A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
O livro do Êxodo
O Êxodo, segundo livro de Moisés, conta como Deus libertou Israel do Egito pelas pragas, pela Páscoa e pela passagem do Mar Vermelho, o alimentou com o maná e lhe deu os dez mandamentos no Sinai. Abaixo estão os quarenta capítulos na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica o que significa Êxodo, quem o escreveu, o resumo do livro, Êxodo 20 e Êxodo 33,14, e a leitura que a Igreja sempre fez dele.
Ler Êxodo: 40 capítulos
O Êxodo conta a história que está no coração do Antigo Testamento: um povo de escravos libertado pela mão de Deus, ligado a Ele por uma aliança, e que recebe a sua morada no meio de si. A Igreja sempre o leu como a grande figura da nossa redenção em Cristo, a ponto de dar à sua maior festa o nome da Páscoa do Êxodo. É o segundo livro da Bíblia: continua o Gênesis, que terminava com a família de Jacó instalada no Egito, e é seguido pelo Levítico, que começa justamente no tabernáculo com que o Êxodo termina.
O que significa Êxodo?
A palavra vem do grego éxodos, “saída”, através do latim Exodus da Vulgata: é a saída de Israel do Egito. Na língua comum, “êxodo” passou a designar qualquer saída em massa de uma população (fala-se de “êxodo rural”), mas o sentido primeiro é este: o dia em que Deus tirou o seu povo da escravidão. Os judeus chamam o livro pelas suas primeiras palavras, Ve-elle shemot, “Estes são os nomes”, ou simplesmente Shemot, “Nomes”.
Quem escreveu o livro de Êxodo?
A Igreja recebeu o Êxodo como obra de Moisés: é o segundo dos cinco livros da Lei, que o Concílio de Trento (sessão IV, 1546) põe no início do Antigo Testamento como os livros de Moisés.
O próprio livro dá testemunho da sua mão. Depois da vitória sobre Amalec, o Senhor lhe diz: «Escreve isto num livro, para servir de monumento» (Êx 17,14); no Sinai, «Escreveu Moisés tôdas as ordenações do Senhor» (Êx 24,4). Nosso Senhor cita o episódio da sarça como uma passagem do «livro de Moisés» (Mc 12,26). A tradição judaica e os Padres nomeiam Moisés sem hesitar.
Em 27 de junho de 1906, sob São Pio X, a Pontifícia Comissão Bíblica respondeu que os argumentos da crítica não provam que o Pentateuco não seja de Moisés, admitindo o uso de fontes, de secretários e de retoques posteriores. Muitos exegetas modernos pensam que o Êxodo foi composto ao longo dos séculos, a partir de tradições mais tardias; o ensino transmitido pela Igreja é o que acabamos de lembrar.
Quem foi Moisés?
Moisés era levita, salvo das águas do Nilo e criado na corte do Faraó: a filha do rei «lhe pôs o nome de Moisés, dizendo: Porque eu o tirei da água» (Êx 2,10). Teve ao seu lado o irmão Aarão, primeiro sumo sacerdote, e a irmã Maria. Deus o chama na sarça ardente com estas palavras: «vem tu, e eu te enviarei a Faraó, para fazeres sair do Egito os filhos de Israel, meu povo» (Êx 3,10). O Êxodo é o livro em que a sua história se lê inteira, do cesto de juncos até o Sinai; ela continua nos Números e termina com a sua morte, no fim do Deuteronômio. A sua vida é contada no artigo quem foi Moisés.
Quando aconteceu o Êxodo?
Segundo a tradição, Moisés escreveu o livro durante os quarenta anos do deserto. A Escritura data a saída do Egito a partir do Templo de Salomão, começado «aos quatrocentos e oitenta anos da saída dos filhos de Israel da terra do Egito» (1 Reis 6,1, o III Livro dos Reis em Figueiredo). Esse cálculo leva ao século XV antes de Cristo; vários estudiosos católicos preferem o século XIII, porque os israelitas construíram para o Faraó as cidades de «Fitom, e Ramessés» (Êx 1,11), nome que lembra os reis chamados Ramsés. A data exata continua discutida.
Por isso não se sabe com certeza quem foi o Faraó do Êxodo: a Bíblia nunca diz o seu nome, só o seu título. Os que seguem a cronologia longa pensam num rei do século XV; os que seguem a curta, em Ramsés II. Nenhuma das duas hipóteses é uma verdade de fé.
Do que fala o livro de Êxodo? Resumo
O Êxodo conta a libertação (capítulos 1-15), a caminhada até o Sinai (capítulos 15-18) e depois a aliança e o tabernáculo (capítulos 19-40).
A opressão de Israel e a vocação de Moisés (capítulos 1-6)
No capítulo 1, «se levantou no Egito um novo rei, que não conhecia a José» (Êx 1,8). Ele oprime os hebreus e manda lançar ao Nilo os seus filhos homens; Moisés, salvo das águas (capítulo 2), foge mais tarde para a terra de Madian.
Ali, no capítulo 3, «o Senhor lhe apareceu numa chama de fogo, que saía do meio duma sarça; e Moisés via que a sarça ardia sem se consumir» (Êx 3,2). Deus lhe ordena: «tira os sapatos de teus pés, porque êste lugar, em que estás, é uma terra santa» (Êx 3,5), promete-lhe uma terra «onde correm arroios de leite, e de mel» (Êx 3,8) e lhe revela o seu nome. Dá-lhe sinais e o irmão Aarão como porta-voz (capítulo 4). Diante do Faraó, os dois transmitem a ordem do Senhor: «Deixa ir o meu povo, para que êle me sacrifique no deserto» (Êx 5,1).
As dez pragas do Egito (capítulos 7-11)
Como o Faraó endurece o coração, Deus fere o Egito a partir do capítulo 7: as águas mudadas em sangue, as rãs (capítulo 8), os mosquitos, as moscas, a peste do gado, as úlceras, a saraiva (capítulo 9), os gafanhotos e as trevas (capítulo 10). No capítulo 11 é anunciada a última: a morte de todos os primogênitos do Egito.
A Páscoa e o Mar Vermelho (capítulos 12-15)
O capítulo 12 institui a Páscoa. Cada família imola um cordeiro: «Êste cordeiro será sem mancha, será macho, e será dum ano» (Êx 12,5). Marcam-se com o sangue as portas das casas e come-se de pé, pronto para partir: «comereis à pressa: Porque esta é a Páscoa, isto é, a passagem do Senhor» (Êx 12,11). Deus promete: «Eu verei o sangue e eu passarei a outra parte» (Êx 12,13). À meia-noite morrem os primogênitos do Egito, e o Faraó deixa partir o povo. O Senhor o guia «de dia numa coluna de nuvem, e de noite numa coluna de fogo» (Êx 13,21).
O Faraó lança-se em perseguição, mas no capítulo 14 «entraram os filhos de Israel pelo meio do mar sêco, tendo pela direita e esquerda a água que lhes servia como de muro» (Êx 14,22); as águas se fecham sobre o exército egípcio, «e não escapou dêles nem sequer um» (Êx 14,28). O capítulo 15 abre com o cântico de Moisés: «Cantemos louvores ao Senhor, por ter feito brilhar a sua grandeza, e a sua glória, e porque precipitou no mar o cavalo, e o cavaleiro» (Êx 15,1), e Maria, irmã de Aarão, o retoma com o tambor.
O deserto: o maná e a água da rocha (capítulos 15-18)
Depois das águas amargas de Mara, o povo murmura de fome. Deus anuncia no capítulo 16: «Eu estou para vos fazer chover pães do céu» (Êx 16,4). De manhã, os israelitas encontram um alimento desconhecido e dizem: «Manou, isto é: Que é isto? Porque não sabiam o que era» (Êx 16,15). Viverão do maná «quarenta anos» (Êx 16,35).
No capítulo 17, Moisés fere a rocha do Horeb, e dela sai água. Depois Israel combate Amalec: «quando Moisés tinha as mãos levantadas, ficava Israel vitorioso» (Êx 17,11), e Aarão e Hur lhe sustentam os braços até o pôr do sol.
A aliança do Sinai e os dez mandamentos (capítulos 19-24)
Ao pé do monte, Deus oferece a sua aliança: «E vós sereis o meu reino sacerdotal, e uma nação santa» (Êx 19,6). Entre trovões e fogo, pronuncia no capítulo 20 os dez mandamentos, que têm a sua seção logo abaixo. Os capítulos 21 a 23 dão as leis que deles decorrem; ali se lê também a promessa do anjo que guarda o povo: «Eis aí enviarei eu meu anjo, que vá adiante de ti, e te guarde pelo caminho» (Êx 23,20), que a Igreja lê na festa dos Anjos da Guarda (veja a oração do Anjo da Guarda).
No capítulo 24, Moisés lê o livro da aliança, e o povo responde: «Tudo o que o Senhor disse faremos, e em tudo lhe seremos obedientes» (Êx 24,7). Moisés sela a aliança aspergindo o sangue: «Eis-aqui o sangue do concêrto, que o Senhor celebrou convosco» (Êx 24,8).
O tabernáculo e o sacerdócio (capítulos 25-31)
«Êles me farão um santuário, para que eu habite no meio dêles» (Êx 25,8). Deus mostra a Moisés o modelo da arca, da mesa dos pães, do candelabro de ouro, do tabernáculo e do altar (capítulos 25-27), das vestes sacerdotais (capítulo 28) e do altar dos perfumes (capítulo 30), e prescreve a consagração de Aarão e dos seus filhos (capítulo 29). No capítulo 31 entrega a Moisés «as duas tábuas do testemunho feitas de pedra, e escritas pelo dedo de Deus» (Êx 31,18).
O bezerro de ouro e a renovação da aliança (capítulos 32-34)
Ao pé do monte, o povo funde um bezerro de ouro e grita: «Eis-aqui, ó Israel, os teus deuses, que te tiraram do Egito» (Êx 32,4). Moisés quebra as tábuas, castiga os idólatras e intercede pelo povo a ponto de oferecer a si mesmo: «ou tu lhe perdoes êste delito, ou se o não fazes, me apagues do teu livro, que escreveste» (Êx 32,31-32). «Ora o Senhor falava a Moisés face a face, bem como um homem costuma falar ao seu amigo» (Êx 33,11); mas quando Moisés pede para ver a sua glória, Deus responde: «nenhum homem me verá sem morrer» (Êx 33,20).
No capítulo 34, o Senhor passa diante de Moisés, que o proclama «cheio de compaixão, e de clemência, paciente, rico de misericórdia, e de verdade» (Êx 34,6), e escreve de novo os mandamentos. Moisés desce do monte, «e êle não sabia que o seu rosto lançava de si uns raios» (Êx 34,29). Aqui a Vulgata diz cornuta, palavra que pode significar “radiante” ou “com chifres”: Figueiredo traduz o sentido, os artistas traduziram a letra. Por isso a arte cristã deu ao legislador dois chifres de luz, até o Moisés de Michelangelo, em São Pedro in Vincoli, em Roma.
O tabernáculo construído e cheio de glória (capítulos 35-40)
Executado tudo o que o Senhor mandou (capítulos 35 a 39), no capítulo 40, Moisés ergue o tabernáculo, e o livro termina com a nuvem: «uma nuvem cobriu o tabernáculo do testemunho, e êle foi cheio da glória do Senhor» (Êx 40,32).
Êxodo 20: os dez mandamentos
O capítulo 20 é dos mais procurados do livro. Deus fala em primeira pessoa: «Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei do Egito, da casa da servidão. Não terás deuses estrangeiros diante de mim» (Êx 20,2-3).
Seguem-se a proibição das imagens feitas para serem adoradas (v. 4-6), o nome de Deus que não se toma em vão (v. 7), o sábado (v. 8-11) e os deveres para com o próximo: «Honrarás a teu pai, e tua mãe, para teres uma vida dilatada sôbre a terra» (Êx 20,12); «Não matarás» (v. 13); «Não cometerás adultério» (v. 14); «Não furtarás» (v. 15); «Não dirás falso testemunho contra o teu próximo» (Êx 20,16); e enfim o desejo da casa e da mulher do próximo (v. 17). O texto volta, com algumas diferenças, no capítulo 5 do Deuteronômio.
A Bíblia não numera os mandamentos, que chama simplesmente «as dez palavras do concêrto» (Êx 34,28). A Igreja Católica segue a divisão de Santo Agostinho, retomada pelo Catecismo Romano: une num só primeiro mandamento a proibição dos outros deuses e a das imagens, e distingue o nono (a mulher do próximo) do décimo (os bens do próximo). É a fórmula que os brasileiros aprenderam no catecismo: amar a Deus sobre todas as coisas; não tomar seu santo nome em vão; guardar domingos e festas; honrar pai e mãe; não matar; não pecar contra a castidade; não furtar; não levantar falso testemunho; não desejar a mulher do próximo; não cobiçar as coisas alheias. As Bíblias protestantes contam de outro modo, fazendo das imagens um segundo mandamento. O nosso artigo sobre os 10 mandamentos os explica um por um.
Duas perguntas voltam sempre. A proibição «Não farás para ti imagem de escultura» (Êx 20,4) visa as imagens feitas para serem adoradas como deuses, não toda imagem: o mesmo livro manda pôr sobre a arca «dois querubins de ouro batido» (Êx 25,18), e o II Concílio de Niceia (787) defendeu a veneração das imagens sagradas, que se dirige à pessoa representada. E o sábado foi transferido pela Igreja apostólica para o domingo, dia da Ressurreição: para o cristão, o terceiro mandamento se cumpre santificando o domingo e as festas.
Êxodo 33,14: «Eu irei em pessoa diante de ti»
É o versículo do livro mais procurado no Brasil. Depois do pecado do bezerro de ouro, Moisés pede a Deus que não abandone o povo, e o Senhor responde: «Eu irei em pessoa diante de ti, e eu te darei o descanso» (Êx 33,14). O latim diz Facies mea præcedet te, “a minha face irá adiante de ti”; as Bíblias modernas costumam traduzir “a minha presença irá contigo”. Moisés insiste: «Se tu mesmo não vais adiante de nós, não nos tires dêste lugar» (Êx 33,15).
A promessa não é um amuleto contra as dificuldades: é feita a um povo que acaba de pecar e que só pode avançar porque Deus perdoa e caminha com ele. O descanso prometido é a terra de Canaã, e, além dela, o repouso que a Carta aos Hebreus reserva ao povo de Deus. Para o cristão, essa presença tem um nome: o Emanuel, Deus conosco, que permanece no Santíssimo Sacramento.
Temas e leitura católica do Êxodo
O Êxodo ensina que Deus salva: ouve o grito dos oprimidos e cumpre a promessa feita a Abraão, Isaac e Jacó. Ensina que Deus é santo: revela o seu nome e a sua Lei, e ninguém pode ver a sua face sem morrer. Ensina enfim que a libertação conduz ao culto: o livro não termina na Terra prometida, mas diante do tabernáculo cheio de glória. São Paulo dá a chave desta leitura: «Tôdas estas coisas porém lhes aconteciam a êles em figura, mas foram escritas para escarmento de nós outros» (1 Cor 10,11). Santo Agostinho a resume numa fórmula célebre: o Novo Testamento está escondido no Antigo, e o Antigo se revela no Novo.
O nome de Deus: «Eu sou aquêle, que sou»
«Disse Deus a Moisés: Eu sou aquêle, que sou. Eis-aqui, prosseguiu êle, o que tu hás dizer aos filhos de Israel: Aquêle, que é, me enviou a vós» (Êx 3,14). Os Padres e os doutores viram neste nome a mais alta revelação de Deus no Antigo Testamento: Deus é o próprio Ser, que não recebe a existência de ninguém e a dá a todas as coisas. Santo Tomás de Aquino faz dele o nome mais próprio de Deus (Suma Teológica, I, q. 13, a. 11). Quando Nosso Senhor declara: «antes que Abraão fôsse feito, sou eu» (Jo 8,58), os ouvintes reconhecem o nome e apanham pedras para apedrejá-lo.
A Páscoa e o sacrifício de Cristo
O cordeiro pascal é a figura mais clara de Nosso Senhor. São João vê, nas pernas do Crucificado que não foram quebradas, o cumprimento da lei da Páscoa, «nem lhe quebrareis osso algum» (Êx 12,46), e escreve: «estas coisas sucederam para que se cumprisse esta palavra da Escritura: Não quebrareis dêle osso algum» (Jo 19,36). São Paulo acrescenta: «Cristo, que é nossa Páscoa, foi imolado» (1 Cor 5,7). O Concílio de Trento (sessão XXII, capítulo 1) ensina que na Última Ceia, depois de celebrar a antiga Páscoa, Cristo instituiu a nova, Ele próprio, para ser imolado pela Igreja sob sinais visíveis. O nome da Páscoa cristã, Pascha, é o da Páscoa do Êxodo.
O Mar Vermelho e o batismo
«E todos foram batizados debaixo da conduta de Moisés, na nuvem e no mar» (1 Cor 10,2). Tertuliano, no tratado Sobre o batismo, e Santo Ambrósio, no De mysteriis, ensinam que Israel salvo pela água, enquanto o Faraó nela se afoga, é figura da alma libertada do pecado na fonte batismal. Por isso a Igreja lê a passagem do Mar Vermelho na noite de Páscoa, antes de benzer a água da pia batismal.
O maná, pão do céu, e a Eucaristia
Nosso Senhor tomou o maná como figura de si mesmo: «Vossos pais comeram o maná no deserto, e morreram. Aqui está o pão que desceu do Céu» (Jo 6,49-50). O salmo 77 da Vulgata canta: «Pão dos anjos comeu o homem» (Sl 77,25). No Ofício de Corpus Christi a Igreja canta o versículo Panem de cælo præstitisti eis, “deste-lhes o pão do céu”, e a sequência Lauda Sion conta o maná, datur manna patribus, entre as figuras do Sacramento.
Moisés, a aliança e a Cruz
«Porque a lei foi dada por Moisés, a graça, e a verdade foi trazida por Jesus Cristo» (Jo 1,17). São Justino, no Diálogo com Trifão, vê nos braços de Moisés estendidos sobre a batalha contra Amalec uma figura da Cruz. Ao sangue da aliança do Sinai responde a palavra do Senhor sobre o cálice: «êste é o meu sangue do novo testamento» (Mt 26,28). E na Transfiguração, Moisés e Elias falam com Jesus «da sua saída dêste mundo, que havia de cumprir em Jerusalém» (Lc 9,31): no texto grego, o seu éxodos.
Nossa Senhora no Êxodo
A Igreja reconhece a Virgem na sarça que arde sem se consumir. Uma antífona das Vésperas de 1º de janeiro, oitava do Natal, canta: Rubum, quem viderat Moyses incombustum, conservatam agnovimus tuam laudabilem virginitatem, isto é, na sarça que Moisés viu arder sem se queimar reconhecemos a tua admirável virgindade conservada intacta. A Ladainha de Nossa Senhora a chama Foederis arca, Arca da Aliança, porque ela levou o Verbo de Deus como a arca guardava «uma urna de ouro, que continha o maná, e a vara de Aarão, que tinha florescido, e as Tábuas do Testamento» (Hb 9,4).
Outros versículos procurados do Êxodo
- Êxodo 14,13-14: «Não temais, estai firmes, e considerai as maravilhas, que o Senhor está para fazer hoje»; «O Senhor pelejará por vós, e vós ficareis em silêncio».
- Êxodo 15,2: «O Senhor é a minha fortaleza, e o objeto dos meus louvores, porque se fêz meu salvador».
- Êxodo 15,26: «eu sou o Senhor, que te sara», promessa feita a quem guarda os mandamentos.
- Êxodo 13,2: «Consagra-me todos os primogênitos», a lei que a Virgem e São José cumpriram ao apresentar Jesus no Templo.
O Êxodo no cânon e na liturgia
O Êxodo é o segundo livro da Bíblia e do Pentateuco em todas as Bíblias, e a sua canonicidade nunca foi contestada. A Igreja o lê sobretudo na Quaresma e na Semana Santa:
- Breviário: no IV domingo da Quaresma, as leituras do primeiro noturno das Matinas passam do Gênesis ao Êxodo, com a sarça ardente (Êx 3). Na festa da Purificação (2 de fevereiro), a primeira leitura é a lei dos primogênitos (Êx 13), e na dos Anjos da Guarda (2 de outubro), a promessa do anjo (Êx 23,20-23), que é também a epístola da Missa.
- Missal de 1962, Quaresma: na quarta-feira das Têmporas da Quaresma, a subida de Moisés ao Sinai (Êx 24,12-18); na quarta-feira da III semana, o decálogo a partir do quarto mandamento (Êx 20,12-24); na terça-feira da IV semana, a intercessão de Moisés depois do bezerro de ouro (Êx 32,7-14), oração que o ofertório Precatus est Moyses do XII domingo depois de Pentecostes retoma.
- Semana Santa: na Sexta-feira Santa, a segunda leitura é a lei do cordeiro pascal (Êx 12,1-11). Na Vigília Pascal, a segunda profecia é a passagem do Mar Vermelho (Êx 14,24-31 e 15,1), seguida do trato Cantemus Domino.
- Oitava da Páscoa: o intróito da segunda-feira, Introduxit vos Dominus in terram fluentem lac et mel, vem de Êxodo 13, como o ofertório de quinta-feira; o de sexta-feira, Erit vobis hic dies memorialis, de Êxodo 12,14.
- Outras Missas: o intróito da Vigília do Natal, Hodie scietis, é tirado de Êxodo 16,6-7; o ofertório do XVIII domingo depois de Pentecostes, Sanctificavit Moyses altare, de Êxodo 24.
- Saltério: o cântico de Moisés (Êx 15) se canta nas Laudes de quinta-feira, no segundo esquema das Laudes, o dos dias de penitência, que você pode rezar no Breviário.
Como ler o Êxodo
Leia os capítulos 1 a 20 como uma narrativa, de uma ou duas vezes. Leve mais devagar as leis e os capítulos do tabernáculo, com a Carta aos Hebreus ao lado: o tabernáculo, o sumo sacerdote e o véu são ali a sombra do sacerdócio de Cristo. A um capítulo por dia, o Êxodo enche os quarenta dias da Quaresma, o tempo em que a própria Igreja o lê. Comece pelo primeiro capítulo abaixo, ou, se procura primeiro o decálogo, pelo capítulo 20.
Perguntas Frequentes
O que significa a palavra Êxodo?
Significa “saída”, do grego éxodos: é a saída dos filhos de Israel do Egito, conduzidos por Moisés. Os judeus chamam o livro Shemot, “Nomes”, pelas suas primeiras palavras. “Êxodo rural”, que designa a migração do campo para a cidade, é um uso derivado da palavra, sem relação com o livro.
Quem escreveu o livro de Êxodo?
A Igreja sempre recebeu o Êxodo como obra de Moisés, segundo dos seus cinco livros. O texto diz que Moisés escreveu as palavras do Senhor (Êx 17,14; 24,4), e Nosso Senhor cita a sarça como uma passagem do «livro de Moisés» (Mc 12,26). A Comissão Bíblica (1906) manteve a origem mosaica, admitindo fontes, secretários e pequenos acréscimos.
Onde estão os dez mandamentos na Bíblia?
Em Êxodo 20,1-17, pronunciados por Deus no Sinai, e de novo em Deuteronômio 5,6-21, repetidos por Moisés antes da entrada na Terra prometida. Deus os escreveu depois em duas tábuas de pedra, «escritas pelo dedo de Deus» (Êx 31,18). A numeração católica é a de Santo Agostinho.
Quantos capítulos tem o Êxodo?
Quarenta. Os capítulos 1 a 15 contam a libertação, 15 a 18 a caminhada até o Sinai, 19 a 40 a aliança e o tabernáculo.
Por que o Moisés de Michelangelo tem chifres?
Porque a Vulgata diz, em Êxodo 34,29, que o rosto de Moisés era cornuta, palavra que traduz um verbo hebraico que significa “irradiar”, mas que em latim lembra “chifre”. Figueiredo traduz o sentido: o seu rosto «lançava de si uns raios». Os artistas seguiram a letra, e por isso o Moisés de São Pedro in Vincoli tem dois chifres, sinal da luz de Deus.
O Êxodo também se lê versículo por versículo, em português e em latim, no aplicativo Bíblia Católica do Iter Fidei.
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