Orações
Ato de Contrição: a oração tradicional completa
O Ato de Contrição tradicional, «Senhor meu Jesus Cristo», com a fórmula latina e sua tradução, o Confiteor da confissão, a diferença entre contrição perfeita e atrição e como rezá-lo segundo o Catecismo de São Pio X e o Concílio de Trento.

O Ato de Contrição é a oração do arrependimento: nela reconhecemos diante de Deus que pecamos, detestamos a ofensa cometida e prometemos não tornar a pecar. Nós a rezamos na confissão, à noite antes de dormir e sempre que uma falta pesa sobre a consciência. Apresentamos aqui o texto tradicional em português, o «Senhor meu Jesus Cristo», a fórmula latina e sua tradução, o Confiteor que se diz no confessionário, a diferença entre contrição perfeita e imperfeita, e o lugar deste ato no sacramento da Penitência, segundo o Catecismo de São Pio X e o Concílio de Trento.
O Ato de Contrição tradicional: «Senhor meu Jesus Cristo»
É a fórmula que gerações de católicos do Brasil aprenderam de cor no catecismo e que ainda se reza nos confessionários:
Senhor meu Jesus Cristo, Deus e Homem verdadeiro, Criador e Redentor meu, por serdes Vós quem sois, sumamente bom e digno de ser amado sobre todas as coisas, e porque Vos amo e estimo, pesa-me, Senhor, de todo o meu coração de Vos ter ofendido; pesa-me também de ter perdido o Céu e merecido o inferno; e proponho firmemente, ajudado com o auxílio da Vossa divina graça, emendar-me e nunca mais Vos tornar a ofender. Espero alcançar o perdão de minhas culpas pela Vossa infinita misericórdia. Amém.
Repare que ela reúne os dois motivos da dor: o amor a Deus («porque Vos amo e estimo», «sumamente bom e digno de ser amado sobre todas as coisas») e o temor da pena («de ter perdido o Céu e merecido o inferno»). Por isso serve tanto a quem já tem a contrição perfeita quanto a quem ainda só alcança a atrição. E termina com o firme propósito e a confiança no perdão, os dois movimentos que fazem a boa confissão.
O Ato de Contrição em latim (Deus meus) e sua tradução
A fórmula latina mais difundida nos livros de piedade é a do Deus meus:
Deus meus, ex toto corde pœnitet me ómnium meórum peccatórum, éaque detéstor, quia peccándo, non solum pœnas a te iuste statútas proméritus sum, sed præsértim quia offéndi te, summum bonum, ac dignum qui super ómnia diligáris. Ídeo fírmiter propóno, adiuvánte grátia tua, de cétero me non peccatúrum peccandíque occasiónes próximas fugitúrum. Amen.
Em português, ela se traduz assim:
Meu Deus, eu me arrependo de todo o coração de todos os meus pecados e os detesto, porque, pecando, não só mereci as penas que justamente estabelecestes, mas principalmente porque Vos ofendi a Vós, sumo Bem e digno de ser amado sobre todas as coisas. Por isso, proponho firmemente, com a ajuda da Vossa graça, não mais pecar e fugir das ocasiões próximas de pecado. Amém.
É uma tradução fiel do latim, que muitos livros recentes trazem como ato de contrição principal; a fórmula portuguesa tradicional, porém, é o «Senhor meu Jesus Cristo». Ambas exprimem a mesma doutrina.
O Ato de Contrição breve
Quando não há tempo para o texto inteiro — uma tentação, uma queda, um perigo repentino —, basta uma jaculatória que diga o essencial. A mais antiga vem do próprio Evangelho: é a oração do publicano que, no fundo do templo, não ousava levantar os olhos ao céu e batia no peito, dizendo:
Meu Deus, sê propício a mim pecador.
E o Senhor acrescenta que «êste voltou justificado para sua casa» (Lucas 18, 13-14, trad. Figueiredo). Quem reza a forma breve num momento de urgência fará depois, com calma, o ato completo.
O Confiteor e o Ato de Contrição na confissão
Não se deve confundir o Ato de Contrição com o Confiteor («Eu, pecador, me confesso a Deus…»), a confissão geral com que o penitente se reconhece pecador ao começar a confissão. No confessionário, ele se reza na forma tradicional, dirigindo-se ao sacerdote («e a vós, Padre»):
Eu, pecador, me confesso a Deus todo-poderoso, à bem-aventurada sempre Virgem Maria, ao bem-aventurado São Miguel Arcanjo, ao bem-aventurado São João Batista, aos santos apóstolos São Pedro e São Paulo, a todos os Santos, e a vós, Padre, que pequei muitas vezes, por pensamentos, palavras e obras, por minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa.
Portanto, rogo à bem-aventurada sempre Virgem Maria, ao bem-aventurado São Miguel Arcanjo, ao bem-aventurado São João Batista, aos santos apóstolos São Pedro e São Paulo, a todos os Santos, e a vós, Padre, que rogueis por mim a Deus Nosso Senhor.
A ordem habitual é: o Confiteor (muitos o dizem até «minha máxima culpa»), a acusação dos pecados, os conselhos e a penitência dados pelo confessor e, por fim, o Ato de Contrição, que o penitente reza enquanto o sacerdote pronuncia a absolvição. Se a memória falhar, o essencial é renovar no coração a dor dos pecados naquele instante: o arrependimento está na vontade, não na perfeição da recitação.
O que significa «contrição»
A palavra contrição quer dizer quebrantamento, como quando uma pedra é esmagada e reduzida a pó. O Catecismo de São Pio X explica que se dá este nome à dor dos pecados para significar que o coração endurecido do pecador fica de certo modo quebrantado pela dor de ter ofendido a Deus. Não se trata de um sentimento passageiro nem de lágrimas exteriores: é um ato da vontade pelo qual a alma, que se afastou de Deus pelo pecado, volta-se de novo para Ele, detestando o mal que fez.
O salmista já descrevera este coração quebrantado como o verdadeiro sacrifício que agrada a Deus: «Sacrifício para Deus é o espírito atribulado: Ao coração contrito, e humilhado não o desprezarás, ó Deus» (Salmo 50, 19, trad. Figueiredo). É o centro do Miserere, que comentamos verso a verso no Salmo 51 (50 da Vulgata), o mais perfeito ato de contrição da Escritura.
Segundo o ensinamento constante da Igreja, para ser verdadeira a dor dos pecados deve reunir quatro qualidades. Deve ser interior: estar no coração e na vontade, não apenas nos lábios. Deve ser sobrenatural: nascida da graça de Deus e concebida por motivos de fé, não por mero amor-próprio ou medo da vergonha humana. Deve ser soberana: fazer-nos detestar o pecado como o maior de todos os males, por ofender a Deus, que é o sumo Bem. E deve ser universal: estender-se a todos os pecados mortais cometidos, pois quem retém um só sem dele se arrepender permanece inimigo de Deus.
Contrição perfeita e contrição imperfeita (atrição)
Aqui está a distinção mais importante para a vida cristã, e a que o Concílio de Trento fixou com toda a clareza. Há duas espécies de dor pelos pecados.
A contrição perfeita é o pesar de ter ofendido a Deus porque Ele é infinitamente bom e digno por Si mesmo de ser amado. Nasce da caridade, que não pode coexistir na alma com o pecado mortal. Por isso produz um efeito admirável: quem faz um ato de contrição perfeita recupera o estado de graça ainda antes de chegar ao confessionário. Mas a contrição perfeita inclui sempre a vontade de se confessar; ela não dispensa o sacramento, antes o supõe, e os pecados mortais devem ser acusados na próxima confissão, antes de comungar.
A contrição imperfeita, também chamada atrição, é a dor que nasce do temor dos castigos merecidos ou da fealdade do pecado. É uma dor verdadeira e sobrenatural, dom de Deus e moção do Espírito Santo, segundo Trento. Não basta por si só para justificar fora do sacramento, mas é suficiente para receber com fruto a absolvição: quem chega ao confessionário com atrição sincera faz uma boa confissão.
Esta doutrina é uma das maiores consolações da fé católica: mesmo quando ainda não conseguimos amar a Deus com a perfeição que desejaríamos, o sacramento da Penitência nos abre as portas, e o que falta ao nosso amor a graça do sacramento o supre.
Como fazer um Ato de Contrição
Fazer bem o ato de contrição não exige muitas palavras, mas exige verdade no coração. O Catecismo ensina que devemos primeiro pedir a Deus a dor dos nossos pecados. Para excitá-la, ajuda considerar quem ofendemos: o nosso Criador e Sumo Bem; o nosso Redentor, morto por nós, cujos sofrimentos os nossos pecados causaram; e a graça e a amizade divinas que perdemos. Antes de se confessar, o exame de consciência do aplicativo Iter Fidei ajuda a percorrer os mandamentos e os pecados capitais.
Ao arrependimento une-se o bom propósito: a vontade resoluta de nunca mais pecar e de fugir das ocasiões próximas. Sem este firme propósito, não há contrição verdadeira; o arrependimento do passado e a decisão para o futuro formam um só ato.
Por fim, é «bom e muito útil fazer frequentemente o ato de contrição», ensina São Pio X, sobretudo antes de dormir e quando se percebe ter caído em pecado mortal. Assim nos restabelecemos quanto antes em estado de graça e alcançamos de Deus a graça de fazer bem este mesmo ato na hora em que dele teremos maior necessidade: a da nossa morte.
O Ato de Contrição e o sacramento da Penitência
O Ato de Contrição exprime a primeira e mais necessária parte do sacramento da Penitência. O Catecismo de São Pio X enumera as três partes que cabem ao penitente — a contrição, a confissão e a satisfação — e a absolvição que cabe ao sacerdote, dada em nome de Jesus Cristo. Dessas, a contrição é a mais necessária, porque sem ela nunca se pode obter o perdão dos pecados.
Concretamente, uma boa confissão pede cinco coisas (explicadas passo a passo no guia sobre como se confessar, com o exame de consciência para confissão completo): o exame de consciência; a dor de ter ofendido a Deus; o propósito de não pecar mais; a acusação dos pecados ao confessor; e a satisfação ou penitência. O ato de contrição reúne em si a segunda e a terceira. O grande modelo dos confessores foi São João Maria Vianney, o Cura d'Ars, que passava a maior parte dos seus dias no confessionário.
Esta é a obra do Bom Pastor que deixa as noventa e nove ovelhas e vai atrás da que se perdeu, pois «haverá maior júbilo no Céu, sôbre um pecador que fizer penitência, que sôbre noventa e nove justos» (Lucas 15, 7, trad. Figueiredo). A confissão bem feita é também a primeira condição para ganhar a indulgência plenária, que perdoa a pena temporal que resta dos pecados já perdoados, e para cumprir a devoção das primeiras sextas-feiras do mês.
Ato de Contrição para imprimir (PDF)
Não oferecemos um arquivo PDF: o texto completo do «Senhor meu Jesus Cristo», do Deus meus e do Confiteor está acima e se imprime tal qual pelo navegador. Melhor ainda, o aplicativo Iter Fidei o traz sempre à mão, com o exame de consciência e as orações da confissão, sem internet, em latim e em português. Participe do acesso antecipado aqui.
Perguntas Frequentes
Qual é o texto tradicional do Ato de Contrição?
É o «Senhor meu Jesus Cristo, Deus e Homem verdadeiro, Criador e Redentor meu, por serdes Vós quem sois, sumamente bom e digno de ser amado sobre todas as coisas…», cujo texto completo damos acima. A fórmula «Meu Deus, eu me arrependo de todo o coração…» é a tradução da oração latina Deus meus.
Qual é a oração completa do Ato de Contrição?
A oração completa termina com o propósito de emenda e a esperança do perdão: «…e proponho firmemente, ajudado com o auxílio da Vossa divina graça, emendar-me e nunca mais Vos tornar a ofender. Espero alcançar o perdão de minhas culpas pela Vossa infinita misericórdia. Amém.»
Qual a diferença entre contrição perfeita e imperfeita?
A contrição perfeita nasce do amor a Deus, sumo Bem; ela devolve o estado de graça antes mesmo da confissão, contanto que inclua a vontade de se confessar. A contrição imperfeita (atrição) nasce do temor dos castigos ou da fealdade do pecado; é verdadeira e suficiente para receber bem a absolvição no sacramento, mas não reconcilia a alma fora dele.
A contrição perfeita perdoa os pecados sem confissão?
Devolve o estado de graça antes da confissão, mas não dispensa o sacramento: implica sempre a vontade de se confessar, e os pecados mortais devem ser levados à confissão antes de comungar. É um socorro precioso sobretudo em perigo de morte sem sacerdote presente.
O Confiteor é o Ato de Contrição?
Não. O Confiteor («Eu, pecador, me confesso a Deus todo-poderoso…») é a confissão geral que o penitente reza ao começar, antes de acusar os pecados. O Ato de Contrição reza-se no fim, enquanto o sacerdote dá a absolvição.
Quando devo fazer o Ato de Contrição?
Na confissão, no momento da absolvição; à noite, depois do exame de consciência; e sempre que percebemos ter caído num pecado grave, para nos restabelecermos quanto antes em estado de graça. São Pio X recomenda fazê-lo com frequência.
O Ato de Contrição precisa de lágrimas para ser válido?
Não. O Catecismo ensina que não é necessário que a dor se manifeste por lágrimas; basta que, no coração, se tenha por maior mal ter ofendido a Deus do que qualquer outra desgraça. A contrição é um ato da vontade, não uma emoção sensível.
Qual oração do Ato de Contrição rezar na confissão?
Qualquer uma das fórmulas tradicionais serve: o «Senhor meu Jesus Cristo» é a mais usada no Brasil; o Deus meus, em latim ou em português, também é perfeito. O importante é renovar a dor no coração enquanto o sacerdote absolve. Outras orações da tradição estão reunidas em orações católicas: as principais orações da tradição.
O aplicativo Iter Fidei traz as orações, os salmos e as novenas, em latim e português, com áudio. Participe do acesso antecipado aqui.
Fontes. Concílio de Trento, sessão XIV, cap. 4 (da contrição); Catecismo do Concílio de Trento (Catecismo Romano), sobre o sacramento da Penitência; Catecismo de São Pio X, «Da Penitência»; Sagrada Escritura na tradução de Antônio Pereira de Figueiredo (Lucas 15 e 18; Salmo 50).