A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
O livro de Jeremias
Jeremias, o profeta dos últimos dias de Jerusalém, pregou durante quase meio século a conversão, anunciou a ruína do Templo e prometeu uma nova aliança escrita nos corações. Abaixo estão os cinquenta e dois capítulos na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado; o guia apresenta quem foi o profeta, quem escreveu o livro e quando, o resumo, os versículos mais procurados e o lugar de Jeremias na liturgia.
Ler Jeremias: 52 capítulos
Jeremias é o segundo dos profetas maiores, depois de Isaías e antes de Ezequiel e de Daniel. Com cinquenta e dois capítulos e mais de mil e trezentos versículos, é um dos livros mais longos da Bíblia, e se lê quase como o diário de uma vida: oráculos, visões, gestos proféticos feitos pelas ruas, orações arrancadas de um coração ferido e a crônica dos últimos anos do reino de Judá. Nenhum profeta se mostrou tanto quanto ele, e nenhum anunciou tão de perto, com a própria vida, os sofrimentos de Cristo.
Quem foi o profeta Jeremias?
Jeremias nasceu numa família sacerdotal de Anatot, uma aldeia da tribo de Benjamim a poucos quilômetros a nordeste de Jerusalém. O primeiro versículo do livro o apresenta assim: «Palavras de Jeremias, filho de Helcias: Um dos sacerdotes, que viviam em Anatot, na terra de Benjamim» (Jr 1,1). O significado do nome é incerto: costuma-se explicá-lo por “o Senhor exalta” ou “o Senhor estabelece”, mas os estudiosos não estão de acordo.
O chamado de Jeremias
Foi chamado muito jovem, por volta de 627 antes de Cristo, e quis recusar: «Ah, ah, ah, Senhor Deus: Tu bem vês que eu não sei falar, porque eu sou um menino» (Jr 1,6). Deus lhe respondeu com o versículo mais conhecido do livro: «Antes que eu te formasse no ventre de tua mãe, te conheci: E antes que tu saísses da clausura do ventre materno, te santifiquei, e te estabeleci Profeta entre as gentes» (Jr 1,5). Depois tocou a sua boca: «Eis-aí te pus na tua bôca as minhas palavras» (Jr 1,9).
A vida do profeta
Deus lhe ordenou que não se casasse, para que a sua própria solidão fosse um sinal da desgraça que vinha: «Tu não tomarás mulher, nem terás filhos, nem filhas neste lugar» (Jr 16,2). Durante mais de quarenta anos falou contra a idolatria, a injustiça e a falsa segurança dos chefes, e recebeu em troca açoites, prisão, processos e acusações de traição. Foi jogado numa cisterna cheia de lama e tirado de lá por um servo etíope do rei. Depois da queda da cidade, os sobreviventes de Judá, contra o seu conselho, fugiram para o Egito e o levaram consigo: «E vieram até Tafnis» (Jr 43,7), no delta do Nilo.
Como morreu Jeremias?
A Escritura não o diz. Uma tradição antiga, recolhida pelos Padres, quer que ele tenha sido apedrejado pelo seu povo em Tafnis, no Egito. É uma tradição, não um dado da Bíblia, e assim deve ser apresentada.
Por que Jeremias é chamado o profeta das lamentações?
Porque chorou abertamente sobre o seu povo: «Quem dará água à minha cabeça, e uma fonte de lágrimas a meus olhos? e eu chorarei de dia e de noite os mortos da filha do meu povo» (Jr 9,1). A tradição lhe atribui também as Lamentações sobre a cidade destruída, que a Vulgata põe logo depois do seu livro.
Quem escreveu o livro de Jeremias?
A Igreja sempre recebeu este livro como obra do profeta Jeremias, escrita com a ajuda do seu secretário Baruc, filho de Nerias. É o próprio livro que conta como nasceu. No quarto ano do rei Joaquim, Jeremias ditou todas as suas profecias: «escreveu Baruc da bôca de Jeremias no rôlo do livro tôdas as palavras, que o Senhor lhe tinha dito» (Jr 36,4), e Baruc as leu em voz alta no Templo.
O rei mandou lê-las diante de si e, à medida que se lia, cortou o rolo «com o canivete do escriba, e o lançou no fogo» (Jr 36,23). O profeta o mandou escrever de novo, «E ainda foram acrescentadas muitas mais palavras, que as que tinha havido no primeiro» (Jr 36,32). O livro cresceu junto com o ministério do profeta, e isso explica por que está ordenado em parte por assuntos e não por datas. Baruc deixou também um livro seu, que na Vulgata vem depois das Lamentações: o livro de Baruc.
O capítulo 51 se fecha com uma nota: «Até aqui as palavras de Jeremias» (Jr 51,64). O capítulo 52 retoma quase ao pé da letra o relato da queda de Jerusalém do IV Livro dos Reis (2 Reis nas Bíblias modernas): é um apêndice histórico, acrescentado para mostrar cumpridas as profecias.
A própria Escritura atribui o livro a Jeremias. O II Livro dos Paralipômenos fala da «palavra do Senhor pronunciada por bôca de Jeremias» sobre os setenta anos de exílio (2 Cr 36,21); Daniel lê nos livros santos o número dos anos «do qual o Senhor falou ao profeta Jeremias» (Dn 9,2); São Mateus o nomeia três vezes. Muitos autores modernos pensam que redatores posteriores deram forma às partes em prosa; a Igreja tem o livro inteiro por inspirado, e Jeremias, ajudado por Baruc, por seu autor.
Quando foi escrito o livro de Jeremias?
Jeremias recebeu a palavra do Senhor «nos dias de Josias, filho de Amon, rei de Judá, aos treze anos do seu reinado» (Jr 1,2), por volta de 627 antes de Cristo. Pregou sob Joaquim, Jeconias e Sedecias, «até o tempo da transmigração de Jerusalém, no quinto mês» (Jr 1,3), e depois seguiu para o Egito o resto de Judá. O seu ministério cobriu, portanto, pelo menos quarenta anos, entre o fim do século VII e o começo do VI, e o livro foi composto nesses anos.
Reis e falsos profetas prometiam que o Templo nunca cairia; Jeremias foi enviado para dizer que cairia, e que o caminho da vida era a conversão e a submissão a Babilônia. Nabucodonosor tomou Jerusalém no undécimo ano de Sedecias, em 587 ou 586, e «Queimaram outrossim os caldeus o palácio do rei, e a casa do povo» (Jr 39,8). A mesma história se lê no IV Livro dos Reis, capítulos 24 e 25. O apêndice termina com a graça concedida a Joaquim (Joaquin) na Babilônia, «no ano trigésimo sétimo da transmigração» (Jr 52,31), por volta de 561.
Do que fala o livro de Jeremias? Resumo
O livro não segue a ordem cronológica; lê-se melhor por grandes blocos.
A vocação do profeta (capítulo 1)
No capítulo 1 Deus chama um jovem que recua, toca a sua boca e lhe dá autoridade «sôbre as gentes, e sôbre os reinos, para arrancares, e destruíres, e para arruinares, e dissipares, e para edificares, e plantares» (Jr 1,10). Seguem duas visões. A primeira é a que tantos leitores pedem para entender: «Eu vejo uma vara vigilante» (Jr 1,11).
Em hebraico o ramo é de amendoeira, shaqed, a árvore que na Palestina floresce primeiro, como que “vigiando” o fim do inverno; e Deus responde com uma palavra de mesmo som, shoqed, “vigilante”: «eu vigiarei sôbre a minha palavra para a cumprir» (Jr 1,12). A segunda visão é uma panela fervendo que vem do norte, de onde virá o invasor. O capítulo se fecha com uma promessa: «eu te pus hoje como uma cidade fortificada, e como uma coluna de ferro, e como um muro de bronze» (Jr 1,18); «E pelejarão contra ti, mas não prevalecerão: Porque eu sou contigo para te livrar» (Jr 1,19).
As advertências a Judá e a Jerusalém (capítulos 2-25)
Nos capítulos 2-6 Israel é uma esposa infiel que deixou a fonte de água viva, e Deus a chama de volta: «Torna, pérfida Israel, diz o Senhor e não apartarei a minha face de vós» (Jr 3,12). O grande discurso do Templo, no capítulo 7, desmascara quem repete «Templo do Senhor, templo do Senhor» (Jr 7,4) enquanto rouba, mata e serve a Baal: «esta minha casa, onde foi invocado o meu nome diante de vossos olhos, não é assim que está feita um covil de ladrões?» (Jr 7,11). Nosso Senhor retomará essas palavras ao expulsar os vendilhões do Templo: «vós a tendes feito covil de ladrões» (Mt 21,13).
Vêm depois as profecias em gestos: o cinto de linho deixado a apodrecer junto ao Eufrates (capítulo 13), o celibato imposto, o oleiro do capítulo 18, «como o barro está na mão do oleiro, assim vós estais na minha mão, casa de Israel» (Jr 18,6), e o vaso de barro quebrado no Tofet (capítulo 19).
Entre um gesto e outro afloram as “confissões” do profeta, orações de angústia que vão do cordeiro levado ao matadouro (capítulo 11) ao grito do capítulo 20: «Tu me seduziste, Senhor, e eu fui seduzido: Fôste mais forte do que eu» (Jr 20,7). Os capítulos 21-24 julgam os últimos reis e os maus pastores e prometem um verdadeiro Rei da linhagem de Davi; o capítulo 25 fixa a duração da servidão: «tôdas estas gentes servirão ao rei de Babilônia setenta anos» (Jr 25,11).
Os conflitos com sacerdotes, profetas e reis (capítulos 26-29)
Processado depois do discurso do Templo, Jeremias escapa da morte graças a Aicão, filho de Safan (capítulo 26). Leva uma canga pelas ruas de Jerusalém para mostrar que as nações devem dobrar-se a Babilônia; o falso profeta Ananias a quebra e morre naquele mesmo ano, como Jeremias lhe anunciara (capítulos 27 e 28). No capítulo 29 o profeta escreve aos exilados já deportados: construam casas, plantem hortas, «E buscai a paz da cidade, para a qual vos fiz transferir: E orai por ela ao Senhor» (Jr 29,7), porque Deus os fará voltar ao fim dos setenta anos. É nessa carta que está o célebre versículo 11.
O livro da Consolação (capítulos 30-33)
No auge do cerco chega a parte mais luminosa do livro. Os capítulos 30 e 31 anunciam a volta, Raquel consolada e uma aliança nova escrita no coração. No capítulo 32, com os caldeus às portas e ele mesmo na prisão, Jeremias compra o campo do primo em Anatot, como penhor da promessa: «Ainda se comprarão casas e campos, e vinhas nesta terra» (Jr 32,15). O capítulo 33 promete a Davi «um gérmen de justiça» (Jr 33,15).
O cerco, a queda e a fuga para o Egito (capítulos 34-45)
É sobretudo história, em grande parte na prosa sóbria de Baruc. Os recabitas permanecem fiéis à ordem do seu pai, enquanto Judá não permanece fiel à de Deus (capítulo 35); Joaquim queima o rolo (capítulo 36). Durante o último cerco Jeremias é espancado, preso e depois descido com cordas a uma cisterna «onde não havia água, senão lôdo: E assim se atolou Jeremias no lôdo» (Jr 38,6), até que o etíope Abdemelec o manda tirar.
Jerusalém cai (capítulo 39); o profeta fica com o governador Godolias até o seu assassinato (capítulos 40 e 41). Adverte os sobreviventes: «Não entreis no Egito» (Jr 42,19); eles o arrastam consigo, e lá ele repreende o culto que prestam à “rainha do céu” (capítulo 44). Uma palavra de conforto dirigida a Baruc encerra a seção (capítulo 45).
Os oráculos contra as nações (capítulos 46-51)
Como anunciava a sua vocação, Jeremias profetiza às nações: Egito, filisteus, Moab, Amon, Edom, Damasco, Cedar e Asor, Elam (capítulos 46-49). Por último, e mais longamente, Babilônia, instrumento do juízo de Deus, que cairá por sua vez (capítulos 50 e 51). Na Setenta grega esses oráculos estão depois do capítulo 25 e em outra ordem, e o texto grego é, no conjunto, cerca de um oitavo mais curto. São Jerônimo traduziu do hebraico e, como escreve no prólogo, restituiu à ordem original as visões que os leitores gregos e latinos achavam confusas.
O apêndice histórico (capítulo 52)
O último capítulo conta a captura de Sedecias, o incêndio do Templo, a deportação e a graça concedida a Joaquin em Babilônia: as profecias se cumpriram, mas resta um fio de esperança para a casa de Davi.
O que o livro de Jeremias nos ensina? Temas e leitura católica
Um amor mais forte que o pecado
Todo o livro é uma defesa que Deus faz do seu povo contra o próprio povo: «com amor eterno te amei, por isso compadecido de ti, te atraí a mim» (Jr 31,3). O castigo só chega depois de décadas de advertências, e o seu fim é a cura. A imagem central do pecado é a do abandono: «Deixaram-me a mim, fonte de água viva, e cavaram para si cisternas, cisternas rôtas, que não podem reter as águas» (Jr 2,13). Por isso a Igreja lê Jeremias na Quaresma: é o livro da volta.
A religião do coração
Jeremias não despreza o Templo nem os sacrifícios; condena a confiança posta neles sem conversão. «Depravado é o coração de todos, e impenetrável: Quem o conhecerá? Eu sou o Senhor que esquadrinho o coração, e que sondo os afetos» (Jr 17,9-10). O mesmo capítulo opõe o homem «que confia no homem e põe a carne por seu arrimo» ao «varão, que confia no Senhor, e de quem o Senhor fôr a esperança» (Jr 17,5-7).
A nova aliança
O ponto mais alto do livro é Jeremias 31,31-34: «Eis-aí, virão os dias, diz o Senhor: E farei nova aliança com a casa de Israel, e com a casa de Judá» (Jr 31,31); «Imprimirei a minha lei nas suas entranhas, e a escreverei nos seus corações» (Jr 31,33); «Porque perdoarei a maldade dêles, e não me lembrarei mais do seu pecado» (Jr 31,34). A carta aos Hebreus cita todo o trecho como cumprido em Cristo: «um testamento novo» (Hb 8,8). Na Última Ceia Nosso Senhor chamou o cálice «o Novo Testamento em meu sangue» (Lc 22,20): é a aliança que se renova em cada Missa.
Jeremias, figura de Cristo
Toda a vida de Jeremias é uma profecia viva do Messias sofredor. Como Nosso Senhor, chorou sobre Jerusalém, anunciou a ruína do Templo e foi rejeitado pelos seus; alguns, aliás, pensavam que Jesus fosse «Jeremias, ou algum dos profetas» (Mt 16,14). A Igreja ouve a voz de Cristo no lamento do capítulo 11: «E eu era como um manso cordeiro, que é levado a ser vítima […] dizendo: Ponhamos o pau no seu pão» (Jr 11,19). Tertuliano, no Contra Marcião, já lê ali a figura do corpo de Cristo na cruz: o pão é o seu corpo, o lenho é a cruz. A Igreja proclama estes versículos na terça-feira da Semana Santa.
«Uma mulher cercará a um varão»
«porque o Senhor criou um novo prodígio sôbre a terra: Uma mulher cercará a um varão» (Jr 31,22). São Jerônimo, e depois dele muitos comentadores católicos, entendem o versículo da Virgem que concebe o Messias: a novidade inaudita é que uma mulher traga em si um homem perfeito, o Verbo encarnado, sem concurso de varão.
O bom pastor e o Rei justo
Deus condena os pastores «que perdem e que despedaçam a grei da minha pastagem» (Jr 23,1) e promete: «vos darei pastôres segundo o meu coração, os quais vos apascentarão com a ciência e com a doutrina» (Jr 3,15). Anuncia sobretudo um Germe para Davi, cujo nome será «o Senhor nosso justo» (Jr 23,6). Um nome assim só pertence a Deus, e a Igreja o lê de Cristo, Filho de Davi que é também o Senhor.
O profeta que reza pelo seu povo
No II Livro dos Macabeus Jeremias aparece em visão, e o sumo sacerdote Onias o apresenta assim: «Êste é o amador de seus irmãos, e do povo de Israel, êste é Jeremias, profeta de Deus, que ora muito pelo povo, e por tôda a santa cidade» (2 Mc 15,14). É um dos testemunhos bíblicos da intercessão dos santos por quem ainda vive na terra. O mesmo livro conta que o profeta escondeu a arca da aliança numa caverna do monte de Moisés (2 Mc 2,4-5).
Versículos mais conhecidos de Jeremias
- Jeremias 1,5: «Antes que eu te formasse no ventre de tua mãe, te conheci» (Jr 1,5). A Igreja o aplica também a São João Batista, santificado no seio materno; veja quem foi João Batista.
- Jeremias 1,19: «pelejarão contra ti, mas não prevalecerão: Porque eu sou contigo para te livrar, diz o Senhor».
- Jeremias 2,13: a fonte de água viva e as cisternas rotas, todo o pecado numa imagem.
- Jeremias 17,5-8: «Maldito o homem que confia no homem» e «Bem-aventurado o varão, que confia no Senhor» (Jr 17,5-8), com a árvore plantada junto às águas, que «em tempo de sêca não terá míngua».
- Jeremias 18,6: o barro na mão do oleiro.
- Jeremias 20,9: decidido a não falar mais em nome de Deus, o profeta sente no coração «um como fogo abrasador, e reconcentrou-se nos meus ossos» (Jr 20,9).
- Jeremias 29,11: «Porque eu sei os pensamentos, que eu tenho acêrca de vós, diz o Senhor, pensamentos de paz, e não de aflição, para vos dar o fim e a paciência» (Jr 29,11). Onde as Bíblias modernas falam de “futuro e esperança”, a Vulgata diz finem et patientiam: o bom termo da prova e a paciência para atravessá-la. Os versículos seguintes acrescentam: «Vós me buscareis, e vós me achareis: Quando me buscardes de todo o vosso coração» (Jr 29,13). É o intróito dos últimos domingos depois de Pentecostes: Dicit Dominus: Ego cogito cogitationes pacis, et non afflictionis.
- Jeremias 31,15: «uma voz da lamentação, do pranto, e do chôro de Raquel, que chorava seus filhos» (Jr 31,15). São Mateus o vê cumprido no massacre dos Inocentes: «Raquel chorando a seus filhos» (Mt 2,18), Evangelho da festa deles, em 28 de dezembro.
- Jeremias 32,27: «Eis-aqui estou eu que sou o Senhor Deus de tôda a carne: Haverá pois alguma coisa que seja difícil para mim?» (Jr 32,27).
- Jeremias 33,3: «Clama a mim, e eu te atenderei, e te anunciarei coisas grandes, e firmes que tu não sabes» (Jr 33,3).
- As trinta moedas: São Mateus escreve que então «se cumpriu o que foi anunciado ao profeta Jeremias» (Mt 27,9). As palavras estão mais próximas de Zacarias 11,12-13; Santo Agostinho examina a questão em A harmonia dos evangelistas.
Jeremias no cânon e na liturgia
Jeremias está entre os profetas maiores em todas as Bíblias, católicas, ortodoxas e protestantes, e a numeração dos capítulos é a mesma na Vulgata e nas Bíblias modernas. Na ordem da Vulgata, o livro é seguido pelas Lamentações, o pranto do profeta sobre a cidade destruída, e por Baruc, cujo capítulo 6 é a carta que Jeremias enviou aos deportados. O Concílio de Trento, na sessão IV (1546), o enumera entre os livros sagrados junto com Baruc.
A Igreja dá a Jeremias um lugar especial na Quaresma e no tempo da Paixão. No Missal de 1962, ele dá a epístola da quinta-feira da segunda semana da Quaresma (Jr 17,5-10), da quinta-feira da terceira semana (Jr 7,1-7), da sexta-feira (Jr 17,13-18) e do sábado (Jr 18,18-23) da semana da Paixão, e da terça-feira santa (Jr 11,18-20). A vigília da Natividade de São João Batista (23 de junho) lê a vocação do profeta (Jr 1,4-10), e a festa da Degolação (29 de agosto) lê Jr 1,17-19. O ofertório da Missa comum dos Sumos Pontífices é Jr 1,9-10, «Eis-aí te pus na tua bôca as minhas palavras»; e o intróito Dicit Dominus (Jr 29,11-14) volta nos últimos domingos depois de Pentecostes.
No Breviário romano, Jeremias dá as leituras do primeiro noturno do domingo da Paixão e do Domingo de Ramos, e das Matinas da terça e da quarta-feira santas, enquanto as Lamentações são cantadas nas Matinas do Tríduo, o antigo Ofício das Trevas. O capítulo das Laudes nos dias de semana do tempo da Paixão é Jr 11,19 (no domingo da Paixão é Hb 9,11), e o da Terça no Advento, Jr 23,5, o «germe justo» de Davi.
As Matinas dos Santos Inocentes leem Jr 31,15-23, e as do Sagrado Coração, os capítulos 24, 30 e 31. A quinta-feira, nas Laudes, se canta o cântico de Jeremias, «Ouvi, gentes, a palavra do Senhor» (Jr 31,10). E todas as noites, nas Completas, a Igreja reza o capítulo tirado deste livro: «mas tu, Senhor, entre nós estás, e o teu nome tem sido invocado sôbre nós, não nos desampares» (Jr 14,9). Acompanhe esses dias no calendário litúrgico.
Como ler o livro de Jeremias
Comece pelos capítulos 1 e 36: a vocação e a história do próprio livro. Leia depois o relato dos capítulos 37-44, para conhecer o homem e o seu tempo antes de enfrentar os oráculos, com o IV Livro dos Reis, capítulos 22-25, ao lado para o pano de fundo histórico. O livro da Consolação (capítulos 30-33) é o melhor lugar para rezar com Jeremias, e as suas “confissões” (capítulos 11-20) são uma escola de oração na provação: «Acharam-se os teus discursos, e eu os comi, e a tua palavra foi para mim o prazer e a alegria do meu coração» (Jr 15,16). Leia-o no tempo da Paixão, como faz a Igreja; a um capítulo por dia, você terá percorrido toda a profecia em menos de dois meses.
Perguntas Frequentes
Quem foi Jeremias na Bíblia?
Um profeta de Judá, filho do sacerdote Helcias de Anatot, chamado por volta de 627 antes de Cristo, sob o rei Josias. Pregou mais de quarenta anos em Jerusalém, anunciou a queda da cidade pelas mãos de Babilônia, foi perseguido e preso, e terminou os seus dias no Egito. A Igreja o venera como santo profeta.
Quem escreveu o livro de Jeremias?
A Igreja reconhece como autor o próprio profeta, que ditou as suas profecias ao secretário Baruc e as mandou escrever de novo depois que o rei Joaquim queimou o primeiro rolo. O último capítulo é um apêndice histórico, posto depois da nota «Até aqui as palavras de Jeremias».
Do que fala o livro de Jeremias?
Da pregação e da vida do profeta, desde o seu chamado até depois da destruição de Jerusalém, em 587 ou 586. Jeremias chama Judá a converter-se da idolatria e da injustiça, anuncia a ruína do Templo e setenta anos de exílio, e depois promete a volta e uma nova aliança escrita nos corações.
O que significa Jeremias 29,11?
«Eu sei os pensamentos, que eu tenho acêrca de vós, diz o Senhor, pensamentos de paz, e não de aflição.» O versículo é dirigido aos exilados de Babilônia, a quem o profeta pede que se estabeleçam por setenta anos. Não promete o fim imediato da provação, mas assegura que Deus a conduz a bom termo e dá a paciência para atravessá-la.
O que é a nova aliança anunciada por Jeremias?
No capítulo 31 Deus promete uma aliança diferente da do Sinai, na qual escreverá a sua lei nos corações e perdoará os pecados. A carta aos Hebreus ensina que ela se cumpriu em Cristo, e Nosso Senhor a selou na Última Ceia com o seu sangue, que a Igreja oferece em cada Missa.
Quantos capítulos tem o livro de Jeremias?
Cinquenta e dois capítulos e mais de mil e trezentos versículos, um dos livros mais longos da Bíblia. A numeração dos capítulos coincide na Vulgata e nas Bíblias modernas.
O que significa a vara vigilante de Jeremias?
No capítulo 1 o profeta vê um ramo de amendoeira, que Figueiredo, seguindo a Vulgata, chama «vara vigilante». Em hebraico, amendoeira e vigilante são duas palavras quase iguais: Deus diz assim que vigia sobre a sua palavra para cumpri-la, como a amendoeira é a primeira árvore a despertar do inverno.
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