A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Provérbios 31: «Quem achará uma mulher forte?», a mulher virtuosa
Provérbios 31 é o capítulo da «mulher forte», que muitos procuram como a mulher virtuosa de Provérbios: «Quem achará uma mulher forte? Seu preço excede a tudo o que vem de remontadas distâncias». Aqui está o capítulo inteiro na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica os conselhos da mãe do rei Lamuel (31,1-9), o poema da mulher forte (31,10-31), os versículos 31,6, 31,10, 31,29 e 31,30 e a Missa das santas mulheres que o lê.
1 Verba Lamuelis regis. Visio qua erudivit eum mater sua.
1 Palavras do rei Lamuel. Visão, pela qual o instruiu sua mãe.
2 Quid, dilecte mi ? quid, dilecte uteri mei ? quid, dilecte votorum meorum ?
2 Que te direi eu, meu amado filho, que te direi eu, amado fruto das minhas entranhas, que te direi eu, querido objeto dos meus desejos?
3 Ne dederis mulieribus substantiam tuam, et divitias tuas ad delendos reges.
3 Não dês os teus bens a mulheres, nem empregues as tuas riquezas em destruir reis.
4 Noli regibus, o Lamuel, noli regibus dare vinum, quia nullum secretum est ubi regnat ebrietas ;
4 Não dês aos reis, ó Lamuel, não dês vinho aos reis: Porque não há segrêdo onde reina a bebedice:
5 et ne forte bibant, et obliviscantur judiciorum, et mutent causam filiorum pauperis.
5 E para que não suceda que êles bebam, e se esqueçam da justiça, e transtornem a eqüidade na causa dos filhos do pobre.
6 Date siceram mœrentibus, et vinum his qui amaro sunt animo.
6 Mas dá aos que estão aflitos um licor capaz de os embriagar, e vinho aos que estão em amargura de coração:
7 Bibant, et obliviscantur egestatis suæ, et doloris sui non recordentur amplius.
7 Para que êles bebam, e se esqueçam da sua pobreza, e não se lembrem mais da sua dor.
8 Aperi os tuum muto, et causis omnium filiorum qui pertranseunt.
8 Abre a tua bôca a favor do mudo, e para defenderes as causas de todos os filhos que passam:
9 Aperi os tuum, decerne quod justum est, et judica inopem et pauperem.
9 Abre a tua bôca, ordena o que é justo, e faze justiça ao necessitado e ao pobre.
10 Mulierem fortem quis inveniet ? procul et de ultimis finibus pretium ejus.
10 Quem achará uma mulher forte? Seu preço excede a tudo o que vem de remontadas distâncias, e dos últimos confins da terra.
11 Confidit in ea cor viri sui, et spoliis non indigebit.
11 O coração de seu marido põe nela a sua confiança, e êle não necessitará de despojos.
12 Reddet ei bonum, et non malum, omnibus diebus vitæ suæ.
12 Ela lhe tornará o bem, e não o mal, em todos os dias da sua vida.
13 Quæsivit lanam et linum, et operata est consilio manuum suarum.
13 Buscou lã e linho, e o trabalhou com a indústria de suas mãos.
14 Facta est quasi navis institoris, de longe portans panem suum.
14 Fêz-se como a nau do negociante, que traz de longe o seu pão.
15 Et de nocte surrexit, deditque prædam domesticis suis, et cibaria ancillis suis.
15 E levantou-se de noite, e repartiu a prêsa aos seus domésticos, e o sustento às suas escravas.
16 Consideravit agrum, et emit eum ; de fructu manuum suarum plantavit vineam.
16 Considerou um campo, e comprou-o: Plantou uma vinha do fruto das suas mãos.
17 Accinxit fortitudine lumbos suos, et roboravit brachium suum.
17 Cingiu os seus rins de fortaleza e corroborou o seu braço.
18 Gustavit, et vidit quia bona est negotiatio ejus ; non extinguetur in nocte lucerna ejus.
18 Tomou-lhe o gôsto, e viu que a sua negociação é boa: A sua candeia não se apagará de noite.
19 Manum suam misit ad fortia, et digiti ejus apprehenderunt fusum.
19 Ela meteu a sua mão a coisas fortes, e os seus dedos pegaram no fuso.
20 Manum suam aperuit inopi, et palmas suas extendit ad pauperem.
20 Abriu a sua mão para o necessitado, e estendeu os seus braços para o pobre.
21 Non timebit domui suæ a frigoribus nivis ; omnes enim domestici ejus vestiti sunt duplicibus.
21 Não temerá que venham sôbre a sua família os rigores da neve: Porque todos os seus domésticos trazem vestidos forrados.
22 Stragulatam vestem fecit sibi ; byssus et purpura indumentum ejus.
22 Ela fêz para si móveis de tapeçaria: Ela se vestiu de finíssimo linho, e de púrpura.
23 Nobilis in portis vir ejus, quando sederit cum senatoribus terræ.
23 Seu marido será ilustre na assembléia dos juízes, quando estiver assentado com os senadores da terra.
24 Sindonem fecit, et vendidit, et cingulum tradidit Chananæo.
24 Ela fêz delicados lenços, e vendeu-os e entregou um cinto ao cananeu.
25 Fortitudo et decor indumentum ejus, et ridebit in die novissimo.
25 A fortaleza e a formosura é o de que ela se reveste, e ela rirá no último dia.
26 Os suum aperuit sapientiæ, et lex clementiæ in lingua ejus.
26 Ela abriu a sua bôca à sabedoria, e a lei da clemência está na sua língua.
27 Consideravit semitas domus suæ, et panem otiosa non comedit.
27 Considerou as veredas da sua casa, e não comeu o pão ociosa.
28 Surrexerunt filii ejus, et beatissimam prædicaverunt ; vir ejus, et laudavit eam.
28 Levantaram-se seus filhos, e aclamaram-na ditosíssima: Levantou-se seu marido, e louvou-a.
29 Multæ filiæ congregaverunt divitias ; tu supergressa es universas.
29 Muitas filhas ajuntaram riquezas: Tu excedeste a tôdas.
30 Fallax gratia, et vana est pulchritudo : mulier timens Dominum, ipsa laudabitur.
30 A graça é enganadora, e a formosura é vã: A mulher que teme ao Senhor, essa é a que será louvada.
31 Date ei de fructu manuum suarum, et laudent eam in portis opera ejus.
31 Dai-lhe do fruto das suas mãos: E as suas obras a louvem na assembléia dos juízes.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
O contexto: o fim do livro dos Provérbios
O capítulo 31 fecha o livro dos Provérbios. Depois das grandes coleções de sentenças de Salomão, os dois últimos capítulos trazem outros títulos: as palavras de Agur (capítulo 30) e as «Palavras do rei Lamuel» (v. 1). O capítulo tem duas partes bem distintas: os conselhos que a mãe de Lamuel deu ao filho (v. 1-9) e o poema da mulher forte (v. 10-31), que é a conclusão de todo o livro. O livro tinha começado com a Sabedoria personificada como uma mulher que chama os homens; termina com uma mulher real em quem a sabedoria se faz vida.
Quem foi o rei Lamuel?
Não se sabe com certeza. Nenhum rei com esse nome aparece na história de Israel. Uma antiga tradição, judaica e cristã, viu em Lamuel um nome simbólico de Salomão, e na sua mãe Betsabé; outros pensam num rei estrangeiro, de uma tribo do norte da Arábia. É honesto dizer que a questão está aberta. O próprio texto chama esses conselhos de «Visão, pela qual o instruiu sua mãe» (v. 1): é um dos raros lugares da Escritura em que a palavra de sabedoria vem expressamente de uma mãe.
Provérbios 31,1-9: os conselhos de uma mãe ao rei
«Que te direi eu, meu amado filho, que te direi eu, amado fruto das minhas entranhas […]?» (v. 2). A mãe adverte o filho contra duas ruínas dos reis: as mulheres e o vinho. «Não dês aos reis, ó Lamuel, não dês vinho aos reis: Porque não há segrêdo onde reina a bebedice» (v. 4); a embriaguez faz esquecer a justiça e perverter «a eqüidade na causa dos filhos do pobre» (v. 5).
Provérbios 31,6. É o versículo muito procurado desta parte: «Mas dá aos que estão aflitos um licor capaz de os embriagar, e vinho aos que estão em amargura de coração» (v. 6). Lido no contexto, não é um elogio da bebida. O rei não deve beber, porque precisa de lucidez para julgar; mas o vinho pode ser um alívio para o moribundo e para quem sofre uma dor extrema, «Para que êles bebam, e se esqueçam da sua pobreza» (v. 7). É um conselho de misericórdia, não uma licença. Muitos intérpretes aproximam deste versículo o costume de oferecer uma bebida aos condenados, e lembram que a Jesus, antes da crucifixão, «davam-lhe a beber vinho misturado com mirra: E não o tomou» (Mc 15,23).
A voz dos pobres (v. 8-9). A parte termina com o dever principal do rei: «Abre a tua bôca, ordena o que é justo, e faze justiça ao necessitado e ao pobre» (v. 9). Antes de ser um homem poderoso, o rei deve ser a voz de quem não tem voz: «Abre a tua bôca a favor do mudo» (v. 8).
A mulher de Provérbios 31: forte ou virtuosa?
«Quem achará uma mulher forte? Seu preço excede a tudo o que vem de remontadas distâncias, e dos últimos confins da terra» (v. 10). Em latim, Mulierem fortem quis inveniet? As Bíblias protestantes mais lidas no Brasil dizem “mulher virtuosa”, e outras traduções “mulher de valor”. A expressão hebraica tem esse sentido amplo: força, valor, capacidade, virtude. Figueiredo, com a Vulgata, diz «mulher forte»: não forte de corpo, mas de alma, constante, trabalhadora, digna de confiança. É a fortaleza que os latinos chamavam virtus, palavra de onde vem justamente «virtude».
No hebraico, o poema é um acróstico: os 22 versículos (10 a 31) começam cada um por uma letra do alfabeto, na ordem. É o elogio completo, de A a Z, e a tradução não pode conservá-lo.
O que diz Provérbios 31,10-31? O retrato da mulher forte
A confiança do marido (v. 11-12). «O coração de seu marido põe nela a sua confiança» (v. 11). «Ela lhe tornará o bem, e não o mal, em todos os dias da sua vida» (v. 12).
O trabalho das mãos (v. 13-19). Ela busca lã e linho, traz o pão de longe «como a nau do negociante» (v. 14), levanta-se de noite para dar o sustento aos de casa (v. 15), compra um campo e planta uma vinha com o fruto do seu trabalho (v. 16). «A sua candeia não se apagará de noite» (v. 18). O retrato não é o de uma mulher fechada e ociosa, mas o de uma dona de casa que administra, compra, vende e produz.
A caridade (v. 20). No meio de tanto trabalho, o versículo central: «Abriu a sua mão para o necessitado, e estendeu os seus braços para o pobre». A riqueza da casa serve aos pobres.
A dignidade da casa (v. 21-27). A família está vestida contra o frio, ela mesma se veste com dignidade, e o marido é honrado «na assembléia dos juízes» (v. 23). «A fortaleza e a formosura é o de que ela se reveste, e ela rirá no último dia» (v. 25): não teme o futuro, nem o juízo final. Fala com sabedoria, «e a lei da clemência está na sua língua» (v. 26), e «não comeu o pão ociosa» (v. 27).
O louvor (v. 28-31). «Levantaram-se seus filhos, e aclamaram-na ditosíssima: Levantou-se seu marido, e louvou-a» (v. 28).
Provérbios 31,29-30: «A graça é enganadora, e a formosura é vã»
O marido diz: «Muitas filhas ajuntaram riquezas: Tu excedeste a tôdas» (v. 29). E o poema dá a chave de tudo: «A graça é enganadora, e a formosura é vã: A mulher que teme ao Senhor, essa é a que será louvada» (v. 30). O segredo da mulher forte não é a beleza, que passa, nem a habilidade, mas o temor de Deus, que é «o princípio da sabedoria» (Pr 1,7). O livro termina como começou. São Pedro dá às esposas cristãs o mesmo conselho, preferir ao enfeite exterior «o homem que está escondido no coração» (1 Pd 3,4).
O último versículo pede justiça para ela: «Dai-lhe do fruto das suas mãos: E as suas obras a louvem na assembléia dos juízes» (v. 31). As obras falam por ela.
A leitura católica: a mulher, a Igreja e Maria
A Igreja lê esse poema, antes de tudo, no sentido literal: é o retrato da esposa e mãe cristã, e um elogio do trabalho e da dignidade da mulher na família, que a Escritura não cessa de honrar.
Os Padres viram nele também um sentido espiritual. Santo Agostinho, num dos seus sermões, leu a mulher forte como figura da Igreja, a esposa de Cristo. A piedade cristã aplicou ainda o poema a Nossa Senhora, a mulher que todas as gerações chamam bem-aventurada (Lc 1,48), como os filhos que no versículo 28 «aclamaram-na ditosíssima».
Provérbios 31 na liturgia de 1962
- Missa Cognovi. O poema da mulher forte (31,10-31) é a epístola da Missa do Comum das santas mulheres que não foram virgens nem mártires. Lê-se, por exemplo, na festa de Sant'Ana, mãe de Nossa Senhora (26 de julho), na de Santa Isabel de Portugal, a Rainha Santa (8 de julho) e na de Santa Isabel da Hungria (19 de novembro). Para rezar a Sant'Ana, veja a novena de Santa Ana.
- Breviário. No mesmo Comum, as três lições do primeiro noturno das Matinas são o poema inteiro (31,10-17; 31,18-24; 31,25-31); o capítulo de Laudes é 31,10-11, o de Sexta 31,20-21, e a leitura breve de Prima 31,29-30.
Perguntas Frequentes
Quem é a mulher virtuosa de Provérbios 31?
É a «mulher forte» do poema de Provérbios 31,10-31: a esposa e mãe que trabalha, administra a casa, socorre os pobres, fala com sabedoria e, acima de tudo, teme a Deus. Os Padres viram nela também uma figura da Igreja.
Por que Figueiredo diz «mulher forte» e não “mulher virtuosa”?
Porque traduz o latim da Vulgata, mulierem fortem. A expressão hebraica significa força, valor e virtude ao mesmo tempo; as Bíblias protestantes preferem “virtuosa”, outras “de valor”. É a mesma mulher e o mesmo versículo, 31,10.
O que significa Provérbios 31,30?
«A graça é enganadora, e a formosura é vã: A mulher que teme ao Senhor, essa é a que será louvada.» A beleza e o encanto passam; o que dá valor duradouro a uma mulher, e a todo ser humano, é o temor de Deus.
O que significa Provérbios 31,6?
Que o vinho, perigoso para o rei que deve julgar com lucidez, pode ser um alívio misericordioso para os que estão aflitos ou morrendo. Não é um elogio da embriaguez, mas um conselho de compaixão.
Quem foi o rei Lamuel?
Não se sabe. Nenhum rei de Israel tem esse nome; uma antiga tradição o identificou com Salomão, outros pensam num rei estrangeiro. Os conselhos do capítulo vêm da sua mãe.
A mulher de Provérbios 31 existiu?
O poema não conta a história de uma mulher determinada: é um retrato ideal, composto em forma de acróstico. Mas é um ideal tirado da vida real das famílias de Israel, e muitas santas o viveram, como as que a Igreja honra com a Missa Cognovi.
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