Salmos
Salmo 50 (Salmo 49 na Vulgata)
O Salmo 50 hebraico — Salmo 49 na Vulgata latina — é o grande salmo do juízo de Deus, que prefere o sacrifício de louvor às vítimas de animais. Texto completo na Bíblia de Figueiredo e em latim, com a explicação da dupla numeração e o uso tradicional na oração.

Quem procura o Salmo 50 costuma esbarrar numa dúvida antiga: em algumas Bíblias ele começa com "Deus dos deuses, o Senhor falou"; em outras, com "Tende piedade de mim, ó Deus" (o Miserere). A diferença não é erro de ninguém — é fruto de duas numerações dos salmos que convivem na Igreja há séculos. Neste artigo damos o texto completo do Salmo 50 hebraico — que na Vulgata latina é o Salmo 49 —, na tradução da Bíblia de Figueiredo e no latim de São Jerônimo, explicamos a dupla numeração e mostramos o significado e o uso tradicional desta grande oração de Asaf.
A dupla numeração: por que "Salmo 50" é o "Salmo 49"
O Saltério tem 150 salmos nas duas tradições; o que muda é a forma de contá-los. A numeração hebraica (Massorética), seguida pela maioria das Bíblias protestantes e por muitas edições modernas, divide certos salmos de um jeito; a numeração grega e latina — a dos Setenta (Septuaginta) e da Vulgata de São Jerônimo, usada na liturgia tradicional da Igreja — divide-os de outro.
Na prática, do Salmo 9 ao Salmo 147 a Vulgata fica um número atrás do hebraico, porque a Septuaginta uniu num só os salmos que o hebraico conta como 9 e 10. Por isso:
- O que o hebraico chama de Salmo 50 é, na Vulgata, o Salmo 49.
- O célebre Miserere — "Tende piedade de mim" — que o hebraico chama de Salmo 51, é na Vulgata o Salmo 50.
Daí a confusão. Quem reza pelo Breviário ou pelo Missal tradicional conhece o Miserere como "Salmo 50"; quem usa uma Bíblia de numeração hebraica encontra sob esse número um salmo bem diferente, o de Asaf sobre o juízo de Deus. Este artigo trata do Salmo 50 hebraico = Salmo 49 da Vulgata, o salmo de Asaf. A Bíblia de Figueiredo, traduzida diretamente da Vulgata, traz este salmo sob o número 49.
Salmo 50 (Salmo 49 na Vulgata) — texto na Bíblia de Figueiredo
Eis o texto completo, na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata latina:
¹ Salmo de Asaf. O Deus dos Deuses, o Senhor falou: E convocou a terra. Desde o oriente do sol até ao seu ocaso:
² De Sião é que vem o resplendor da sua formosura.
³ Deus virá manifestamente: Deus nosso, e não guardará silêncio. Fogo se incenderá na sua presença: E em roda dele tempestade forte.
⁴ Chamará de cima ao céu: E a terra para julgar ao seu povo.
⁵ Congregai junto dele os seus santos: Que compõem aliança com ele sobre sacrifícios.
⁶ E anunciaram os céus a justiça dele: Porquanto Deus é o juiz.
⁷ Ouve, povo meu, e eu falarei: Ouve, Israel, e testificarei contra ti: Deus, o teu Deus sou eu.
⁸ Não te arguirei sobre os teus sacrifícios: Porque os teus holocaustos estão sempre adiante de mim.
⁹ Não receberei de tua casa bezerros: Nem cabritos dos teus rebanhos.
¹⁰ Porque minhas são todas as feras das selvas, os animais nos montes e bois.
¹¹ Conheço todas as aves do céu: E a formosura do campo comigo está.
¹² Se tiver fome não to direi a ti: Porque minha é a redondeza da terra, e a sua plenidão.
¹³ Porventura comerei carnes de touros? ou beberei sangue de cabritos?
¹⁴ Oferece a Deus sacrifício de louvor: E paga ao Altíssimo os teus votos.
¹⁵ E invoca-me no dia da tribulação: Livrar-te-ei, e honrar-me-ás.
¹⁶ Mas ao pecador disse Deus: Por que falas tu dos meus mandamentos, e tomas o meu testamento na tua boca?
¹⁷ Posto que tu tens aborrecido a disciplina: E postergaste as minhas palavras.
¹⁸ Se vias um ladrão, corrias com ele: E com os adúlteros fazias sociedade.
¹⁹ A tua boca abundou de malícia: E a tua língua urdia enganos.
²⁰ Estando sentado falavas contra teu irmão, e punhas tropeço contra o filho da tua mãe:
²¹ Isto fizeste, e eu me calei. Creste a iniquidade, que serei tal como tu: Arguir-te-ei, e to porei diante da tua cara.
²² Entendei isto os que vos esqueceis de Deus: Não suceda que vos arrebate, e não haja quem vos livre.
²³ Sacrifício de louvor me honrará: E ali o caminho, por onde lhe mostrarei a salvação de Deus.
O texto latino da Vulgata (Psalmus 49)
Na liturgia tradicional o salmo é rezado em latim. Esta é a forma da Vulgata Clementina:
¹ Psalmus Asaph. Deus deorum, Dominus, locutus est, et vocavit terram a solis ortu usque ad occasum.
² Ex Sion species decoris ejus:
³ Deus manifeste veniet; Deus noster, et non silebit. Ignis in conspectu ejus exardescet; et in circuitu ejus tempestas valida.
⁴ Advocabit caelum desursum, et terram, discernere populum suum.
⁵ Congregate illi sanctos ejus, qui ordinant testamentum ejus super sacrificia.
⁶ Et annuntiabunt caeli justitiam ejus, quoniam Deus judex est.
⁷ Audi, populus meus, et loquar; Israel, et testificabor tibi: Deus, Deus tuus ego sum.
⁸ Non in sacrificiis tuis arguam te; holocausta autem tua in conspectu meo sunt semper.
⁹ Non accipiam de domo tua vitulos, neque de gregibus tuis hircos:
¹⁰ quoniam meae sunt omnes ferae silvarum, jumenta in montibus, et boves.
¹¹ Cognovi omnia volatilia caeli, et pulchritudo agri mecum est.
¹² Si esuriero, non dicam tibi: meus est enim orbis terrae, et plenitudo ejus.
¹³ Numquid manducabo carnes taurorum? aut sanguinem hircorum potabo?
¹⁴ Immola Deo sacrificium laudis, et redde Altissimo vota tua.
¹⁵ Et invoca me in die tribulationis: eruam te, et honorificabis me.
¹⁶ Peccatori autem dixit Deus: Quare tu enarras justitias meas, et assumis testamentum meum per os tuum?
¹⁷ Tu vero odisti disciplinam, et projecisti sermones meos retrorsum.
¹⁸ Si videbas furem, currebas cum eo; et cum adulteris portionem tuam ponebas.
¹⁹ Os tuum abundavit malitia, et lingua tua concinnabat dolos.
²⁰ Sedens adversus fratrem tuum loquebaris, et adversus filium matris tuae ponebas scandalum.
²¹ Haec fecisti, et tacui. Existimasti inique quod ero tui similis: arguam te, et statuam contra faciem tuam.
²² Intelligite haec, qui obliviscimini Deum, nequando rapiat, et non sit qui eripiat.
²³ Sacrificium laudis honorificabit me; et illic iter quo ostendam illi salutare Dei.
O significado do Salmo 50
O Salmo 50 (49) é atribuído a Asaf, um dos mestres de canto que Davi colocou diante da Arca. É um salmo do juízo de Deus: o Senhor, "Deus dos deuses", convoca o céu e a terra como num tribunal solene, e fala ao seu próprio povo. O salmo se divide em três tempos.
Primeiro, a teofania (versículos 1-6): Deus aparece em majestade, vindo de Sião com fogo e tempestade, e os próprios céus proclamam a sua justiça, porque é Ele o Juiz.
Segundo, a correção do culto vazio (versículos 7-15). Aqui está o coração do salmo. Deus não repreende o seu povo por falta de sacrifícios, mas por confiar neles como se fossem moeda de troca: "Não receberei de tua casa bezerros... Porque minhas são todas as feras das selvas." A Ele não falta nada — toda a criação já é sua. O que pede é outra coisa: "Oferece a Deus sacrifício de louvor: E paga ao Altíssimo os teus votos. E invoca-me no dia da tribulação: Livrar-te-ei, e honrar-me-ás." O culto que agrada a Deus nasce do coração que o louva e confia, não da mera rotina exterior.
Terceiro, a acusação ao pecador hipócrita (versículos 16-23): aquele que recita os mandamentos com a boca mas se associa a ladrões e adúlteros, e fala mal do próprio irmão. A Deus não engana o culto de lábios. O salmo termina onde começou — no sacrifício de louvor — apontando o caminho da salvação: "Sacrifício de louvor me honrará: E ali o caminho, por onde lhe mostrarei a salvação de Deus."
Para os Padres da Igreja, este salmo anuncia a passagem dos sacrifícios da Antiga Lei ao "sacrifício de louvor" perfeito, que se cumpre na Eucaristia — o Sacrifício do Altar, em que o louvor e a oferta se tornam um só. Esse louvor que Deus prefere às vítimas de animais ecoa no Salmo 33, o cântico da confiança e do louvor justo, e desdobra-se em bênção universal no Salmo 67, a grande bênção missionária da Igreja. E o aviso vale para sempre: a religião verdadeira não é exterioridade, mas coração entregue a Deus.
Como rezar o Salmo 50 na tradição
Na tradição da Igreja, o Salmo 49 integra o Saltério rezado ao longo da semana no Ofício Divino, com o seu lugar próprio nas Matinas. Mas a sua riqueza o torna apropriado também para a oração pessoal, em alguns momentos privilegiados:
- Antes da Santa Missa, para entrar no espírito do verdadeiro sacrifício: oferecer a Deus louvor e confiança, e não um culto de hábito.
- No exame de consciência, sobretudo diante da última parte do salmo, que desmascara a hipocrisia, a maledicência e a duplicidade.
- No dia da tribulação, fazendo nossa a promessa do versículo 15: "invoca-me no dia da tribulação: Livrar-te-ei." É o mesmo grito do Salmo 20, a oração de socorro no dia da angústia, e do Salmo 140, súplica de quem pede livramento dos inimigos da alma.
Reze-o devagar, deixando que cada versículo se torne oração. Para entender o lugar dos salmos no conjunto da Escritura, veja também o que a Bíblia fala sobre; e, para a oração das horas, o Ofício de Nossa Senhora e o Divinum Officium.
Perguntas Frequentes
O Salmo 50 e o Salmo 49 são o mesmo salmo?
Sim. São o mesmo salmo em duas numerações. O que a numeração hebraica (usada em muitas Bíblias modernas) chama de Salmo 50, a Vulgata latina e a liturgia tradicional chamam de Salmo 49. A Bíblia de Figueiredo, traduzida da Vulgata, traz este salmo sob o número 49.
Por que existem duas numerações dos salmos?
Porque a tradução grega dos Setenta (Septuaginta), seguida pela Vulgata de São Jerônimo, uniu num só os salmos 9 e 10 do texto hebraico. A partir daí, do Salmo 9 ao 147 a numeração da Vulgata fica um número atrás da hebraica. As duas tradições têm, ao final, os mesmos 150 salmos.
O "Salmo 50" não é o Miserere?
Depende da numeração. Na numeração da Vulgata, o Salmo 50 é o Miserere ("Tende piedade de mim"), o grande salmo da penitência. Na numeração hebraica, esse mesmo salmo penitencial é o 51, e o número 50 corresponde a este salmo de Asaf sobre o juízo de Deus. Por isso é sempre bom indicar qual numeração se está usando.
Quem escreveu o Salmo 50 (49)?
O título do próprio salmo o atribui a Asaf, um dos chefes dos cantores que o rei Davi pôs ao serviço do culto diante da Arca da Aliança. Asaf é também nomeado como autor de outros salmos do Saltério.
Qual é o tema central do Salmo 50 (49)?
O verdadeiro culto a Deus. O Senhor não pede sacrifícios de animais como se precisasse deles — tudo já é seu —, mas o "sacrifício de louvor": o coração que o louva, confia nele e o invoca na tribulação. O salmo condena ainda o pecador que honra a Deus com a boca mas vive na hipocrisia.
Posso rezar o Salmo 50 em latim?
Sim. A liturgia tradicional sempre rezou os salmos no latim da Vulgata, e nada impede que o fiel o faça em sua oração pessoal. O texto latino completo está acima; pode rezá-lo em latim, em português, ou alternando os dois.
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Fontes. Bíblia Sagrada, tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (sobre a Vulgata Latina), Salmo 49; texto latino da Vulgata Clementina, Psalmus 49.