Salmos
Salmo 130 (Salmo 129 na Vulgata): De Profundis
O Salmo 130, o De profundis, é o grito da alma que clama do fundo do abismo e confia na misericórdia que redime. Texto completo na Bíblia de Figueiredo e no latim da Vulgata, com a explicação da dupla numeração, o tema da penitência e o uso tradicional na oração pelos defuntos.

Quem procura o Salmo 130 chega a um dos cumes do saltério: o De profundis, o grito da alma que clama do fundo do abismo e se agarra à misericórdia de Deus. "Desde o mais profundo clamei a ti, Senhor" — é o salmo que a Igreja canta junto a cada túmulo, que reza nas Vésperas, que coloca na boca do pecador arrependido e da alma que sofre. Reunimos aqui o texto completo na Bíblia de Figueiredo, o latim da Vulgata, a explicação da dupla numeração que confunde tantos leitores, o tema do salmo e o seu lugar na oração tradicional da Igreja.
Por que existem dois números: Salmo 130 e Salmo 129
A primeira coisa a entender é que o Salmo 130 e o Salmo 129 são, na maior parte dos casos, o mesmo salmo. A diferença é só de numeração, e ela vem de longe.
O saltério hebraico (o texto massorético, seguido pelas edições modernas) numera este cântico como Salmo 130. A tradução grega dos Setenta (a Septuaginta) e a Vulgata latina de São Jerônimo, que a Igreja latina usou por mais de mil e quinhentos anos, o numeram como Salmo 129.
A divergência nasce no começo do saltério: o grego e o latim juntaram em um só os salmos hebraicos 9 e 10, e mais adiante o 114 e o 115. Por isso, na maior parte do saltério, a numeração latina fica uma unidade atrás da hebraica. O que o leitor moderno conhece como Salmo 130 é, para a tradição litúrgica latina, o Salmo 129 — e é assim que a Bíblia de Figueiredo, traduzida da Vulgata, o traz. Ao procurar "Salmo 130", você o encontra no versículo que começa "Desde o mais profundo clamei a ti, Senhor". Conferimos os versículos para confirmar o salmo certo — eis o texto completo.
Salmo 130 (129) — texto na Bíblia de Figueiredo
Cântico gradual.
Desde o mais profundo clamei a ti, Senhor:
Senhor, ouve a minha voz: Estejam atentos os teus ouvidos à voz da minha deprecação.
Se observares, Senhor, as nossas maldades: Quem, Senhor, poderá subsistir?
Mas em ti se acha a propiciação: E pela tua lei pus em ti, Senhor, a minha confiança. A minha alma está confiada na sua palavra:
A minha alma esperou no Senhor.
Desde a vigília da manhã até à noite: Espere Israel no Senhor.
Porque no Senhor está a misericórdia: E nêle há copiosa redenção.
E êle mesmo redimirá a Israel de tôdas as suas iniqüidades.
Salmo 129 — texto em latim (Vulgata)
Canticum graduum.
De profundis clamavi ad te, Domine;
Domine, exaudi vocem meam. Fiant aures tuæ intendentes in vocem deprecationis meæ.
Si iniquitates observaveris, Domine, Domine, quis sustinebit?
Quia apud te propitiatio est; et propter legem tuam sustinui te, Domine. Sustinuit anima mea in verbo ejus:
Speravit anima mea in Domino.
A custodia matutina usque ad noctem, speret Israël in Domino.
Quia apud Dominum misericordia, et copiosa apud eum redemptio.
Et ipse redimet Israël ex omnibus iniquitatibus ejus.
O significado do Salmo 130
O significado do Salmo 130 está todo na sua primeira palavra latina, que lhe deu o nome: De profundis, "das profundezas". A alma não fala do alto de seus méritos, mas do fundo de um abismo — o abismo da culpa, da angústia, da tribulação que parece engolir. E desse fundo ela não cala: clama. O salmo é a oração de quem tocou o chão da própria miséria e, em vez de se calar no desespero, ergue a voz para o único que pode resgatá-lo.
O movimento do salmo é uma subida desde esse fundo. Primeiro, o clamor: "Desde o mais profundo clamei a ti, Senhor." Depois, a confissão da impotência diante da justiça divina: "Se observares, Senhor, as nossas maldades: Quem, Senhor, poderá subsistir?" Nenhum homem subsiste se Deus pesar os pecados em rigor — eis a humildade que está na raiz de toda penitência verdadeira. Mas justamente aqui o salmo se volta para a esperança: "Mas em ti se acha a propiciação." Em Deus há perdão, e por isso a alma O espera, vigilante "desde a vigília da manhã até à noite", como a sentinela que aguarda o amanhecer.
O salmo termina num cume de confiança que abraça todo o povo: "Porque no Senhor está a misericórdia: E nêle há copiosa redenção. E êle mesmo redimirá a Israel de tôdas as suas iniqüidades." A redenção é copiosa — abundante, transbordante, maior que toda a culpa. Os Padres viram aqui o anúncio de Cristo Redentor, que desceu ao mais profundo do nosso exílio para nos resgatar de todas as nossas iniquidades. O De profundis é, assim, o salmo que une o abismo do pecado e o abismo ainda maior da misericórdia.
O Salmo 130 entre os salmos penitenciais
O Salmo 130 (129) é o sexto dos sete salmos penitenciais da tradição da Igreja — o grupo formado pelos salmos 6, 31, 37, 50, 101, 129 e 142 da Vulgata (6, 32, 38, 51, 102, 130 e 143 na numeração hebraica). São os salmos que a Igreja sempre reservou para a confissão do pecado e o pedido de perdão, rezados na Quaresma, nos tempos de penitência e à hora da morte.
Entre eles, o De profundis tem um lugar único. Não é a contrição dramática do Miserere (o Salmo 50), nem o lamento do Salmo 6. É a oração serena e profunda de quem, reconhecendo-se pecador, descansa inteiramente na misericórdia. Por isso a Igreja o colocou tão perto da morte: é o salmo que melhor exprime a esperança cristã diante do juízo de Deus.
Salmo 130 como oração
Como oração, o Salmo 130 é o grito de toda alma que se vê no fundo. Reze-o quando o peso do pecado parecer maior que as forças, quando a angústia apertar, quando a noite da prova não passar. Coloque na sua boca a humildade do versículo "Se observares, Senhor, as nossas maldades: Quem, Senhor, poderá subsistir?" — e logo a seguir, sem demora, a confiança: "Mas em ti se acha a propiciação."
Reze-o devagar, deixando que a esperança cresça verso a verso, como a sentinela que espera a aurora. É uma oração excelente para fazer um exame de consciência, para preparar-se para a confissão, ou simplesmente para depor diante de Deus um coração cansado. E reze-o, sobretudo, pelos que partiram: por séculos os cristãos o murmuraram pelos seus mortos, confiando-os à copiosa redemptio, à redenção abundante do Senhor. Muitos o associam ao terço e às orações da noite, entregando a Deus as quedas do dia.
O uso tradicional do Salmo 130 na Igreja
O Salmo 129 pertence ao grupo dos Cânticos Graduais (em latim, Cantica graduum), os quinze salmos do 119 ao 133 da Vulgata, cantados pelos peregrinos que subiam a Jerusalém. É também, como vimos, um dos sete salmos penitenciais. Mas o seu lugar mais constante na tradição é o ofício e a oração pelos mortos.
No Divino Ofício, o De profundis é rezado às Vésperas e, de modo especial, nas Vésperas do Ofício dos Defuntos. Junto de cada sepultura, à passagem de um cortejo fúnebre, no aniversário da morte de um ente querido, a Igreja entoou por séculos este salmo, unindo-o à antífona Réquiem aeternam — "Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno." Quem o reza pelos defuntos pede que a misericórdia que clamou das profundezas alcance também as almas que se purificam no purgatório, e a tradição uniu o De profundis à novena das almas e à oração por todos os fiéis defuntos.
É, no fim, o salmo da esperança que não desampara nem no abismo. Quem o reza junta a sua voz à de todos os pecadores e de todos os mortos que, ao longo dos séculos, clamaram do fundo para o Senhor — certos de que "no Senhor está a misericórdia, e nêle há copiosa redenção".
Para que serve o Salmo 130
Quem pergunta "para que serve o Salmo 130" procura o seu uso concreto na vida de oração. A resposta da tradição é clara: o De profundis serve para clamar a Deus do fundo da tribulação e da culpa, e para esperar n'Ele o perdão. Não é uma fórmula mágica nem uma "oração de poder" que se reza para obter favores materiais. É uma oração de penitência e de confiança, e a Igreja sempre a empregou para três fins principais: pedir o perdão dos pecados (como salmo penitencial), preparar a alma para a confissão e o exame de consciência, e interceder pelos fiéis defuntos. Reduzi-lo a um amuleto para "atrair sorte" ou afastar inimigos é deturpar o salmo: o seu fim é converter o coração e abandoná-lo à misericórdia de Deus.
O Salmo 130 é um "salmo de cura"?
Muitos buscam o salmo de cura 130 (ou salmo da cura 130) esperando uma oração pela saúde do corpo. Convém esclarecer: o Salmo 130 não é, na tradição da Igreja, um salmo de cura física. O seu tema é a cura da alma — a saração do pecado pela misericórdia divina. "Mas em ti se acha a propiciação" e "no Senhor está a misericórdia, e nêle há copiosa redenção": a cura que o salmo pede é o perdão, que sana a ferida mais profunda, a do pecado, da qual nascem todas as outras misérias.
Isso não impede que o doente reze o De profundis: do fundo da enfermidade e da angústia, ele clama a Deus e descansa na sua bondade. Mas é preciso rezá-lo com a intenção justa — entregando-se à vontade de Deus, e não como técnica para forçar uma cura. A oração cristã pela saúde existe e é legítima; ela se faz com fé e com a humildade de quem diz "faça-se a tua vontade", jamais com a presunção da superstição. Para a doença, a Igreja tem também o sacramento da Unção dos Enfermos, ordenado pelo próprio Cristo.
O Salmo 130 na edição Ave Maria
Quem procura o Salmo 130 na Ave Maria se refere à Bíblia Ave Maria, uma das traduções católicas mais difundidas no Brasil. Nessa edição, como nas Bíblias modernas, o cântico aparece sob o número 130, seguindo a numeração hebraica, e não 129. O texto começa, conforme a tradução: "Do fundo do abismo clamo a vós, Senhor; ó Senhor, escutai a minha voz."
O conteúdo é o mesmo De profundis que apresentamos acima na Bíblia de Figueiredo e no latim da Vulgata; muda apenas a numeração (130 em vez de 129) e a roupagem do português. Seja qual for a edição que você tenha em mãos — Figueiredo, Ave Maria ou outra —, trata-se do mesmo salmo penitencial, o grito da alma que clama das profundezas e confia na redenção copiosa do Senhor.
Salmo 130, versículo 5: "A minha alma esperou no Senhor"
Entre os versículos mais procurados está o Salmo 130, 5. Na Bíblia de Figueiredo (Salmo 129) lê-se: "A minha alma esperou no Senhor" — em latim, "Speravit anima mea in Domino". Nas edições que seguem a numeração hebraica e dividem os versículos de outro modo, o versículo 5 reúne a espera vigilante: "Aguardo o Senhor com toda a minha alma, e ponho a minha esperança na sua palavra."
É o coração da segunda parte do salmo: depois de reconhecer que ninguém subsistiria se Deus pesasse os pecados, a alma não se entrega ao medo, mas à esperança. A palavra "esperar" aqui não é uma espera passiva — é a confiança ativa de quem aguarda a aurora certa de que ela virá. A alma espera "na palavra" de Deus, isto é, na sua promessa de perdão. Este versículo é, por si só, uma jaculatória excelente para os momentos de prova.
Salmo 130, versículo 7: "Porque no Senhor está a misericórdia"
O Salmo 130, 7 é, na tradição, o cume da esperança do salmo. Na Bíblia de Figueiredo (Salmo 129) corresponde ao versículo: "Porque no Senhor está a misericórdia: E nêle há copiosa redenção" — "Quia apud Dominum misericordia, et copiosa apud eum redemptio."
Aqui a alma deixa de olhar para a sua miséria e fixa os olhos em Deus: não diz apenas que Deus tem misericórdia, mas que n'Ele está a misericórdia, como em sua fonte. E acrescenta a palavra que ilumina todo o salmo: a redenção é copiosa, abundante, transbordante — maior que todo pecado. Os Padres viram neste versículo o anúncio de Cristo Redentor. É o verso que faz do De profundis, apesar de penitencial, um cântico de confiança inabalável.
O Salmo 130 entre os Cânticos Graduais (Salmos 119–133)
Quem busca salmo 119 130 está percorrendo a coleção dos Cânticos Graduais (Cantica graduum), o conjunto de quinze salmos que vai do Salmo 119 ao 133 na numeração da Vulgata (120 a 134 na hebraica). Eram os cânticos que os peregrinos de Israel cantavam ao subir — gradus, "degraus" — rumo ao Templo de Jerusalém para as grandes festas.
O Salmo 129 (130) é um deles, e a sua imagem combina perfeitamente com o conjunto: é a subida da alma desde o mais profundo do abismo até o cume da esperança em Deus. Os outros graduais cantam a confiança do peregrino, a proteção do Senhor, a alegria de quem sobe à casa de Deus. O De profundis dá a esse caminho a sua nota penitencial: antes de subir a Jerusalém, a alma reconhece a sua miséria e implora o perdão. Por isso este salmo une, num só fôlego, as duas grandes tradições litúrgicas em que entrou — a dos peregrinos que sobem e a dos que rezam pelos mortos.
Perguntas Frequentes
O Salmo 130 e o Salmo 129 são o mesmo?
Na maioria dos casos, sim. A numeração hebraica o chama Salmo 130; a Vulgata latina e a Septuaginta o chamam Salmo 129. A Bíblia de Figueiredo, traduzida da Vulgata, o traz sob o número 129. O texto é o mesmo: "Desde o mais profundo clamei a ti, Senhor".
O que significa "De profundis"?
De profundis é o início do salmo em latim e significa "das profundezas". São as primeiras palavras de "De profundis clamavi ad te, Domine" — "Desde o mais profundo clamei a ti, Senhor". A expressão deu nome ao salmo e tornou-se, na tradição cristã, sinônimo da oração feita do fundo da angústia ou do pesar pelos mortos.
Qual é o significado do Salmo 130?
É o clamor da alma que, do fundo do pecado e da tribulação, confia na misericórdia de Deus. Reconhece que ninguém subsistiria se Deus pesasse os pecados em rigor, mas afirma que "em ti se acha a propiciação". Termina na esperança de que o Senhor, cuja redenção é copiosa, resgatará o seu povo de todas as iniquidades.
O Salmo 130 é um salmo penitencial?
Sim. É o sexto dos sete salmos penitenciais da tradição da Igreja (salmos 6, 31, 37, 50, 101, 129 e 142 da Vulgata), rezados na Quaresma e nos tempos de penitência como confissão do pecado e pedido de perdão.
Por que o Salmo 130 é rezado pelos mortos?
Porque é o grande salmo da esperança na misericórdia diante do juízo de Deus. A Igreja o uniu desde sempre ao Ofício dos Defuntos e à antífona Réquiem aeternam, rezando-o junto às sepulturas e pelos fiéis defuntos que se purificam no purgatório, para que a "copiosa redenção" do Senhor os alcance.
Quando rezar o Salmo 130?
É indicado nas horas de angústia, de remorso e de prova, como preparação para a confissão e para o exame de consciência, e à hora da morte. Na tradição da Igreja, é rezado nas Vésperas, entre os salmos penitenciais da Quaresma e, de modo especial, na oração pelos defuntos.
Para que serve o Salmo 130?
Serve para clamar a Deus do fundo da tribulação e da culpa e esperar n'Ele o perdão. A Igreja o emprega para pedir o perdão dos pecados, preparar-se para a confissão e interceder pelos fiéis defuntos. Não é um amuleto nem uma "oração de poder" para obter favores materiais: o seu fim é converter o coração e abandoná-lo à misericórdia divina.
O Salmo 130 é um salmo de cura?
Não no sentido de cura física. O seu tema é a cura da alma — a saração do pecado pela misericórdia de Deus. O doente pode rezá-lo, clamando do fundo da enfermidade, mas com a intenção justa, entregando-se à vontade de Deus, e nunca como técnica supersticiosa para forçar uma cura.
Qual o número do Salmo 130 na Bíblia Ave Maria?
Na Bíblia Ave Maria ele aparece como Salmo 130, seguindo a numeração hebraica. O texto começa "Do fundo do abismo clamo a vós, Senhor". É o mesmo De profundis que a Bíblia de Figueiredo traz sob o número 129.
O que diz o Salmo 130, versículo 5?
"A minha alma esperou no Senhor" (Speravit anima mea in Domino). É o verso da esperança confiante: depois de reconhecer a própria miséria, a alma não cede ao medo, mas aguarda o perdão de Deus, certa da sua palavra.
O que diz o Salmo 130, versículo 7?
"Porque no Senhor está a misericórdia: E nêle há copiosa redenção" (Quia apud Dominum misericordia, et copiosa apud eum redemptio). É o cume da esperança do salmo: a redenção de Deus é abundante, maior que todo pecado.
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Fontes. Bíblia Sagrada, tradução do Pe. António Pereira de Figueiredo (Salmo 129); Vulgata Clementina, Psalmus 129 (Canticum graduum, "De profundis"); ordo dos sete salmos penitenciais e Ofício dos Defuntos segundo o uso tradicional romano.