A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
O livro de Isaías
Isaías, o maior dos profetas do Antigo Testamento, anunciou o Emanuel nascido da Virgem, o Menino chamado «Deus forte», o Servo ferido pelas nossas iniquidades e a nova Jerusalém. Abaixo estão os sessenta e seis capítulos na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia apresenta quem foi o profeta, quando viveu, o resumo do livro, os versículos mais procurados e o seu lugar na liturgia.
Ler Isaías: 66 capítulos
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O livro de Isaías abre, na Bíblia católica, a série dos profetas: vem depois dos livros sapienciais, logo após o Eclesiástico, e antes de Jeremias. É o mais longo dos livros proféticos e o profeta que o Novo Testamento mais cita. Nosso Senhor o leu na sinagoga de Nazaré, e São João Batista descreveu a sua missão com as palavras dele. São Jerônimo, no prefácio ao livro, escreve que Isaías merece ser chamado não tanto profeta quanto evangelista, non tam propheta quam evangelista, tão claramente expõe os mistérios de Cristo e da Igreja: parece, acrescenta, que narra o passado mais do que anuncia o futuro.
Quem foi o profeta Isaías?
O livro apresenta o seu autor desde a primeira linha: «Visão de Isaías, filho de Amós, a qual êle viu sôbre Judá e Jerusalém no tempo de Ozias, de Joatan, de Acaz, e de Ezequias, reis de Judá» (Is 1,1). Isaías era, portanto, um homem de Jerusalém, que viveu no reino de Judá no século VIII antes de Cristo. O seu nome em hebraico significa “o Senhor é salvação”, e resume toda a sua pregação.
O pai e a família de Isaías
O pai de Isaías se chamava Amós, mas não é o profeta Amós de Técua: em hebraico os dois nomes se escrevem de modo diferente, e a semelhança só existe nas traduções. Uma tradição rabínica, incerta, o diz irmão do rei Amasias, o que faria de Isaías um homem de estirpe real. Isaías era casado com aquela que o livro chama «a profetisa» (Is 8,3) e teve pelo menos dois filhos, a quem deu nomes que eram eles mesmos profecias: Jasub, «o teu filho Jasub» (Is 7,3), cujo nome completo, Sear-Jasub, quer dizer “um resto voltará”, e um segundo filho de nome agourento: «apressa-te a tirar os despojos: Faze velozmente a prêsa» (Is 8,3).
O chamado de Isaías no Templo
Isaías conta ele mesmo a sua vocação no capítulo 6: «No ano em que o rei Ozias morreu: vi ao Senhor assentado sôbre um alto e elevado sólio» (Is 6,1). Os Serafins cantam o Sanctus, o profeta se sente «um homem de lábios impuros», um dos Serafins lhe toca a boca com «uma brasa viva, que êle havia tomado do altar» (Is 6,6), e quando o Senhor pergunta a quem enviará, Isaías responde: «Aqui me tens a mim, envia-me» (Is 6,8). Desde então foi o conselheiro, muitas vezes desatendido, dos reis de Judá, até Ezequias, a quem visitou na doença: «o profeta Isaías, filho de Amós, veio ter com êle» (IV Reis 20,1, 2 Reis nas Bíblias modernas).
Como morreu o profeta Isaías?
A Escritura não conta a morte de Isaías, mas uma tradição antiga, recolhida pelos judeus e pelos Padres, diz que ele morreu mártir sob o ímpio rei Manassés, serrado ao meio com uma serra de madeira. Referem-na São Justino, no Diálogo com Trifão, e um antigo apócrifo, a Ascensão de Isaías; muitos Padres viram uma alusão ao seu suplício na carta aos Hebreus, onde se lê dos justos da Antiga Aliança que «foram serrados pelo meio» (Hb 11,37). É uma tradição, não um dado da Bíblia, e como tal deve ser apresentada.
Quem escreveu o livro de Isaías?
A Igreja sempre recebeu o livro inteiro como obra do profeta Isaías, filho de Amós. O Eclesiástico louva «Isaías, profeta grande, e fiel diante de Deus», que «Com o seu grande espírito viu os últimos tempos, e consolou aos que choravam em Sião» (Eclo 48,25-27): a consolação de Sião é justamente a matéria dos capítulos 40-66.
O Novo Testamento cita as duas metades do livro com o nome dele. São João aproxima Is 53,1 e Is 6,10 e conclui: «Isto disse Isaías, quando viu a sua glória, e falou dêle» (Jo 12,41); São Mateus aplica Is 40,3 ao Batista: «êste é de quem falou o profeta Isaías» (Mt 3,3); e o eunuco etíope «ia lendo o profeta Isaías», justamente o capítulo 53, quando Filipe se aproximou dele (At 8,28).
Quando, na época moderna, se começou a dividir o livro entre vários autores, a Pontifícia Comissão Bíblica respondeu com o decreto de 1908 sobre o caráter e o autor do livro de Isaías, aprovado por São Pio X. Ali se afirmava que um profeta pode falar de coisas distantes e dirigir-se a uma geração futura, de modo que o ponto de vista do Exílio nos capítulos 40-66 não prova um autor mais tardio, e que os argumentos de língua e de estilo não bastam para impor vários autores. Muitos estudiosos modernos distinguem um “segundo” e um “terceiro Isaías”, discípulos posteriores do profeta; nós nos atemos ao ensinamento recebido da Igreja, que o próprio Novo Testamento supõe.
Quando viveu Isaías e quando o livro foi escrito?
Isaías recebeu o chamado «No ano em que o rei Ozias morreu», por volta de 740 antes de Cristo, e ainda profetizava durante a invasão de Senaquerib, em 701. O seu ministério durou, portanto, uns quarenta anos, sob Joatão, Acaz e Ezequias, e talvez até os primeiros anos de Manassés. O livro foi escrito ao longo desse ministério, mais de um século antes da queda de Jerusalém e muito antes de Ciro, que no entanto ele nomeia: «Eu o que digo a Ciro: Tu és o pastor do meu rebanho» (Is 44,28).
A Assíria engolia os pequenos reinos do Ocidente; o reino de Israel, ao norte, caiu em 722; Judá era tentado a apoiar-se no Egito ou na Assíria em vez de no Senhor. Diante de Acaz, depois diante de Ezequias, Isaías repete um só conselho, a fé: «Se o não crerdes não permanecereis» (Is 7,9). A história desses reinados se lê no IV Livro dos Reis (capítulos 18-20), cujo relato sobre Ezequias é retomado quase ao pé da letra nos capítulos 36-39 de Isaías.
Do que fala o livro de Isaías? Resumo
O livro vai do juízo à consolação: por meio do Menino nascido da Virgem, do Rei da linhagem de Davi e do Servo sofredor, Deus reúne um resto de Israel e as nações numa Jerusalém nova. Divide-se em duas grandes partes, os oráculos de juízo dos capítulos 1-39 e o “livro da Consolação” dos capítulos 40-66, com a história de Ezequias no meio.
Judá, Jerusalém e o livro do Emanuel (capítulos 1-12)
O livro se abre com o processo que Deus move contra o seu povo: «Conheceu o boi a seu possuidor, e o jumento o presépio do seu dono: Mas Israel não me conheceu» (Is 1,3), versículo de onde a tradição tirou o boi e o burrinho do presépio. Logo depois vem o convite ao perdão: «Se os vossos pecados fôrem como a escarlata, êles se tornarão brancos como a neve» (Is 1,18). O capítulo 2 vê todas as nações subirem ao monte do Senhor, onde «das suas espadas forjarão relhas de arados» (Is 2,4); o capítulo 5 canta a parábola da vinha que, em vez das boas uvas esperadas, deu «labruscas» (Is 5,4); o capítulo 6 é a vocação do profeta.
Os capítulos 7-12, chamados muitas vezes o livro do Emanuel, pertencem à guerra siro-efraimita. Ao incrédulo Acaz, Deus dá o sinal da Virgem e do Emanuel (capítulo 7); promete a luz ao povo que andava em trevas e o Menino chamado «Deus forte» (capítulo 9); depois o rebento do tronco de Jessé, sobre o qual repousa o Espírito, e a paz em que «O lôbo habitará com o cordeiro» (Is 11,6). A seção termina com um hino de ação de graças: «Vós tirareis com gôsto águas das fontes do Salvador» (Is 12,3).
Os oráculos contra as nações (capítulos 13-23)
Estes capítulos pronunciam os oráculos contra Babilônia (capítulo 13), cujo rei caído é escarnecido com o nome de Lúcifer no capítulo 14, contra a Assíria, os filisteus, Moab, Damasco, o Egito, Duma, a Arábia e Tiro. Também aqui a misericórdia transparece: um dia «será conhecido o Senhor pelo Egito» (Is 19,21). No capítulo 22 o Senhor promete pôr sobre o ombro do seu servo «a chave da casa de Davi […] E êle abrirá e não haverá quem feche» (Is 22,22).
O Apocalipse de Isaías (capítulos 24-27)
Os capítulos 24-27 alargam o horizonte à terra inteira, ao seu juízo e ao banquete final do Senhor no seu monte, onde «Êle precipitará a morte para sempre: E o Senhor Deus enxugará as lágrimas de tôdas as faces» (Is 25,8).
Ais sobre Jerusalém e a promessa do Rei (capítulos 28-35)
Os capítulos 28-33 advertem Judá contra a aliança egípcia e prometem uma pedra posta nos fundamentos de Sião, «uma pedra aprovada, angular, preciosa» (Is 28,16), que São Pedro aplica a Cristo. Depois, no capítulo 35, o deserto floresce: «O mesmo Deus virá, e êle vos salvará. Então se abrirão os olhos dos cegos, e desimpedirão os ouvidos dos surdos» (Is 35,4-5).
Ezequias, Senaquerib e o sinal do sol (capítulos 36-39)
Pela oração de Ezequias e pela palavra de Isaías, «o anjo do Senhor» feriu no acampamento dos assírios «cento e oitenta e cinco mil homens» (Is 37,36). Ezequias se cura da sua doença (capítulo 38) e entoa o cântico Ego dixi: In dimidio dierum meorum, «Eu disse: Na metade de meus dias irei para as portas do inferno» (Is 38,10), que a Igreja canta nas Laudes; depois, por ter mostrado os seus tesouros aos enviados de Babilônia, ouve o anúncio do exílio (capítulo 39).
O livro da Consolação (capítulos 40-48)
«Consolai-vos, consolai-vos, povo meu, diz o vosso Deus» (Is 40,1). O profeta anuncia aos exilados a volta de Babilônia: «Voz do que clama no deserto: Aparelhai o caminho do Senhor» (Is 40,3). O Senhor zomba dos ídolos (capítulo 44) e suscita Ciro, «Ciro meu Cristo» (Is 45,1), isto é, o seu ungido, para libertar o seu povo. Aqui aparece também o primeiro cântico do Servo do Senhor (capítulo 42), que «Não quebrará a cana rachada, nem apagará a torcida que ainda fumega» (Is 42,3), e os versículos de conforto dos capítulos 41 e 43, os mais procurados do livro.
O Servo sofredor (capítulos 49-57)
O Servo é chamado desde o seio materno para ser «luz das gentes» (Is 49,6); entrega o corpo aos que o ferem e não esconde o rosto aos escarros (capítulo 50); e no quarto cântico, de Is 52,13 ao fim do capítulo 53, é ferido pelas nossas iniquidades e levado «como uma ovelha ao matadouro» (Is 53,7). Sião ouve depois que os seus filhos serão inumeráveis: «Alegra-te, estéril, que não pares» (Is 54,1); e todos os sedentos são convidados: «Todos vós os que tendes sêde, vinde às águas» (Is 55,1).
A nova Jerusalém e os novos céus (capítulos 58-66)
Os últimos capítulos ensinam o verdadeiro jejum (capítulo 58), a aurora de glória sobre Jerusalém, para onde acorrem as nações «trazendo-te ouro e incenso» (Is 60,6), o Ungido enviado «para evangelizar aos mansos» (capítulo 61) e o Vencedor que vem de Edom «com as vestiduras tingidas» (Is 63,1). O livro termina com a promessa: «eis-aqui estou eu que crio uns céus novos, e uma terra nova» (Is 65,17), e com a reunião de todas as nações que verão a sua glória (capítulo 66).
O que o profeta Isaías pregava? Temas e leitura católica
O Santo de Israel
Nenhum título de Deus é mais próprio de Isaías. A visão dos Serafins que clamam «Santo, Santo, Santo, Senhor Deus dos exércitos, cheia está tôda a terra da sua glória» (Is 6,3) domina todo o livro. A Igreja canta as palavras dos Serafins no Sanctus de cada Missa, e antes do Evangelho o sacerdote reza o Munda cor meum, pedindo a Deus, que purificou com uma brasa ardente os lábios do profeta Isaías, que purifique também o seu coração e os seus lábios. No domingo da Santíssima Trindade, as leituras do primeiro noturno das Matinas são justamente este capítulo 6.
A Virgem e o Emanuel
«Eis que uma virgem conceberá, e dará à luz um filho, e será chamado o seu nome Emanuel» (Is 7,14). São Mateus declara cumprida esta profecia no nascimento de Nosso Senhor: «Emanuel, que quer dizer, Deus conosco» (Mt 1,23). Contra os que traduziam “moça”, Santo Ireneu defendeu a leitura “virgem” da Setenta e dos Apóstolos, que a Igreja sempre manteve. Muitos Padres viram Nossa Senhora também na «vara do tronco de Jessé» (Is 11,1), a virga da Vulgata de onde brota a flor, que é Cristo.
O Messias, Rei e Deus
O Menino do capítulo 9 será chamado «admirável, conselheiro, Deus forte, pai do futuro século, príncipe da paz» (Is 9,6); o rebento de Jessé recebe o «Espírito de sabedoria e de entendimento, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de ciência e de piedade» (Is 11,2), e o espírito do temor do Senhor. Deste trecho, onde a Vulgata conta sete nomes, a Igreja tira o número dos sete dons do Espírito Santo. Esses títulos enchem a liturgia do Advento, e três das grandes antífonas “Ó” das Vésperas, O radix Jesse, O clavis David e O Emmanuel, ecoam Is 11,10, Is 22,22 e Is 7,14; você as reencontra no hino Ó vem, ó vem, Emanuel.
O Servo sofredor e a Paixão
O capítulo 53 é a profecia mais clara da Paixão em todo o Antigo Testamento: «Mas êle foi ferido pelas nossas iniqüidades, foi quebrantado pelos nossos crimes: O castigo que nos devia trazer a paz, caiu sôbre êle, e fomos sarados pelas suas pisaduras» (Is 53,5). O diácono Filipe, «principiando por esta Escritura, lhe anunciou a Jesus» (At 8,35); São Pedro faz eco: «Por cujas chagas fôstes vós sarados» (1 Pd 2,24). O Concílio de Trento ensina que Nosso Senhor, pela sua santíssima Paixão no lenho da cruz, nos mereceu a justificação e satisfez por nós a Deus Pai (sessão VI, capítulo 7). Veja a Paixão de Cristo.
O chamado das nações e a Igreja
Isaías vê as nações subirem à casa do Senhor e os reis caminharem «no esplendor do teu nascimento» (Is 60,3). Santo Ambrósio, conta Santo Agostinho nas Confissões (IX, 5), aconselhou-o a ler Isaías antes do batismo, porque ele anuncia mais claramente que os outros o Evangelho e o chamado dos gentios. Na Jerusalém nova os Padres leem a Igreja. E o Deus de Isaías tem pelos seus uma ternura de mãe: «Acaso pode uma mulher esquecer-se do seu menino de peito […]? Mas se ela se esquecer dêle, eu todavia não me esquecerei de ti» (Is 49,15).
Versículos mais conhecidos de Isaías
- Isaías 6,8: «Quem enviarei eu? E quem nos irá lá? Então disse eu: Aqui me tens a mim, envia-me» (Is 6,8).
- Isaías 7,14: «Eis que uma virgem conceberá, e dará à luz um filho» (Is 7,14).
- Isaías 9,6: «um filho nos foi dado a nós, e foi pôsto o principado sôbre o seu ombro» (Is 9,6), o intróito Puer natus est nobis da terceira Missa de Natal.
- Isaías 14,12: «Como caíste do céu, ó Lúcifer, tu que ao ponto do dia parecias tão brilhante?» (Is 14,12). Ao pé da letra é o rei de Babilônia; os Padres o aplicaram à queda de Satanás.
- Isaías 40,29-31: «Êle é o que dá fôrça ao cansado» (Is 40,29); «os que esperam no Senhor, terão sempre novas fôrças, tomarão asas como de águia, correrão e não se fatigarão, andarão e não desfalecerão» (Is 40,31).
- Isaías 41,10, o versículo mais procurado do livro: «Não temas porque eu sou contigo: Não te desencaminhes, porque eu sou o teu Deus: Eu te confortei, e auxiliei e a destra do meu justo te tomou» (Is 41,10). Pouco depois: «eu sou o Senhor teu Deus, que te tomo pela mão, e te digo: Não temas» (Is 41,13). E o versículo 20 dá o porquê: «Para que vejam, e saibam […] que a mão do Senhor fêz esta maravilha» (Is 41,20).
- Isaías 43,1-4: «Não temas, porque eu te remi, e te chamei pelo teu nome: Tu és meu. Quando tu passares pelas águas, eu serei contigo» (Is 43,1-2). O versículo 4, que as Bíblias modernas traduzem “és precioso aos meus olhos”, em Figueiredo diz: «Desde que te fizeste digno de honra diante de meus olhos, e glorioso, eu te amei» (Is 43,4).
- Isaías 43,18-19: «Não vos lembreis das coisas passadas […] Eis-aqui estou eu que faço novas maravilhas […] Abrirei no deserto um caminho» (Is 43,18-19).
- Isaías 45,8: «Derramai, ó céus, lá dessas alturas o vosso orvalho, e as nuvens chovam ao Justo: Abra-se a terra, e brote o Salvador» (Is 45,8), em latim Rorate caeli desuper, o canto do Advento.
- Isaías 53: o Servo «varão de dores» (Is 53,3), que «carregou com os pecados de muitos, e rogou pelos transgressores da lei» (Is 53,12).
- Isaías 54,10 e 54,17: «os montes serão abalados […] Porém a minha misericórdia não se apartará de ti» (Is 54,10); «Todo o instrumento, que tem sido fabricado contra ti, não terá préstimo» (Is 54,17). O versículo 15, também muito procurado, soa bem diferente na Vulgata: «o que para ti noutro tempo era estrangeiro, ajuntar-se-á a ti» (Is 54,15); é uma promessa de que os de fora se unirão a Sião.
- Isaías 55,8-11: «os meus pensamentos não são os vossos pensamentos» (Is 55,8); e a palavra de Deus é como a chuva e a neve: «Não tornará para mim vazia» (Is 55,11).
- Isaías 58,6-7, o jejum que agrada a Deus: «Parte o teu pão ao que tem fome, e introduze em tua casa os pobres, e os peregrinos» (Is 58,7).
- Isaías 60,22: «O mínimo dêles será sôbre mil, e o mais pequeno sôbre a nação mais forte: Eu o Senhor a seu tempo farei isto sùbitamente» (Is 60,22).
- Isaías 61,1: «O Espírito do Senhor repousou sôbre mim, porque o Senhor me encheu da sua unção» (Is 61,1). Nosso Senhor o leu em Nazaré e disse: «Hoje se cumpriu esta Escritura nos vossos ouvidos» (Lc 4,21).
- Isaías 64,4: «O ôlho não viu, exceto tu, ó Deus, o que tens preparado para os que te esperam» (Is 64,4), que São Paulo retoma em I Coríntios 2,9.
Isaías no cânon e na liturgia
Isaías é um livro protocanônico do Antigo Testamento, recebido pelos judeus e pelos cristãos e nomeado pelo Concílio de Trento entre os livros sagrados e canônicos (sessão IV, 1546). É o primeiro dos quatro profetas maiores, antes de Jeremias, Ezequiel e Daniel. Está em todas as Bíblias, e a numeração dos capítulos e dos versículos da Vulgata coincide em geral com a das Bíblias brasileiras mais usadas. O livro é também um dos mais antigos testemunhos do texto bíblico: o grande rolo de Isaías descoberto em 1947 na primeira gruta de Qumran, perto do mar Morto, contém os sessenta e seis capítulos e remonta ao século II antes de Cristo.
A liturgia romana de 1962 faz de Isaías o profeta do Advento e do Natal:
- no Breviário, as leituras das Matinas do Advento são trechos escolhidos de Isaías, do capítulo 1 ao 66, e as Matinas do Natal e da Epifania leem os capítulos 9, 40 e 52 (Natal), 55, 60 e 61-62 (Epifania);
- o intróito Populus Sion (Is 30,30) é o do II domingo do Advento; a comunhão do III domingo diz «Dizei aos pusilânimes: Tomai ânimo, e não temais» (Is 35,4);
- o intróito Rorate caeli (Is 45,8) é o do IV domingo do Advento e da quarta-feira das Têmporas, cujas leituras são quase todas de Isaías, entre elas a profecia da Virgem (Is 7,10-15), que é também a epístola da Anunciação (25 de março);
- o intróito Puer natus est nobis (Is 9,6) abre a terceira Missa de Natal, e o da Missa da aurora, Lux fulgebit, une Is 9,2 e 9,6;
- a epístola da Epifania é Is 60,1-6: «Levanta-te, esclarece-te, Jerusalém: Porque chegou a tua luz» (Is 60,1);
- na Quaresma, Isaías dá as epístolas da quinta, sexta e sábado depois das Cinzas (Is 38 e 58), da terça da primeira semana (Is 55,6-11) e da quarta e sábado da quarta semana; o intróito Laetare, Jerusalem do IV domingo é Is 66,10;
- na Semana Santa, a Missa da segunda-feira lê Is 50,5-10, e a da quarta-feira duas leituras de Isaías, o Vencedor que vem de Edom (Is 62,11; 63,1-7) e o quarto cântico do Servo inteiro (Is 53,1-12);
- na Vigília Pascal restaurada em 1955, Is 4,2-6 é uma das quatro profecias;
- a Imaculada Conceição (8 de dezembro) tira o intróito Gaudens gaudebo de Is 61,10, e a Natividade de São João Batista (24 de junho), o intróito e a epístola de Is 49;
- três cânticos de Isaías são cantados nas Laudes do saltério: Is 12 (Confitebor tibi, Domine), o cântico de Ezequias (Is 38) e Is 45,15-25, «Tu verdadeiramente és um Deus escondido, o Deus de Israel, o Salvador» (Is 45,15).
Acompanhe esses dias no calendário litúrgico e leia as leituras no Evangelho do dia.
Como ler Isaías
Leia-o nos seus tempos, como faz a Igreja: no Advento, no tempo da Paixão, na Epifania. Para uma primeira leitura, comece pelos capítulos 6-12; passe depois diretamente à consolação do capítulo 40 e leia até o fim; volte por último aos oráculos contra as nações. Onde o português do século XVIII parecer obscuro, o latim ao lado muitas vezes esclarece o sentido. Guarde o capítulo 53 para a Sexta-feira Santa, e os versículos de conforto dos capítulos 40-43 para os dias de cansaço e de medo: não como fórmula, mas como palavra de Deus a quem se confia a Ele.
Perguntas Frequentes
Quem foi Isaías na Bíblia?
Isaías, filho de Amós, foi um profeta de Jerusalém do século VIII antes de Cristo, chamado por Deus no Templo por volta de 740 e conselheiro dos reis de Judá Acaz e Ezequias. Anunciou o Emanuel nascido da Virgem e o Servo sofredor; a Igreja o venera como santo profeta.
Quem escreveu o livro de Isaías?
A Igreja sempre o recebeu como obra do profeta Isaías, que o livro nomeia desde o primeiro versículo e que o Novo Testamento cita com o seu nome para as duas metades. Em 1908 a Pontifícia Comissão Bíblica julgou não concludentes os argumentos modernos a favor de vários autores.
Como morreu o profeta Isaías?
A Bíblia não o diz. Segundo uma tradição antiga, referida por São Justino e por muitos Padres, ele foi martirizado sob o rei Manassés, serrado ao meio; a carta aos Hebreus aludiria a isso quando fala dos justos que «foram serrados pelo meio» (Hb 11,37).
O que significa o nome Isaías?
Em hebraico, Yeshayahu quer dizer “o Senhor é salvação”. O nome resume a mensagem do livro, que anuncia a salvação vinda de Deus e o Salvador que «brote» da terra (Is 45,8).
O que diz Isaías 41,10?
«Não temas porque eu sou contigo […] Eu te confortei, e auxiliei e a destra do meu justo te tomou.» É dito a Israel exilado e humilhado, a quem Deus promete a sua presença e o seu auxílio. O cristão o reza como ato de confiança, sabendo que Deus não promete tirar toda prova, mas estar com ele nela.
O que diz Isaías 53?
Isaías 53 descreve o Servo do Senhor desprezado, varão de dores, ferido pelas nossas iniquidades, levado como ovelha ao matadouro sem abrir a boca, que carrega os pecados de muitos. Toda a tradição reconhece nele a Paixão de Cristo, e a Igreja o lê na Quarta-feira Santa.
Quantos capítulos tem o livro de Isaías?
O livro de Isaías tem sessenta e seis capítulos, na Vulgata como nas Bíblias modernas.
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