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O livro de Amós
O livro de Amós é a profecia de um pastor de Técua enviado ao reino de Israel no tempo do rei Jeroboão II: nove capítulos contra a injustiça feita aos pobres e o culto sem conversão, encerrados pela promessa de reerguer a tenda de Davi. Aqui você encontra o texto do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feito sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica quem foi o profeta, quem escreveu o livro e quando, a sua mensagem principal e a leitura católica.
Ler Amós: 9 capítulos
Amós é o terceiro dos doze profetas menores, depois de Joel e antes de Abdias. Um pastor das colinas de Judá é enviado ao santuário real de Betel, no reino do Norte, para dizer a um país próspero que Deus vê os pobres que ele esmaga, que rejeita um culto oferecido por mãos injustas e que a casa de Israel vai cair. É um dos primeiros profetas cujo livro chegou até nós, e um dos mais diretos: nove capítulos sem uma palavra a mais. Veja abaixo quem foi o profeta, quando viveu, o que contém o seu livro e como a Igreja o leu.
Quem foi o profeta Amós?
O título do livro diz o essencial: «Palavras de Amós, que foi um dos pastôres de Técua: Do que viu tocante a Israel» (Am 1,1). Técua era uma aldeia de Judá à beira do deserto, poucos quilômetros ao sul de Belém. Amós não era profeta de profissão, e ele mesmo o declara ao sacerdote de Betel: «Eu não sou profeta, nem sou filho de profeta: Mas eu sou um pastor de gado, que colho as bagas dos sicômoros para me sustentar delas» (Am 7,14).
Os “filhos dos profetas” eram os discípulos reunidos em torno dos grandes profetas, como no tempo de Eliseu; Amós não pertencia a nenhuma dessas comunidades. Deus o tirou de trás do rebanho: «E o Senhor pegou de mim, quando eu andava atrás de meu rebanho: E o Senhor me disse: Vai, profetiza ao meu povo de Israel» (Am 7,15).
Era, portanto, um homem de Judá, o reino do Sul, enviado a pregar no reino do Norte. As suas imagens vêm todas da vida do campo: o leão que ruge, o laço do passarinheiro, o pastor que arranca da boca do leão «as duas pernas, ou a ponta de uma orelha» (Am 3,12). São Jerônimo o chama “pastor e rústico”, mas os antigos intérpretes notaram que o seu estilo é simples e a sua doutrina profunda.
Não se deve confundi-lo com Amós, pai de Isaías, que Figueiredo escreve do mesmo modo («Isaías, filho de Amós», Is 1,1), mas que em hebraico tem outro nome, Amots.
O que significa o nome Amós?
O nome hebraico 'Amos costuma ser ligado a uma raiz que significa “carregar um peso”: Amós seria “aquele que carrega”, ou “aquele que é carregado”, sustentado por Deus. O sentido exato é discutido, e convém não construir muito sobre ele. Pode-se notar apenas que o peso da palavra de Deus foi justamente o que esse pastor levou até Betel.
Quem escreveu o livro de Amós?
A Igreja sempre o recebeu como obra do profeta. O livro fala dele na terceira pessoa no título e no episódio de Betel, e na primeira pessoa nas visões («Isto me mostrou o Senhor Deus», Am 7,1); os seus discípulos podem ter reunido os oráculos, mas a voz é uma só. O Novo Testamento o cita duas vezes como palavra dos profetas, nos Atos dos Apóstolos. Como e quando o profeta morreu, a Escritura não diz.
Quando foi escrito o livro de Amós?
O primeiro versículo dá o quadro: «nos dias de Ozias, rei de Judá, e nos dias de Jeroboão, filho de Joás, rei de Israel, dois anos antes do terremoto». Ozias e Jeroboão II reinaram juntos na primeira metade do século VIII antes de Cristo. O terremoto ficou na memória do povo: o profeta Zacarias ainda o lembra, muito depois, quando anuncia: «E vós fugireis assim como fugistes por mêdo do terremoto nos dias de Ozias, rei de Judá» (Zc 14,5). Situa-se em geral a missão de Amós por volta da metade do século, pouco antes de 750.
Era um tempo de paz e de riqueza para o reino do Norte. Jeroboão II tinha alargado as fronteiras, segundo a palavra de Jonas (2 Rs 14,25). As casas de inverno e de verão, os leitos de marfim, o vinho bebido «a copos cheios» (Am 6,6) mostram uma classe abastada e segura de si. Uma geração mais tarde, em 722, Samaria caía sob os golpes da Assíria. Amós é assim, com Oseias, o profeta das últimas décadas do reino de Israel.
Do que fala o livro de Amós? Resumo
O livro segue um plano claro: oráculos contra as nações, três discursos contra Israel, cinco visões, uma promessa final.
Os oráculos contra as nações (capítulos 1-2)
Depois de uma abertura, «O Senhor rugirá de Sião e de Jerusalém fará ouvir a sua voz» (Am 1,2), Amós passa em revista os vizinhos de Israel com uma fórmula repetida: «Depois das maldades que o povo de Damasco cometeu três e quatro vêzes, eu não o converterei» (Am 1,3). Damasco, Gaza, Tiro, Edom, Amon e Moab são julgados pelas suas crueldades: as grávidas de Galaad rasgadas (Am 1,13), os ossos do rei da Idumeia queimados (Am 2,1).
Depois o cerco se fecha sobre Judá (Am 2,4) e enfim sobre Israel, o verdadeiro destinatário: «Pois que êle vendeu o justo pela prata, e o pobre por um par de sapatos» (Am 2,6). O capítulo 2 lembra tudo o que Deus fez por esse povo, o Êxodo, os profetas, os nazireus, e a resposta que recebeu: «Não profetizeis» (Am 2,12).
Três discursos contra Israel (capítulos 3-6)
Os capítulos 3, 4 e 5 começam com um convite a ouvir. O primeiro põe o princípio da eleição: «De tôdas as linhagens da terra só a vós vos conheci: Por isso virei com a minha visita sôbre vós para castigar tôdas as vossas iniqüidades» (Am 3,2). Quanto mais Deus deu, mais pede. Uma série de perguntas conduz à vocação do profeta, a começar pela mais procurada: «Acaso andarão dois juntos, se êles se não ajustarem entre si?» (Am 3,3). Como o leão não ruge sem presa, o profeta não fala sem que Deus tenha falado: «O leão rugirá, quem não temerá? o Senhor Deus falou, quem não profetizará?» (Am 3,8).
O segundo discurso interpela as mulheres ricas de Samaria, «vacas gordas que estais no monte de Samaria: Vós que fazeis agravos aos necessitados» (Am 4,1), e depois zomba do culto de Betel e de Galgala: «Ide a Betel, e cometei impiedades» (Am 4,4). Enumera os castigos já enviados, fome, seca, ferrugem, peste, com um refrão repetido cinco vezes: «E não vos tendes voltado para mim, diz o Senhor» (Am 4,6). Termina com uma advertência solene: «prepara-te, ó Israel, a saíres ao encontro do teu Deus» (Am 4,12).
O terceiro discurso é um canto fúnebre sobre a virgem de Israel, «não há quem a levante» (Am 5,2), interrompido por apelos: «Buscai-me, e vivereis» (Am 5,4). Denuncia os que «converteis em absíntio os juízos» (Am 5,7), os que desejam o dia do Senhor sem entender que ele será «um dia de trevas, e não de luz» (Am 5,18), e contém a palavra mais dura do livro sobre o culto: «Eu aborreço, e tenho rejeitado as vossas festas» (Am 5,21). O capítulo 6 prolonga os “ais” contra «os que viveis em Sião na afluência de tôdas as coisas» (Am 6,1), que dormem em leitos de marfim e «nada se doíam da aflição de José» (Am 6,6).
As cinco visões e o sacerdote Amasias (capítulos 7-9,10)
O capítulo 7 relata três visões. Os gafanhotos e o fogo, que a oração do profeta afasta: «Senhor Deus, tem misericórdia, te peço: Quem poderá restabelecer a Jacó, depois dêle estar reduzido a tão pouco?» (Am 7,2). Depois o Senhor em cima de um muro com «uma trolha de pedreiro» na mão (Am 7,7), castigo que ele já não retira (Am 7,8). Muitas Bíblias modernas, que traduzem do hebraico, falam aqui de um “prumo”; a Vulgata diz trulla cementarii, a trolha do pedreiro, e Figueiredo a segue. Nos dois casos a imagem é a de um Deus que examina a obra e já não a remenda.
Entre as visões se insere o único relato do livro: Amasias, sacerdote de Betel, denuncia Amós ao rei e o expulsa, porque Betel «é a religião do rei, e o assento do seu estado» (Am 7,13). Amós responde contando a sua vocação e pronunciando uma sentença contra o sacerdote.
O capítulo 8 traz a quarta visão, um gancho de colher frutas: «Acabou de chegar o tempo da ruína do meu povo de Israel» (Am 8,2). Segue a acusação contra os comerciantes que esperam o fim do sábado «Para diminuirmos a medida, e aumentarmos o siclo, e servirmo-nos de balanças falsas» (Am 8,5), o anúncio do sol que se põe ao meio-dia (Am 8,9) e a mais profunda das ameaças, a fome da palavra (Am 8,11).
A quinta visão abre o capítulo 9: o Senhor de pé sobre o altar, a quem ninguém escapa, nem no inferno nem no céu (Am 9,2). Mas o crivo não deixa cair um grão: «E não cairá na terra uma só pedrinha» (Am 9,9). Deus destrói o reino culpado, não toda a casa de Jacó (Am 9,8).
A tenda de Davi reerguida (capítulo 9,11-15)
O livro termina em promessa: «Naquele dia levantarei eu o Tabernáculo de Davi, que caiu» (Am 9,11). As nações sobre as quais foi invocado o nome do Senhor terão parte nele (Am 9,12), e a terra se tornará tão fecunda que «o que lavra alcançará ao que sega» (Am 9,13). A última palavra é uma plantação definitiva: «E plantá-los-ei no seu país: E eu os não tornarei mais a arrancar da sua terra» (Am 9,15).
Qual a mensagem principal do livro de Amós?
Em uma frase: Deus exige a justiça e não aceita o culto de quem oprime o pobre. Amós não condena o culto em si mesmo: condena um culto separado da justiça, oferecido em Betel, santuário cismático fundado por Jeroboão I, por homens que esmagam os fracos. A resposta que ele espera está no mesmo capítulo: «Aborrecei o mal, e amai o bem, e restabelecei na Porta a justiça» (Am 5,15), e a justiça de Deus correrá «como uma impetuosa torrente» (Am 5,24).
Nosso Senhor dirá o mesmo ao mandar deixar a oferta diante do altar e ir primeiro reconciliar-se com o irmão. A doutrina cristã põe a opressão dos pobres e a fraude no salário dos operários entre os pecados que bradam ao céu: Amós é o seu pregador por excelência. Os nossos artigos sobre os dez mandamentos e as obras de misericórdia mostram o seu fundamento.
A essa mensagem se juntam outras duas: quanto mais um povo recebeu de Deus, mais severamente será julgado («só a vós vos conheci»), e o juízo não é a última palavra, porque Deus reergue a tenda de Davi.
Temas e leitura católica
A fome da palavra de Deus
«Eis-aqui vêm os dias, diz o Senhor: E enviarei fome sôbre a terra: Não fome de pão, nem sêde de água, mas de ouvir a palavra do Senhor» (Am 8,11). É o pior dos castigos, porque a alma vive da palavra de Deus: «Êles andarão por tôda a parte buscando a palavra do Senhor, e não a acharão» (Am 8,12). Os Padres o aplicaram a quem fecha o ouvido ao Evangelho, e os mestres espirituais à alma que descuida a oração e a leitura sagrada.
Jesus no livro de Amós: Cristo e a Igreja
Os Atos dos Apóstolos citam Amós duas vezes. Santo Estêvão, diante do sinédrio, retoma a censura do culto idólatra no deserto (At 7,42-43, de Am 5,25-27). Sobretudo, no Concílio de Jerusalém, São Tiago funda a admissão dos pagãos na Igreja na tenda de Davi reerguida: «Depois disto eu voltarei, e edificarei de novo o tabernáculo de Davi que caiu» (At 15,16). A casa de Davi, reduzida a uma cabana, se levanta em Cristo, filho de Davi, e se abre a todas as nações: é a Igreja. O sol que se põe ao meio-dia (Am 8,9) foi aproximado por Santo Irineu das trevas que cobriram a terra na Sexta-feira Santa: «desde a hora sexta até à hora nona se difundiram trevas sôbre tôda a terra» (Mt 27,45).
A soberania de Deus
Três fragmentos de hino marcam o livro (Am 4,13, 5,8, 9,6), cada um fechado pelo refrão «Seu nome é o Senhor». O Deus de Israel é aquele «que criou a estrêla da Ursa, e a estrêla do Orião» (Am 5,8), o senhor da história de todos os povos (Am 9,7). Por isso pode julgar Damasco como Samaria. E o seu juízo não é cego: «o Senhor Deus não faz nada, sem ter revelado antes o seu segrêdo aos profetas seus servos» (Am 3,7).
O profeta que intercede
O mesmo homem que anuncia a ruína é o que reza duas vezes para afastá-la, e é ouvido: «Teve o Senhor compaixão disto» (Am 7,3). Amós não é um acusador frio; é um pastor que ama o rebanho que não é o seu.
Versículos mais conhecidos de Amós
- Amós 3,3: «Acaso andarão dois juntos, se êles se não ajustarem entre si?» No contexto, a pergunta abre uma série de imagens de causa e efeito que justificam a palavra do profeta; aplicada à vida espiritual, lembra que não se caminha com Deus sem concordar com a sua vontade.
- Amós 3,7: «Porque o Senhor Deus não faz nada, sem ter revelado antes o seu segrêdo aos profetas seus servos.»
- Amós 4,12: «prepara-te, ó Israel, a saíres ao encontro do teu Deus.»
- Amós 5,4: «Buscai-me, e vivereis.»
- Amós 5,14: «Buscai o bem, e não o mal, para que vivais.»
- Amós 5,24: «a minha justiça, como uma impetuosa torrente.» Com a Vulgata, Figueiredo lê na primeira metade do versículo os juízos de Deus que «se darão a ver contra vós, como uma água que transborda».
- Amós 7,14: «Eu não sou profeta, nem sou filho de profeta.»
- Amós 8,11: «Não fome de pão, nem sêde de água, mas de ouvir a palavra do Senhor.»
- Amós 9,11: «Naquele dia levantarei eu o Tabernáculo de Davi, que caiu.»
Amós no cânon e na liturgia
Amós é um livro protocanônico, recebido pelos judeus e por todos os cristãos. Na Bíblia hebraica os doze profetas menores formam um só livro, em que Amós ocupa o terceiro lugar; a Vulgata conserva essa ordem, e o Concílio de Trento, na sessão IV (1546), o nomeia entre os doze profetas menores. A numeração dos nove capítulos é a mesma nas Bíblias católicas e protestantes. Para escolher uma tradução fiel, veja qual a melhor Bíblia católica.
No Missal de 1962, a primeira leitura da quarta-feira das Têmporas de setembro é Amós 9,13-15: «Eis-aqui vêm os dias, diz o Senhor: E o que lavra alcançará ao que sega» (Am 9,13). A promessa das colheitas e das vindimas convém a essas Têmporas de outono, em que a Igreja agradece a Deus os frutos da terra.
A imagem dos montes que destilam doçura, que o mesmo versículo traz, é também a de Joel 3,18, de onde vem a primeira antífona das Laudes do primeiro domingo do Advento, In illa die stillabunt montes dulcedinem, et colles fluent lac et mel. No Breviário, Amós é lido nas Matinas da quinta-feira da quarta semana de novembro, no seu lugar entre os profetas menores, quando o ano litúrgico se volta para o juízo; você pode rezar o Ofício do dia no Breviário e acompanhar a data no calendário litúrgico.
Como ler o livro de Amós
Leia os dois primeiros capítulos de uma vez, para sentir o efeito que o profeta quis: o ouvinte aprova a condenação dos vizinhos e depois descobre que ele mesmo é o acusado. Leia os capítulos 3-6 devagar, como um exame de consciência sobre o uso do dinheiro e o respeito ao pobre. Leia enfim as visões do capítulo 7 olhando para a oração de Amós: o profeta que ameaça é também o que intercede. Tome Oseias, seu contemporâneo, para uma segunda leitura: Amós fala da justiça de Deus, Oseias do seu amor ferido. O livro inteiro, com o latim, está também no aplicativo Bíblia Católica.
Perguntas Frequentes
Quem foi o profeta Amós?
Um pastor e colhedor de sicômoros de Técua, aldeia de Judá ao sul de Belém, chamado por Deus sem ser profeta de profissão. Foi enviado a pregar no reino de Israel, no santuário de Betel, sob Jeroboão II, por volta da metade do século VIII antes de Cristo. O sacerdote Amasias o expulsou acusando-o de conspirar contra o rei.
Quem escreveu o livro de Amós?
O próprio profeta, segundo a tradição da Igreja: o livro traz as suas palavras e narra em primeira pessoa as suas visões. Os seus discípulos podem ter ordenado os oráculos, mas a voz e o estilo são de um só homem.
Quando foi escrito o livro de Amós?
Sob Ozias, rei de Judá, e Jeroboão II, rei de Israel, «dois anos antes do terremoto», isto é, por volta de 760-750 antes de Cristo. O reino do Norte era então rico e seguro de si; caiu sob a Assíria em 722.
Qual a mensagem principal do livro de Amós?
Deus exige a justiça e não aceita o culto de quem oprime os pobres. Quanto mais um povo recebeu, mais severamente será julgado. Mas o juízo não é a última palavra: Deus promete reerguer a tenda de Davi, e os Apóstolos viram essa promessa cumprida na Igreja.
Quantos capítulos tem o livro de Amós?
Nove capítulos e cento e quarenta e sete versículos, com a mesma numeração na Vulgata, em Figueiredo e nas Bíblias modernas. Lê-se em menos de uma hora.
O que significa “três e quatro vêzes”?
É uma fórmula proverbial: a medida está mais que cheia. O profeta não conta as culpas; diz que o crime ultrapassou o que Deus ainda pode suportar. Amós a aplica a oito povos, para terminar em Israel.
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