A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Eclesiastes 4: «O cordel triplicado dificultosamente se quebra»
Eclesiastes 4 olha de frente as injustiças e a solidão do mundo «debaixo do sol», e responde com um elogio da companhia: «Melhor é pois estarem dois juntos, do que estar um só», até a imagem do cordão de três fios que não se rompe, tão lembrada nos casamentos. Abaixo está o capítulo completo na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado; o guia explica os versículos 9-12, o capítulo inteiro e o versículo 17, que nas Bíblias evangélicas é o primeiro do capítulo 5.
1 Verti me ad alia, et vidi calumnias quæ sub sole geruntur, et lacrimas innocentium, et neminem consolatorem, nec posse resistere eorum violentiæ, cunctorum auxilio destitutos,
1 Eu me voltei para outras coisas, e vi as calúnias que se passam debaixo do sol, e as lágrimas dos inocentes e que ninguém os consolava: Nem êles podiam resistir à violência dos que os vexavam, destituídos de todo o socorro.
2 et laudavi magis mortuos quam viventes ;
2 E louvei mais os mortos do que os vivos:
3 et feliciorem utroque judicavi qui necdum natus est, nec vidit mala quæ sub sole fiunt.
3 E reputei mais venturoso do que uns e outros, ao que ainda não é nado, e que não tem visto os males que se fazem debaixo do sol.
4 Rursum contemplatus sum omnes labores hominum, et industrias animadverti patere invidiæ proximi ; et in hoc ergo vanitas et cura superflua est.
4 Contemplei de novo todos os trabalhos dos homens, e fiz reparo em que as suas indústrias se achavam expostas à inveja do próximo: E nisto há também vaidade, e cuidado supérfluo.
5 Stultus complicat manus suas, et comedit carnes suas, dicens :
5 O insensato cruza as suas mãos, e come as suas carnes, dizendo:
6 Melior est pugillus cum requie, quam plena utraque manus cum labore et afflictione animi.
6 Mais vale um punhadinho com descanso, do que ambas as mãos cheias com trabalho e aflição do ânimo.
7 Considerans, reperi et aliam vanitatem sub sole.
7 Tornando a considerar achei ainda outra vaidade debaixo do sol:
8 Unus est, et secundum non habet, non filium, non fratrem, et tamen laborare non cessat, nec satiantur oculi ejus divitiis ; nec recogitat, dicens : Cui laboro, et fraudo animam meam bonis ? In hoc quoque vanitas est et afflictio pessima.
8 Há um tal que é só, e que não tem ninguém consigo, nem filho, nem irmão, e que todavia não cessa de trabalhar, nem os seus olhos se fartam de riquezas: Nem faz esta reflexão, dizendo: Para quem trabalho eu, e defraudo a minha alma dos bens da vida? nisto há também vaidade, e aflição miserabilíssima.
9 Melius est ergo duos esse simul quam unum ; habent enim emolumentum societatis suæ.
9 Melhor é pois estarem dois juntos, do que estar um só: Porque têm a conveniência da sua sociedade:
10 Si unus ceciderit, ab altero fulcietur. Væ soli, quia cum ceciderit, non habet sublevantem se.
10 Se um cair, o outro o susterá: Ai do que está só: Porque quando cair, não tem quem o levante.
11 Et si dormierint duo, fovebuntur mutuo ; unus quomodo calefiet ?
11 E se dormirem dois juntos, êles se aquentarão mùtuamente: Mas um só como se há de aquentar?
12 Et si quispiam prævaluerit contra unum, duo resistunt ei ; funiculus triplex difficile rumpitur.
12 E se alguém prevalecer contra um, dois lhe resistem: O cordel triplicado dificultosamente se quebra.
13 Melior est puer pauper et sapiens, rege sene et stulto, qui nescit prævidere in posterum.
13 Melhor é um moço pobre e sábio, do que um rei velho insensato, que não sabe prever nada para o futuro.
14 Quod de carcere catenisque interdum quis egrediatur ad regnum ; et alius, natus in regno, inopia consumatur.
14 Porque às vêzes sai um do cárcere, e dos ferros para ser rei: E outro que nasce rei, é consumido da pobreza.
15 Vidi cunctos viventes qui ambulant sub sole cum adolescente secundo, qui consurget pro eo.
15 Eu vi todos os viventes, que passeiam debaixo do sol com o moço, que tem o segundo lugar, e que depois há de ter o primeiro.
16 Infinitus numerus est populi omnium qui fuerunt ante eum, et qui postea futuri sunt non lætabuntur in eo ; sed et hoc vanitas et afflictio spiritus.
16 Todos os que foram antes dêle são um povo infinito em número: e os que depois hão de existir não se hão de nêle regozijar. Mas até isto é vaidade e aflição de espírito.
17 Custodi pedem tuum ingrediens domum Dei, et appropinqua ut audias. Multo enim melior est obedientia quam stultorum victimæ, qui nesciunt quid faciunt mali.
17 Vê onde pões o teu pé, quando entras na casa de Deus, e chega-te para ouvires. Porque muito melhor é a obediência do que as vítimas dos insensatos, que não conhecem o mal que fazem.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Eclesiastes 4 no livro
O Eclesiastes é a meditação de um sábio, que a tradição da Igreja identifica com o rei Salomão, sobre a vaidade de tudo o que acontece «debaixo do sol». O livro começa com «Vaidade de vaidades, e tudo vaidade» (Ecl 1,2) e não esconde nada do que decepciona na vida humana: o trabalho que não satisfaz, a injustiça que triunfa, a morte que iguala o sábio e o insensato. Mas não é um livro de desespero: entre as constatações amargas, ele recomenda gozar com gratidão dos bens simples que Deus dá, e termina com o temor de Deus e a guarda dos mandamentos.
O capítulo 4 continua a observação começada no capítulo 3, depois do famoso «Tôdas as coisas têm seu tempo» (Ecl 3,1). O autor se volta para a vida em sociedade e encontra quatro vaidades: a opressão, a inveja, a avareza solitária e a glória passageira dos reis. No meio delas, uma única luz: a companhia.
O que diz Eclesiastes 4? Explicação
Os oprimidos sem consolo (v. 1-3). «Eu me voltei para outras coisas, e vi as calúnias que se passam debaixo do sol, e as lágrimas dos inocentes e que ninguém os consolava» (v. 1). A constatação é tão dura que o autor chega a dizer que os mortos e os que não nasceram são mais felizes do que os vivos (v. 2-3). É o grito de quem vê o mal sem ver ainda a resposta; a resposta virá com Aquele que disse «Bem-aventurados os que choram» (Mt 5,5).
A inveja e a preguiça (v. 4-6). O autor observa que as indústrias dos homens «se achavam expostas à inveja do próximo» (v. 4): trabalha-se muitas vezes para superar os outros. Mas o extremo oposto também é loucura: «O insensato cruza as suas mãos, e come as suas carnes» (v. 5), quer dizer, consome-se na inércia. O sábio escolhe o meio-termo: «Mais vale um punhadinho com descanso, do que ambas as mãos cheias com trabalho e aflição do ânimo» (v. 6).
O avarento solitário (v. 7-8). Eis um homem sem filho nem irmão, que não para de trabalhar e nunca se farta de riquezas, e que nunca se pergunta: «Para quem trabalho eu, e defraudo a minha alma dos bens da vida?» (v. 8). É o retrato do acúmulo sem sentido, que o Evangelho retomará na parábola do rico que constrói celeiros maiores.
Melhor dois do que um (v. 9-12). A resposta à solidão do versículo 8, explicada abaixo.
O jovem e o rei (v. 13-16). «Melhor é um moço pobre e sábio, do que um rei velho insensato» (v. 13). O autor observa a multidão que corre atrás do novo rei, e logo o esquecerá também: «Mas até isto é vaidade e aflição de espírito» (v. 16). A popularidade passa.
Na casa de Deus (v. 17). O capítulo termina com um conselho sobre o culto: «Vê onde pões o teu pé, quando entras na casa de Deus, e chega-te para ouvires. Porque muito melhor é a obediência do que as vítimas dos insensatos» (v. 17). É o eco da palavra de Samuel a Saul: «A obediência pois é melhor do que as vítimas» (1 Sm 15,22). Nas Bíblias evangélicas mais lidas no Brasil, este versículo é Eclesiastes 5,1: o capítulo 4 delas tem 16 versículos, ao passo que a Vulgata e Figueiredo, como o próprio texto hebraico impresso, contam 17; por isso, no capítulo 5, cada versículo de Figueiredo leva lá o número seguinte.
Eclesiastes 4,9-10: «Melhor é pois estarem dois juntos»
«Melhor é pois estarem dois juntos, do que estar um só: Porque têm a conveniência da sua sociedade: Se um cair, o outro o susterá: Ai do que está só: Porque quando cair, não tem quem o levante» (v. 9-10).
O «Ai do que está só» é, em latim, Væ soli, uma expressão que se tornou proverbial. O versículo 11 acrescenta o calor da companhia: «E se dormirem dois juntos, êles se aquentarão mùtuamente: Mas um só como se há de aquentar?» (v. 11).
O autor não pensa só no casamento: fala de amigos, de irmãos, de companheiros de viagem e de trabalho. É a experiência de que o homem não foi feito para viver sozinho, que o Gênesis já punha na boca de Deus: «Não é bom que o homem esteja só» (Gn 2,18). A Igreja inteira vive dessa lei: ninguém se salva sozinho, e na comunhão dos santos os membros se sustentam uns aos outros.
Eclesiastes 4,12: «O cordel triplicado dificultosamente se quebra»
«E se alguém prevalecer contra um, dois lhe resistem: O cordel triplicado dificultosamente se quebra» (v. 12). O latim diz funiculus triplex difficile rumpitur.
O texto passa de dois a três como um provérbio que sobe um grau: se dois já resistem, um cordão de três fios é ainda mais forte. As Bíblias modernas falam do “cordão de três dobras”. Hoje o versículo é muito lido em casamentos, e entende-se o terceiro fio como Deus, que une o marido e a mulher. O texto, em si, não fala de matrimônio nem diz quem é o terceiro; mas a aplicação é legítima e bela, porque no casamento cristão é a graça de Cristo que faz da união de dois um vínculo que não se rompe: «Não separe logo o homem o que Deus ajuntou» (Mt 19,6). O matrimônio é um dos sete sacramentos, e a sua força não vem só dos dois esposos.
A mesma imagem vale para a amizade fundada em Deus e para toda comunidade cristã: Jesus prometeu estar no meio de «dois ou três congregados em meu nome» (Mt 18,20).
Eclesiastes 4 na liturgia de 1962
No Breviário Romano, a leitura do Eclesiastes nas Matinas cabe ao mês de agosto. As três lições da quarta-feira da segunda semana de agosto são Eclesiastes 4,1-13: a opressão, a inveja, o avarento solitário, o elogio da companhia e o jovem sábio. O Missal de 1962 não tem leitura tirada deste capítulo.
Como ler Eclesiastes 4
Leia o capítulo como um exame da própria vida social: por quem trabalho? de quem tenho inveja? estou sozinho por escolha, por orgulho, por medo? Quem lê o capítulo num casamento pode ler o versículo 12 junto com os versículos 9-11, que dão o seu sentido: ajudar-se a levantar, aquecer-se, resistir juntos. E pode rezá-lo em família, com uma oração pela família.
Perguntas Frequentes
O que significa Eclesiastes 4,12?
Que a união faz a força: se dois resistem melhor que um, um cordão de três fios é ainda mais difícil de romper. Lido no casamento cristão, o terceiro fio é Deus, que sustenta a união dos esposos.
O que quer dizer Eclesiastes 4,9-10?
Que é melhor viver acompanhado do que só, porque «Se um cair, o outro o susterá» (v. 10). O autor fala de toda companhia humana: amizade, família, trabalho.
Eclesiastes 4,12 fala de casamento?
Não diretamente: fala da força de quem está unido. A aplicação ao matrimônio, em que Deus é o terceiro fio, é uma leitura cristã legítima e muito usada nas cerimônias de casamento.
Por que Eclesiastes 4 tem 17 versículos na Bíblia católica?
Porque a Vulgata, que Figueiredo traduz, conta 17 versículos no capítulo 4, como o texto hebraico impresso. As Bíblias evangélicas mais comuns passam esse último versículo para o começo do capítulo 5: o versículo 17 de Figueiredo é lá Eclesiastes 5,1.
Quem escreveu Eclesiastes 4?
A tradição da Igreja atribui o Eclesiastes ao rei Salomão. Muitos estudiosos modernos pensam num sábio posterior que fala em seu nome; a Igreja não definiu a questão.
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