com a oração, a preparação e a renovação diária do Totus tuus.
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Fontes. Bíblia Sagrada, tradução do Pe. António Pereira de Figueiredo (São João 2,5; São João 19,26-27); São Luís Maria Grignion de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem — texto da consagração e método dos 33 dias conforme as edições tradicionais; fórmula latina Totus tuus conforme as Orações da Manhã e da Noite de São Luís de Montfort; São Luís Maria Grignion de Montfort, O Segredo de Maria — cadeias da santa escravidão; ato breve de consagração de Santo Afonso Maria de Ligório, As Glórias de Maria (tradução tradicional).