A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Eclesiastes 3: «Tôdas as coisas têm seu tempo», o poema dos tempos
Eclesiastes 3 é o capítulo de “tudo tem o seu tempo”: tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de chorar e tempo de rir. Aqui está o capítulo inteiro na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica o poema dos tempos (3,1-8), o versículo 11, a pergunta sobre a morte do homem e dos animais e a leitura católica do capítulo.
1 Omnia tempus habent, et suis spatiis transeunt universa sub cælo.
1 Tôdas as coisas têm seu tempo, e tôdas elas passam debaixo do Céu segundo o têrmo que a cada uma foi prescrito.
2 Tempus nascendi, et tempus moriendi ; tempus plantandi, et tempus evellendi quod plantatum est.
2 Há tempo de nascer, e tempo de morrer. Há tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou.
3 Tempus occidendi, et tempus sanandi ; tempus destruendi, et tempus ædificandi.
3 Há tempo de matar, e tempo de sarar. Há tempo de destruir, e tempo de edificar.
4 Tempus flendi, et tempus ridendi ; tempus plangendi, et tempus saltandi.
4 Há tempo de chorar, e tempo de rir. Há tempo de se afligir, e tempo de saltar de gôsto.
5 Tempus spargendi lapides, et tempus colligendi, tempus amplexandi, et tempus longe fieri ab amplexibus.
5 Há tempo de espalhar pedras, e tempo de as ajuntar. Há tempo de dar abraços, e tempo de se pôr longe dêles.
6 Tempus acquirendi, et tempus perdendi ; tempus custodiendi, et tempus abjiciendi.
6 Há tempo de adquirir, e tempo de perder. Há tempo de guardar, e tempo de lançar fora.
7 Tempus scindendi, et tempus consuendi ; tempus tacendi, et tempus loquendi.
7 Há tempo de rasgar, e tempo de coser. Há tempo de calar, e tempo de falar.
8 Tempus dilectionis, et tempus odii ; tempus belli, et tempus pacis.
8 Há tempo de amor, e tempo de ódio. Há tempo de guerra, e tempo de paz.
9 Quid habet amplius homo de labore suo ?
9 Que tem mais o homem de todo o seu trabalho?
10 Vidi afflictionem quam dedit Deus filiis hominum, ut distendantur in ea.
10 Eu vi a aflição que Deus deu aos filhos dos homens, para que se encham dela.
11 Cuncta fecit bona in tempore suo, et mundum tradidit disputationi eorum, ut non inveniat homo opus quod operatus est Deus ab initio usque ad finem.
11 Tudo o que êle fêz é bom em seu tempo, e entregou o mundo às suas disputas, sem que o homem possa conhecer as obras, que Deus fêz desde o princípio até ao fim.
12 Et cognovi quod non esset melius nisi lætari, et facere bene in vita sua ;
12 E eu reconheci que não havia coisa melhor do que alegrar-se o homem, e fazer bem, enquanto lhe dura a vida.
13 omnis enim homo qui comedit et bibit, et videt bonum de labore suo, hoc donum Dei est.
13 Porque todo o homem, que come e bebe, e que tira o bem do seu trabalho, recebe isto por um dom de Deus.
14 Didici quod omnia opera quæ fecit Deus perseverent in perpetuum ; non possumus eis quidquam addere, nec auferre, quæ fecit Deus ut timeatur.
14 Eu aprendi que tôdas as obras, que Deus fêz, perseveram para sempre: Nós não podemos acrescentar, nem tirar nada ao que Deus fêz a fim de que êle seja temido.
15 Quod factum est, ipsum permanet ; quæ futura sunt jam fuerunt, et Deus instaurat quod abiit.
15 O que foi feito, isso mesmo permanece: As coisas que hão de ser, já foram: E Deus renova aquilo que passou.
16 Vidi sub sole in loco judicii impietatem, et in loco justitiæ iniquitatem :
16 Eu vi debaixo do sol a impiedade no lugar do juízo, e a iniqüidade no lugar da justiça.
17 et dixi in corde meo : Justum et impium judicabit Deus, et tempus omnis rei tunc erit.
17 E eu disse no meu coração: Deus julgará o justo e o ímpio e então será o tempo de tôdas as coisas.
18 Dixi in corde meo de filiis hominum, ut probaret eos Deus, et ostenderet similes esse bestiis.
18 Eu disse no meu coração acêrca dos filhos dos homens, que Deus os provava, e lhes mostrava que eram semelhantes aos brutos.
19 Idcirco unus interitus est hominis et jumentorum, et æqua utriusque conditio. Sicut moritur homo, sic et illa moriuntur. Similiter spirant omnia, et nihil habet homo jumento amplius : cuncta subjacent vanitati,
19 Por isso uma é a morte dos homens, e dos brutos, e de uns e outros é igual a condição: Do mesmo modo que morre o homem, assim morrem também os brutos: Todos respiram da mesma sorte, e o homem não tem nada de mais do que o bruto: Tudo está sujeito à vaidade.
20 et omnia pergunt ad unum locum. De terra facta sunt, et in terram pariter revertuntur.
20 E todos êles caminham a um lugar: De terra foram feitos, e em terra se tornam do mesmo modo.
21 Quis novit si spiritus filiorum Adam ascendat sursum, et si spiritus jumentorum descendat deorsum ?
21 Quem sabe se o espírito dos filhos de Adão subirá para cima, e se o espírito dos brutos descerá para baixo?
22 Et deprehendi nihil esse melius quam lætari hominem in opere suo, et hanc esse partem illius. Quis enim eum adducet ut post se futura cognoscat ?
22 E eu reconheci que nada havia melhor do que alegrar-se o homem nas suas obras, e que esta era a parte que lhe cabia. Porquanto quem o poderá pôr em estado de conhecer o que há de ser depois dêle?
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
O contexto: o livro do Eclesiastes
O Eclesiastes é um dos livros sapienciais do Antigo Testamento. O nome vem do grego e traduz o hebraico Qohélet, aquele que fala à assembleia, o pregador. O autor se apresenta como «filho de Davi, rei de Jerusalém» (Ecl 1,1), e a tradição da Igreja recebeu o livro como obra de Salomão, embora muitos exegetas modernos pensem num sábio mais tardio que fala em nome do rei; a questão do autor humano continua discutida (veja a página do livro do Eclesiastes e quem foi Salomão).
O livro começa com a frase que o resume: «Vaidade de vaidades, disse o Eclesiastes: Vaidade de vaidades, e tudo vaidade» (Ecl 1,2). Nos capítulos 1 e 2 o autor experimentou a sabedoria, o prazer, as grandes obras, e concluiu que nada disso sacia. O capítulo 3 dá um passo adiante: tudo o que acontece debaixo do céu tem a sua hora, e essa hora não está nas mãos do homem, mas nas de Deus.
O que diz Eclesiastes 3? O capítulo passo a passo
O poema dos tempos (v. 1-8). Um versículo de abertura e catorze pares de contrários, vinte e oito «tempos» ao todo, explicados na seção seguinte.
O que fica ao homem (v. 9-15). «Que tem mais o homem de todo o seu trabalho?» (v. 9). Se cada coisa tem a sua hora e o homem não a escolhe, o que lhe resta? A resposta do Eclesiastes é sóbria e confiante: Deus fez tudo bem, o homem não compreende o conjunto, mas pode receber cada dia como um dom: «todo o homem, que come e bebe, e que tira o bem do seu trabalho, recebe isto por um dom de Deus» (v. 13). As obras de Deus permanecem, e não se pode acrescentar nem tirar nada a elas, «a fim de que êle seja temido» (v. 14).
A injustiça e o juízo (v. 16-17). O sábio vê «a impiedade no lugar do juízo, e a iniqüidade no lugar da justiça» (v. 16), e responde com a fé no juízo de Deus: «Deus julgará o justo e o ímpio e então será o tempo de tôdas as coisas» (v. 17). Há também um tempo para a justiça, e esse tempo é o de Deus.
O homem e os animais (v. 18-22). A parte mais desconcertante do capítulo, comentada abaixo.
Eclesiastes 3,1-8: “tudo tem o seu tempo”
«Tôdas as coisas têm seu tempo, e tôdas elas passam debaixo do Céu segundo o têrmo que a cada uma foi prescrito» (v. 1). É o versículo que os brasileiros procuram como “há tempo para todas as coisas” ou “tudo tem o seu tempo determinado”. O latim é breve: Omnia tempus habent, tudo tem o seu tempo. Figueiredo acrescenta, com a Vulgata, que tudo «passa» segundo o termo prescrito: o tempo não é apenas o momento certo, é também a passagem.
Seguem os pares, sempre na mesma forma:
- «Há tempo de nascer, e tempo de morrer. Há tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou» (v. 2);
- «Há tempo de matar, e tempo de sarar. Há tempo de destruir, e tempo de edificar» (v. 3);
- «Há tempo de chorar, e tempo de rir. Há tempo de se afligir, e tempo de saltar de gôsto» (v. 4);
- «Há tempo de espalhar pedras, e tempo de as ajuntar. Há tempo de dar abraços, e tempo de se pôr longe dêles» (v. 5);
- «Há tempo de adquirir, e tempo de perder. Há tempo de guardar, e tempo de lançar fora» (v. 6);
- «Há tempo de rasgar, e tempo de coser. Há tempo de calar, e tempo de falar» (v. 7);
- «Há tempo de amor, e tempo de ódio. Há tempo de guerra, e tempo de paz» (v. 8).
O que significa? O poema começa pelo nascimento e pela morte, os dois extremos que ninguém escolhe, e tudo o que vem depois fica dentro deles. A primeira lição é a humildade: o homem não é senhor do tempo. A segunda é a sabedoria prática: há coisas boas que são más fora da sua hora. Falar é bom, mas há tempo de calar; abraçar é bom, mas há tempo de se afastar. O sábio é aquele que discerne a hora de cada coisa.
Tempo de matar, tempo de ódio? O Eclesiastes descreve o que acontece na vida dos homens, não manda odiar nem matar. A moral católica lê esses versículos à luz de toda a Escritura: há um ódio legítimo, que é o ódio ao pecado, nunca ao pecador, e há casos em que a força é justa, como a defesa legítima. Mas o mandamento de Cristo é claro: «Amai a vossos inimigos» (Mt 5,44).
Espalhar e ajuntar pedras. O sentido do versículo 5 é obscuro, e os intérpretes propuseram várias explicações (limpar um campo e construir, por exemplo); é honesto dizer que não se sabe com certeza.
O mesmo pensamento volta mais adiante no livro: «Tôdas as coisas têm seu tempo e a sua oportunidade» (Ecl 8,6).
Eclesiastes 3,11: o que Deus fez é bom em seu tempo
«Tudo o que êle fêz é bom em seu tempo, e entregou o mundo às suas disputas, sem que o homem possa conhecer as obras, que Deus fêz desde o princípio até ao fim» (v. 11). A primeira frase é a resposta ao poema: os tempos não são um ciclo absurdo, cada um é bom no lugar que Deus lhe deu. É o eco do Gênesis, «E viu Deus tôdas as coisas que tinha feito, e eram muito boas» (Gn 1,31).
Quem compara com as Bíblias traduzidas do hebraico encontra no meio do versículo outra frase: Deus “pôs a eternidade no coração do homem”. A palavra hebraica (olam) pode significar o mundo ou a eternidade; São Jerônimo, na Vulgata, entendeu «o mundo», mundum tradidit disputationi eorum, e Figueiredo o segue. As duas leituras dizem a mesma coisa por dois lados: o homem quer compreender o todo, investiga, discute, mas não alcança a obra de Deus «desde o princípio até ao fim». Esse desejo que nada criado satisfaz é, para a tradição cristã, o sinal de que o homem foi feito para Deus.
Eclesiastes 3,19-21: o homem morre como os animais?
O fim do capítulo é duro: «uma é a morte dos homens, e dos brutos […] Tudo está sujeito à vaidade» (v. 19); «De terra foram feitos, e em terra se tornam do mesmo modo» (v. 20). E o sábio pergunta: «Quem sabe se o espírito dos filhos de Adão subirá para cima, e se o espírito dos brutos descerá para baixo?» (v. 21).
O Eclesiastes fala aqui do que se vê: o corpo do homem morre e volta à terra como o dos animais, segundo a sentença do Gênesis, «tu és pó, e em pó te hás de tornar» (Gn 3,19). A pergunta do versículo 21 é a de quem olha só a partir de baixo, «debaixo do sol».
Mas o mesmo livro dá a resposta no último capítulo: «e o pó se torne na sua terra de onde era, e o espírito volte para Deus, que o deu» (Ecl 12,7). A revelação, mais tarde, a completa: o livro da Sabedoria ensina que «Deus criou o homem inexterminável», e o Evangelho anuncia a ressurreição. A Igreja ensina que a alma humana é espiritual e imortal; o V Concílio de Latrão (1513) o definiu solenemente. O que acontece depois da morte é explicado em o que acontece após a morte.
O capítulo termina, como o versículo 12, com o conselho de receber com alegria o trabalho de cada dia, porque ninguém pode mostrar ao homem «o que há de ser depois dêle» (v. 22).
A leitura católica do capítulo
Os Padres leram o Eclesiastes como o livro que ensina o desapego: São Jerônimo, que o traduziu do hebraico, escreveu um comentário sobre ele por volta de 389, em Belém. O capítulo 3 ensina três atitudes cristãs:
- A confiança na Providência. Se tudo tem o seu tempo e o tempo é de Deus, o cristão não precisa controlar tudo; precisa ser fiel na hora presente. É a mesma lição do Evangelho: «não andeis inquietos pelo dia de amanhã» (Mt 6,34).
- A gratidão. Comer, beber, trabalhar e se alegrar não são vaidade quando são recebidos como «dom de Deus» (v. 13).
- O temor de Deus. As obras de Deus permanecem «a fim de que êle seja temido» (v. 14): é a conclusão de todo o livro, «Teme a Deus, e observa os seus mandamentos: Porque isto é o tudo do homem» (Ecl 12,13).
Eclesiastes 3 na liturgia de 1962
O Missal de 1962 não toma o Eclesiastes para as leituras da Missa. No Breviário, o livro é lido nas Matinas na segunda semana de agosto, e as lições da terça-feira dessa semana são precisamente o poema dos tempos e o que se segue (Eclesiastes 3,1-17).
Perguntas Frequentes
Onde está escrito que tudo tem o seu tempo?
No livro do Eclesiastes, capítulo 3, versículo 1: «Tôdas as coisas têm seu tempo, e tôdas elas passam debaixo do Céu segundo o têrmo que a cada uma foi prescrito». O número é o mesmo nas Bíblias católicas e protestantes.
O que significa Eclesiastes 3,1-8?
Que cada realidade da vida humana, do nascimento à morte, tem a sua hora, e que essa hora pertence a Deus. O homem é chamado a reconhecer que não é senhor do tempo e a discernir o que convém a cada momento.
O que significa Eclesiastes 3,11?
Que tudo o que Deus fez é bom no seu tempo, mas que o homem, por mais que investigue, não consegue abarcar a obra de Deus do princípio ao fim. As Bíblias traduzidas do hebraico leem que Deus pôs a eternidade no coração do homem; a Vulgata leu «o mundo».
Quem escreveu Eclesiastes 3?
A tradição da Igreja atribui o Eclesiastes ao rei Salomão, filho de Davi; muitos exegetas modernos pensam num sábio mais tardio que escreve em nome dele. A Igreja não definiu a questão.
O Eclesiastes diz que o homem é igual aos animais?
Diz que o corpo do homem morre e volta à terra como o dos animais. Mas o próprio livro afirma que o espírito do homem volta para Deus, que o deu (12,7), e a Igreja ensina que a alma humana é imortal.
Quantos tempos há em Eclesiastes 3?
Catorze pares de contrários, ou seja, vinte e oito tempos, nos versículos 2 a 8.
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