A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
O livro de Ezequiel
Ezequiel, sacerdote deportado para a Babilônia, é o terceiro dos profetas maiores: o carro da glória de Deus, o livro comido, o bom pastor, os ossos secos que revivem, o Templo novo de onde brota a água viva. Aqui você encontra os quarenta e oito capítulos na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica quem foi o profeta, resume o livro, mostra o verdadeiro texto de Ezequiel 25,17 e a leitura católica das suas visões.
Ler Ezequiel: 48 capítulos
Ezequiel é o terceiro dos quatro profetas maiores do Antigo Testamento, depois de Isaías e de Jeremias e antes de Daniel. É também um dos mais difíceis: São Jerônimo conta que, entre os judeus, o começo e o fim deste livro não se liam antes dos trinta anos, tão envoltos estão em mistério. E, no entanto, várias das páginas mais amadas da Escritura vêm dele: a roda dentro de outra roda, o livro doce como o mel, o pastor que vai buscar a ovelha perdida, o campo dos ossos secos, a porta fechada por onde só o Senhor passou, o rio que sai do Templo. Os capítulos 37 e 47 estão entre os mais procurados de toda a Bíblia no Brasil; o versículo 25,17 também, por outra razão.
Quem foi o profeta Ezequiel?
Ezequiel era sacerdote do Templo de Jerusalém. O livro o apresenta logo no terceiro versículo: «Foi dirigida a palavra do Senhor a Ezequiel sacerdote, filho de Buzi, na terra dos caldeus, junto ao rio Cobar» (Ez 1,3). O seu nome, em hebraico Yehezqel, quer dizer “Deus fortalece”, “Deus torna forte”: um nome à medida da missão que ele recebeu.
Em 597 antes de Cristo foi deportado para a Babilônia com o rei Joaquim (também chamado Jeconias) e com a primeira leva de exilados, os nobres, os sacerdotes e os artesãos de Judá. Viveu entre eles junto ao Cobar, um grande canal do Eufrates, num lugar que o hebraico chama Tel-Abib e que Figueiredo, seguindo a Vulgata, traduz por «o montão dos trigos novos» (Ez 3,15). Era casado: a esposa, «o objeto mais agradável de teus olhos» (Ez 24,16), morreu de repente quando começava o cerco de Jerusalém, e Deus lhe mandou não fazer luto, como sinal para um povo que ia perder o seu Templo.
Foi atalaia e pastor de um povo exilado que oscilava entre a ilusão de uma volta rápida e o desespero. Como morreu, a Escritura não diz; uma tradição antiga, que não é dado bíblico, conta que foi morto na Babilônia por um chefe do povo a quem repreendia pela idolatria.
Quem escreveu o livro de Ezequiel?
A Igreja sempre recebeu o livro como obra do próprio profeta. Ele está escrito em primeira pessoa de ponta a ponta, e os seus oráculos são datados segundo os anos do cativeiro do rei Joaquim. Um mesmo pensamento sacerdotal o atravessa: a glória do Senhor deixa o Templo na primeira metade e volta para ele na segunda. O Eclesiástico já honra o profeta pelo nome: «Quanto a Ezequiel, êle foi o que viu aquela visão de glória, que lhe representou o Senhor na carroça dos querubins» (Eclo 49,10). Muitos autores modernos pensam que discípulos do profeta completaram os seus oráculos; a unidade do livro continua sendo o argumento mais forte da leitura tradicional.
Quando foi escrito o livro de Ezequiel?
O próprio Ezequiel data as suas visões. O chamado aconteceu no «ano quinto da transmigração do rei Joaquim» (Ez 1,2), por volta de 593 antes de Cristo. No décimo segundo ano do cativeiro, um fugitivo lhe traz a notícia: «A cidade foi devastada» (Ez 33,21). É o incêndio de Jerusalém por Nabucodonosor, em 587 ou 586, contado no IV Livro dos Reis (2 Reis) e chorado nas Lamentações. O oráculo mais tardio é do «ano vinte e sete» (Ez 29,17), por volta de 571. O livro foi escrito, portanto, na Babilônia, entre 593 e 571 aproximadamente.
Ezequiel é o contemporâneo mais jovem de Jeremias, que pregava a mesma mensagem em Jerusalém enquanto ele falava aos exilados. Cita duas vezes Daniel, então na corte da Babilônia, como modelo de justiça e de sabedoria: «Noé, Daniel e Jó» (Ez 14,14) e «tu és mais sábio que Daniel» (Ez 28,3).
Do que fala o livro de Ezequiel? Resumo
O livro inteiro gira em torno da queda de Jerusalém: o juízo antes, a restauração depois, e entre os dois os oráculos contra as nações.
A visão do carro e a vocação (capítulos 1-3)
Junto ao Cobar, «se abriram os céus, e tive visões de Deus» (Ez 1,1). Um vento de tempestade vem do norte; no meio do fogo aparecem quatro seres viventes, cada um com «Rosto de homem, e rosto de leão à direita dos mesmos quatro: E rosto de boi à esquerda dos mesmos quatro, e rosto de águia» (Ez 1,10), e ao lado deles rodas cheias de olhos, «como se estivera uma roda no meio de outra roda» (Ez 1,16). Acima do firmamento «havia uma semelhança de trono como aspecto de pedra de safira», e sobre o trono «uma semelhança, como aspecto de homem» (Ez 1,26).
O profeta cai com o rosto em terra e ouve chamar-se «Filho do homem» (Ez 2,1), título que o livro emprega mais de noventa vezes. Uma mão lhe estende um livro «escrito por dentro e por fora», cheio de «lamentações, e cânticos, e desgraças» (Ez 2,9), e ele recebe a ordem de comê-lo: «E eu comi: E êle na minha bôca se fêz doce como o mel» (Ez 3,3). Deus o estabelece enfim como sentinela: «Filho do homem, eu te dei por Atalaia à casa de Israel» (Ez 3,17).
O juízo sobre Jerusalém (capítulos 4-24)
Ezequiel começa pregando com gestos. Desenha num tijolo o cerco de Jerusalém (Ez 4,1), depois fica deitado trezentos e noventa dias sobre o lado esquerdo e quarenta sobre o direito, «um dia, digo, por cada ano» de iniquidade (Ez 4,6), alimentando-se de um pão racionado feito de «trigo, e cevada, e favas, e lentilhas, e milho, e aveia» (Ez 4,9). É o chamado “pão de Ezequiel”, que não é uma receita de saúde, mas o sinal da fome de uma cidade sitiada. Mais tarde sai de noite por um buraco no muro levando os trastes do exilado (Ez 12,7).
No capítulo 8 é levado em espírito ao Templo: vê ali o ídolo do ciúme, mulheres «chorando a Adonis» (Ez 8,14) e homens que voltam as costas ao santuário e «adoravam o sol nascendo» (Ez 8,16). No capítulo 9 um homem vestido de linho recebe a ordem: «com um Tau marca as testas dos homens que gemem, e que se doem de tôdas as abominações» (Ez 9,4); só esses serão poupados. Depois «saiu a glória do Senhor da entrada do templo: E se pôs sôbre os querubins» (Ez 10,18), e deixa a cidade para se deter «sôbre o monte, que está no Oriente da cidade» (Ez 11,23).
Seguem longas alegorias, de linguagem propositalmente crua: os capítulos 16 e 23, que alguns procuram justamente por essa crueza, descrevem a idolatria como adultério. Jerusalém é uma menina abandonada que Deus recolheu, «Ainda que coberta do teu sangue, vive» (Ez 16,6), depois desposou, e que se prostituiu; mas o capítulo termina com a promessa: «E renovarei contigo um pacto eterno» (Ez 16,60). No capítulo 18 o profeta refuta o provérbio «Os pais comeram as uvas em agraço, e os dentes dos filhos é que se acham botos» (Ez 18,2) e ensina que cada um responde pelas próprias culpas. A seção termina com o cerco e a morte da esposa do profeta (capítulo 24).
Os oráculos contra as nações (capítulos 25-32)
O juízo se volta depois para os vizinhos de Judá que se alegraram com a sua ruína: Amon, Moab, Edom e os filisteus (capítulo 25). Cai em seguida sobre Tiro, a orgulhosa rainha dos mares, durante três capítulos (capítulos 26-28).
O capítulo 28 zomba do príncipe de Tiro, que disse: «Eu sou Deus, e estou assentado sôbre a cadeira de Deus no meio do mar» (Ez 28,2), e entoa um lamento sobre o rei de Tiro, que estava «nas delícias do paraíso de Deus» (Ez 28,13): «Tu eras um querubim, que estendia as suas asas» (Ez 28,14), perfeito «até que a iniqüidade se achou em ti» (Ez 28,15). Vários Padres, entre eles Orígenes e Tertuliano, leram aí a queda de Lúcifer. Os oráculos contra o Faraó, «dragão enorme, que te deitas no meio dos teus rios» (Ez 29,3), fecham a seção.
A restauração: o pastor, os ossos secos, Gog (capítulos 33-39)
Com a notícia da queda, o tom muda. O capítulo 33 renova a missão da sentinela e proclama a misericórdia de Deus. No capítulo 34 o Senhor condena os pastores «que se apascentavam a si mesmos» (Ez 34,2) e promete: «Eis-aí eu mesmo irei buscar as minhas ovelhas, e eu as visitarei» (Ez 34,11); e ainda: «E suscitarei sôbre elas um único pastor, que as apascente, meu servo Davi» (Ez 34,23).
No capítulo 36 promete a Israel uma água pura, um coração novo e o seu próprio espírito. No capítulo 37 os ossos secos revivem (veja abaixo), e os dois reinos reunidos terão um só pastor (Ez 37,24). Os capítulos 38 e 39 descrevem o último assalto de Gog, «contra a terra de Magog» (Ez 38,2), contra o povo de Deus, e a sua derrota.
O Templo novo e a terra santa (capítulos 40-48)
Na última visão, um homem de aspecto brilhante, que tinha «numa mão um cordel de linho, e na outra uma cana de medir» (Ez 40,3), conduz o profeta através de um Templo novo construído sobre «um monte muito alto» (Ez 40,2). A glória do Senhor, que tinha partido para o oriente, volta pelo oriente: «eis-que entrava a glória do Deus de Israel pela banda do oriente» (Ez 43,2), e o profeta vê que «a casa estava cheia da glória do Senhor» (Ez 43,5).
A porta oriental ficará fechada para sempre, porque o Senhor entrou por ela (Ez 44,2). No capítulo 47 um rio sai do Templo (veja abaixo). A terra é repartida entre as doze tribos, e o livro termina com o nome novo da cidade: «O Senhor nela mesma» (Ez 48,35).
Ezequiel 37: o vale dos ossos secos
É o capítulo mais procurado do livro. A mão do Senhor leva o profeta a «um campo, que estava cheio de ossos» (Ez 37,1), «todos sobremaneira secos» (Ez 37,2). A pergunta de Deus é a de toda alma diante de uma situação perdida: «acaso julgas tu que êstes ossos possam reviver?», e a resposta do profeta é a da fé: «Senhor Deus, tu o sabes» (Ez 37,3). Ezequiel recebe então a ordem de profetizar aos ossos e depois ao espírito: «Espírito, vem dos quatro ventos, e assopra sôbre êstes mortos, e revivam» (Ez 37,9). Os ossos se juntam, se cobrem de nervos e de carne, e só quando o espírito entra neles é que vivem.
O próprio Deus dá a explicação: «todos êstes ossos são a casa de Israel» (Ez 37,11), um povo que dizia «a nossa esperança se perdeu». No sentido literal, é a promessa da volta do exílio e da ressurreição nacional de Israel. Mas a palavra seguinte vai mais longe: «Povo meu, eis-aí vou eu a abrir os vossos túmulos, tirar-vos-ei dos vossos sepulcros» (Ez 37,12). Tertuliano, São Cirilo de Jerusalém e muitos Padres viram nesta página um penhor da ressurreição dos corpos no último dia, que o Credo professa. E o espírito que dá vida aos ossos anuncia o Espírito Santo, que o Senhor promete no mesmo capítulo: «E tiver infundido o meu espírito em vós e vós tiverdes recobrado a vida» (Ez 37,14).
Ezequiel 47: o rio que sai do Templo
O capítulo 47 é o outro grande capítulo procurado; quem busca a sua “letra” encontra aqui o texto inteiro. As águas saem «debaixo do limiar da porta, para a banda do oriente» (Ez 47,1). O homem com o cordel mede mil côvados de cada vez, e a água sobe pelos tornozelos, pelos joelhos, pelos rins, até se tornar «uma torrente, que eu não pude passar» (Ez 47,5). Por onde ela passa, tudo vive: «ficará curado, e viverá tudo aonde chegar esta torrente» (Ez 47,9). Nas margens crescem árvores cujos «frutos servirão de sustento, e as suas fôlhas de medicina», porque as águas «sairão do Santuário» (Ez 47,12).
O rio de Ezequiel volta no último capítulo da Bíblia: «um rio da água da vida, resplandescente como cristal, que saía do trono de Deus e do Cordeiro», com a «Árvore da Vida, que dá doze frutos» (Ap 22,1-2). A Igreja reconhece nele a água que brotou do lado aberto de Cristo, quando «imediatamente saiu sangue e água» (Jo 19,34), e a graça dos sacramentos que dela nasce. Por isso canta, durante todo o tempo pascal, a antífona Vidi aquam egredientem de templo a latere dextro, “vi a água sair do lado direito do templo”, antes da Missa cantada do domingo. A nossa página sobre a água benta explica esse rito.
Ezequiel 25,17: o que diz de verdade o versículo de Pulp Fiction
É um dos versículos mais procurados do livro, por causa do filme Pulp Fiction (1994), de Quentin Tarantino, em que um matador recita, antes de atirar, uma longa tirada sobre o caminho do justo, o pastor dos fracos e o guarda do irmão, atribuindo-a a “Ezequiel 25,17”. Essa tirada não está na Bíblia. O versículo verdadeiro é bem mais curto:
«E dêles tomarei grandes vinganças, argüindo-os no meu furor: E êles saberão que eu sou o Senhor, quando eu tiver exercitado a minha vingança sôbre êles» (Ez 25,17).
O personagem do filme só aproveita o final, a vingança de Deus e o «saberão que eu sou o Senhor»; todo o resto é invenção de roteiro que mistura reminiscências bíblicas diferentes. O contexto verdadeiro é o oráculo contra os filisteus, dois versículos antes: «Porque os príncipes da Palestina executaram os intentos da sua vingança, e se vingaram de todo o seu coração» (Ez 25,15). Deus não aprova aí a vingança humana: ao contrário, a condena. Reserva para si o juízo sobre quem se encarniçou contra o seu povo caído. O refrão «saberão que eu sou o Senhor» volta dezenas de vezes em Ezequiel: o fim último de todo castigo, no livro, é que os povos reconheçam o verdadeiro Deus.
Temas e leitura católica
A glória de Deus e os quatro evangelistas
O profeta compreende mais tarde que os quatro viventes «eram querubins» (Ez 10,20). Nós os reencontramos ao redor do trono no Apocalipse (Ap 4,7). Santo Irineu já os aproxima dos quatro Evangelhos, e São Jerônimo fixa a correspondência que a arte cristã tornou clássica: o homem para São Mateus, o leão para São Marcos, o boi para São Lucas, a águia para São João. Por isso a epístola da festa de São Marcos é tirada desta visão.
O Tau e o sinal da cruz
O sinal posto na testa dos justos no capítulo 9 é a letra hebraica tau, a última do alfabeto. Tertuliano e São Jerônimo observam que, na antiga escrita hebraica, ela tinha a forma de uma cruz. Os Padres viram nele a figura dos fiéis marcados com o sinal de Cristo no Batismo e protegidos por ele no dia do juízo; daí também o Tau que São Francisco de Assis usava para assinar, como conta São Boaventura.
A conversão e a responsabilidade pessoal
Os capítulos 18 e 33 são os textos clássicos do Antigo Testamento sobre a conversão. «A alma que pecar, essa morrerá: O filho não carregará com a iniqüidade do pai» (Ez 18,20). Mas «se o ímpio fizer penitência de todos os seus pecados que cometeu […] Êle certìssimamente viverá e não morrerá» (Ez 18,21), e Deus acrescenta: «E eu me não lembrarei de nenhuma das suas iniqüidades» (Ez 18,22). O grito do capítulo 33, um dos versículos mais procurados, resume tudo: «Eu juro por minha vida, diz o Senhor Deus: Que eu não quero a morte do ímpio, mas sim que o ímpio se converta do seu caminho, e viva» (Ez 33,11). A Igreja lê Ezequiel 18 na Quaresma, e estas palavras ressoam em cada confissão.
Cristo, o bom pastor
O pastor único prometido no capítulo 34, o «Davi» que há de vir, é o Messias filho de Davi. Nosso Senhor retoma a promessa no Evangelho de São João: «Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a própria vida pelas suas ovelhas» (Jo 10,11). O capítulo 34 descreve de antemão toda a sua missão: «Eu irei buscar as que se tinham perdido, e farei voltar as que andavam desgarradas, e ligarei os membros às que tinham algum quebrado» (Ez 34,16).
O Batismo e o coração novo
«E derramarei sôbre vós uma água pura, e vós sereis purificados de tôdas as vossas imundícias» (Ez 36,25); «E dar-vos-ei um coração novo, e porei um novo espírito no meio de vós: E tirarei da vossa carne o coração de pedra, e dar-vos-ei um coração de carne» (Ez 36,26). Os Padres leram aí a água e o Espírito do Batismo. O Missal lê esta passagem na quarta-feira da quarta semana da Quaresma, dia que era antigamente o do grande escrutínio dos catecúmenos que seriam batizados na Páscoa.
Nossa Senhora, porta fechada
«Esta porta estará fechada: Ela se não abrirá, e nenhum homem passará por ela: Porque o Senhor Deus de Israel entrou por esta porta» (Ez 44,2). Santo Ambrósio e São Jerônimo viram nela o seio virginal de Maria, por onde o Senhor entrou no mundo e que permaneceu fechado. A tradição latina fez da porta clausa um dos títulos da Virgem sempre virgem, e o Breviário põe estas palavras na Sexta da festa da Imaculada Conceição.
Versículos mais conhecidos de Ezequiel
- Ezequiel 3,17, a sentinela: «Filho do homem, eu te dei por Atalaia à casa de Israel», retomado em Ez 33,7.
- Ezequiel 18,32: «Porque eu não quero a morte do que morre, diz o Senhor Deus, convertei-vos, e vivei» (Ez 18,32).
- Ezequiel 37,4, os ossos secos: «Ossos secos, ouvi a palavra do Senhor» (Ez 37,4).
- Ezequiel 38 e 39, Gog e Magog: a profecia volta no Apocalipse, onde satanás reúne «a Gog, e a Magog» para a última batalha (Ap 20,7).
Ezequiel no cânon e na liturgia
Na Bíblia católica, Ezequiel vem depois de Jeremias, das Lamentações e de Baruc, e antes de Daniel. É um livro protocanônico e está em todas as Bíblias, católicas e protestantes. O Concílio de Trento o enumerou entre os livros sagrados e canônicos na sessão IV (8 de abril de 1546).
No Missal de 1962:
- a Quaresma ouve Ezequiel quatro vezes: o bom pastor (Ez 34,11-16) na segunda-feira da primeira semana; o provérbio das uvas verdes (Ez 18,1-9) na quinta-feira seguinte; a alma que pecar (Ez 18,20-28) na sexta-feira das Têmporas da Quaresma; a água pura e o coração novo (Ez 36,23-28) na quarta-feira da quarta semana, cujo intróito, Cum sanctificatus fuero in vobis, também é tirado do capítulo 36;
- em 25 de abril, festa de São Marcos, a epístola é a visão dos quatro viventes (Ez 1,10-14);
- a antífona Vidi aquam, tirada do capítulo 47, substitui o Asperges me na aspersão da água benta antes da Missa cantada dos domingos do tempo pascal.
No Breviário romano, o livro é lido nas Matinas das duas primeiras semanas de novembro, seguido por Daniel e pelos doze profetas menores. No primeiro domingo de novembro as lições começam pela visão do carro, com uma homilia de São Gregório Magno sobre Ezequiel; a mesma visão e o mesmo comentário voltam nas Matinas do Comum dos Evangelistas. A capítula de Sexta da Imaculada Conceição (8 de dezembro) é a porta fechada de Ez 44,2-3. Acompanhe esses dias no calendário litúrgico e reze as leituras no Breviário.
Como ler o livro de Ezequiel
Comece pelos capítulos 1-3 sem desanimar com a estranheza da visão: o próprio Ezequiel diz que viu apenas «a visão da semelhança da glória do Senhor» (Ez 2,1), uma semelhança e não a coisa mesma. Leia depois as grandes páginas de esperança: os capítulos 18, 34, 36, 37 e 47. Retome então o livro desde o começo, seguindo as datas, com o IV Livro dos Reis e Jeremias à mão para a história.
São Gregório Magno pregou em Roma vinte e duas homilias sobre Ezequiel, sobre a visão dos primeiros capítulos e sobre o Templo do capítulo 40: continuam sendo o guia clássico do seu sentido espiritual, e a Igreja as lê no Breviário. Para ler todo o livro com o latim ao lado, use também o aplicativo Bíblia Católica da Iter Fidei.
Perguntas Frequentes
Quem foi Ezequiel na Bíblia?
Um sacerdote de Jerusalém, filho de Buzi, deportado para a Babilônia em 597 antes de Cristo com o rei Joaquim. Entre os exilados, junto ao rio Cobar, recebeu o chamado de Deus por volta de 593 e profetizou durante mais de vinte anos, antes e depois da destruição de Jerusalém. A Igreja o venera como santo profeta.
Qual o significado do nome Ezequiel?
Ezequiel vem do hebraico Yehezqel e significa “Deus fortalece” ou “Deus torna forte”. O nome diz a missão: ficar firme diante de um povo «de semblante duro, e de coração indomável» (Ez 2,4).
O que significa a visão dos ossos secos?
No capítulo 37, Deus mostra ao profeta um campo de ossos secos que se juntam, se cobrem de carne e recebem o espírito. Ao pé da letra, é o renascimento do povo exilado, que se julgava sem esperança. Os Padres leram também nela o anúncio da ressurreição dos corpos no fim dos tempos.
Como Ezequiel descreve os anjos?
Como querubins, portadores do trono da glória de Deus, cada um com quatro rostos, de homem, de leão, de boi e de águia, quatro asas e pés que lançam faíscas como cobre em brasa. A tradição cristã, desde Santo Irineu e São Jerônimo, vê nesses quatro rostos os símbolos dos quatro evangelistas.
O que diz Ezequiel 25,17?
Na Bíblia diz apenas: «E dêles tomarei grandes vinganças, argüindo-os no meu furor: E êles saberão que eu sou o Senhor, quando eu tiver exercitado a minha vingança sôbre êles». É a conclusão de um oráculo contra os filisteus. A longa fala do filme Pulp Fiction atribuída a esse versículo é invenção dos roteiristas.
O que é o pão de Ezequiel?
É o pão que Deus mandou o profeta preparar com trigo, cevada, favas, lentilhas, milho e aveia, e comer racionado durante todo o tempo em que ficava deitado de lado (capítulo 4). Era um sinal profético da fome de Jerusalém sitiada, não uma regra de alimentação.
Quantos capítulos tem o livro de Ezequiel?
Quarenta e oito, em quatro partes: a vocação do profeta (1-3), o juízo sobre Jerusalém (4-24), os oráculos contra as nações (25-32), a restauração de Israel e a visão do Templo novo (33-48).
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