A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
O livro de Josué
O livro de Josué conta como o sucessor de Moisés fez Israel atravessar o Jordão, tomar Jericó e conquistar a terra de Canaã, que repartiu entre as doze tribos antes de renovar a aliança em Siquém. Abaixo estão os vinte e quatro capítulos na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado; o guia responde quem escreveu o livro de Josué, quem foi Josué, resume o livro, explica Josué 1,9, o anátema e o sol parado, e mostra a leitura que a Igreja sempre fez dele.
Ler Josué: 24 capítulos
Com o livro de Josué, a promessa feita a Abraão se cumpre. Durante cinco livros Israel caminhou rumo a uma terra que só tinha visto de longe; agora atravessa o Jordão, derruba as muralhas de Jericó e recebe a sua herança. O livro termina com uma frase que resume toda a fidelidade de Deus: «Nem uma só palavra do que tinha prometido dar-lhes, ficou sem efeito, mas tudo se cumpriu por obra» (Js 21,43). Os Padres leram nele muito mais do que uma conquista: o chefe que introduz o povo na terra prometida tem o mesmo nome de Jesus, e a sua obra é figura da que Cristo realiza ao levar-nos ao Céu.
Quem foi Josué?
Josué, filho de Nun, da tribo de Efraim, chamava-se primeiro Oseias; Moisés lhe mudou o nome: «a Osée filho de Nun, pôs-lhe o nome de Josué» (Nm 13,17). O nome hebraico, Yehoshua, significa “o Senhor salva”, e é exatamente o nome de Jesus: a Bíblia grega e a Vulgata o escrevem do mesmo modo, Iesus. Por isso a Carta aos Hebreus, falando de Josué, diz em Figueiredo: «se Jesus lhe houvera dado o repouso» (Hb 4,8), e o Eclesiástico o chama «Jesus de Nave forte na guerra, sucessor de Moisés entre os profetas» (Eclo 46,1).
Josué aparece desde o Êxodo como o «ministro» de Moisés (Êx 24,13): comanda a batalha contra Amalec, sobe com ele ao Sinai e não se afasta do tabernáculo. É um dos doze espiões enviados a Canaã e, com Caleb, o único que mantém a fé; por isso é, com ele, o único da geração do Êxodo que entra na terra. Moisés lhe impõe as mãos diante de todo o povo (Nm 27,18), e o Deuteronômio termina dizendo que «Josué pois, filho de Nun, foi cheio do espírito de sabedoria, porque Moisés lhe tinha impôsto as suas mãos» (Dt 34,9). Morre com cento e dez anos e é sepultado na sua herança, no monte de Efraim (Js 24,29-30).
Quem escreveu o livro de Josué?
A tradição atribui o livro ao próprio Josué. O Talmude judaico diz que Josué escreveu o livro que traz o seu nome, e que o relato da sua morte foi acrescentado pelo sacerdote Eleazar e por Fineias, seu filho; muitos Padres e comentadores católicos seguiram essa atribuição. O texto a apoia: «Escreveu também tôdas estas coisas no livro da lei do Senhor» (Js 24,26), e em certos trechos o narrador fala como testemunha, como quando diz que Raab e a casa de seu pai «ficaram habitando no meio de Israel até o dia de hoje» (Js 6,25), quando ela ainda vivia.
Outras passagens mostram uma redação final posterior, como a morte de Josué e de Eleazar no último capítulo. Por isso vários comentadores católicos falam de um autor inspirado que trabalhou sobre os escritos de Josué e de testemunhas do seu tempo. A Igreja não definiu nada sobre o autor humano deste livro; ensina que ele é inspirado e canônico. Os exegetas modernos situam a sua redação muito mais tarde, dentro de uma grande história que iria até os livros dos Reis.
Quando foi escrito o livro de Josué?
Os fatos se passam logo depois da morte de Moisés, ao longo da vida de Josué, que conquista e reparte a terra já velho (Js 13,1). Segundo a cronologia tradicional, tirada de 1 Reis 6,1 (III Reis na Vulgata), isso nos leva ao fim do século XV antes de Cristo; quem prefere a datação curta do Êxodo o situa no século XIII. Se a substância do livro vem de Josué e dos anciãos que lhe sobreviveram, a sua forma final é um pouco posterior; a data exata é incerta.
Do que fala o livro de Josué? Resumo
O livro tem três partes: a conquista (capítulos 1-12), a partilha da terra (capítulos 13-21) e as despedidas de Josué (capítulos 22-24).
A ordem de Deus e a travessia do Jordão (capítulos 1-5)
O capítulo 1 abre com a voz de Deus: «Moisés, meu servo, é morto: Levanta-te e passa êsse Jordão tu, e todo o povo contigo» (Js 1,2), com a promessa que Moisés já tinha ouvido, «Todo o lugar, que pisarem as plantas de vossos pés, eu vo-lo entregarei» (Js 1,3), e a ordem de meditar a Lei «de dia e de noite» (Js 1,8).
No capítulo 2, dois espiões entram em Jericó e se escondem na casa de Raab, que confessa a fé no Deus de Israel, «Deus lá em cima no céu, e cá em baixo na terra» (Js 2,11), e recebe como sinal de salvação um cordão de escarlata atado à janela. Nos capítulos 3 e 4, os sacerdotes entram no rio com a arca, as águas param, «e todo o povo passava através do rio a pé enxuto» (Js 3,17); doze pedras tiradas do leito são erguidas em Galgala como memorial.
No capítulo 5 o povo é circuncidado, celebra a Páscoa na planície de Jericó, e no dia seguinte «cessou o maná» (Js 5,12): Israel come do fruto da terra. Diante de Jericó, Josué vê um homem com a espada nua, que lhe diz: «sou o príncipe do exército do Senhor», e Josué se prostra (Js 5,14).
Jericó e a conquista de Canaã (capítulos 6-12)
No capítulo 6, Deus manda dar volta à cidade durante seis dias, e no sétimo sete vezes, com os sacerdotes tocando as trombetas diante da arca. Ao último toque, o povo grita, e «caíram de repente os muros» (Js 6,20). Só Raab e a sua família são poupadas.
No capítulo 7, Israel é derrotado em Hai porque Acã tomou para si o que tinha sido consagrado a Deus; descoberto, ele confessa: «Na verdade eu pequei contra o Senhor Deus de Israel» (Js 7,20), e é castigado. Hai é tomada no capítulo 8, e Josué ergue um altar no monte Hebal e escreve sobre as pedras «o Deuteronômio da lei de Moisés» (Js 8,32). No capítulo 9, os gabaonitas obtêm uma aliança por astúcia. No capítulo 10, cinco reis amorreus atacam Gabaon, e Josué diz: «Sol, detém-te sôbre Gabaon: e tu, lua, pára sôbre o vale de Ajalon» (Js 10,12). Seguem-se as campanhas do sul e do norte (capítulo 11), até que «a terra cessou de ter guerras» (Js 11,23), e a lista dos reis vencidos (capítulo 12).
A partilha da terra entre as tribos (capítulos 13-21)
Os capítulos 13 a 19 repartem a terra por sorte entre as tribos: Rúben, Gad e metade de Manassés a leste do Jordão, as outras a oeste. Caleb, aos oitenta e cinco anos, pede o monte de Hebron que Moisés lhe prometera, e o recebe «por ter seguido ao Senhor Deus de Israel» (Js 14,14). O tabernáculo é instalado em Silo (Js 18,1). O capítulo 20 designa as cidades de refúgio, e o capítulo 21 as cidades dos levitas, que não recebem território próprio porque o Senhor é a sua herança.
As despedidas de Josué e a aliança de Siquém (capítulos 22-24)
As tribos do leste voltam para as suas terras e erguem um altar junto do Jordão, que quase provoca uma guerra antes de se explicar como memorial (capítulo 22). Já velho, Josué reúne Israel e lhe lembra: «de tôdas as palavras que o Senhor prometeu cumprir-vos, nem uma só ficou sem cumprimento» (Js 23,14). No capítulo 24, em Siquém, recorda toda a história desde Abraão e põe o povo diante da escolha, com a sua célebre resposta, que tem a sua seção abaixo. O povo promete: «Nós serviremos ao Senhor nosso Deus, e seremos obedientes aos seus preceitos» (Js 24,24). Josué morre, e os ossos de José, trazidos do Egito, são sepultados em Siquém (Js 24,32), como ele tinha pedido no fim do Gênesis.
Josué 1,9: «tem ânimo, e sê robusto»
É o versículo mais procurado do livro: «Olha que eu to mando, tem ânimo, e sê robusto. Não temas, nem hajas mêdo: Porque o Senhor teu Deus é contigo para qualquer parte que fôres» (Js 1,9). Em latim: Ecce præcipio tibi: confortare, et esto robustus. Noli metuere, et noli timere: quoniam tecum est Dominus Deus tuus in omnibus ad quæcumque perrexeris. As Bíblias modernas costumam traduzir “sê forte e corajoso”.
A ordem se repete três vezes no capítulo (v. 6, 7 e 9) e retoma as palavras de Moisés a Josué no Deuteronômio 31. Mas repare na ligação com os versículos 7 e 8: a coragem pedida a Josué é antes de tudo a de «observares, e cumprires tôda a lei», sem se desviar «nem para a direita nem para a esquerda» (Js 1,7). Não é a coragem de quem confia nas próprias forças, mas a de quem obedece a Deus e sabe que Ele está presente: «Como eu fui com Moisés, assim serei contigo: Não te deixarei, nem desampararei» (Js 1,5). Outros versículos de confiança estão reunidos em versículos de fé.
Josué 24,15: «eu e minha casa havemos de servir ao Senhor»
«Porém se vos achais mal com servir ao Senhor, na vossa mão está a escolha: escolhei hoje o que mais vos agradar […] porque eu e minha casa havemos de servir ao Senhor» (Js 24,15). Josué não força a fé do povo: põe-no diante de uma escolha livre, como Moisés tinha feito («Escolhe pois a vida», Dt 30,19), e responde primeiro por si e pela sua família. A frase se tornou o lema de muitos lares cristãos, que nela reconhecem o dever do pai de família de conduzir os seus a Deus.
Temas e leitura católica de Josué
Josué, figura de Jesus
São Justino, no Diálogo com Trifão, e depois Orígenes, nas suas Homilias sobre Josué, insistem no nome: não foi Moisés, o legislador, quem introduziu o povo na terra prometida, mas Josué, aquele que leva o nome de Jesus. A Lei conduz até a fronteira; só Jesus faz entrar. A travessia do Jordão a pé enxuto, com a arca à frente, foi lida como figura do batismo, que nos faz passar para a vida nova, e o Jordão é o rio em que Cristo será batizado. A Páscoa celebrada em Galgala e o fim do maná, quando o povo come o fruto da terra, anunciam a passagem das figuras à realidade.
Raab e o cordão de escarlata
Raab, a mulher pecadora de Jericó, é salva pela fé, como lembra a Carta aos Hebreus: «Pela fé é que Raab, que era uma prostituta, não pereceu com os incrédulos» (Hb 11,31); São Tiago a cita pelas suas obras (Tg 2,25), e São Mateus a põe na genealogia de Cristo, mãe de Booz (Mt 1,5). São Clemente de Roma, na sua carta aos Coríntios, já via no cordão de escarlata o sinal de que a redenção viria pelo sangue do Senhor para todos os que creem e esperam em Deus; os Padres viram na casa de Raab, onde só se salva quem está dentro, uma imagem da Igreja.
O anátema e a guerra da conquista
Muitos leitores perguntam o que significa “anátema” no livro de Josué. Deus manda que Jericó «e tudo o que há nela seja anátema ao Senhor» (Js 6,17): em hebraico, herem, uma coisa votada a Deus e retirada do uso humano, que não podia ser tomada como despojo; por isso o pecado de Acã, que se apropriou dela, foi um sacrilégio. Os metais preciosos iam para o tesouro do Senhor, e o resto era destruído.
A destruição dos cananeus choca o leitor moderno, e a pergunta é antiga. A Escritura a apresenta como um juízo de Deus sobre povos cuja maldade tinha chegado ao cúmulo; já a Abraão Deus dizia que os seus descendentes só voltariam «porque a medida das iniqüidades dos amorreus não está ainda até agora cheia» (Gn 15,16), e o livro da Sabedoria lembra os seus «sacrifícios ímpios» e a paciência com que Deus os julgou (Sb 12,4). Deus é senhor da vida e da morte, e só Ele podia dar uma ordem assim; ela não autoriza nenhuma guerra humana. Os Padres, a começar por Orígenes, leram também essas guerras em sentido espiritual: a luta sem trégua do cristão contra os vícios que ocupam a sua alma.
O sol parado em Gabaon
O milagre de Josué 10 é narrado como um fato: «Parou pois o sol no meio do céu, e não se apressou a pôr-se durante o espaço dum dia» (Js 10,13), e o Eclesiástico o recorda (Eclo 46,5). A Igreja o recebe como um verdadeiro milagre, obtido pela oração de Josué. O modo como Deus o realizou, o texto não o diz. Leão XIII, na encíclica Providentissimus Deus (1893), lembra que os autores sagrados descrevem as coisas da natureza como aparecem aos sentidos, à maneira da linguagem comum, que ainda hoje diz que o sol se levanta e se põe.
Versículos mais conhecidos de Josué
- Josué 1,8: «Não se aparte da tua bôca o livro desta lei: Mas meditarás nêle de dia e de noite».
- Josué 1,9: «tem ânimo, e sê robusto. Não temas, nem hajas mêdo».
- Josué 3,5: a ordem de se santificar antes das maravilhas do dia seguinte.
- Josué 6,20: a queda dos muros de Jericó, que a Carta aos Hebreus atribui à fé (Hb 11,30).
- Josué 21,43: «Nem uma só palavra do que tinha prometido dar-lhes, ficou sem efeito».
- Josué 24,15: «eu e minha casa havemos de servir ao Senhor».
Josué no cânon e na liturgia
Josué é o sexto livro da Bíblia, o primeiro depois do Pentateuco, e abre os livros históricos; a ele seguem-se os Juízes. Os judeus o contam entre os “Profetas anteriores”, e a sua canonicidade nunca foi discutida: está em todas as Bíblias, católicas e protestantes. Na numeração da Vulgata, que Figueiredo segue, alguns capítulos têm menos versículos que nas Bíblias feitas sobre o hebraico (o capítulo 21 termina no versículo 43), e a citação deve ser procurada pelo conteúdo.
O Missal e o Breviário de 1962 não têm leitura própria tirada do livro de Josué, mas ele está presente na liturgia de outros modos. Na Vigília Pascal, a quarta profecia (Dt 31,22-30) contém a investidura de Josué, com a ordem «Tem ânimo, e sê robusto»; na quarta-feira das Têmporas da Quaresma, a leitura do Êxodo mostra Josué subindo o Sinai com Moisés. No primeiro domingo de outubro, nas Matinas, a primeira leitura do segundo noturno é tirada do De officiis de Santo Ambrósio, que cita como modelo de fortaleza Josué, Jesus Nave, que venceu cinco reis e fez parar o sol pela grandeza da sua fé. O Ofício do dia está no Breviário.
Como ler o livro de Josué
Leia os capítulos 1 a 11 e 22 a 24 como uma narrativa contínua; percorra mais depressa as listas de fronteiras e de cidades dos capítulos 13 a 21, que eram os títulos de propriedade das tribos e mostram que a promessa se cumpriu até no detalhe. Leia antes o fim do Deuteronômio, que prepara Josué para a sua missão, e depois Hebreus 3 e 4, que explicam o “repouso” verdadeiro que Josué não pôde dar. Comece pelo capítulo 1.
Perguntas Frequentes
Quem escreveu o livro de Josué?
A tradição judaica e muitos Padres atribuem o livro ao próprio Josué, que «Escreveu também tôdas estas coisas no livro da lei do Senhor» (Js 24,26); o relato da sua morte foi acrescentado depois, segundo o Talmude pelo sacerdote Eleazar e por Fineias. A Igreja não definiu o autor humano; ensina que o livro é inspirado.
Quem foi Josué na Bíblia?
O filho de Nun, da tribo de Efraim, servidor de Moisés desde o Êxodo, um dos dois espiões fiéis e o seu sucessor à frente de Israel. Introduziu o povo na Terra prometida, conquistou-a e a repartiu entre as tribos. O seu nome significa “o Senhor salva” e é o mesmo nome de Jesus.
Quantos capítulos tem o livro de Josué?
Vinte e quatro. Os capítulos 1 a 12 contam a conquista, 13 a 21 a partilha da terra, 22 a 24 as despedidas de Josué e a renovação da aliança em Siquém.
O que significa anátema no livro de Josué?
É o que era votado a Deus e retirado do uso humano: em Jericó, tudo devia ser destruído ou entregue ao tesouro do Senhor, e nada podia ser tomado como despojo (Js 6,17-19). Acã violou essa ordem e foi castigado (Js 7).
Quem foi Acã no livro de Josué?
Um israelita da tribo de Judá que, na tomada de Jericó, roubou uma capa, prata e ouro consagrados ao Senhor e os escondeu na sua tenda. A sua falta causou a derrota de Israel em Hai; descoberto por sorte, confessou o pecado e foi apedrejado (Js 7,19-25).
Qual livro vem depois de Josué?
O livro dos Juízes, que conta a vida de Israel na terra, depois da morte de Josué, até o tempo de Samuel.
O livro de Josué também se lê versículo por versículo, em português e em latim, no aplicativo Bíblia Católica do Iter Fidei.
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