Salmos
Salmo 20 (Salmo 19 na Vulgata)
O Salmo 20 (Salmo 19 na Vulgata) é a oração de socorro 'no dia da tribulação'. Texto completo na Bíblia de Figueiredo e em latim, o significado tradicional e como rezá-lo.

Quem procura o Salmo 20 numa Bíblia católica antiga muitas vezes não o encontra — e por uma razão simples que explicaremos abaixo. O que o mundo de língua portuguesa hoje chama Salmo 20 corresponde, na Vulgata latina e na tradicional Bíblia de Figueiredo, ao Salmo 19. É um dos salmos mais consoladores do Saltério: a oração que a Igreja coloca em nossos lábios "no dia da tribulação". Aqui você encontra o texto completo em português e em latim, o seu significado tradicional e como rezá-lo.
Por que dupla numeração: Salmo 20 ou Salmo 19?
A diferença não é erro de impressão nem invenção moderna. Existem duas formas antigas de contar os salmos.
A numeração que hoje chamamos "hebraica" segue o texto massorético e é a usada na maioria das Bíblias atuais e nas traduções recentes — ali este salmo é o de número 20. Esta dupla contagem atravessa todo o Saltério, atribuído em sua maior parte ao rei Davi — vale a pena conhecer quem escreveu os salmos.
A numeração da Vulgata segue a Septuaginta, a venerável tradução grega do Antigo Testamento usada pelos Apóstolos e pelos Padres da Igreja. São Jerônimo a conservou ao verter a Escritura para o latim. Nessa contagem o salmo é o 19.
A diferença nasce de o grego e o latim juntarem em um só os salmos que o hebraico separa (Salmos 9 e 10 tornam-se um único Salmo 9), de modo que, de certo ponto em diante, a Vulgata fica uma unidade "atrás". Por isso, da maior parte do Saltério, vale a regra prática: número hebraico menos um igual ao número da Vulgata. Salmo 20 (hebraico) = Salmo 19 (Vulgata).
Por fidelidade à tradição da Igreja, citamos o salmo pela Bíblia de Figueiredo, que segue a Vulgata — onde ele é o Salmo 19. É exatamente o mesmo salmo que sua Bíblia moderna chama de 20.
O texto do Salmo 20 (Salmo 19 na Vulgata)
Eis o salmo completo, na tradução de Padre Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata:
Ao regente do coro, salmo de Davi.
O Senhor te ouça no dia da tribulação: O nome de Deus de Jacó te proteja.
Envie-te socorro desde o santuário: E desde Sião te proteja.
Ele se lembre de todos os teus sacrifícios: E o holocausto que tu lhe ofereces lhe seja agradável.
Reparta contigo segundo o teu coração: E cumpra todos os teus desígnios.
Alegrar-nos-emos na tua salvação: E em nome do nosso Deus seremos engrandecidos.
Cumpra o Senhor todas as tuas petições: Agora tenho conhecido que o Senhor salvou o seu Cristo: Ele o ouvirá desde o seu santo céu: Nos potentados a salvação é da sua direita.
Estes confiam nas suas carroças, e aqueles nos seus cavalos: Mas nós invocaremos o nome do Senhor nosso Deus.
Eles ficaram atados, e caíram: Mas nós nos levantamos e fomos sustidos.
Senhor, salva ao rei: E ouve-nos no dia em que te invocarmos.
O texto em latim (Vulgata)
A mesma oração, no latim de São Jerônimo que a Igreja reza há mais de mil e quinhentos anos:
In finem. Psalmus David.
Exaudiat te Dominus in die tribulationis; protegat te nomen Dei Iacob.
Mittat tibi auxilium de sancto, et de Sion tueatur te.
Memor sit omnis sacrificii tui, et holocaustum tuum pingue fiat.
Tribuat tibi secundum cor tuum, et omne consilium tuum confirmet.
Lætabimur in salutari tuo; et in nomine Dei nostri magnificabimur.
Impleat Dominus omnes petitiones tuas; nunc cognovi quoniam salvum fecit Dominus christum suum. Exaudiet illum de cælo sancto suo, in potentatibus salus dexteræ eius.
Hi in curribus, et hi in equis; nos autem in nomine Domini Dei nostri invocabimus.
Ipsi obligati sunt, et ceciderunt; nos autem surreximus, et erecti sumus.
Domine, salvum fac regem, et exaudi nos in die qua invocaverimus te.
O primeiro verso — Exaudiat te Dominus in die tribulationis — é célebre na liturgia e talvez já o tenha cantado sem saber, pois é dele que nasceu mais de um cântico sacro.
Significado do Salmo 20: a oração no dia da tribulação
Para entender o significado deste salmo, é preciso ver a cena que ele descreve. O Salmo 20 é um salmo régio: a oração do povo fiel pelo seu rei, no momento em que este parte para o combate. Antes da batalha, o rei oferece o sacrifício a Deus (verso 4), e o povo reunido pede que o Senhor "se lembre" dessa oblação, lhe envie socorro "desde o santuário" e cumpra os seus desígnios.
O centro de tudo está no verso 8: enquanto os inimigos põem a sua confiança "nas carroças" e "nos cavalos" — isto é, na força das armas e nos cálculos humanos —, o fiel diz: nós invocaremos o nome do Senhor nosso Deus. É a grande lição do salmo. A vitória não vem do poderio, mas da fé. Por isso "eles ficaram atados, e caíram; mas nós nos levantamos e fomos sustidos".
Os Padres e os doutores da Igreja leram este salmo, acima de tudo, à luz de Cristo. O verso 7 — "o Senhor salvou o seu Cristo" — não foi cumprido plenamente em Davi nem em rei algum de Israel, mas em Jesus, o Cristo Rei ungido do Pai, que entrou no combate supremo contra o pecado e a morte. Sua "tribulação" foi a Paixão; seu sacrifício, a Cruz; sua vitória, a Ressurreição. Quando rezamos o Salmo 20, rezamos pelo Rei que já venceu, e pedimos participar da sua vitória sobre o mal.
E porque Cristo venceu, este salmo é também a nossa armadura. A "tribulação" de que ele fala é toda angústia, todo combate espiritual, toda hora de provação. Por isso a tradição o consagrou como oração no dia da aflição — quando a luta nos parece desigual e a tentação é confiar nas próprias forças. Ele toma o seu lugar entre os grandes salmos de proteção, ao lado do Salmo 91, o cântico do amparo divino, e do Salmo 27, em que o fiel proclama não temer ainda que um exército se acampe contra ele.
Como rezar o Salmo 20
Reze-o devagar, como quem clama numa hora de necessidade — sua ou de alguém que ama. Convém aplicar a si as palavras: peça que o Senhor o ouça "no dia da tribulação", que se lembre das suas pequenas oblações e cumpra os seus desígnios segundo o que é reto.
É proveitoso uni-lo a uma intenção concreta: rezá-lo por um doente, por quem enfrenta uma decisão difícil, por uma alma em tentação, ou pela Igreja perseguida — que é o "rei" cuja salvação imploramos. Termine fazendo seu o último verso: Domine, salvum fac regem — "Senhor, salva o rei e ouve-nos no dia em que te invocarmos".
Quem deseja rezá-lo no contexto da oração da Igreja pode acompanhá-lo no Ofício Divino, onde os salmos da Vulgata são distribuídos ao longo das horas — como na oração da noite, que a Igreja chama Completas. E para conhecer como a Escritura nutre toda a vida de oração, veja o que a Bíblia fala sobre a oração e o conjunto das orações católicas da tradição.
Perguntas Frequentes
Por que o Salmo 20 é chamado de Salmo 19 na Bíblia de Figueiredo?
Porque Figueiredo segue a numeração da Vulgata, herdada da Septuaginta grega usada pela Igreja antiga. Nessa contagem, vários salmos são unidos de modo diferente do texto hebraico, deixando a Vulgata uma unidade "atrás". Assim, o Salmo 20 da numeração moderna é o Salmo 19 na Vulgata. É o mesmo salmo, com dois números.
Qual é o significado do Salmo 20?
É a oração do povo pelo seu rei antes do combate: pede a Deus socorro, proteção e vitória, ensinando que a verdadeira força está em invocar o nome do Senhor, e não nas armas humanas. A tradição o lê como profecia de Cristo Rei, ungido e vitorioso, e como oração nossa em toda hora de tribulação.
Para que serve rezar o Salmo 20?
Serve como oração no dia da aflição e do combate espiritual — por si mesmo ou por outrem. É rezado em horas de provação, de doença, de decisão difícil, ou pela Igreja em sua luta, pedindo que Deus ouça, se lembre do sacrifício e conceda a vitória que vem só dele.
O Salmo 20 fala de Jesus?
Sim, segundo a leitura dos Padres da Igreja. O verso "o Senhor salvou o seu Cristo" aponta para Jesus, o Ungido do Pai, cuja "tribulação" foi a Paixão e cuja vitória foi a Ressurreição. Por isso o salmo é, antes de tudo, oração a Cristo Rei e pela participação na sua vitória.
O Salmo 20 é o mesmo da Liturgia das Horas?
Sim. O salmo que a Vulgata chama de 19 e as Bíblias modernas chamam de 20 é distribuído no Ofício Divino. O primeiro verso, Exaudiat te Dominus in die tribulationis, é cantado também como antífona e inspirou cânticos sacros tradicionais.
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Fontes. O texto português é a tradução de Padre Antônio Pereira de Figueiredo sobre a Vulgata; o texto latino é a Vulgata Clementina (Ps 19). A interpretação tradicional segue o sentido cristológico e régio do salmo conforme a leitura dos Padres da Igreja e dos comentadores clássicos do Saltério.