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O Livro de Sofonias
O livro de Sofonias, nono dos profetas menores, abre com a imagem mais sombria do juízo, o «dia de ira» de onde vem o *Dies irae* da Missa de Réquiem, e termina com uma das mais alegres da Bíblia, o Senhor que exulta no meio do seu povo (Sofonias 3,17). Abaixo está o texto completo do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feito sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica quem foi Sofonias, quando profetizou, do que fala o livro e como a Igreja o canta.
Ler Sofonias: 3 capítulos
Sofonias é o nono dos doze profetas menores, entre Habacuque e Ageu. O seu livro é um dos mais curtos do Antigo Testamento, três capítulos e cinquenta e três versículos, e no entanto uma das suas linhas ressoou durante séculos em cada Missa de Réquiem: em latim, o capítulo 1 traz as palavras Dies irae, dies illa, "dia de ira, aquele dia". O mesmo livro que se abre com a imagem mais sombria do juízo termina com uma das mais alegres de toda a Bíblia: Deus que se alegra com o seu povo e exulta por ele. Eis o que se sabe do profeta, do seu tempo e da sua mensagem.
Quem foi o profeta Sofonias?
O primeiro versículo dá uma genealogia excepcional: «Palavra do Senhor que foi dirigida a Sofonias, filho de Cusi, filho de Godolias, filho de Amarias, filho de Ezecias, em tempo de Josias, filho de Amon, rei de Judá» (Sf 1,1). Nenhum outro profeta remonta assim à quarta geração. Muitos comentadores concluíram que esse Ezecias é o santo rei Ezequias, o que faria de Sofonias um príncipe de sangue real, parente distante do rei Josias; outros julgam a coisa possível mas não provada, já que o texto não dá a Ezecias o título de rei.
O nome Sofonias significa provavelmente "o Senhor escondeu" ou "o Senhor protege". O profeta vivia em Jerusalém, cujas portas e bairros conhece bem: «desde a porta dos peixes», a "Segunda", os outeiros (Sf 1,10). A Escritura não o nomeia em nenhum outro lugar, e nada sabemos da sua vida além do que diz o seu livro.
Quem escreveu o livro de Sofonias?
O próprio profeta, segundo o título e toda a tradição judaica e cristã. O livro é curto e bem construído: o juízo sobre Judá, o juízo sobre as nações, a promessa final. Alguns autores modernos atribuem certos versículos de esperança a acréscimos posteriores; a tradição leu o livro como a obra de um só profeta, e a passagem do juízo à alegria é o próprio movimento da sua mensagem.
Quando Sofonias profetizou?
«Em tempo de Josias», que reinou de 640 a 609 antes de Cristo. Vários indícios situam a profecia no começo desse reinado, antes da grande reforma religiosa do ano 622 contada no IV Livro dos Reis (IV Reis 23,4, 2 Reis nas Bíblias modernas): o profeta ainda denuncia «as relíquias de Baal» (Sf 1,4), «os que adoram a milícia do céu sôbre os telhados» e os que juram por Melcom (Sf 1,5), e os príncipes «que se vestem de trajes estrangeiros» (Sf 1,8). Todas essas práticas foram abolidas pela reforma; a pregação de Sofonias pode ter ajudado a prepará-la.
O profeta anuncia também a ruína de Nínive como coisa por vir (Sf 2,13): escreve, portanto, antes de 612. É contemporâneo do começo de Jeremias, chamado «aos treze anos do seu reinado» de Josias (Jr 1,2), e de Naum. Santo Agostinho os aproxima: Sofonias profetizou no tempo de Jeremias.
Do que fala o livro de Sofonias? Resumo
O dia de ira sobre Judá e sobre o mundo (capítulo 1)
O capítulo 1 começa com uma ameaça universal, que inverte a ordem da criação: homens e gado, aves do céu e peixes do mar, «E exterminarei os homens de cima da terra, diz o Senhor» (Sf 1,3). Depois o juízo se concentra em Judá e Jerusalém, na idolatria e nos que se desviaram do Senhor, «e os que não buscaram ao Senhor, nem trabalharam pelo achar» (Sf 1,6). O profeta pede silêncio: «Estai em silêncio diante da face do Senhor Deus: Porque o dia do Senhor está perto, porque o Senhor preparou a vítima» (Sf 1,7).
Deus vai revistar a cidade até os cantos: «Eu esquadrinharei a Jerusalém com muitas luzes: E virei com a minha visita sôbre os homens que estão encravados nas suas fezes: Que dizem nos seus corações: O Senhor não nos há-de fazer nem bem, nem fará mal» (Sf 1,12). É o pecado da indiferença, de quem não nega a Deus mas vive como se ele não agisse.
Então explode o grande oráculo: «O dia grande do Senhor está próximo, está próximo e êle se vem chegando a grandes passos» (Sf 1,14); «Êsse dia será um dia de ira, um dia de tribulação e angústia, um dia de calamidade e miséria, um dia de trevas e de escuridade, um dia de névoas e remoinhos» (Sf 1,15); «Um dia em que soará a trombeta e a algazarra sôbre as cidades fortificadas» (Sf 1,16). Nada poderá resgatar os culpados: «Mas nem ainda a sua prata e o seu ouro os não poderá livrar no dia da ira do Senhor» (Sf 1,18).
O chamado à humildade e o juízo das nações (capítulo 2)
O capítulo 2 abre uma porta: «Vinde todos, ajuntai-vos» (Sf 2,1), antes que chegue o dia. O apelo se dirige aos humildes: «Buscai o Senhor, todos vós os que sois mansos na terra, vós os que obrastes segundo os seus preceitos: Buscai a justiça, buscai a mansidão: Para ver se podeis achar algum asilo no dia do furor do Senhor» (Sf 2,3).
O juízo se estende depois aos quatro pontos cardeais: a oeste os filisteus, «Porque Gaza será destruída, e Ascalon virá a ser um deserto» (Sf 2,4); a leste Moab e Amon: «Moab virá a ser como Sodoma, e os filhos de Amon como Gomorra» (Sf 2,9); ao sul os etíopes (Sf 2,12); ao norte a Assíria, cuja capital será um deserto onde os animais farão morada (Sf 2,14). A cidade orgulhosa dizia no seu coração: «Eu sou a única, e depois de mim não há outra» (Sf 2,15). Mas no meio dessas ruínas, um anúncio universal: «E adorá-lo-ão todos, cada um desde o seu país, tôdas as Ilhas das gentes» (Sf 2,11).
Jerusalém julgada, os povos purificados, a filha de Sião consolada (capítulo 3)
O capítulo 3 volta a Jerusalém: «Ai da cidade provocadora» (Sf 3,1). «Os seus príncipes são no meio dela como uns leões rugindo: Os seus juízes como uns lôbos que devoram a sua prêsa à tarde» (Sf 3,3), os seus profetas não têm fé, os seus sacerdotes profanaram o santuário (Sf 3,4). E no entanto «O Senhor como justo que é no meio dela não fará injustiça» (Sf 3,5).
Deus anuncia que reunirá as nações para o juízo (Sf 3,8), e logo transforma a ameaça em promessa: «Então é que eu darei aos povos uns lábios escolhidos, para que todos invoquem o nome do Senhor, e se submetam todos ao seu jugo num mesmo espírito» (Sf 3,9). Os adoradores virão «da outra banda dos rios da Etiópia» (Sf 3,10).
Deus purifica também o seu povo do orgulho: «E deixarei no meio de ti um povo pobre, e necessitado: E êles esperarão no nome do Senhor» (Sf 3,12). E o resto será sem mentira: «As relíquias de Israel não cometerão iniqüidades, nem proferirão a mentira» (Sf 3,13). O livro irrompe então num canto de alegria, comentado abaixo, e termina com a volta dos exilados: «E salvarei o que coxeava» (Sf 3,19).
Sofonias 3,14-17: «O Senhor teu Deus, o forte, está no meio de ti»
É a passagem mais procurada do livro. Começa com um convite à alegria: «Entoa cânticos de louvor, filha de Sião: Enche-te, Israel, de júbilo: Alegra-te e exulta de todo o coração, filha de Jerusalém» (Sf 3,14). A razão vem em seguida: «O Senhor, que é o rei de Israel, está no meio de ti; tu não temerás mais para o diante mal algum» (Sf 3,15), e por isso «Não temas: Não se enfraqueçam as tuas mãos, ó Sião» (Sf 3,16).
O versículo 17 é talvez o mais terno de todos os profetas: «O Senhor teu Deus, o forte, está no meio de ti, êle mesmo te salvará: Êle se regozijará em ti com alegria, calar-se-á por seu amor, exultará por teu respeito com louvor» (Sf 3,17). Em latim: gaudebit super te in laetitia, silebit in dilectione sua, exsultabit super te in laude. Não é só o povo que se alegra em Deus: é Deus que se alegra no povo. E entre a alegria e o louvor há um silêncio, silebit in dilectione sua: o silêncio do amor que não precisa de palavras, ou, como entenderam outros comentadores, o silêncio do Deus que não lembra mais as faltas perdoadas.
Os dois versículos da filha de Sião foram aproximados por muitos exegetas católicos da saudação do anjo a Maria: «Deus te salve, cheia de graça: O Senhor é contigo» (Lc 1,28), e do «Não temas, Maria» que se segue (Lc 1,30). Sem fazer disso uma profecia explícita, pode-se ver aí a preparação do mistério em que a Filha de Sião por excelência recebe em si o Rei de Israel.
Temas e leitura católica
O dia de ira e o Juízo final. O profeta via primeiro no dia do Senhor a ruína próxima de Jerusalém, que aconteceu em 587. A Igreja sempre entendeu nele também o Juízo final, como faz o Novo Testamento: São Paulo fala de quem entesoura «ira no dia da ira, e da revelação do justo juízo de Deus» (Rm 2,5), e o Apocalipse exclama: «Porque chegou o grande dia da ira dêles: E quem poderá subsistir?» (Ap 6,17). O dia de Sofonias é assim o modelo da pregação cristã sobre os novíssimos.
O Dies irae. A Vulgata de Sofonias 1,15 começa por Dies irae dies illa, dies tribulationis et angustiae. A grande sequência medieval da Missa dos mortos, atribuída com frequência ao franciscano Tomás de Celano, no século XIII, tomou as suas primeiras palavras desse versículo: Dies irae, dies illa, solvet saeclum in favilla. O responsório Libera me, último responsório das Matinas dos defuntos, também retoma as palavras do profeta: Dies illa, dies irae, calamitatis et miseriae. Cada vez que a Igreja canta pelos seus mortos segundo o rito tradicional, ela canta Sofonias, e o transforma em súplica: o juiz temível é também o Rex tremendae majestatis que salva gratuitamente. O nosso artigo sobre a oração pelos mortos situa esses cantos na piedade católica.
O chamado das nações. Santo Agostinho, em A Cidade de Deus (XVIII, 33), lê vários versículos de Sofonias como profecias de Cristo. A Vulgata do versículo 3,8 traz in die resurrectionis meae, e Figueiredo traduz fielmente: «Portanto espera-me, diz o Senhor, para o dia vindoiro da minha ressurreição» (Sf 3,8); Agostinho vê aí a Ressurreição de Cristo, depois da qual as nações são reunidas e adoram a Deus, cada uma no seu lugar. Os lábios purificados dos povos aparecem como o contrário de Babel, onde «sucedeu a confusão de tôdas as línguas do mundo» (Gn 11,9): em Pentecostes, as línguas divididas se reúnem no louvor do mesmo Deus.
O resto pobre e humilde. Deus não salva os poderosos, mas «um povo pobre, e necessitado». O apelo do capítulo 2, «Buscai o Senhor, todos vós os que sois mansos na terra», anuncia a bem-aventurança: «Bem-aventurados os mansos: Porque êles possuirão a terra» (Mt 5,4); veja as bem-aventuranças. O Apocalipse retoma quase o versículo 3,13 para os resgatados: «E na sua bôca não se achou mentira» (Ap 14,5). É a Igreja dos humildes, cuja exaltação a Virgem canta no Magnificat.
Versículos mais conhecidos de Sofonias
- Sofonias 1,7: «Estai em silêncio diante da face do Senhor Deus: Porque o dia do Senhor está perto».
- Sofonias 1,12: «Eu esquadrinharei a Jerusalém com muitas luzes».
- Sofonias 1,14: «O dia grande do Senhor está próximo».
- Sofonias 1,15: «Êsse dia será um dia de ira, um dia de tribulação e angústia».
- Sofonias 2,3: «Buscai o Senhor, todos vós os que sois mansos na terra».
- Sofonias 3,9: «Então é que eu darei aos povos uns lábios escolhidos, para que todos invoquem o nome do Senhor».
- Sofonias 3,12: «E deixarei no meio de ti um povo pobre, e necessitado».
- Sofonias 3,14: «Entoa cânticos de louvor, filha de Sião».
- Sofonias 3,17: «O Senhor teu Deus, o forte, está no meio de ti, êle mesmo te salvará».
Sofonias no cânon e na liturgia
Sofonias é um livro protocanônico, recebido pelos judeus e por todos os cristãos; o Concílio de Trento, na sessão IV (1546), o nomeia entre os doze profetas menores. Ocupa o nono lugar no hebraico como na Vulgata, e está em todas as Bíblias com a mesma divisão em capítulos e versículos. O texto latino é a tradução de São Jerônimo sobre o hebraico.
No rito de 1962, Sofonias se ouve sobretudo através da liturgia dos defuntos: a sequência Dies irae, cantada na Missa de Réquiem e na Comemoração de todos os fiéis defuntos, a 2 de novembro (veja o nosso artigo sobre Finados), e o responsório Libera me, que fecha as Matinas do Ofício dos defuntos. No Breviário romano, o livro é lido nas Matinas de novembro com os outros profetas menores, no fim do ano litúrgico: no ciclo das leituras, na quarta-feira depois do V domingo de novembro. Você pode acompanhar esses dias no calendário litúrgico.
Como ler o livro de Sofonias
Leia o capítulo 1 devagar, em latim se puder, e releia depois a sequência Dies irae: você verá como a Igreja fez de uma ameaça uma oração. Leia o capítulo 2 como um apelo pessoal à humildade. Guarde o capítulo 3 para o Advento ou para os tempos de consolação: ele ensina que a última palavra de Deus não é a ira, mas a alegria que ele tem no seu povo. Para seguir os profetas, abra Ageu, capítulo 1, ou volte à página da Bíblia.
Perguntas Frequentes
Quem foi Sofonias na Bíblia?
Sofonias, filho de Cusi, profetizou em Jerusalém sob o rei Josias, no século VII antes de Cristo. A sua genealogia remonta a um Ezecias que muitos identificam com o rei Ezequias, o que faria dele um descendente da família real. Não se sabe nada da sua vida além do que diz o seu livro.
Quem escreveu o livro de Sofonias e quando?
O próprio profeta, sob Josias, rei de Judá de 640 a 609 antes de Cristo, e provavelmente antes da reforma religiosa de 622, já que ainda denuncia o culto de Baal e dos astros. Anuncia também a queda de Nínive, ocorrida em 612. Sofonias é contemporâneo do começo de Jeremias.
Do que fala o livro de Sofonias?
Anuncia o dia do Senhor, dia de ira contra a idolatria e a injustiça de Judá e contra as nações vizinhas. Chama os humildes a buscar o Senhor para achar abrigo nesse dia. Termina com a promessa de um resto pobre e fiel, com a conversão dos povos e com um canto de alegria à filha de Sião.
Qual é a relação entre Sofonias e o Dies irae?
A Vulgata de Sofonias 1,15 começa por Dies irae dies illa, "dia de ira, aquele dia". A sequência medieval da Missa dos mortos tomou desse versículo as suas primeiras palavras, e o responsório Libera me do Ofício dos defuntos também o retoma. Sofonias é, assim, cantado na liturgia dos defuntos segundo o rito tradicional.
O que significa Sofonias 3,17?
Que Deus não é apenas o objeto da alegria do seu povo, mas que ele mesmo se alegra no seu povo: está no meio dele, salva-o, regozija-se nele, cala-se por amor e exulta com louvor. Depois dos anúncios de juízo, é a última palavra do livro sobre o coração de Deus.
O que quer dizer «Eu esquadrinharei a Jerusalém com muitas luzes»?
É a imagem de um juízo ao qual nada escapa: Deus procura nos cantos da cidade os que adormeceram no seu bem-estar e dizem «O Senhor não nos há-de fazer nem bem, nem fará mal». O profeta visa a indiferença religiosa mais ainda que a impiedade aberta. O versículo convida ao exame de consciência à luz de Deus.
Quantos capítulos tem o livro de Sofonias?
Três capítulos e 53 versículos, com a mesma divisão na Vulgata, em Figueiredo e nas Bíblias modernas. O livro se lê em quinze minutos.
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Acesso antecipado