A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
O livro do Eclesiástico (Sirácida)
O Eclesiástico, que as Bíblias modernas chamam Sirácida ou Ben Sira, é o mais longo dos livros sapienciais: cinquenta e um capítulos de conselhos sobre o temor de Deus, a oração, a esmola, a amizade, a família e a língua, coroados pelo elogio da Sabedoria e dos pais de Israel. Abaixo estão todos os capítulos na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado; o guia explica os dois nomes do livro, quem o escreveu, do que ele fala e o seu lugar no cânon e na liturgia.
Ler Eclesiástico: 51 capítulos
O Eclesiástico é o mais longo dos livros sapienciais do Antigo Testamento. Não é uma narrativa, é uma escola: um pai instrui o filho, «Meu filho…», sobre o temor de Deus e a oração, a humildade e a esmola, a amizade e o casamento, a educação dos filhos, o uso das riquezas e o governo da língua. O livro chega ao seu ponto mais alto no hino em que a Sabedoria fala na primeira pessoa e termina com um longo elogio dos pais de Israel. Na Bíblia católica ele vem depois do livro da Sabedoria e antes de Isaías, fechando a série dos livros sapienciais. As Bíblias protestantes não o trazem.
Muitos ditados nasceram aqui sem que se saiba. «O que tocar o pez, ficará contaminado dêle» (Eclo 13,1) é palavra deste livro; e também a voz do morto que fala ao vivo, «Ontem por mim, e hoje por ti» (Eclo 38,23), que traduz o mihi heri, et tibi hodie da Vulgata e de onde se costuma derivar o lema latino hodie mihi, cras tibi.
Eclesiástico ou Sirácida? Por que dois nomes
Em grego o livro se chama Sabedoria de Jesus, filho de Sirac; os autores judeus o chamam Ben Sira, e São Jerônimo conta que o exemplar hebraico que ele viu trazia o título de Parábolas. A Igreja latina, pelo menos desde São Cipriano, o chama Ecclesiasticus, isto é, o livro “eclesiástico”, o livro da Igreja: a explicação tradicional é que ele era lido de bom grado nas assembleias para instruir os fiéis e os catecúmenos, tanto ensina todas as virtudes, e Santo Atanásio já o conta entre os livros que os Padres davam a ler aos que entravam na Igreja. O Concílio de Trento conservou esse nome, que é o da Vulgata e o de Figueiredo. As Bíblias modernas preferem Sirácida (ou Sirácides), do nome do autor, e o abreviam Eclo ou Sir. É o mesmo livro.
A palavra “eclesiástico” vem do grego ekklesía, assembleia, Igreja: por isso se fala também de tribunal eclesiástico ou de autoridade eclesiástica. Como nome de livro da Bíblia, “Eclesiástico” designa só este livro.
Qual a diferença entre Eclesiastes e Eclesiástico?
São dois livros distintos, que só os nomes aproximam. O Eclesiastes é um livro curto, de doze capítulos, atribuído a Salomão, que medita sobre a vaidade das coisas da terra («Vaidade de vaidades», Ecl 1,2) e que algumas Bíblias chamam Coélet. O Eclesiástico é um livro longo, de cinquenta e um capítulos, escrito por Jesus, filho de Sirac, cheio de conselhos práticos para a vida de cada dia. O Eclesiastes está em todas as Bíblias; o Eclesiástico só nas católicas e ortodoxas.
Quem escreveu o livro do Eclesiástico?
O livro é assinado. Perto do fim se lê: «Neste livro escreveu instruções de sabedoria e de disciplina Jesus, filho de Sirac, natural de Jerusalém, o qual restaurou a sabedoria que derramou do seu coração» (Eclo 50,29); e o último capítulo começa com as palavras «Oração de Jesus, filho de Sirac» (Eclo 51,1). O “Sirácida”, portanto, não é um profeta nem um rei: é Jesus (em hebraico, Josué), filho de Sirac, um escriba de Jerusalém. O seu neto, que também se chamava Jesus, escreveu o prólogo que a Vulgata coloca antes do capítulo 1: conta ali que o avô, depois de se dedicar longamente à leitura da Lei, dos Profetas e dos outros livros, quis também escrever algo sobre a doutrina e a sabedoria.
Quem foi o Sirácida?
Era um sábio instruído de Jerusalém, e o retrato que ele traça do sábio se parece com o seu: «O sábio investigará a sabedoria de todos os antigos e fará o seu estudo nos profetas» (Eclo 39,1); «Aplicará o seu coração a velar de madrugada ante o Senhor, que o criou» (Eclo 39,6). Viajou, conheceu as cortes, correu perigos, e tira disso lições de uma experiência muito concreta. No último capítulo conta como buscou a sabedoria desde a juventude: «Quando eu ainda era moço, antes de me retirar para longe, busquei abertamente a sabedoria na minha oração» (Eclo 51,18).
Pela semelhança com os Provérbios, o livro às vezes foi contado entre os “livros de Salomão”. Santo Agostinho esclarece a questão no tratado A doutrina cristã (livro II, capítulo 8): a Sabedoria e o Eclesiástico são ditos de Salomão por certa semelhança de estilo, mas a tradição mais constante os atribui a Jesus, filho de Sirac; e, como foram recebidos com autoridade, devem ser contados, diz ele, entre os livros proféticos.
Quando foi escrito?
O prólogo dá a data da tradução: o neto chegou ao Egito no trigésimo oitavo ano do rei Ptolomeu Evérgeta, isto é, por volta de 132 antes de Cristo, e ali traduziu para o grego o hebraico do avô. O livro mesmo é, portanto, uma ou duas gerações mais antigo. O autor fala como testemunha do sumo sacerdote «Simão, filho de Onias» (Eclo 50,1), cuja liturgia no Templo descreve com admiração; discute-se se é Simão I ou Simão II, mas a opinião comum situa a composição no começo do século II antes de Cristo, por volta de 190-180.
O Sirácida escreveu em hebraico. Durante séculos só se conheceram o grego e as versões, até que grandes partes do original reapareceram, a partir de 1896, nos manuscritos da genizá do Cairo, e depois em fragmentos mais antigos achados em Massada e em Qumran. O texto da Vulgata é a antiga versão latina feita sobre o grego, que São Jerônimo não retraduziu; contém versículos ausentes do grego mais curto, e por isso a sua numeração difere muitas vezes da das Bíblias modernas. As referências desta página seguem a Vulgata e Figueiredo: quando você procura um trecho lido na Missa nova ou numa Bíblia moderna, o número pode estar deslocado de um ou mais versículos.
Do que fala o livro do Eclesiástico? Resumo
O livro se compõe de uma longa coleção de máximas (capítulos 1 a 42,14), de um hino a Deus na criação e na história (42,15 a 50) e de uma oração final (51).
O temor do Senhor e a provação da alma (capítulos 1 e 2)
«Tôda a sabedoria vem do Senhor Deus, e com êle estêve sempre»: assim começa o capítulo 1, e logo vem a nota fundamental: «O temor do Senhor é o princípio da sabedoria» (Eclo 1,16). O capítulo 2, muito procurado, avisa quem quer servir a Deus: «Meu filho, quando entrares no serviço de Deus, tem-te firme na justiça, e no temor, e prepara a tua alma para a tentação» (Eclo 2,1), «Porque no fogo se prova o ouro e a prata, e os homens que Deus quer receber na fornalha da humilhação» (Eclo 2,5). E conclui: «Crê em Deus, e êle te tirará de todos êstes males» (Eclo 2,6).
Os deveres para com os pais, os pobres e os amigos (capítulos 3 a 13)
O capítulo 3 é uma longa meditação sobre o quarto mandamento: «assim como obra o que ajunta um tesouro, assim também se porta o que honra a sua mãe» (Eclo 3,5). Ensina também a humildade e a esmola, e o capítulo 4 toma o partido dos pobres. O capítulo 5 pede a conversão sem demora, o capítulo 6 dá os célebres conselhos sobre a amizade, e o capítulo 7 lembra o pensamento do último fim. Os capítulos seguintes tratam das mulheres e da casa (capítulo 9), dos governantes e sobretudo da soberba (capítulo 10), das riquezas (capítulo 11) e da escolha das companhias (capítulo 13).
O livre-arbítrio, a língua e a oração contra o pecado (capítulos 14 a 23)
Depois de uma advertência contra a avareza (capítulo 14), o capítulo 15 põe o homem diante da escolha: «Êle pôs diante de ti a água e o fogo: Lança a tua mão ao que quiseres. Diante do homem estão a vida e a morte, o bem e o mal: O que lhe agradar, isso lhe será dado» (Eclo 15,17-18). O capítulo 18 canta a misericórdia do Criador: «a misericórdia de Deus estende-se a tôda a carne» (Eclo 18,12).
Os capítulos 19 a 23 formam um pequeno tratado da língua, da maledicência, dos juramentos e da mentira (capítulo 20), que termina em oração: «Quem porá guarda à minha bôca, e um sêlo inviolável sôbre os meus lábios» (Eclo 22,33); «Senhor, que és meu Pai, e Supremo Árbitro da minha vida, não me deixes à discrição dos lábios» (Eclo 23,1).
O elogio da Sabedoria (capítulo 24)
No centro do livro a Sabedoria toma a palavra (capítulo 24): «Eu saí da bôca do Altíssimo a primogênita antes de tôdas as criaturas» (Eclo 24,5). Procurou repouso em toda a terra e o achou em Sião: «E fui assim firmada em Sião, e repousei igualmente na cidade santificada, e em Jerusalém está o meu poder» (Eclo 24,15). Cresce como o cedro do Líbano, a palmeira de Cades e as roseiras de Jericó, e convida a todos: «Passai-vos a mim todos os que me cobiçais, e enchei-vos dos meus frutos» (Eclo 24,26). E se acha na Lei de Moisés: «Tudo isto é o livro da vida, e o testamento do Altíssimo, e o conhecimento da verdade» (Eclo 24,32).
A casa, a sociedade e o culto de Deus (capítulos 25 a 42,14)
Os conselhos recomeçam: as três coisas que agradam a Deus e aos homens, «A concórdia dos irmãos, e o amor dos próximos, e o marido e a mulher que se dão bem entre si» (Eclo 25,2); a boa esposa (capítulos 25 e 26); o perdão das ofensas (capítulo 28); o empréstimo e a fiança (capítulo 29); a educação dos filhos e a alegria do coração (capítulo 30); os banquetes e a temperança (capítulos 31 e 32); a vaidade dos sonhos (capítulo 34); o verdadeiro sacrifício e a oração (capítulo 35); a súplica por Israel e pelas nações (capítulo 36); o médico e o luto (capítulo 38); o escriba e o sábio (capítulo 39); e a própria morte: «Ó morte, quão amargosa é a tua memória para um homem, que tem paz no meio das suas riquezas» (Eclo 41,1).
A glória de Deus na criação (42,15 a 43)
«Lembrar-me-ei pois das obras do Senhor, e anunciarei o que tenho visto» (Eclo 42,15): é um hino ao sol, à lua e às estrelas, à neve, à geada e ao mar, todos sujeitos à sua palavra. «O alto firmamento é a formosura dêle» (Eclo 43,1), e no fim o autor se rende: «Muitas coisas diremos nós, e ainda nos veremos alcançados em palavras, mas o resumo de tudo o que se pode dizer é que êle mesmo está em tôdas as coisas» (Eclo 43,29).
O elogio dos pais (capítulos 44 a 50)
«Louvemos aos varões gloriosos, e aos nossos pais na sua geração» (Eclo 44,1). O Sirácida percorre a história sagrada de Henoc e Noé até Abraão, Moisés e Aarão (capítulo 45), Josué, Samuel, Davi e Salomão (capítulos 46 e 47), Elias, que se levantou «como um fogo» (Eclo 48,1), Eliseu, Ezequias e Isaías, Josias e os profetas (capítulo 49), e termina com o retrato luminoso do sumo sacerdote Simão oficiando no Templo: «Brilha como o luzeiro da manhã no meio da névoa» (Eclo 50,6). É toda a história, do Gênesis aos livros dos Reis e aos profetas, relida como uma só história da graça.
A oração de Jesus, filho de Sirac (capítulo 51)
O livro se encerra com uma ação de graças por um livramento e com o relato de como o autor buscou a sabedoria desde a juventude. A última palavra é para o leitor: «Fazei a vossa obra antes que se passe o tempo, e êle vos dará o vosso galardão a seu tempo» (Eclo 51,38).
Temas e leitura católica
A sabedoria começa pelo temor de Deus
A sabedoria do Sirácida é a piedade vivida no dever de cada dia. Entre os livros sapienciais, com os Provérbios, Jó e a Sabedoria, é o mais prático: não especula, forma. O temor do Senhor de que ele fala não é o medo servil, mas o respeito filial que faz evitar o pecado e abre o coração a todas as virtudes; a tradição o conta entre os sete dons do Espírito Santo.
O livre-arbítrio e a graça
«Deus criou o homem desde o princípio, e o deixou na mão do seu conselho» (Eclo 15,14) é um dos textos clássicos sobre o livre-arbítrio. Santo Agostinho, no tratado A graça e o livre-arbítrio, o cita contra os que lançavam sobre Deus a culpa dos próprios pecados, e no mesmo tratado mostra que a vontade só guarda os mandamentos ajudada pela graça.
A esmola, a conversão e os novíssimos
«A água apaga o fogo ardente, e a esmola resiste aos pecados» (Eclo 3,33) concorda com a palavra do arcanjo Rafael no livro de Tobias: «a esmola livra da morte, e ela é a que apaga os pecados» (Tb 12,9). O livro pede a conversão sem adiamento: «Não tardes em te converter ao Senhor, e não o defiras de dia em dia» (Eclo 5,8); e recomenda o pensamento dos novíssimos com uma máxima que os pregadores repetiram de século em século, o memorare novissima tua da Vulgata: «Em tôdas as tuas obras lembra-te dos teus novíssimos, e nunca jamais pecarás» (Eclo 7,40).
O perdão e o Pai-Nosso
«Perdoa ao teu próximo o mal que te faz: E então deprecando tu, ser-te-ão perdoados os pecados» (Eclo 28,2) anuncia o pedido que Nosso Senhor pôs na oração dominical: «E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores» (Mt 6,12); veja o Pai-Nosso. E o rico que diz «agora comerei só dos meus bens», sem saber «que tempo passará, e se avizinha a morte» (Eclo 11,19-20), anuncia o rico insensato da parábola de São Lucas (Lc 12).
A soberba, raiz de todos os pecados
«o princípio de todo o pecado é a soberba» (Eclo 10,15). Santo Agostinho e São Gregório Magno se apoiam neste versículo no seu ensinamento sobre a soberba, rainha e raiz dos vícios, de onde descendem os sete pecados capitais. O remédio é dado desde o capítulo 3: «Quanto maior és, humilha-te em tôdas as coisas, e acharás graça diante de Deus» (Eclo 3,20).
A Sabedoria, Cristo e Nossa Senhora
A Sabedoria que sai «da bôca do Altíssimo», «a primogênita antes de tôdas as criaturas», foi lida pelos Padres como figura do Verbo eterno, por quem tudo foi feito. Mas a Igreja, na sua liturgia, aplica o capítulo 24 também à Virgem Maria, Sede da Sabedoria, escolhida desde a origem no desígnio de Deus: «Eu fui criada desde o princípio, e antes dos séculos» (Eclo 24,14), e chamada «a mãe do amor formoso, e do temor, e do conhecimento, e da santa esperança» (Eclo 24,24).
Versículos mais conhecidos do Eclesiástico
- Eclo 1,16, o temor do Senhor: «O temor do Senhor é o princípio da sabedoria».
- Eclo 2,1-6, a provação: «prepara a tua alma para a tentação»; «Sofre as tardanças de Deus: Conserva-te unido a Deus, e espera» (2,3).
- Eclo 3, honrar pai e mãe: «Honra a teu pai em ações, e em palavras, e em tôda a sorte de paciência» (Eclo 3,9); «O que honra a seu pai, achará a sua alegria nos seus filhos» (Eclo 3,6). Neste capítulo a Vulgata tem um versículo a mais no começo, e os números das Bíblias modernas ficam em geral um abaixo dos daqui.
- Eclo 6,14-16, quem acha um amigo acha um tesouro: «O amigo fiel é uma forte proteção: E quem o achou, achou um tesouro. Nada se pode comparar com um amigo fiel» (Eclo 6,14-15); «O amigo fiel é um medicamento de vida, e de imortalidade: E os que temem o Senhor, acharão um tal amigo» (Eclo 6,16). O capítulo ensina também a prudência: «Se queres ter um amigo, toma-o depois de o teres provado» (Eclo 6,7).
- Eclo 10,15, a soberba: «o princípio de todo o pecado é a soberba».
- Eclo 25,1-2, as três coisas que agradam a Deus: «A concórdia dos irmãos, e o amor dos próximos, e o marido e a mulher que se dão bem entre si».
- Eclo 26,1-2, a mulher virtuosa: «Bem-aventurado o homem que tem uma virtuosa mulher: Porque dobrado será o número dos seus anos. A mulher forte é a alegria de seu marido».
- Eclo 30,22-25, a alegria do coração: «Não dês tristeza à tua alma, e não te aflijas a ti mesmo no teu conselho. O júbilo do coração êsse é a vida do homem, e um tesouro inexaurível de santidade» (Eclo 30,22-23); «Porque a tristeza tem morto a muitos, e não há utilidade nela» (Eclo 30,25). É o trecho que se procura como “Eclesiástico 30,22”: nas Bíblias modernas a frase sobre a alegria do coração é o 30,22; aqui é o 30,23.
- Eclo 35,21, a oração do humilde: «A oração do que se humilha, penetrará as nuvens».
- Eclo 38, o médico: «Honra ao médico por causa da necessidade: Porque o Altíssimo é quem o criou» (Eclo 38,1); «Filho, não te desprezes a ti mesmo na tua enfermidade, mas faze oração ao Senhor e êle te curará» (Eclo 38,9). É um texto caro aos doentes; veja a oração pela saúde.
- Eclo 44,1, os varões gloriosos: «Louvemos aos varões gloriosos, e aos nossos pais na sua geração».
O Eclesiástico no cânon e na liturgia
O Eclesiástico está na Bíblia?
Sim. O Eclesiástico é um dos sete livros deuterocanônicos do Antigo Testamento católico, com Tobias, Judite, a Sabedoria, Baruc e os dois livros dos Macabeus. Chegou à Igreja com a Setenta, o Antigo Testamento grego dos Apóstolos. Clemente de Alexandria, Orígenes, São Cipriano e Santo Agostinho o citam como Escritura. Os concílios africanos de Hipona (393) e de Cartago (397), o Concílio de Florença (1442) e enfim o Concílio de Trento, na sessão IV (8 de abril de 1546), o nomeiam entre os livros sagrados; Trento declara anátema quem não recebe esses livros inteiros, com todas as suas partes. É por isso que a Bíblia católica tem 73 livros: veja quantos livros tem a Bíblia católica.
Os Reformadores, seguindo o cânon mais curto dos rabinos posteriores e as reservas de São Jerônimo, o relegaram aos «apócrifos», e a maioria das Bíblias protestantes hoje o omite. Ele permanece nas Bíblias católicas e ortodoxas.
O Eclesiástico na liturgia de 1962
O Missal de 1962 usa muito o Eclesiástico, que anuncia com o título Lectio libri Sapientiae, leitura do livro da Sabedoria, nome que a liturgia dá a todos os livros sapienciais:
- a epístola da Missa comum de Nossa Senhora, Salve, sancta Parens, é Eclo 24,14-16: «Eu fui criada desde o princípio, e antes dos séculos»; o capítulo 24 volta nas festas de Nossa Senhora do Carmo, do Santíssimo Nome de Maria e do Imaculado Coração, e o ofertório e a comunhão da festa do Rosário (7 de outubro) vêm dos capítulos 24 e 39;
- a Missa dos confessores pontífices, Statuit, tira o intróito de Eclo 45,30, a aliança de paz que Deus «fêz com êle» (Eclo 45,30), o gradual Ecce sacerdos magnus do capítulo 44 e a epístola dos capítulos 44 e 45;
- a Missa dos confessores não pontífices, Os justi, lê Eclo 31,8-11: «Bem-aventurado o rico, que foi achado sem mancha e que se não deixou ir após o ouro» (Eclo 31,8);
- a Missa dos doutores, In medio Ecclesiae, tira o intróito de Eclo 15,5: «e lhe abrirá a bôca no meio da Igreja, e o encherá do espírito da sabedoria, e de inteligência» (Eclo 15,5);
- a festa de São José (19 de março) lê Eclo 45,1-6, «Moisés foi amado de Deus, e dos homens: Cuja memória está em bênção» (Eclo 45,1), aplicado ao santo; veja São José;
- a festa de São João Evangelista (27 de dezembro) lê Eclo 15,1-6, e as Missas comuns das virgens mártires leem a oração do capítulo 51;
- o intróito da terça-feira da oitava da Páscoa, Aqua sapientiae, vem de Eclo 15,3-4, e o do XVIII domingo depois de Pentecostes, Da pacem, Domine, de Eclo 36,18.
No Breviário romano o Eclesiástico é lido nas Matinas da última parte de agosto, depois dos Provérbios, do Eclesiastes e da Sabedoria; a súplica do capítulo 36, «Tem piedade de nós, Deus de tôdas as coisas» (Eclo 36,1), é o cântico das Laudes de sábado. Acompanhe estas festas no calendário litúrgico.
Como ler o Eclesiástico
Leia-o devagar, um capítulo por dia, como a Igreja antiga o dava aos catecúmenos: não para seguir uma trama, mas para receber uma regra de vida. Guarde o capítulo 24 para uma festa de Nossa Senhora, e leia o elogio dos pais com os livros históricos à mão. Quando um conselho tocar os seus deveres, faça dele uma oração, como o próprio Sirácida faz nos capítulos 23 e 51. Um exame de consciência feito sobre os capítulos dedicados à língua, do 19 ao 23, dá frutos duradouros. Aproxime enfim o livro do Eclesiastes e da Sabedoria: juntos mostram que a verdadeira sabedoria é um dom de Deus, recebido no temor e vivido na caridade. O texto se lê também no aplicativo Bíblia católica.
Perguntas Frequentes
O que é o livro do Eclesiástico?
O Eclesiástico, chamado Sirácida nas Bíblias modernas, é um livro sapiencial do Antigo Testamento, escrito em hebraico por Jesus, filho de Sirac, escriba de Jerusalém, no começo do século II antes de Cristo, e traduzido para o grego pelo neto. Ensina o temor de Deus, a oração, a esmola, a humildade, a amizade e os deveres da família, e louva os grandes homens de Israel. A Igreja o recebe como Escritura inspirada.
Quem escreveu o livro do Eclesiástico?
Jesus, filho de Sirac (Ben Sira), um escriba sábio de Jerusalém, que assina o livro no capítulo 50. Não era rei nem profeta: era um mestre que estudou longamente a Lei e os Profetas, como conta o neto no prólogo. Santo Agostinho já ensinava que o livro é dele, e não de Salomão.
Qual a diferença entre Eclesiastes e Eclesiástico?
O Eclesiastes é um livro curto, de doze capítulos, atribuído a Salomão, que medita sobre a vaidade das coisas da terra. O Eclesiástico (Sirácida) é um longo livro de sabedoria moral, com cinquenta e um capítulos, escrito por Jesus, filho de Sirac. Os nomes se parecem, mas são dois livros distintos.
O que significa Eclesiástico?
O nome latino Ecclesiasticus quer dizer “da Igreja”. Vem do uso que a Igreja antiga fazia do livro, lendo-o nas assembleias para instruir os fiéis e os catecúmenos em todas as virtudes. As Bíblias modernas preferem o nome Sirácida, tirado do autor.
Por que o Eclesiástico não está na Bíblia protestante?
Os Reformadores adotaram o cânon hebraico mais tardio, que não incluía o Eclesiástico, e o puseram entre os «apócrifos». A Igreja católica, seguindo os Apóstolos e os Padres, sempre o recebeu como canônico, e o Concílio de Trento o definiu em 1546.
O que o Eclesiástico diz sobre a amizade?
O capítulo 6 ensina a provar os amigos antes de confiar neles, porque muitos são amigos só no tempo da prosperidade. Mas louva o amigo fiel como uma forte proteção, um tesouro sem comparação e «um medicamento de vida, e de imortalidade» (Eclo 6,16), que acham os que temem o Senhor.
Quantos capítulos tem o Eclesiástico?
Cinquenta e um, precedidos pelo prólogo do tradutor. A Vulgata e Figueiredo trazem versículos ausentes das traduções modernas feitas sobre o grego ou o hebraico, e por isso os números dos versículos muitas vezes não coincidem.
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