Bíblia
Qual a melhor Bíblia católica? Guia das traduções
Qual Bíblia católica ler? Figueiredo, Matos Soares, Ave-Maria, Jerusalém, Pastoral, CNBB: de onde vem cada tradução, para quem serve e por que recomendamos uma tradução da Vulgata, a Bíblia que a Igreja leu por séculos.
Qual a melhor Bíblia católica? Para quem quer ler a Escritura como a Igreja a leu durante séculos, recomendamos uma tradução feita da Vulgata latina: em português, a do Padre António Pereira de Figueiredo ou a do Padre Manuel de Matos Soares, na sua edição de 1932. Para estudo, a Bíblia de Jerusalém tem as notas mais completas; para o dia a dia, a Ave-Maria é a mais difundida no Brasil. Todas essas são católicas. Neste guia explicamos de onde vem cada tradução, o que distingue umas das outras e qual escolher segundo o que você procura.
O que faz uma Bíblia ser católica
Antes de comparar traduções, três critérios simples:
- Os 73 livros. A Bíblia católica tem 46 livros no Antigo Testamento e 27 no Novo, incluindo Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc e os dois livros dos Macabeus. Uma Bíblia com 66 livros é protestante. Explicamos a diferença em quantos livros tem a Bíblia católica.
- A aprovação da Igreja. Uma edição católica traz o imprimatur de um bispo. O Concílio de Trento já proibia imprimir a Escritura sem aprovação eclesiástica.
- As notas. Uma tradução pode ser fiel e vir acompanhada de notas discutíveis. Por isso vale olhar não só o texto, mas também o comentário que o acompanha.
A Escritura não foi dada para ser lida sozinha, sem guia. O eunuco da rainha Candace, quando Filipe lhe perguntou se entendia o profeta Isaías, respondeu: "E como o poderei eu entender, se não houver alguém que mo explique?" (At 8,31). E São Pedro adverte: "nenhuma profecia da Escritura se faz por interpretação própria" (2 Pd 1,20). A boa Bíblia é aquela que se lê com a Igreja.
Por que recomendamos uma tradução da Vulgata
A Vulgata é a tradução latina da Bíblia feita por São Jerônimo no fim do século IV, a partir do hebraico e do grego. Durante mais de mil anos foi a Bíblia da Igreja latina: a que se lia na Missa, a que os Padres, os doutores e os santos comentaram. Conhecemos melhor seu tradutor na oração de São Jerônimo, tradutor da Vulgata.
O Concílio de Trento, na sua quarta sessão (8 de abril de 1546), declarou a Vulgata autêntica para a leitura pública, a pregação e o ensino. Em 1592, o papa Clemente VIII publicou a edição oficial, chamada sixto-clementina, que se tornou a referência de todas as traduções católicas posteriores.
É preciso ser honesto sobre um ponto. O papa Pio XII, na encíclica Divino afflante Spiritu (30 de setembro de 1943), explicou que essa autenticidade é jurídica, e não crítica: ela garante que a Vulgata está livre de erro em matéria de fé e de moral, não que seja perfeita em cada detalhe filológico. E o mesmo documento permite expressamente traduções feitas diretamente do hebraico e do grego, com aprovação da Igreja. Uma Bíblia traduzida dos originais não é, portanto, menos católica.
Por que, então, preferimos a Vulgata? Porque é o texto que a liturgia tradicional canta, que o Breviário reza e que os santos meditaram. Quem lê uma tradução da Vulgata reconhece nas suas páginas os salmos da Missa tridentina, as antífonas do Ofício e as citações dos Padres. É a Bíblia da tradição, inteira e sem rupturas.
As principais Bíblias católicas em português
Bíblia do Padre Figueiredo
O Padre António Pereira de Figueiredo (1725-1797), oratoriano português, fez a primeira tradução completa da Vulgata para o português: o Novo Testamento saiu entre 1778 e 1781, e o Antigo Testamento ficou completo em 1790, ao todo vinte e três volumes. Uma edição foi aprovada em 1842 pela rainha D. Maria II, com consulta ao patriarca eleito de Lisboa.
- Pontos fortes: fidelidade à Vulgata, português clássico e solene, os 73 livros.
- Ressalvas honestas: a linguagem é do século XVIII. O próprio Figueiredo foi um teólogo regalista que, na época do Marquês de Pombal, defendeu contra Roma os poderes do rei e dos bispos; essas teses não estão na sua tradução, e não são as nossas. Além disso, sociedades bíblicas protestantes reimprimiram o seu texto sem as notas e, a partir de 1828, sem os livros deuterocanônicos: ao comprar uma Figueiredo, confira se a edição tem os 73 livros.
- Para quem: quem quer a Bíblia da tradição em português, para ler junto com a liturgia tradicional. É a tradução que usamos em todos os nossos artigos, e você pode lê-la, com a Vulgata ao lado, no nosso aplicativo da Bíblia católica. Comparamos os outros aplicativos no guia dos melhores aplicativos católicos.
Bíblia de Matos Soares
O Padre Manuel de Matos Soares, professor do seminário do Porto, traduziu e comentou a Vulgata; a primeira edição completa saiu em 1932, com o imprimatur do bispo do Porto e uma carta de agradecimento da Secretaria de Estado da Santa Sé, assinada pelo cardeal Pacelli, futuro Pio XII. Foi muito difundida no mundo lusófono ao longo do século XX.
- Pontos fortes: fidelidade à Vulgata, português mais acessível que o de Figueiredo, notas de doutrina católica tradicional.
- Atenção à edição: na década de 1950 saiu também uma versão de Matos Soares feita a partir dos originais. Quem procura o texto da Vulgata deve buscar as edições baseadas na de 1932.
Bíblia Ave-Maria
A Bíblia Ave-Maria, publicada em 1959 pela Editora Ave-Maria, dos padres claretianos de São Paulo, é a Bíblia católica mais difundida no Brasil. Foi traduzida para o português a partir da Bíblia francesa dos monges beneditinos de Maredsous, na Bélgica, que por sua vez foi feita dos originais.
- Pontos fortes: linguagem simples, preço acessível, os 73 livros, notas breves.
- Ressalva: é uma tradução feita através de uma versão francesa, não diretamente do hebraico e do grego nem da Vulgata.
Bíblia de Jerusalém
A Bíblia de Jerusalém em português foi publicada em 1981 pela Paulinas, hoje Paulus, e revista em 2002. O texto foi traduzido dos originais; as introduções e as notas vêm da célebre edição francesa da Escola Bíblica de Jerusalém, dirigida pelos dominicanos.
- Pontos fortes: as notas, as referências cruzadas e as introduções mais completas entre as Bíblias em português. É a Bíblia de estudo por excelência.
- Ressalva: as notas refletem a exegese crítica moderna, com hipóteses sobre datas e autores que nem sempre coincidem com a leitura tradicional dos Padres.
Bíblia Pastoral
A Bíblia Sagrada – Edição Pastoral foi publicada pela Paulus em 1990 e substituída em 2014 pela Nova Bíblia Pastoral. Foi traduzida dos originais.
- Pontos fortes: linguagem muito simples, formato popular.
- Ressalva: as notas privilegiam uma leitura social e política do texto, o que lhe valeu críticas de muitos católicos. Para a leitura de doutrina, há opções mais seguras.
Bíblia da CNBB
A tradução da CNBB teve sua primeira edição em 2001. Uma nova tradução oficial, preparada durante onze anos a partir do hebraico, do aramaico e do grego e cotejada com a Nova Vulgata, foi lançada em novembro de 2018.
- Pontos fortes: texto oficial da Conferência dos Bispos do Brasil, linguagem atual.
- Ressalva: segue o texto e as opções da reforma litúrgica, não a Vulgata da tradição.
Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB)
A TEB, publicada no Brasil pela Loyola em 1994, segue a edição francesa ecumênica: o texto vem dos originais e as notas foram escritas em conjunto por estudiosos católicos e protestantes. Tem os livros deuterocanônicos, mas suas notas não pretendem expor a leitura católica.
A Bíblia de Jerusalém é católica?
Sim. A Bíblia de Jerusalém é católica: nasceu na Escola Bíblica de Jerusalém, fundada pelos dominicanos, tem os 73 livros e é publicada por editoras católicas. A confusão vem do fato de que alguns evangélicos também a usam por causa das notas. O que se deve saber é que essas notas seguem a exegese moderna, e por isso convém lê-las com discernimento.
A Bíblia Pastoral é católica?
Sim, a Bíblia Pastoral é católica: é publicada por uma editora católica e tem os 73 livros. Não é uma Bíblia evangélica. A crítica que se faz a ela não é sobre o cânon, mas sobre as notas, que interpretam muitas passagens em chave sociopolítica.
E as Bíblias evangélicas?
A Almeida (João Ferreira de Almeida, Novo Testamento de 1681) e a NVI são traduções protestantes, com 66 livros. Não são Bíblias católicas: faltam os sete livros deuterocanônicos e as notas, quando existem, seguem outra doutrina. Um católico pode consultá-las, mas não deve fazer delas a sua Bíblia de leitura.
Qual Bíblia ler conforme o que você procura
| Você procura… | Recomendamos |
|---|---|
| A Bíblia da tradição, a da liturgia de 1962 | Figueiredo ou Matos Soares (edição de 1932) |
| Uma Bíblia simples para começar | Ave-Maria, lida com um bom guia |
| Uma Bíblia de estudo | Jerusalém, com discernimento nas notas |
| O texto oficial da Igreja no Brasil hoje | CNBB |
Por onde começar a ler a Bíblia católica
Muitos perguntam por onde começar a ler a Bíblia católica. A pior maneira é começar pelo Gênesis e tentar ler tudo em ordem: quase todos desistem no Levítico. Um caminho mais seguro:
- Um Evangelho, de preferência São Mateus ou São Lucas. Veja o que são os Evangelhos e por que eles vêm primeiro.
- Os Atos dos Apóstolos, que contam o nascimento da Igreja.
- Os Salmos, a oração da Igreja; comece por um salmo conhecido, como o Salmo 91 ou os salmos de cura.
- Os livros sapienciais (Provérbios, Sabedoria, Eclesiástico) e depois as cartas de São Paulo.
- Só então o Antigo Testamento em sequência, começando pelo Gênesis.
Leia um pouco todos os dias, de preferência no mesmo horário, pedindo antes a luz do Espírito Santo. Nosso Senhor mesmo disse: "Examinai as Escrituras, pois julgais ter nelas a vida eterna: E elas mesmas são as que dão testemunho de mim" (Jo 5,39). E o salmista: "Tocha resplandecente para os meus pés é a tua palavra, e luz para os meus caminhos" (Sl 118,105). Para encontrar um texto bíblico sobre um tema concreto, veja também o que a Bíblia fala sobre os grandes temas da vida.
Perguntas Frequentes
Qual a melhor Bíblia católica?
Para ler a Escritura como a Igreja a leu durante séculos, uma tradução da Vulgata: em português, Figueiredo ou Matos Soares (edição de 1932). Para estudo, a Bíblia de Jerusalém; para o dia a dia, a Ave-Maria. Todas são católicas e têm os 73 livros.
Qual a melhor Bíblia católica para iniciantes?
A Ave-Maria é a mais simples de encontrar e de ler. O mais importante, porém, é ler com um guia e começar pelos Evangelhos, não pelo Gênesis. Quem gosta de uma linguagem mais solene pode começar diretamente pela Matos Soares.
Qual tradução da Bíblia a Igreja católica usa?
Para a Igreja latina, a referência histórica é a Vulgata, declarada autêntica pelo Concílio de Trento em 1546. Na liturgia atual do Brasil, os lecionários usam traduções aprovadas pela CNBB. A liturgia tradicional de 1962 usa a Vulgata em latim.
A Bíblia de Jerusalém é católica ou evangélica?
É católica: nasceu da Escola Bíblica de Jerusalém, dos dominicanos, e tem os 73 livros. Suas notas seguem a exegese moderna e devem ser lidas com discernimento.
A Bíblia Pastoral é católica ou evangélica?
É católica, publicada pela Paulus com os 73 livros. As críticas que recebe dizem respeito às notas, de leitura sociopolítica, não ao texto nem ao cânon.
A Bíblia Ave-Maria é boa?
É uma Bíblia católica fiel ao cânon e de leitura fácil, a mais difundida no Brasil. Foi traduzida a partir de uma Bíblia francesa, e não da Vulgata. É uma boa Bíblia de leitura diária; para a tradição, prefira Figueiredo ou Matos Soares.
Um católico pode ler a Bíblia evangélica?
Pode consultá-la, mas não deve adotá-la como sua Bíblia: faltam sete livros do Antigo Testamento, e as notas seguem a doutrina protestante. A Escritura completa é a de 73 livros.
O aplicativo Iter Fidei traz a Bíblia de Figueiredo e a Vulgata, versículo a versículo e sem internet, com as orações, o Breviário e as novenas, em latim e português. Participe do acesso antecipado aqui.
Fontes. Sagrada Escritura na tradução do Padre António Pereira de Figueiredo (Atos 8,31; II Pedro 1,20; São João 5,39; Salmo 118,105). Concílio de Trento, sessão IV (1546), decretos sobre o cânon e sobre a Vulgata; bula Cum sacrorum de Clemente VIII (1592); Pio XII, encíclica Divino afflante Spiritu (1943).