A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
O livro dos Números
Os Números, quarto livro de Moisés, contam os quarenta anos de Israel no deserto: os recenseamentos do povo, a partida do Sinai, as murmurações, os espiões de Canaã, a serpente de bronze, o profeta Balaão e a chegada às planícies de Moab. Abaixo estão os trinta e seis capítulos na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado; o guia explica por que o livro se chama Números, quem o escreveu, o resumo, a bênção sacerdotal de Números 6 e a leitura católica.
Ler Números: 36 capítulos
O livro dos Números é o livro do deserto. Começa ao pé do Sinai, no segundo ano depois da saída do Egito, e termina quase quarenta anos depois, nas planícies de Moab, diante de Jericó, quando uma geração inteira morreu e outra está pronta para entrar na Terra prometida. Entre esses dois pontos há o pão do céu e as murmurações, a nuvem que guia e as revoltas, a fé de Josué e de Caleb e a incredulidade do povo. São Paulo resume a lição: essas coisas aconteceram «em figura», «para escarmento de nós outros» (1 Cor 10,11). O deserto dos Números é a imagem da vida cristã, caminho entre o batismo e o Céu.
Por que o livro se chama Números?
O nome vem da Bíblia grega dos Setenta, Arithmoí, que a Vulgata traduziu por Numeri: o livro contém dois grandes recenseamentos do povo, um no Sinai (capítulo 1) e outro nas planícies de Moab (capítulo 26), além da contagem dos levitas e dos primogênitos. O primeiro dá «seiscentos e três mil quinhentos e cinqüenta homens» (Nm 1,46) em idade de combater. Os judeus o chamam Bemidbar, “No deserto”, palavra do primeiro versículo, e o título hebraico diz melhor o assunto do livro.
Quem escreveu o livro de Números?
A Igreja recebeu os Números como obra de Moisés, o quarto dos cinco livros do Pentateuco que o Concílio de Trento (sessão IV, 1546) enumera como os livros de Moisés. O próprio texto o diz a propósito do itinerário do deserto: são as etapas «as quais descreveu Moisés segundo os lugares dos seus acampamentos» (Nm 33,2), e o livro termina: «Êstes são os mandamentos e os juízos, que o Senhor deu por Moisés aos filhos de Israel» (Nm 36,13).
Algumas frases mostram outra mão ao lado da de Moisés, como esta, entre parênteses no próprio texto: «(porque Moisés era o mais manso de todos os homens que havia na terra)» (Nm 12,3). A Pontifícia Comissão Bíblica, em 27 de junho de 1906, manteve a autenticidade mosaica substancial do Pentateuco, admitindo que Moisés se servisse de secretários e que o texto recebesse pequenos acréscimos posteriores. Muitos exegetas modernos pensam numa composição muito mais tardia; a Igreja não fez sua essa hipótese.
Quando foi escrito o livro de Números?
O livro cobre quase quarenta anos. Abre «no segundo ano depois da saída dos filhos de Israel do Egito, no primeiro dia do segundo mês» (Nm 1,1), e os seus últimos capítulos se passam no quadragésimo ano, pouco antes da morte de Moisés, que o Deuteronômio conta. Segundo a tradição, Moisés o escreveu nesse tempo, com o diário das etapas. Quanto ao século, a cronologia tradicional tirada de 1 Reis 6,1 dá o século XV antes de Cristo; outros preferem o XIII.
Do que fala o livro de Números? Resumo
O livro tem três partes, segundo os lugares: o Sinai (capítulos 1-10), o deserto, de Cades a Moab (capítulos 10-21), e as planícies de Moab (capítulos 22-36).
Israel se organiza no Sinai (capítulos 1-10)
O capítulo 1 faz o recenseamento das doze tribos, o capítulo 2 fixa a ordem do acampamento em volta do tabernáculo, os capítulos 3 e 4 contam os levitas, que Deus toma «em lugar de todos os primogênitos» (Nm 3,12). O capítulo 6 dá a lei dos nazireus, que se consagram a Deus abstendo-se do vinho e deixando crescer o cabelo, e termina com a bênção sacerdotal.
Os chefes das tribos levam as suas ofertas (capítulo 7), celebra-se a segunda Páscoa (capítulo 9), e a nuvem passa a comandar a marcha: «quando se retirava de cima a nuvem que cobria o tabernáculo, então se punham em marcha os filhos de Israel» (Nm 9,17). Quando a arca parte, Moisés diz: «Levanta-te Senhor, e dissipem-se os teus inimigos» (Nm 10,35), palavras que o salmo 67 retoma.
As murmurações e os espiões (capítulos 11-14)
Mal se põe a caminho, o povo se queixa do maná e tem saudade do Egito: «Lembra-nos o peixe que comíamos no Egito sem nos custar nada» (Nm 11,5). Deus manda codornizes, e reparte o espírito de Moisés entre setenta anciãos; ao ciúme de Josué, Moisés responde: «Quem dera que todo o povo profetizasse» (Nm 11,29). No capítulo 12, Maria e Aarão murmuram contra Moisés, e Deus o defende: «eu lhe falo cara a cara» (Nm 12,8).
Nos capítulos 13 e 14, doze espiões exploram Canaã. Voltam dizendo que a terra «na verdade mana leite e mel» (Nm 13,28), mas dez deles assustam o povo com os gigantes, «Comparados com os quais parecíamos nós uns gafanhotos» (Nm 13,34). Só Josué e Caleb mantêm a fé: «o Senhor está conosco: Não temais» (Nm 14,9). O povo quer apedrejá-los e voltar ao Egito, e Deus decreta que aquela geração não entrará na terra: «Vossos filhos andarão errantes por êste deserto quarenta anos» (Nm 14,33), um ano por cada dia de exploração.
Coré e a vara de Aarão (capítulos 15-19)
No capítulo 16, o levita Coré, com Datan e Abiron, se levanta contra Moisés e Aarão e reivindica o sacerdócio; a terra se abre e os engole, «E desceram vivos ao inferno cobertos de terra» (Nm 16,33). Para pôr fim às queixas, Deus manda depositar no tabernáculo uma vara por tribo, e no dia seguinte «tinha brotado a vara de Aarão […] tinham saído flores, que estendidas as suas fôlhas se transformaram em amêndoas» (Nm 17,8). O capítulo 19 prescreve as cinzas da vaca vermelha para a água da purificação, que a Carta aos Hebreus compara ao sangue de Cristo (Hb 9,13-14).
Cades, Meribá e a serpente de bronze (capítulos 20-21)
No capítulo 20, Maria morre em Cades. Falta água, o povo se revolta, e Deus manda Moisés falar à rocha; Moisés a fere duas vezes, e a água jorra, mas Deus lhe diz: «Porque vós me não crestes para me santificardes diante dos filhos de Israel, não introduzireis êstes povos na terra» (Nm 20,12). Aarão morre no monte Hor, e Eleazar, seu filho, recebe as suas vestes.
No capítulo 21, o povo murmura de novo e é castigado com serpentes ardentes. Moisés intercede, e Deus lhe diz: «Faze uma serpente de bronze, e põe-na por sinal: todo o que sendo ferido olhar para ela, viverá» (Nm 21,8). O capítulo termina com as primeiras vitórias, sobre Seon e Og, a leste do Jordão.
Balaão e as planícies de Moab (capítulos 22-36)
Balac, rei de Moab, chama o adivinho Balaão para amaldiçoar Israel. No caminho, a jumenta de Balaão vê o anjo do Senhor que lhe barra a passagem, e «o Senhor abriu a bôca da jumenta, e ela falou» (Nm 22,28). Nos capítulos 23 e 24, Balaão, em vez de amaldiçoar, abençoa três vezes, «Que formosos são os teus pavilhões, ó Jacó; e que belas as tuas tendas, ó Israel!» (Nm 24,5), e anuncia: «Nascerá uma Estrêla de Jacó, e levantar-se-á uma vara de Israel» (Nm 24,17).
Mas no capítulo 25, por conselho do mesmo Balaão (Nm 31,16), o povo cai na idolatria de Beelfegor com as filhas de Moab. O segundo recenseamento (capítulo 26) constata que da geração do Sinai ninguém sobrou, «exceto Caleb filho de Jefone, e Josué filho de Nun» (Nm 26,65).
No capítulo 27, Moisés pede um pastor para o povo, «Para que o povo do Senhor não seja como ovelhas sem pastor», e Deus designa Josué: «Lança mão de Josué filho de Nun, varão no qual reside o espírito, e impõe-lhe as mãos» (Nm 27,17-18). Os últimos capítulos tratam das festas e dos votos, da guerra contra Madian, da partilha da Transjordânia, do itinerário do deserto (capítulo 33) e das cidades de refúgio para quem mata sem querer (capítulo 35). O relato continua no livro de Josué, depois dos discursos do Deuteronômio.
Números 6,24-26: a bênção sacerdotal
É a passagem mais procurada do livro. Deus manda a Aarão e aos seus filhos abençoar o povo com estas palavras:
«O Senhor te abençoe e te guarde. O Senhor te mostre a sua face, e se compadeça de ti. O Senhor volva o seu rosto para ti, e te dê a paz» (Nm 6,24-26).
Em latim: Benedicat tibi Dominus, et custodiat te. Ostendat Dominus faciem suam tibi, et misereatur tui. Convertat Dominus vultum suum ad te, et det tibi pacem. E Deus acrescenta: «E invocarão o meu nome sôbre os filhos de Israel, e eu os abençoarei» (Nm 6,27). A bênção não é uma fórmula que age sozinha: é o nome de Deus posto sobre o povo pelos seus sacerdotes, e é Deus quem abençoa.
Comentadores cristãos notaram que o nome do Senhor é repetido três vezes, e viram nessa tríplice invocação um indício da Santíssima Trindade. São Francisco de Assis escreveu esta bênção de próprio punho para Frei Leão, num pergaminho que se conserva em Assis. Muitos pais cristãos a rezam sobre os filhos; é uma bela maneira de usá-la, pedindo a Deus, e não à fórmula, a sua proteção e a sua paz.
Temas e leitura católica dos Números
A serpente de bronze e a Cruz
O próprio Nosso Senhor deu a chave do capítulo 21: «E como Moisés no deserto levantou a serpente, assim importa que seja levantado o Filho do homem: Para que todo o que crê nêle, não pereça, mas tenha a vida eterna» (Jo 3,14-15). Os feridos não eram curados pelo bronze, mas por Deus, a quem obedeciam olhando para o sinal que Ele mandara erguer; do mesmo modo, quem olha com fé para o Crucificado é curado do veneno do pecado.
Por isso a Igreja lê este capítulo na festa da Exaltação da Santa Cruz (veja a novena da Santa Cruz). E quando, séculos depois, o povo passou a queimar incenso à serpente, o rei Ezequias a destruiu (2 Reis 18,4, o IV Livro dos Reis em Figueiredo): o sinal nunca deve tomar o lugar de Deus.
A rocha, o maná e a Eucaristia
São Paulo lê o deserto inteiro em chave sacramental: os pais «todos comeram dum mesmo manjar espiritual. E todos beberam duma mesma bebida espiritual, (porque todos bebiam da pedra misteriosa, que os seguia: E esta pedra era Cristo)» (1 Cor 10,3-4). O maná de que o povo se cansa, «os nossos olhos não vêem senão maná» (Nm 11,6), é figura do pão eucarístico, e a advertência vale para nós: pode-se perder o gosto do pão do céu.
A geração que não entrou
A Carta aos Hebreus faz dos capítulos 13 e 14 uma advertência aos cristãos: «E nós vemos que êles não puderam lá entrar por causa da sua incredulidade» (Hb 3,19). Quem foi libertado pode ainda perder a herança se endurecer o coração. Josué e Caleb, que seguiram o Senhor até o fim, são o modelo da perseverança.
Moisés, Aarão e o sacerdócio
A revolta de Coré e o florescimento da vara de Aarão mostram que o sacerdócio não se toma, recebe-se de Deus: a Carta aos Hebreus o dirá de Cristo, e São Judas lembra «a rebelião de Coré» (Jd 1,11) contra os que desprezam a autoridade. A vara seca que floresce sem raiz foi lida pela Tradição como figura da Virgem, que concebeu sem perder a virgindade: o versículo aleluiático Virga Jesse floruit da festa da Anunciação (quando ela cai no tempo pascal) e da Missa de Nossa Senhora no sábado do tempo pascal remete, no Missal, a Números 17,8. A vara foi guardada na arca, com o maná e as tábuas da Lei (Hb 9,4).
A estrela de Jacó
A profecia de Balaão, «Nascerá uma Estrêla de Jacó» (Nm 24,17), foi lida pelos Padres como anúncio do Messias; Orígenes a relaciona com a estrela dos Magos, que disseram: «nós vimos no Oriente a sua estrêla: E viemos a adorá-lo» (Mt 2,2). Deus pode pôr palavras verdadeiras até na boca de um adivinho venal: «poderei eu dizer outra coisa, que não seja o que Deus me puser na bôca?» (Nm 22,38). O Novo Testamento, porém, condena «o caminho de Balaão» (2 Pd 2,15), o de quem vende o dom de Deus.
Versículos mais conhecidos de Números
- Números 6,24-26: a bênção sacerdotal, «O Senhor te abençoe e te guarde».
- Números 23,19: «Deus não é como o homem capaz de mentir, nem como o filho do homem, sujeito a mudanças. Êle pois disse, e não o fará? Falou, e não o cumprirá?»
- Números 14,18: «O Senhor é paciente e de muita misericórdia».
- Números 12,3: Moisés, «o mais manso de todos os homens».
- Números 21,8: a serpente de bronze.
Os Números no cânon e na liturgia
Os Números são o quarto livro do Pentateuco em todas as Bíblias, entre o Levítico e o Deuteronômio, e a sua canonicidade nunca foi contestada; não pertencem ao grupo dos livros que só as Bíblias católicas trazem (veja quantos livros tem a Bíblia católica).
Na liturgia de 1962, a Igreja os lê em três momentos. Na sexta-feira da III semana da Quaresma, a leitura da Missa é a água tirada da rocha (Nm 20,1.3.6-13), escolhida para acompanhar o Evangelho da Samaritana e da água viva. Na festa da Exaltação da Santa Cruz (14 de setembro), as leituras do primeiro noturno das Matinas são Números 21, com a serpente de bronze. E o versículo Virga Jesse floruit, cantado no aleluia da Anunciação (25 de março) quando a festa cai no tempo pascal, e na Missa de Nossa Senhora do sábado nesse tempo, remete à vara de Aarão de Números 17,8. O Ofício do dia está no Breviário.
Como ler o livro de Números
Leia-o como um diário de viagem, com o mapa do deserto na cabeça: Sinai, Cades, monte Hor, planícies de Moab. Passe mais rápido pelas listas dos recenseamentos e das ofertas, que têm o seu sentido (Deus conhece cada um pelo nome), e detenha-se nos relatos dos capítulos 11 a 14, 16 e 17, 20 a 24 e 27, que são o coração do livro. Leia ao mesmo tempo 1 Coríntios 10 e Hebreus 3 e 4: são o comentário apostólico dos Números. Os capítulos estão logo abaixo.
Perguntas Frequentes
Quem escreveu o livro de Números?
A Igreja recebeu os Números como obra de Moisés, quarto livro do Pentateuco; o próprio texto diz que Moisés descreveu as etapas do deserto (Nm 33,2). A Comissão Bíblica (1906) manteve a autenticidade mosaica substancial, admitindo secretários e pequenos acréscimos posteriores, como a observação sobre a mansidão de Moisés (Nm 12,3).
Por que o livro se chama Números?
Por causa dos dois recenseamentos do povo, nos capítulos 1 e 26: a Bíblia grega o chamou Arithmoí, “Números”, e a Vulgata Numeri. Em hebraico o livro se chama Bemidbar, “No deserto”.
Do que fala o livro de Números?
Dos quarenta anos de Israel no deserto, do Sinai às planícies de Moab: a organização do povo, as murmurações, a recusa de entrar em Canaã depois do relatório dos espiões, a revolta de Coré, a serpente de bronze, as bênçãos de Balaão e a escolha de Josué como sucessor de Moisés.
Quantos capítulos tem o livro de Números?
Trinta e seis. Os capítulos 1 a 10 se passam no Sinai, 10 a 21 no deserto, 22 a 36 nas planícies de Moab.
Onde está a bênção «O Senhor te abençoe e te guarde»?
Em Números 6,24-26. É a bênção que Deus mandou Aarão e os sacerdotes darem aos filhos de Israel, invocando três vezes o nome do Senhor.
Por que Moisés não entrou na Terra prometida?
Porque em Cades, quando Deus lhe mandou falar à rocha, ele a feriu duas vezes e não santificou o Senhor diante do povo (Nm 20,12). Deus lhe permitiu ver a terra do alto do monte Nebo, mas foi Josué quem a fez conquistar, como conta o fim do Deuteronômio.
Os Números também se leem versículo por versículo, em português e em latim, no aplicativo Bíblia Católica do Iter Fidei.
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