Bíblia
Quem Foi Melquisedeque na Bíblia?
Quem foi Melquisedeque na Bíblia? O rei de Salém que ofereceu pão e vinho e abençoou Abraão é, na leitura que a Igreja sempre fez, a grande figura de Cristo Sacerdote e da Santa Eucaristia. Os textos de Gênesis, do Salmo 109 e da Epístola aos Hebreus, na tradução de Figueiredo.

Você quer saber quem foi Melquisedeque na Bíblia. É uma das figuras mais misteriosas de toda a Escritura: aparece de repente, sem genealogia, oferece pão e vinho, abençoa Abraão e some do relato. E, no entanto, a Igreja sempre o teve em altíssima estima, a ponto de a Santa Missa o nomear em seu cânon mais venerável. A razão é que Melquisedeque não é apenas um rei antigo: é uma figura de Cristo, uma sombra profética do Sacerdote eterno e do Sacrifício eucarístico. Para entender quem ele foi, é preciso lê-lo como a Igreja o leu, na tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo.
Quem foi Melquisedeque na Bíblia
A primeira vez que Melquisedeque aparece é no livro do Gênesis, num episódio breve mas carregado de sentido. Abraão (então chamado Abrão) acabava de derrotar os reis que haviam levado cativo seu sobrinho Ló. Ao voltar da batalha, sai-lhe ao encontro um personagem inesperado:
"Mas Melquisedec Rei de Salem, oferecendo pão e vinho, porque era sacerdote do Deus Altíssimo, abençoou a Abrão, e lhe disse: Bendito seja Abrão da parte do Altíssimo Deus, que criou o céu e a terra. E bendito seja o Deus Altíssimo, que te protegeu, e te entregou nas tuas mãos os teus inimigos. E Abrão lhe deu o dízimo de tudo o que tinha tirado." (Gênesis xiv, 18-20)
Em três versículos está tudo. Melquisedeque é rei e sacerdote ao mesmo tempo, coisa rara, pois entre os hebreus os dois ofícios depois se separaram. É sacerdote não de um ídolo, mas "do Deus Altíssimo", o verdadeiro Deus Criador. Oferece pão e vinho, e não os animais ensanguentados dos sacrifícios antigos. E abençoa Abraão, recebendo dele o dízimo, sinal de que é superior ao próprio patriarca. Cada um desses traços, como veremos, aponta para Cristo.
Melquisedeque, rei de Salém
O nome e o título já falam. Melquisedeque, em hebraico, significa rei de justiça; e Salém, a cidade sobre a qual reinava, quer dizer paz. A Epístola aos Hebreus faz questão de decifrar esses nomes:
"Primeiramente quer por certo dizer rei de justiça: E depois também rei de Salém, que vem a ser, rei de paz." (Hebreus vii, 2)
Rei de justiça e rei de paz: dois títulos que a Escritura reserva ao Messias. Cristo é "o Sol de justiça" anunciado pelo profeta Malaquias e o "Príncipe da paz" de Isaías. Já no nome de Melquisedeque, portanto, a tradição cristã reconheceu o retrato antecipado d'Aquele que viria. Salém, segundo os Padres, é a antiga Jerusalém, a cidade onde o próprio Cristo havia de oferecer o Sacrifício verdadeiro e reinar do alto da Cruz.
Por que a Bíblia diz que ele é "sem pai, nem mãe"
O ponto que mais intriga os leitores está na carta aos Hebreus, que descreve Melquisedeque com palavras surpreendentes:
"Sem pai, nem mãe, sem genealogia, que nem tem princípio de dias, nem fim de vida, mas feito semelhante ao filho de Deus, permanece sacerdote para sempre." (Hebreus vii, 3)
Cuidado: o texto não afirma que Melquisedeque fosse um anjo, nem um ser eterno, nem uma aparição de Cristo antes da Encarnação, e muito menos algum espírito a ser invocado. A leitura tradicional da Igreja é sóbria. A Sagrada Escritura, ao narrar sua história, não menciona seus pais, nem sua descendência, nem seu nascimento, nem sua morte. O Espírito Santo, que inspira o texto sagrado, calou de propósito esses dados para que Melquisedeque ficasse na página da Bíblia como uma figura sem começo nem fim visíveis, imagem do sacerdócio eterno de Cristo, que de fato não tem princípio nem fim. É um silêncio profético, não uma afirmação sobre a natureza do homem. Melquisedeque foi um rei e sacerdote de carne e osso; mas o modo como a Bíblia o apresenta foi disposto por Deus para apontar para o Filho.
Sacerdote segundo a ordem de Melquisedec
A grande importância de Melquisedeque está numa única linha do Salmo 109 (110), salmo messiânico que a Igreja reza todos os domingos nas Vésperas. Nele, Deus Pai fala ao Messias e lhe confere um sacerdócio que não vem de Aarão, mas de outra ordem mais alta:
"Jurou o Senhor, e não se arrependerá: Tu és sacerdote eternamente segundo a ordem de Melquisedec." (Salmos cix, 4)
Eis a chave de tudo. O sacerdócio levítico, o de Aarão e seus filhos, era hereditário, temporário e imperfeito: os sacerdotes morriam, e outros vinham. Mas o Messias seria sacerdote "eternamente" e "segundo a ordem de Melquisedec", isto é, fora da linhagem de Levi. A Epístola aos Hebreus desenvolve longamente esse argumento, mostrando que o sacerdócio antigo era provisório e havia de ceder lugar ao de Cristo:
"E se a perfeição fôsse pelo Sacerdócio Levítico... que necessidade havia ainda de que se levantasse depois outro Sacerdote, chamado segundo a ordem de Melquisedec, e não segundo a ordem de Aarão?" (Hebreus vii, 11)
"Mas êste, porque permanece para sempre, possui um Sacerdócio eterno. E por isto pode salvar perpètuamente aos que por êle mesmo se chegam a Deus: Vivendo sempre para interceder por nós." (Hebreus vii, 24-25)
Cristo, da tribo de Judá e não de Levi, não poderia ser sacerdote segundo a lei antiga. Por isso a Escritura o declara sacerdote "segundo a ordem de Melquisedec": um sacerdócio anterior à Lei, superior a ela, e eterno. Melquisedeque é o anúncio; Cristo é a realidade.
Melquisedeque, figura de Cristo e da Eucaristia
Aqui está o coração da leitura católica. Por que Melquisedeque ofereceu pão e vinho, e não touros e carneiros como todos os sacerdotes da antiga aliança? Porque seu sacrifício prefigurava o único Sacrifício em que o pão e o vinho seriam oferecidos: a Santa Eucaristia, na qual Cristo, no Cenáculo e em cada Missa, oferece-se sob as espécies do pão e do vinho.
Esta foi a leitura constante dos Padres. Já São Cipriano de Cartago, no século III, escrevia que em Melquisedeque, ao oferecer pão e vinho, prefigurava-se "o sacramento do sacrifício do Senhor". Santo Agostinho, comentando o Salmo, diz que ali apareceu pela primeira vez o sacrifício que agora se oferece a Deus em toda a terra. Cornélio a Lápide e Santo Tomás de Aquino ensinam o mesmo: o sacerdócio de Melquisedeque, com seu pão e seu vinho, foi a sombra antecipada do sacerdócio e do Sacrifício de Cristo.
A Igreja selou essa doutrina de modo solene. O Concílio de Trento (Sessão XXII), ao definir o Santo Sacrifício da Missa, ensina que Cristo, sacerdote eterno "segundo a ordem de Melquisedec", se ofereceu a Deus Pai sob as espécies de pão e vinho. E o Cânon Romano, a parte mais antiga e venerável da Missa tradicional, nomeia Melquisedeque entre os justos cujo sacrifício foi agradável a Deus, ao lado de Abel e de Abraão:
"Olhai-os com semblante propício e sereno, e aceitai-os como Vos dignastes aceitar os dons do vosso justo servo Abel, e o sacrifício do nosso Patriarca Abraão, e o que Vos ofereceu o vosso sumo sacerdote Melquisedec, sacrifício santo, hóstia imaculada."
Quando você assiste à Santa Missa, portanto, está diante do cumprimento daquilo que Melquisedeque apenas esboçou há quase quatro mil anos. O pão e o vinho que ele ofereceu em Salém eram a profecia; o Corpo e o Sangue de Cristo no altar são a verdade.
Como rezar com a figura de Melquisedeque
Melquisedeque não é um santo a ser invocado com novena própria, nem uma figura de devoção isolada. O melhor modo de honrá-lo é assistir à Santa Missa com fé viva, sabendo que ali se realiza o Sacrifício que ele prenunciou, e rezar o Salmo 109 (110), que a Igreja coloca nas Vésperas de domingo justamente para que cada fiel reconheça em Cristo o Sacerdote eterno. Ao receber a Sagrada Comunhão sob a espécie do pão, lembre-se de que o pão de Melquisedeque foi a primeira página de uma história que termina no altar.
Como em outras figuras do Antigo Testamento, o silêncio da Escritura sobre Melquisedeque pede uma leitura atenta; o mesmo cuidado vale ao estudar quem foi Caim e Abel ou quem foi Enoque, homens cujas histórias breves carregam grande sentido profético. E entre as grandes figuras de Cristo no Antigo Testamento contam-se também José do Egito, vendido pelos irmãos e exaltado para salvar muitos povos, e Moisés, o mediador que livrou Israel da escravidão. E quem quer transformar essa leitura em vida de oração encontrará no nosso guia de orações católicas e nos versículos de fé um caminho para alimentar a alma com a Palavra.
Quem deseja aprofundar essa leitura encontrará no nosso guia O Que a Bíblia Fala Sobre os Grandes Temas da Vida o método de ler a Escritura com a Igreja, e em O Que É uma Novena o sentido da oração perseverante que nasce da Palavra.
Perguntas Frequentes
Quem foi Melquisedeque na Bíblia?
Melquisedeque foi rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo, que saiu ao encontro de Abraão depois da batalha, ofereceu pão e vinho, abençoou o patriarca e dele recebeu o dízimo (Gênesis xiv, 18-20). A Igreja sempre o leu como figura de Cristo Sacerdote e da Eucaristia.
O que significa o nome Melquisedeque e o que é Salém?
Melquisedeque, em hebraico, significa "rei de justiça", e Salém, a cidade que ele governava, quer dizer "paz". A própria Epístola aos Hebreus decifra esses nomes (Hebreus vii, 2). Rei de justiça e rei de paz são títulos que a Escritura reserva ao Messias, razão pela qual a tradição reconheceu já no nome de Melquisedeque o retrato antecipado de Cristo.
Melquisedeque era Jesus Cristo antes da Encarnação?
Não. A leitura tradicional da Igreja é que Melquisedeque foi um homem real, rei e sacerdote, e não uma aparição de Cristo. A expressão "sem pai, nem mãe, sem genealogia" (Hebreus vii, 3) significa que a Escritura silenciou de propósito sua origem e sua morte, para que ele servisse de imagem do sacerdócio eterno do Filho de Deus.
Por que Melquisedeque ofereceu pão e vinho?
Porque seu sacrifício prefigurava a Santa Eucaristia. Diferentemente dos sacerdotes da antiga lei, que ofereciam animais, Melquisedeque ofereceu pão e vinho, as mesmas espécies sob as quais Cristo se oferece no Santo Sacrifício da Missa. Os Padres, como São Cipriano e Santo Agostinho, viram nisso o anúncio do Sacrifício eucarístico.
O que significa "sacerdote segundo a ordem de Melquisedec"?
Significa que o sacerdócio de Cristo não vem de Aarão nem da tribo de Levi, mas de uma ordem mais antiga, superior e eterna. O Salmo 109 (110), 4 anuncia o Messias como "sacerdote eternamente segundo a ordem de Melquisedec", e a Epístola aos Hebreus mostra que Cristo cumpre essa profecia.
Melquisedeque é citado na Missa?
Sim. O Cânon Romano da Missa tradicional nomeia Melquisedeque entre os justos cujo sacrifício foi aceito por Deus, ao lado de Abel e de Abraão, pedindo que o Sacrifício do altar seja recebido como foi aceito "o que Vos ofereceu o vosso sumo sacerdote Melquisedec".
Devo rezar a Melquisedeque ou fazer novena a ele?
Não há devoção, novena ou invocação dirigida a Melquisedeque, e seria um erro tratá-lo como objeto de culto. Ele é uma figura profética do Antigo Testamento. O modo certo de honrá-lo é assistir à Santa Missa com fé e rezar o Salmo 109 (110), reconhecendo em Cristo o Sacerdote eterno que ele anunciou.
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Fontes. Os textos bíblicos são citados na tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo: Gênesis xiv, 18-24; Salmos cix (110), 1-7; Hebreus v, 6.10; vi, 20; vii, 1-28. A leitura como figura de Cristo e da Eucaristia repousa nos Padres da Igreja (São Cipriano de Cartago, Epístola 63; Santo Agostinho, Comentário aos Salmos), nos comentadores clássicos (Cornélio a Lápide; Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica III, q. 22), no Concílio de Trento (Sessão XXII, sobre o Santo Sacrifício da Missa) e no Cânon Romano da Missa tradicional.