Salmos
Salmo 3 (Salmo 3 na Vulgata)
O Salmo 3 é a oração matinal da confiança em meio aos inimigos: 'Tu, Senhor, és o meu protetor.' Texto completo em português (Figueiredo) e latim da Vulgata, significado, uso tradicional nas Matinas e como rezá-lo.

O Salmo 3 é a oração de quem desperta cercado de inimigos e, mesmo assim, deposita toda a sua confiança em Deus: "Tu, Senhor, és o meu protetor, a minha glória e o que exaltas a minha cabeça." Nascido na hora mais escura da vida do rei Davi — a fuga diante do próprio filho Absalão —, é um dos grandes salmos de proteção e confiança do saltério, e foi escolhido pela Igreja, há séculos, para abrir o Ofício Divino logo nas Matinas.
Salmo 3: a numeração é a mesma na Vulgata
Para quem se confunde com a dupla numeração dos salmos, uma boa notícia: aqui não há divergência. O Salmo 3 que você procura é o Salmo 3 também na numeração tradicional da Igreja, a da Vulgata latina de São Jerônimo e da Septuaginta grega.
A diferença entre a numeração hebraica (moderna) e a da Vulgata só começa a partir do Salmo 9. Nos primeiros oito salmos as duas contagens coincidem. Portanto: Salmo 3 (hebraico) = Salmo 3 (Vulgata). É exatamente o mesmo salmo, sem confusão de número — diferente do que acontece, por exemplo, com o Salmo 91, que na Vulgata é o Salmo 90.
O texto completo do Salmo 3
Damos primeiro o texto em português, na tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo sobre a Vulgata — a Bíblia católica clássica em nossa língua —, e em seguida o latim da Vulgata, âncora canônica de toda oração da Igreja.
Salmo 3
Salmo de Davi, quando fugia à vista de Absalão, seu filho.
Senhor, por que são em tão grande número os que me perseguem? Muitos se levantam contra mim.
Muitos dizem à minha alma: Não há salvação para ele em seu Deus.
Porém tu, Senhor, és o meu protetor, a minha glória e o que exaltas a minha cabeça.
Com a minha voz clamei ao Senhor: E me ouviu desde o seu santo monte.
Eu dormi e estive sepultado no sono: E levantei-me, porque o Senhor me amparou.
Não temerei aqueles milhares de povo que me cercam: Levanta-te, Senhor, salva-me, Deus meu.
Porque tu tens ferido a todos os que me perseguem sem causa: Quebraste os dentes dos pecadores.
Do Senhor é a salvação: E sobre o teu povo a tua bênção.
E o incipit em latim, na Vulgata, com que a Igreja sempre o rezou:
Dómine, quid multiplicáti sunt qui tríbulant me? multi insúrgunt advérsum me.
Multi dicunt ánimæ meæ: Non est salus ipsi in Deo eius.
Tu autem, Dómine, suscéptor meus es, glória mea, et exáltans caput meum.
O que significa o Salmo 3
O título do próprio salmo nos dá a chave: foi composto por Davi "quando fugia à vista de Absalão, seu filho" (cf. 2 Reis 15). Era a hora mais amarga de sua vida — traído pelo filho, abandonado por muitos, fugindo de Jerusalém. E é justamente nessa noite escura que brota uma das mais luminosas orações de confiança da Escritura. A tradição o lê em três movimentos.
1. O clamor diante dos inimigos (vv. 2-3). O salmista expõe a Deus a sua angústia: são "em tão grande número os que me perseguem", e o que mais dói é a tentação que eles lançam sobre sua alma — "Não há salvação para ele em seu Deus." É a voz do desespero que sussurra que Deus o abandonou. Toda alma provada conhece essa tentação.
2. A confiança que vence o medo (vv. 4-6). A resposta de Davi é imediata e firme: "Porém tu, Senhor, és o meu protetor, a minha glória e o que exaltas a minha cabeça." Ele não conta os inimigos, conta com Deus. E lembra que o Senhor já o ouviu "desde o seu santo monte". Vem então o verso que os Padres mais amaram: "Eu dormi e estive sepultado no sono: E levantei-me, porque o Senhor me amparou." Davi consegue dormir tranquilo em plena perseguição, porque sabe que Deus vela. E ao despertar, repete: "Não temerei aqueles milhares de povo que me cercam."
3. A vitória e a bênção (vv. 7-9). O salmo culmina no pedido confiante — "Levanta-te, Senhor, salva-me, Deus meu" — e na certeza da vitória de Deus sobre o mal: "Quebraste os dentes dos pecadores." E termina com uma das mais belas afirmações do saltério: "Do Senhor é a salvação: E sobre o teu povo a tua bênção." A salvação não vem de nós nem das circunstâncias: vem de Deus.
Por isso o Salmo 3 é, ao mesmo tempo, um salmo de proteção (Deus é o escudo que me cerca), de confiança (durmo e desperto seguro nas mãos do Senhor) e de esperança contra o medo. Os Padres viram ainda no verso "Eu dormi... e levantei-me" uma figura profética da morte e da Ressurreição de Cristo: o Senhor que dormiu o sono da morte e ressuscitou pela mão do Pai. Assim, rezar o Salmo 3 ao despertar é, espiritualmente, ressuscitar com Cristo a cada manhã.
Uso tradicional e como rezar o Salmo 3
Na liturgia tradicional da Igreja, o Salmo 3 ocupa um lugar de honra: é o primeiro salmo das Matinas no Breviário Romano, rezado todos os dias para abrir o Ofício Divino na madrugada ou ao começar o dia. Não é por acaso: por seu verso "Eu dormi... e levantei-me, porque o Senhor me amparou", ele é a oração perfeita de quem desperta — agradecendo a noite guardada e entregando o novo dia à proteção de Deus. Os monges o rezam assim há mais de mil e quinhentos anos.
Reze o Salmo 3 quando:
- Despertar pela manhã — é a oração matinal por excelência, para começar o dia confiando-se à proteção de Deus, assim como o Salmo 5, outra grande oração da manhã;
- Estiver cercado de adversidades ou inimigos — quando "muitos se levantam" contra você, o salmo recoloca os olhos em Deus, "o meu protetor", e não no número dos males;
- For tentado ao desânimo — contra a voz que diz "não há salvação para ele em seu Deus", ele opõe a fé serena: "Do Senhor é a salvação."
Um modo simples de rezá-lo: faça o sinal da cruz, leia o salmo devagar — demorando-se no verso "Tu, Senhor, és o meu protetor, a minha glória e o que exaltas a minha cabeça" — e conclua com o Glória ao Pai (Glória Patri), como faz a Igreja ao fim de cada salmo no Ofício. Quem quiser unir os grandes salmos de proteção pode rezá-lo junto com o Salmo 91 e o Salmo 27, ou guardá-lo como primeira oração ao acordar.
Perguntas Frequentes
O Salmo 3 é o mesmo na Vulgata e na numeração moderna?
Sim. Diferente de salmos mais adiante, o Salmo 3 tem o mesmo número nas duas contagens: é o Salmo 3 tanto na numeração hebraica (moderna) quanto na da Vulgata latina e da Septuaginta. A divergência entre as numerações só começa a partir do Salmo 9.
Para que serve o Salmo 3?
É a oração de proteção e confiança em meio às adversidades. Serve para entregar a Deus o medo diante dos inimigos e das provações, para começar o dia sob a sua guarda e para vencer a tentação do desânimo, lembrando que "do Senhor é a salvação."
Quando a Igreja reza o Salmo 3?
No Breviário Romano tradicional, o Salmo 3 é o primeiro salmo das Matinas, a hora que abre o Ofício Divino. Por isso é uma oração ligada ao despertar e ao começo do dia, rezada diariamente pelos monges, clérigos e fiéis.
Por que o Salmo 3 fala em dormir e levantar-se?
Porque Davi, perseguido, confia tanto em Deus que consegue dormir em paz e acorda amparado: "Eu dormi... e levantei-me, porque o Senhor me amparou." A tradição vê nesse verso uma figura da morte e Ressurreição de Cristo, e por isso o salmo é tão próprio da manhã.
Em que situação Davi escreveu o Salmo 3?
O próprio título o diz: Davi o compôs "quando fugia à vista de Absalão, seu filho", durante a revolta em que perdeu o trono e fugiu de Jerusalém (2 Reis 15). É um salmo nascido da traição e da perseguição, e mesmo assim cheio de confiança em Deus.
O que diz o Catecismo sobre rezar os Salmos?
O Catecismo de São Pio X ensina que a oração é elevar a alma a Deus para adorá-lo, agradecer-lhe e pedir-lhe as graças necessárias. Os Salmos, inspirados pelo Espírito Santo, são a oração que o próprio Deus nos deu: rezá-los é unir nossa voz à da Igreja de todos os séculos.
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Fontes. Bíblia Sagrada, tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (sobre a Vulgata); Vulgata Clementina; Catecismo de São Pio X; Breviário Romano.