A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
O livro de Baruc
O livro de Baruc, secretário do profeta Jeremias, foi escrito para os exilados da Babilônia: uma confissão dos pecados, um hino à Sabedoria, a consolação de Jerusalém e, no capítulo 6, a Carta de Jeremias contra os ídolos. Abaixo estão os seis capítulos na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado; o guia explica quem foi Baruc, quando escreveu, o resumo do livro e por que ele está na Bíblia católica.
Ler Baruc: 6 capítulos
Baruc é um dos livros proféticos mais curtos: seis capítulos ao todo. Vem logo depois de Jeremias e das Lamentações, e antes de Ezequiel, porque pertence a eles: o seu autor era o secretário de Jeremias, e a Igreja antiga o lia como uma parte do livro do seu mestre. Ausente da Bíblia hebraica e das Bíblias protestantes, faz parte dos livros deuterocanônicos que a Igreja sempre recebeu. Eis quem era o autor, quando escreveu, o que o livro contém e por que a Igreja o canta no Advento.
Quem foi Baruc?
A Igreja recebeu este livro como obra de Baruc, filho de Nerias, discípulo e secretário do profeta Jeremias. O primeiro versículo o apresenta com a sua genealogia: «E estas são as palavras do livro que escreveu Baruc, filho de Nerias, filho de Maasias, filho de Sedecias, filho de Sedei, filho de Helcias, em Babilônia» (Br 1,1). O nome, em hebraico Barukh, quer dizer “bendito”.
Baruc no livro de Jeremias
Conhecemos bem Baruc pela profecia de Jeremias. Foi testemunha da compra do campo de Anatot, e o profeta lhe confiou o contrato: «E dei a escritura de aquisição a Baruc, filho de Neri» (Jr 32,12). No quarto ano do rei Joaquim, «escreveu Baruc da bôca de Jeremias no rôlo do livro tôdas as palavras, que o Senhor lhe tinha dito» (Jr 36,4), e as leu ao povo na casa do Senhor.
Quando o rei queimou o rolo, Baruc o escreveu de novo, «E ainda foram acrescentadas muitas mais palavras, que as que tinha havido no primeiro» (Jr 36,32). Um capítulo inteiro, o 45 de Jeremias, é a palavra do Senhor dirigida a ele: «E tu buscas para ti coisas grandes? não nas busques» (Jr 45,5), mas a sua vida será salva aonde quer que vá. Depois da queda de Jerusalém, os chefes do povo o levaram para o Egito junto com o seu mestre: «e ao profeta Jeremias, e a Baruc, filho de Nerias» (Jr 43,6).
Quem escreveu o livro de Baruc?
A tradição o atribui ao próprio Baruc, como diz o título. Os Padres o citaram muitas vezes com o nome de Jeremias: Santo Ireneu, no livro V do Contra as heresias, reproduz o fim do capítulo 4 e o capítulo 5 como profecia de Jeremias. Santo Agostinho, na Cidade de Deus (livro XVIII, capítulo 33), cita os versículos do capítulo 3 sobre Deus «visto na terra» entre as profecias de Jeremias sobre Cristo, observando que alguns os atribuem ao seu secretário Baruc, mas que a atribuição a Jeremias é a mais comum.
O sexto capítulo tem um título próprio na Vulgata: é a cópia da carta que Jeremias enviou aos que iam ser levados cativos para Babilônia. A tradição o considera obra de Jeremias; na Vulgata e em Figueiredo ele forma o último capítulo de Baruc.
Muitos autores modernos pensam que o livro foi composto mais tarde, reunindo vários trechos, e que o capítulo 6 foi escrito diretamente em grego. São hipóteses que não tocam o essencial: ainda que um redator inspirado tivesse unido as partes, o caráter sagrado do livro, definido pela Igreja, permaneceria inteiro.
Quando foi escrito o livro de Baruc?
O livro se data a si mesmo: foi escrito «No ano quinto, aos sete dias do mês, no tempo em que os caldeus tomaram Jerusalém e lhes lançaram o fogo» (Br 1,2). Estamos, portanto, em Babilônia, uns cinco anos depois que Nabucodonosor destruiu Jerusalém e o Templo, no começo do século VI antes de Cristo. Baruc lê o livro diante do rei exilado Jeconias e dos exilados, «junto ao rio Sodi» (Br 1,4); e eles, «ouvindo-o, choravam, e jejuavam, e oravam na presença do Senhor» (Br 1,5). Depois mandam o livro a Jerusalém, com dinheiro para os sacrifícios.
Em que língua foi escrito?
A opinião tradicional é que Baruc escreveu em hebraico. Chegou até nós só o grego da Setenta, que tem toda a aparência de uma tradução, com as versões antigas feitas sobre ele. O próprio livro pede para ser lido «em alta voz no Templo do Senhor, em dia solene» (Br 1,14), o que supõe um texto destinado à assembleia de Israel. São Jerônimo, no prefácio a Jeremias, explica que não o traduziu porque os judeus do seu tempo não o liam nem o conservavam; por isso a Vulgata guarda para Baruc a antiga versão latina feita sobre o grego, e é sobre ela que trabalha Figueiredo.
Do que fala o livro de Baruc? Resumo
O livro tem cinco partes. Vai da penitência à sabedoria, da sabedoria à esperança, e termina com uma advertência contra a idolatria.
O livro enviado a Jerusalém (1,1-14)
No capítulo 1 os exilados ouvem a leitura, choram, jejuam e rezam. Mandam dinheiro ao sacerdote Joaquim para os holocaustos (Br 1,10) e pedem que se reze por Nabucodonosor e por eles: «Orai também ao Senhor nosso Deus por nós mesmos: Porque nós pecamos contra o Senhor nosso Deus» (Br 1,13). Rezar pelo rei que os deportou: é já a lição que São Paulo dará a Timóteo sobre a oração pelos governantes.
A confissão dos pecados (1,15 a 3,8)
A parte mais longa é uma confissão litúrgica, feita para ser dita em voz alta: «Ao Senhor nosso Deus seja atribuída a justiça, mas a nós a confusão do nosso rosto» (Br 1,15). Israel reconhece que não ouviu o Senhor desde a saída do Egito, e que as maldições anunciadas por Moisés se cumpriram. O capítulo 2 continua: «Nós pecamos, temos obrado com impiedade, temos vivido mal, ó Senhor nosso Deus» (Br 2,12).
Lembra a promessa de Deus: o povo «se converterá de coração na terra do seu cativeiro» (Br 2,30), e Deus fará com ele «outra aliança, que será eterna» (Br 2,35). A oração termina no começo do capítulo 3: «Ouve, Senhor, tem compaixão, porque és um Deus misericordioso» (Br 3,2). É muito próxima da oração de Daniel: «A justiça é tua, ó Senhor: A nós porém não nos resta senão a confusão do nosso rosto» (Dn 9,7).
O elogio da Sabedoria (3,9 a 4,4)
O tom muda: «Ouve, ó Israel, os mandamentos da vida: Aplica os teus ouvidos, para aprenderes a prudência» (Br 3,9). Se Israel está no exílio, é porque «Deixaste a fonte da sabedoria» (Br 3,12). Nem os príncipes das nações, nem os mercadores, nem os gigantes de outrora a encontraram: «Não escolheu o Senhor a êstes, nem êles acharam o caminho da disciplina: Por isso pereceram» (Br 3,27). Só Deus a conhece, Ele que chama as estrelas: «Foram chamadas, e disseram: Aqui estamos: E deram luz com alegria àquele que as fêz» (Br 3,35). O poema termina identificando a Sabedoria com a Lei: «Êste é o livro dos mandamentos de Deus e a lei que subsiste eternamente» (Br 4,1), o mesmo pensamento do capítulo 24 do Eclesiástico.
Jerusalém consola os seus filhos (4,5 a 5,9)
Uma voz volta sem cessar: «Tem melhor ânimo, ó povo de Deus» (Br 4,5); «Tende melhor ânimo, filhos» (Br 4,21); «Tem melhor ânimo, ó Jerusalém» (Br 4,30). Jerusalém fala como uma mãe viúva que viu os filhos partirem chorando e espera a sua volta: «Porque com chôro, e pranto vos vi partir: Mas o Senhor vos fará voltar a mim com gôzo, e alegria para sempre» (Br 4,23). Depois: «Olha, ó Jerusalém, para o Oriente, e vê o regozijo que te vem de Deus» (Br 4,36).
O capítulo 5 lhe manda tirar «os vestidos do teu luto» (Br 5,1), pôr-se no alto e olhar para o oriente os filhos reunidos. Deus determinou «aplanar todos os montes altos, e os rochedos imóveis, e encher os vales» (Br 5,7) para a sua volta: é a mesma imagem do capítulo 40 de Isaías, que São João Batista retomará.
A Carta de Jeremias (capítulo 6)
O último capítulo é uma pregação contra os ídolos. Em Babilônia os exilados verão «levados aos ombros deuses de ouro, e de prata, e de pedra, e de madeira» (Br 6,3). Esses deuses enferrujam, se cobrem de pó, não sabem defender-se nem dos ladrões nem do fogo; são «como o espantalho em um meloal» (Br 6,69). Cada desenvolvimento termina com o mesmo refrão: «Daqui sabei que não são deuses: E assim não os temais» (Br 6,22). O cativeiro durará «até sete gerações» (Br 6,2), que os comentadores aproximam dos setenta anos anunciados por Jeremias. A carta termina assim: «Melhor é o homem justo, que não tem ídolos: Porque estará longe de opróbrios» (Br 6,72).
O que o livro de Baruc ensina? Temas e leitura católica
A penitência precede a restauração. O livro ensina os exilados a acusar a si mesmos, e não a Deus, pela sua desgraça. A sua confissão tem a forma de todo verdadeiro ato de contrição: Deus é justo, e os nossos pecados são a causa das nossas penas. Não os mortos, mas «a alma, que está triste por causa da grandeza do mal, e anda encurvada» dá glória a Deus (Br 2,18). É o espírito do ato de contrição.
A Sabedoria desceu entre os homens. Os versículos mais célebres do livro fecham o hino à Sabedoria: «Êste é o nosso Deus, e não será reputado outro diante dêle. […] Depois disto foi êle visto na terra, e conversou com os homens» (Br 3,36-38). Santo Agostinho e muitos Padres os contam entre as profecias de Cristo: a Sabedoria que Deus tinha dado a Jacó sob a forma da Lei veio em pessoa morar conosco. Os profetas falam muitas vezes no passado do que há de vir, para marcar a sua certeza. O versículo conduz direto ao prólogo de São João: «E o Verbo se fêz carne, e habitou entre nós» (Jo 1,14).
A Lei é uma luz para caminhar. A sabedoria não é um segredo reservado aos doutos, mas os mandamentos que Deus revelou: «Todos os que a guardam, chegarão à vida» (Br 4,1).
Jerusalém espera os seus filhos. A mãe viúva que espera os filhos dispersos olha além da volta da Babilônia. Santo Ireneu leu estes capítulos como uma promessa do Reino, e a Igreja os canta no Advento, aplicando-os à vinda do seu Senhor e à reunião dos seus filhos.
Os ídolos não são nada. A Carta de Jeremias é uma sátira contínua da idolatria, um comentário vivo do primeiro mandamento. O exilado recebe ali uma oração para dizer dentro de si quando a multidão se prostra diante das estátuas: «Tu, Senhor, é que deves ser adorado» (Br 6,5).
Versículos mais conhecidos de Baruc
- Baruc 3,9: «Ouve, ó Israel, os mandamentos da vida», a abertura do hino à Sabedoria; em latim Audi, Israel, mandata vitae.
- Baruc 3,14: «Aprende onde está a prudência, onde está a virtude, onde está a inteligência».
- Baruc 3,26: «Ali estiveram aquêles gigantes famosos, que houve desde o princípio, de grande estatura, destros na guerra»; Deus não os escolheu, e por falta de sabedoria pereceram.
- Baruc 3,38: «Depois disto foi êle visto na terra, e conversou com os homens», a profecia da Encarnação.
- Baruc 5,5: «Levanta-te, ó Jerusalém, e põe-te no alto: E olha para o Oriente», o grito do Advento.
- Baruc 6,72: «Melhor é o homem justo, que não tem ídolos», a conclusão da Carta de Jeremias.
Baruc no cânon e na liturgia
Na Bíblia católica Baruc está entre os profetas, depois de Jeremias e das Lamentações e antes de Ezequiel. Essa ordem segue a Setenta, onde Baruc está junto de Jeremias. São Cirilo de Jerusalém, nas Catequeses, conta um só livro de Jeremias, que compreende Baruc, as Lamentações e a Carta. O Concílio de Florença, no decreto para os jacobitas (1442), nomeia Baruc entre os livros inspirados. Em 8 de abril de 1546 o Concílio de Trento, na sessão IV, definiu o cânon nomeando Jeremias cum Baruch, Jeremias com Baruc, entre os livros santos, e declarando anátema quem não recebe esses livros inteiros, com todas as suas partes, como sagrados e canônicos.
Por que Baruc não está nas Bíblias protestantes?
Baruc é um dos sete livros deuterocanônicos, com Tobias, Judite, a Sabedoria, o Eclesiástico e os dois livros dos Macabeus, a que se juntam partes de Ester e de Daniel. Os Reformadores aceitaram só os livros do cânon hebraico mais restrito, que não inclui Baruc, e chamaram os outros “apócrifos”. Por isso alguns ainda procuram um “livro apócrifo de Baruc”: para a Igreja católica, o livro de Baruc é Escritura canônica, não um apócrifo. A Bíblia católica tem 73 livros; veja quantos livros tem a Bíblia católica e qual a melhor Bíblia católica.
Existem um segundo e um terceiro livro de Baruc?
Existem escritos antigos que tomaram emprestado o seu nome, como o Apocalipse siríaco de Baruc, às vezes chamado segundo Baruc, ou o Apocalipse grego, dito terceiro Baruc. Nenhum deles pertence à Sagrada Escritura: o livro canônico de Baruc é um só, o dos seis capítulos que você lê aqui.
Baruc na liturgia de 1962
No Missal romano de 1962, a comunhão do II domingo do Advento é tirada de Baruc: Jerusalem, surge, et sta in excelso, et vide jucunditatem, quae veniet tibi a Deo tuo (Br 5,5 e 4,36). Canta-se enquanto a Igreja espera o seu Senhor; veja a página sobre o Advento e o calendário litúrgico.
Antes da reforma da Semana Santa de 1955, a grande profecia Audi, Israel, mandata vitae (Br 3,9-38) era cantada entre as doze profecias do Sábado Santo e na vigília de Pentecostes, para os que iam ser batizados. A reforma de 1955 reduziu a quatro as profecias da Vigília pascal e suprimiu as da vigília de Pentecostes: os livros de 1962 já não leem Baruc nessas celebrações.
Como ler o livro de Baruc
Baruc se lê de uma só vez. Leia antes os capítulos 36 e 45 de Jeremias, para conhecer o homem. Reze depois devagar os três primeiros capítulos, como um exame de consciência feito em nome de todo um povo: eles ensinam a reconhecer as próprias culpas sem desesperar. Leia os capítulos 4 e 5 como uma meditação do Advento. Guarde o capítulo 6 para os dias em que os ídolos do nosso tempo, o dinheiro, o prestígio ou o poder, parecem fortes. Com o latim ao lado, você seguirá as palavras que a Igreja canta: Jerusalem, surge e Audi, Israel. O texto se lê também no aplicativo Bíblia católica.
Perguntas Frequentes
O que é o livro de Baruc?
É um breve livro profético do Antigo Testamento, em seis capítulos, atribuído a Baruc, secretário do profeta Jeremias, e escrito para os judeus exilados em Babilônia. Contém uma confissão dos pecados, um hino à Sabedoria, uma promessa de volta e a Carta de Jeremias contra os ídolos. Na Bíblia católica vem depois das Lamentações.
Quem foi Baruc na Bíblia?
Baruc, filho de Nerias, era o fiel secretário de Jeremias. Escreveu sob ditado os oráculos do profeta e os leu no Templo, e depois os escreveu de novo quando o rei Joaquim queimou o rolo. Recebeu uma palavra pessoal do Senhor no capítulo 45 de Jeremias e desceu com o seu mestre ao Egito depois da queda de Jerusalém.
Quando foi escrito o livro de Baruc?
O livro diz ter sido escrito em Babilônia, no quinto ano depois que os caldeus tomaram e incendiaram Jerusalém, isto é, no começo do século VI antes de Cristo, durante o cativeiro. Muitos autores modernos propõem uma compilação mais tardia; a tradição se atém à data que o próprio livro dá.
Por que o livro de Baruc não está na Bíblia protestante?
Os Reformadores adotaram o cânon hebraico mais curto, e Baruc chegou até nós só em grego e nas versões feitas sobre o grego. Por isso o excluíram com os outros deuterocanônicos. A Igreja sempre o leu como Sagrada Escritura, e o Concílio de Trento o definiu como canônico em 1546.
O que é a Carta de Jeremias?
É o capítulo 6 do livro de Baruc na Vulgata e nas Bíblias católicas: uma carta atribuída a Jeremias, dirigida aos judeus prestes a ser deportados, para preveni-los contra os ídolos de Babilônia. Mostra, num tom muitas vezes irônico, que aquelas estátuas não veem, não ouvem e não salvam, e repete: não os temais.
O que quer dizer “foi visto na terra, e conversou com os homens”?
O versículo 38 do capítulo 3 diz de Deus, ou da sua Sabedoria, que depois de dar a Lei a Israel se fez ver na terra e conviveu com os homens. Os Padres viram nele o anúncio da Encarnação, quando o Filho de Deus, Sabedoria eterna, se fez homem e viveu entre nós.
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