A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
O livro do Gênesis
O Gênesis, primeiro livro da Bíblia e primeiro dos cinco livros de Moisés, conta a criação do mundo, a queda de Adão e Eva, o dilúvio e a história de Abraão, Isaac, Jacó e José. Abaixo estão os cinquenta capítulos na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia responde quem escreveu o Gênesis, resume o livro parte por parte e mostra como a Igreja sempre o leu.
Ler Gênesis: 50 capítulos
«No princípio criou Deus o céu e a terra» (Gn 1,1). Tudo o que a Igreja crê sobre Deus criador, sobre o homem feito à sua imagem, sobre o pecado, a morte e a promessa de um Redentor tem raiz nestes cinquenta capítulos. O Gênesis é o livro das origens: a origem do mundo, a do gênero humano, a do mal e a do povo escolhido, do qual nasceria o Cristo. Quem o lê devagar descobre que quase todas as páginas do Novo Testamento supõem esta: São Paulo, a Carta aos Hebreus e o próprio Nosso Senhor voltam a ele sem cessar.
O que significa Gênesis?
Genesis é uma palavra grega que quer dizer “origem”, “nascimento”. O título vem da antiga tradução grega dos Setenta, passou à Vulgata latina e daí às nossas línguas. Os judeus chamam o livro pela sua primeira palavra, Bereshit, “no princípio”.
O próprio livro dá a chave do nome. Ele é ritmado por uma fórmula que volta como um título, “estas são as gerações de…”, que Figueiredo traduz pela primeira vez assim: «Tal foi a origem do céu, e da terra» (Gn 2,4). No Brasil se escreve Gênesis; em Portugal, Génesis, a grafia do título de Figueiredo. A Gênese, por outro lado, é o título de uma obra espírita do século XIX, sem relação com a Bíblia.
Quem escreveu o livro de Gênesis?
A Igreja recebeu o Gênesis como obra de Moisés, que o escreveu junto com o Êxodo, o Levítico, os Números e o Deuteronômio. Esses cinco livros formam o Pentateuco, que os judeus chamam Torá, a Lei. O Concílio de Trento, na sessão IV (8 de abril de 1546), abre a lista dos livros sagrados com os “cinco de Moisés”.
O testemunho é constante. Os judeus e os Padres falam da “lei de Moisés”, e Nosso Senhor fala dos escritos de Moisés como de um livro conhecido de todos: «Porque se vós crêsseis a Moisés, certamente acreditaríeis também em mim: Porque êle escreveu de mim» (Jo 5,46).
Como Moisés escreveu o Gênesis, se não viu a criação?
É uma das perguntas mais feitas, e é justa: tudo o que o Gênesis conta é anterior a Moisés. Os comentadores católicos respondem que ele recolheu as genealogias e as tradições dos patriarcas, transmitidas na família de Abraão, e as ordenou sob a inspiração divina; o que nenhum homem podia saber, como a obra dos seis dias, ele o escreveu por revelação de Deus.
A Pontifícia Comissão Bíblica, na resposta de 27 de junho de 1906, sob São Pio X, declarou que os argumentos da crítica não provam que o Pentateuco não seja de Moisés. Admitiu que ele pudesse servir-se de documentos escritos ou de tradições orais, confiar a redação a secretários que trabalhassem sob a sua autoridade, e que pequenas modificações tenham entrado mais tarde no texto, sem prejuízo da autenticidade mosaica substancial. Muitos exegetas modernos veem no Pentateuco a fusão tardia de vários documentos; a Igreja não fez sua essa hipótese.
Quando foi escrito o Gênesis?
Segundo a tradição, Moisés compôs o Gênesis durante os quarenta anos no deserto, depois da saída do Egito. A Escritura data o Êxodo a partir do Templo de Salomão, cuja construção começou «aos quatrocentos e oitenta anos da saída dos filhos de Israel da terra do Egito» (1 Reis 6,1, o III Livro dos Reis em Figueiredo). Daí se tira geralmente o século XV antes de Cristo para Moisés; outras cronologias preferem o século XIII. A data exata é discutida e a Igreja não a fixou. O relato desemboca diretamente no livro do Êxodo, que é o livro que vem depois do Gênesis na Bíblia.
Do que fala o livro de Gênesis? Resumo
O Gênesis se divide em duas grandes partes: os capítulos 1 a 11, a história das origens da humanidade, da criação à torre de Babel; os capítulos 12 a 50, a história dos patriarcas Abraão, Isaac, Jacó e José.
A criação do mundo e do homem (capítulos 1-2)
No capítulo 1, Deus cria o céu e a terra e os ordena em seis dias. A primeira palavra é: «Faça-se a luz; e fêz-se a luz» (Gn 1,3). Vêm depois o firmamento, a terra seca e as plantas, o sol, a lua e as estrelas, os peixes e as aves, os animais da terra. O homem vem por último: «E criou Deus o homem à sua imagem: fê-lo à imagem de Deus, e criou-os macho e fêmea» (Gn 1,27). No sétimo dia Deus descansa, «E abençoou Deus o dia sétimo, e o santificou» (Gn 2,3).
O capítulo 2 volta à criação do homem com mais detalhes: «Formou pois o Senhor Deus ao homem do limo da terra, e assoprou sôbre o seu rosto um assôpro de vida; e recebeu o homem, alma e vida» (Gn 2,7). Deus o põe «no paraíso das delícias, para êle o hortar e guardar» (Gn 2,15), proíbe-lhe a árvore da ciência do bem e do mal e, durante o sono de Adão, forma a mulher de uma das suas costelas. O capítulo termina com a lei do matrimônio, que tem uma seção própria mais abaixo.
A queda e as suas consequências (capítulos 3-5)
No capítulo 3, a serpente tenta a mulher com uma promessa: «vós sereis como uns deuses pelo conhecimento, que tereis do bem e do mal» (Gn 3,5). Por ela fala o demônio, que o Apocalipse chama «aquela antiga serpente, que se chama o diabo e satanás» (Ap 12,9). A mulher vê que o fruto é «bom para se comer, e era formoso, e agradável à vista», come e dá ao marido, «que comeu do mesmo fruto como ela» (Gn 3,6). Deus chama o homem que se esconde: «Onde estás?» (Gn 3,9). Seguem-se a pena, o trabalho, a dor e a morte, e a expulsão do paraíso; mas no mesmo capítulo Deus anuncia a vitória sobre a serpente (Gn 3,15).
No capítulo 4, Caim mata o irmão Abel, cuja oferta Deus tinha olhado com agrado. À pergunta de Deus ele responde: «Acaso sou eu o guarda de meu irmão?» (Gn 4,9), e Deus: «A voz do sangue, de teu irmão clama desde a terra até a mim» (Gn 4,10). Nasce depois Set, e por ele passa a linhagem da promessa; a história dos dois irmãos é contada no nosso artigo quem foi Caim e Abel. O capítulo 5 dá a genealogia de Adão a Noé, com o fim misterioso de Henoc: «E êle andou com Deus, e não apareceu mais porque o Senhor o levou» (Gn 5,24); veja quem foi Enoque.
O dilúvio (capítulos 6-9)
O capítulo 6 abre com a corrupção da terra: «A terra está cheia das iniqüidades, que os homens têm nela cometido» (Gn 6,13). «Porém Noé achou graça diante do Senhor» (Gn 6,8), e Deus lhe manda construir a arca. As águas cobrem a terra (capítulo 7) e se retiram, e a pomba volta «trazendo no bico, um ramo verde de oliveira» (Gn 8,11). No capítulo 9 Deus faz aliança com a terra e lhe dá um sinal: «Eu porei o meu arco nas nuvens, e êle será o sinal do concêrto» (Gn 9,13).
Os povos e a torre de Babel (capítulos 10-11)
O capítulo 10 enumera os descendentes dos três filhos de Noé, Sem, Cam e Jafé, dos quais saem as nações. No capítulo 11, os homens querem construir uma cidade e uma torre «cujo cume chegue até ao céu; e façamos célebre o nosso nome» (Gn 11,4). Deus confunde a sua língua, e à cidade «foi pôsto o nome de Babel, porque nela é que sucedeu a confusão de tôdas as línguas do mundo» (Gn 11,9). A essa dispersão responderá o Pentecostes, quando cada um ouvia os Apóstolos «falar cada um na sua própria língua» (At 2,6). O capítulo termina com a genealogia de Sem até Abrão.
Abraão, o pai dos crentes (capítulos 12-25)
A segunda parte começa com um chamado: «Sai da tua terra, e da tua parentela, e da casa de teu pai, e vem para a terra que eu te mostrarei» (Gn 12,1), com a promessa de que nele «serão benditas tôdas as cognações da terra» (Gn 12,3). No capítulo 14, Melquisedec, rei de Salém, vem ao encontro de Abrão «oferecendo pão e vinho, porque era sacerdote do Deus Altíssimo» (Gn 14,18); veja quem foi Melquisedeque.
No capítulo 15 Deus lhe mostra as estrelas do céu, e «Creu Abrão em Deus, e à sua fé lhe foi imputada justiça» (Gn 15,6): é o versículo sobre o qual São Paulo constrói o capítulo 4 da Carta aos Romanos. No capítulo 17 Deus lhe muda o nome, «chamar-te-ás Abraão; porque eu te tenho para pai de muitas gentes» (Gn 17,5), e dá a circuncisão como sinal da aliança.
No capítulo 18, três homens visitam Abraão no vale de Mambre e lhe anunciam Isaac: «Há porventura alguma coisa, que seja difícil a Deus?» (Gn 18,14). Sodoma e Gomorra são destruídas (capítulo 19), e Isaac nasce no capítulo 21.
O ápice da fé de Abraão é o capítulo 22: «Toma a Isaac teu filho único, a quem tu tanto amas, e vai à terra da Visão, e oferecer-mos-ás em holocausto» (Gn 22,2). Subindo o monte, Isaac pergunta onde está a vítima, e o pai responde: «Deus proverá nisso» (Gn 22,8). O anjo detém a sua mão, um carneiro é oferecido em lugar do menino e a promessa é renovada. Abraão encontra para Isaac uma esposa, Rebeca (capítulo 24), e morre «numa ditosa velhice» (Gn 25,8); a sua vida está no artigo quem foi Abraão.
Isaac e Jacó (capítulos 25-36)
No capítulo 25, Esaú vende a Jacó o direito de primogenitura por um prato de lentilhas. No capítulo 27, Jacó, a conselho da mãe, recebe a bênção do pai já cego.
Fugindo da ira do irmão, Jacó tem a visão de Betel: «viu êle em sonhos uma escada, cujos pés estavam fincados sôbre a terra, e o cimo tocava no céu; e os anjos de Deus subindo, e descendo por esta escada» (Gn 28,12). Ao acordar, exclama: «Que terrível é êste lugar! Verdadeiramente não é isto outra coisa, que a casa de Deus, e a porta do céu» (Gn 28,17). Serve o tio Labão por Lia e Raquel (capítulo 29), volta para Canaã e luta uma noite inteira com um misterioso adversário, que lhe dá um nome novo: «Daqui em diante não te chamarão mais Jacó mas Israel» (Gn 32,28). Os doze filhos de Jacó serão os pais das doze tribos.
José do Egito (capítulos 37-50)
«Amava Israel a José mais do que a todos seus irmãos […] e êle lhe tinha mandado fazer uma túnica de várias côres» (Gn 37,3). Os irmãos, com inveja, o vendem a mercadores que o levam ao Egito. Acusado falsamente pela mulher de Putifar, José é lançado na prisão (capítulo 39); interpreta os sonhos dos oficiais do rei (capítulo 40), depois os do Faraó, e se torna o primeiro do reino (capítulo 41).
Quando a fome leva os irmãos ao Egito, José os põe à prova (capítulo 42) e depois se dá a conhecer: «Eu sou José vosso irmão, a quem vós vendestes para o Egito» (Gn 45,4). Jacó desce com toda a casa para a terra de Gessen (capítulo 46) e, antes de morrer, abençoa os seus doze filhos (capítulo 49).
O Gênesis termina com um perdão e um caixão. José diz aos irmãos: «Vós intentastes fazer-me mal: Mas Deus trocou êsse mal em bem» (Gn 50,20). Morre com cento e dez anos, e «o seu corpo, tendo sido embalsamado, foi pôsto num caixão no Egito» (Gn 50,25). A família de Israel está salva, mas em terra estrangeira: espera a libertação que o Êxodo vai contar. A história de José está no artigo quem foi José do Egito.
Temas e leitura católica do Gênesis
O Gênesis ensina antes de tudo que Deus é o único Criador de todas as coisas, que fez o mundo livremente e o fez bom: «E viu Deus tôdas as coisas que tinha feito, e eram muito boas» (Gn 1,31). Ensina a dignidade do homem criado à imagem de Deus, a unidade do gênero humano, a santidade do matrimônio e a do dia do descanso.
Ensina depois a realidade da queda. São Paulo tira de Gênesis 3 a doutrina do pecado original: «por um homem entrou o pecado neste mundo, e pelo pecado a morte, assim passou também a morte a todos os homens» (Rm 5,12). O Concílio de Trento, na sessão V (1546), definiu que Adão perdeu a santidade e a justiça em que fora constituído, para si e para nós, e que o seu pecado se transmite a todos por propagação e não por imitação.
Ensina enfim a promessa da redenção. Em 30 de junho de 1909, a Comissão Bíblica enumerou os fatos dos três primeiros capítulos cujo sentido literal e histórico não se pode pôr em dúvida, entre eles a criação de todas as coisas por Deus, a criação particular do homem, a formação da primeira mulher, a unidade do gênero humano, a transgressão por instigação do demônio e a promessa de um Redentor futuro. A mesma resposta deixa livre entender o “dia” do primeiro capítulo como um dia natural ou como um período mais longo.
Gênesis 3,15: o Protoevangelho e a Virgem Maria
«Eu porei inimizades entre ti, e a mulher; entre a tua posteridade e a sua dela. Ela te pisará a cabeça e tu procurarás mordê-la no calcanhar» (Gn 3,15). É o Protoevangelho, o primeiro anúncio do Salvador, dito ao demônio logo depois da queda. A Vulgata lê ipsa conteret caput tuum, “ela te esmagará a cabeça”, e Figueiredo a segue; a Tradição reconheceu nessa mulher a Virgem Maria, a nova Eva, e por isso a Imaculada é representada com a serpente sob os pés. Santo Ireneu já ensinava que o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria. O Beato Pio IX invoca este versículo na bula Ineffabilis Deus (1854), que define a Imaculada Conceição: aquela que devia esmagar a cabeça da serpente nunca esteve sob o seu domínio.
Figuras de Cristo e dos sacramentos
O Novo Testamento chama Adão de «figura do que havia de vir» (Rm 5,14), e os Padres encontraram Cristo em cada página do livro. Eva tirada do lado de Adão adormecido anuncia, diz Santo Agostinho, a Igreja nascida do lado aberto de Cristo adormecido na Cruz, de onde «saiu sangue e água» (Jo 19,34), figuras dos sacramentos. Abel, o justo morto pelo irmão, anuncia o sangue do Cordeiro. A arca, na qual «sòmente oito se salvaram no meio da água», é figura do batismo e da Igreja, como escreve São Pedro (1 Pd 3,20). Melquisedec, que oferece pão e vinho, é figura do sacerdócio de Cristo, «sacerdote eternamente segundo a ordem de Melquisedec» (Sl 109,4), como lembra o Concílio de Trento (sessão XXII, capítulo 1).
Isaac, o filho único que leva ao monte a lenha do sacrifício, é figura da Paixão; Santo Agostinho compara essa lenha à Cruz que Cristo carregou, e a Carta aos Hebreus nota que Abraão considerava «que Deus o podia ressuscitar até de entre os mortos» (Hb 11,19). A escada de Jacó se cumpre quando Cristo promete a Natanael: «vereis o Céu aberto, e os anjos de Deus subindo e descendo sôbre o Filho do homem» (Jo 1,51).
José, vendido pelos irmãos e exaltado para salvá-los, é uma das figuras mais claras de Cristo; e a palavra do Faraó, «ide ter com José, e fazei tudo o que êle vos disser» (Gn 41,55), a piedade cristã a aplicou a São José, esposo da Virgem. A bênção de Judá, enfim, é lida pelos Padres como profecia do Messias: «Não se tirará o ceptro de Judá, nem o príncipe, que procede dêle, até que venha aquêle que deve ser enviado. E êste será a expectação das gentes» (Gn 49,10).
Versículos mais conhecidos do Gênesis
Gênesis 2,24: «serão dois numa mesma carne»
É o versículo do livro mais procurado no Brasil. Em Figueiredo: «Por isso deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e se unirá a sua mulher: e serão dois numa mesma carne» (Gn 2,24). Pouco antes, Deus tinha dito: «Não é bom que o homem esteja só: façamos-lhe uma Ajudante semelhante a êle» (Gn 2,18), e Adão, ao ver a mulher, exclamara: «Eis aqui agora o osso de meus ossos, e a carne da minha carne» (Gn 2,23).
Nosso Senhor retoma essas palavras para ensinar a indissolubilidade do matrimônio: «Assim que já não são dois, mas uma só carne: Não separe logo o homem o que Deus ajuntou» (Mt 19,6). São Paulo as aplica a Cristo e à Igreja: «Êste sacramento é grande, mas eu digo em Cristo, e na Igreja» (Ef 5,32). O Concílio de Trento abre a sua doutrina sobre o matrimônio (sessão XXIV, 1563) com estas mesmas palavras de Adão, ditas, ensina o Concílio, por inspiração do Espírito Santo.
Gênesis 28,15: «não te deixarei»
A promessa feita a Jacó na escada de Betel é muito rezada por quem parte ou atravessa uma provação: «Eu serei o teu condutor por tôda a parte, por onde fôres; e eu te tornarei a trazer a êste país; e não te deixarei, menos que não tenha executado tudo o que te prometi» (Gn 28,15). Logo depois Jacó reconhece: «Em verdade que o Senhor está neste lugar, e eu não o sabia» (Gn 28,16).
Outros versículos procurados
- Gênesis 1,26: «Façamos o homem à nossa imagem e semelhança», em que os Padres ouviram revelar-se a Trindade.
- Gênesis 3,19: «Porque tu és pó, e em pó te hás de tornar», as palavras da Quarta-feira de Cinzas.
- Gênesis 22,18: a promessa de que na posteridade de Abraão serão benditas todas as gentes, que São Paulo refere a Cristo (Gl 3,16).
- Gênesis 29,20: os sete anos de Jacó por Raquel, que «lhe pareceu muito curto, de grande que era o amor, que lhe tinha».
O Gênesis no cânon e na liturgia
O Gênesis abre a Bíblia e o Pentateuco em todas as Bíblias, católicas e protestantes, e a sua canonicidade nunca foi contestada. Figueiredo o traduz da Vulgata, declarada autêntica pelo Concílio de Trento, que está aqui ao lado.
A Igreja volta ao Gênesis antes da Quaresma. A partir do domingo da Septuagésima, as leituras do primeiro noturno das Matinas, no Breviário romano, são tiradas do Gênesis: a criação no domingo da Septuagésima, Noé no da Sexagésima, o chamado de Abraão no da Quinquagésima, e os dias de semana seguem a história até Melquisedec, na terça-feira antes das Cinzas. Nos domingos da Quaresma voltam Jacó (II domingo, Gn 27) e José (III domingo, Gn 37), e o Missal de 1962 lê as mesmas histórias na sexta-feira (Gn 37,6-22) e no sábado (Gn 27,6-40) da segunda semana.
Na Quarta-feira de Cinzas, o sacerdote impõe as cinzas com as palavras de Gênesis 3,19: Memento, homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris. Na Vigília Pascal do Missal de 1962, a primeira profecia é o relato da criação (Gn 1,1-2,2). No Cânon de toda Missa, o sacerdote pede a Deus que aceite o Sacrifício como aceitou os dons do justo Abel, o sacrifício do patriarca Abraão e o que lhe ofereceu o sumo sacerdote Melquisedec. O intróito da Missa da Dedicação de uma igreja é o grito de Jacó em Betel, Terribilis est locus iste.
As festas de Nossa Senhora leem o Protoevangelho: na Imaculada Conceição (8 de dezembro) as leituras do primeiro noturno são Gênesis 3, e na Assunção (15 de agosto) a primeira leitura das Matinas é Gn 3,9-15, enquanto o ofertório da Missa canta Inimicitias ponam. Na festa de São José (19 de março), as leituras do primeiro noturno contam José no Egito (Gn 39 e 41); na de São José Operário (1º de maio), a criação do homem e a lei do trabalho (Gn 1-3). O Ofício do dia se reza no Breviário do Iter Fidei.
Como ler o Gênesis
Leia na ordem: a menos de dois capítulos por dia, o livro se lê em um mês. Vá devagar nos onze primeiros capítulos, que sustentam toda a teologia da criação e do pecado. Tenha São Paulo por perto: Romanos 4 e 5, Gálatas 3 e 4 e Hebreus 11 são o seu comentário ao Gênesis. Comece pelo capítulo 1, ou percorra toda a Bíblia do Iter Fidei.
Perguntas Frequentes
Quem escreveu o livro de Gênesis?
A Igreja sempre recebeu o Gênesis como obra de Moisés, o primeiro dos cinco livros do Pentateuco. Nosso Senhor fala dos escritos de Moisés (Jo 5,46-47), e a tradição judaica e os Padres são unânimes. A Comissão Bíblica (1906) manteve a autenticidade mosaica substancial, admitindo fontes anteriores, secretários e retoques posteriores.
O que significa a palavra Gênesis?
Genesis é uma palavra grega que significa “origem”, “nascimento”: o livro conta a origem do mundo, do homem, do pecado e do povo escolhido. Em hebraico o livro se chama Bereshit, “no princípio”, pela sua primeira palavra.
Quantos capítulos tem o Gênesis?
O Gênesis tem cinquenta capítulos: os capítulos 1 a 11 vão da criação à torre de Babel, os capítulos 12 a 50 contam Abraão, Isaac, Jacó e José.
Quem eram os filhos de Deus em Gênesis 6?
O texto diz que «os filhos de Deus» tomaram por mulheres «as filhas dos homens» (Gn 6,2). Alguns escritores antigos viram ali anjos; Santo Agostinho, seguido por São João Crisóstomo e pela maior parte dos comentadores católicos, entende os descendentes de Set, a linhagem fiel, que se misturaram com a de Caim e se corromperam.
Adão e Eva comeram uma maçã?
O Gênesis fala só do fruto da árvore «da ciência do bem e do mal» (Gn 2,17), sem dizer a espécie. A imagem da maçã nasceu da semelhança, em latim, entre malum, “o mal”, e mālum, “a maçã”. O que importa não é o fruto, mas a desobediência.
O Gênesis é um mito?
Não. O Gênesis é história sagrada, feita de genealogias, de relatos e de profecias. A Comissão Bíblica respondeu em 1909 que os seus primeiros capítulos não são fábulas tiradas das mitologias antigas, mas narram fatos reais, mesmo quando usam linguagem figurada. Sobre esse sentido literal os Padres construíram os sentidos espirituais.
O Gênesis também se lê versículo por versículo, em português e em latim, no aplicativo Bíblia Católica do Iter Fidei.
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