Os Fins Últimos
O Que é o Purgatório e Onde Está na Bíblia
O que é o purgatório, por que ele existe e onde a Bíblia o ensina: a doutrina definida pelos Concílios de Florença e de Trento, os textos da Escritura na tradução de Figueiredo, e as orações da Igreja pelas almas que se purificam.

Se você se pergunta o que é o purgatório, se o purgatório existe de fato, ou onde está o purgatório na Bíblia, este artigo expõe o que a Igreja sempre creu: há um estado de purificação para as almas que morrem na graça de Deus, e nós, os vivos, podemos socorrê-las com a nossa oração. Não é opinião piedosa, mas doutrina definida pelos Concílios de Florença e de Trento, fundada na Escritura e na tradição constante dos Padres. Veremos a definição, os textos bíblicos e as orações que a Igreja nos dá pelas almas.
O que é o purgatório
O purgatório é o estado em que se purificam as almas dos que morreram na amizade de Deus, mas ainda não inteiramente quites da pena temporal devida pelos seus pecados. Essas almas estão salvas: o céu lhes pertence. Mas, porque na Jerusalém celeste "não entrará nela coisa alguma contaminada" (Apocalipse 21, 27), elas devem antes ser purificadas — como o ouro pelo fogo — para entrarem puras na visão de Deus. É uma das verdades que a Igreja sempre ensinou, ao lado do que a Bíblia fala sobre os grandes temas da vida: a vida eterna, o juízo e a misericórdia divina.
O Catecismo Romano, publicado por ordem do Concílio de Trento, ensina-o ao explicar o artigo do Credo "desceu aos infernos": "Há um outro inferno onde está o fogo do Purgatório. É ali que as almas dos justos se purificam em sofrimentos que duram um tempo determinado, esperando que sejam dignas de entrar na Pátria eterna, pois nada de manchado pode ali penetrar." O purgatório não é, portanto, uma terceira via entre o céu e o inferno: é a antecâmara do céu. Toda alma no purgatório está certa de sua salvação; sofre, mas sofre na esperança, sabendo que cada momento a aproxima da face de Deus. Por isso a tradição chama essas almas de "as almas santas do purgatório".
O Catecismo de São Pio X diz o mesmo em linguagem simples. À pergunta se os que morrem depois de receber a absolvição, "mas antes de ter plenamente satisfeito à justiça de Deus", vão direito ao paraíso, responde: "Não, vão ao purgatório para ali satisfazer à justiça de Deus e se purificar inteiramente."
O purgatório existe? Florença e Trento
À pergunta "o purgatório existe?", a Igreja respondeu duas vezes de modo solene. O Concílio de Florença, no decreto de união com os gregos (Laetentur caeli, 1439), definiu que as almas dos verdadeiros penitentes que morrem na caridade de Deus antes de terem satisfeito por dignos frutos de penitência são purificadas depois da morte por penas purgatórias, e que lhes aproveitam os sufrágios dos fiéis vivos: os sacrifícios de Missas, as orações, as esmolas e as outras obras de piedade.
Mais de um século depois, contra os reformadores protestantes, o Concílio de Trento reafirmou-o na sua vigésima quinta sessão (dezembro de 1563). O decreto sobre o purgatório começa assim:
"Como a Igreja Católica, instruída pelo Espírito Santo, ensinou, a partir das Sagradas Escrituras e da antiga tradição dos Padres, nos sagrados Concílios e mui recentemente neste sínodo ecumênico, que há um Purgatório, e que as almas ali detidas são socorridas pelos sufrágios dos fiéis, mas principalmente pelo aceitável Sacrifício do altar (...)"
Trento não inventou nada: confirmou o que já se cria desde os Apóstolos. E mandou aos bispos que a "sã doutrina sobre o Purgatório" fosse crida e pregada em toda parte, evitando porém, diante do povo simples, as questões "mais difíceis e sutis" que não edificam — como a duração exata das penas ou a natureza precisa do fogo. A Igreja define que o purgatório existe e que as almas ali são socorridas; sobre o resto, guarda santa sobriedade.
O purgatório na Bíblia
Quem afirma que o purgatório na Bíblia não aparece esquece o testemunho do segundo livro dos Macabeus. Depois de uma batalha, Judas Macabeu descobre que alguns soldados caídos haviam pecado, e manda oferecer sacrifício por eles em Jerusalém:
"E tendo ajuntado uma coleta, mandou doze mil dracmas de prata a Jerusalém para serem oferecidas em sacrifício pelos pecados dos mortos, sentindo bem e religiosamente da ressurreição." (II Macabeus 12, 43)
A Escritura raciocina em seguida com clareza. Orar pelos mortos só faz sentido se há um estado em que a oração os alcança — pois nem o céu carece de oração, nem o inferno se beneficia dela:
"(Porque se êle não esperasse que os que tinham sido mortos, haviam um dia de ressuscitar, teria por uma coisa supérflua e vã orar pelos defuntos.) E porque êle considerava que os que haviam falecido na piedade tinham uma grandíssima misericórdia reservada. E' logo um santo, e saudável pensamento orar pelos mortos, para que sejam livres dos seus pecados." (II Macabeus 12, 44-46)
"Um santo e saudável pensamento orar pelos mortos." Eis o fundamento: há mortos que ainda precisam ser "livres dos seus pecados", e nossa oração os alcança. E não é só o Antigo Testamento. São Paulo descreve uma alma que se salva, porém atravessando o fogo:
"Manifesta será a obra de cada um: Porque o dia do Senhor a demonstrará, porquanto em fogo será descoberta: E qual seja a obra de cada um, o fogo o provará. (...) Se a obra de alguém se queimar, padecerá êle detrimento, mas o tal será salvo: Se bem desta maneira como por intervenção do fogo." (I Coríntios 3, 13-15)
Salvo, mas "como por intervenção do fogo": é a alma que entra no céu depois de purificada. O próprio Senhor o insinua ao ensinar que o pecado contra o Espírito Santo não será perdoado "nem neste mundo, nem no outro" (Mateus 12, 32) — palavra em que Santo Agostinho e São Gregório Magno leram que certas faltas podem ser perdoadas no outro mundo, na purificação que segue a morte.
A oração pelas almas
Se o purgatório existe e a Escritura nos manda orar pelos mortos, então temos um dever sagrado. As almas do purgatório não podem mais merecer por si mesmas: a hora do mérito acabou para elas com a morte. Mas nós, que ainda peregrinamos, podemos oferecer por elas oração, penitência e, sobretudo, a Santa Missa. O Catecismo de São Pio X o resume: as almas do purgatório "podem ser aliviadas pelas orações, pelas esmolas, por todas as outras boas obras, pelas indulgências, e sobretudo pelo santo sacrifício da Missa".
A Igreja nos dá para isso as indulgências, que se podem aplicar às almas quando quem as concede o declara — e, no topo delas, a indulgência plenária, que a Raccolta concedia pelos defuntos, de modo particular, a cada visita a uma igreja no Dia de Finados. É a comunhão dos santos em ato: os membros vivos do Corpo de Cristo socorrendo os que ainda padecem.
O maior sufrágio é a Santa Missa, "o aceitável Sacrifício do altar", como disse Trento; quem conhece a Missa tridentina sabe que no Memento dos mortos, depois da Consagração, o sacerdote recomenda a Deus nominalmente os defuntos por quem se oferece o Sacrifício. Depois dela, a Igreja nos dá a oração que repete há séculos pelos defuntos — o Requiem aeternam, que fecha cada salmo do Ofício dos Defuntos:
Em latim:
V. Réquiem ætérnam dona eis, Dómine.
R. Et lux perpétua lúceat eis.
V. Requiéscant in pace.
R. Amen.
Em português:
V. Dai-lhes, Senhor, o eterno descanso.
R. Entre os esplendores da luz perpétua.
V. Descansem em paz.
R. Amém.
A Raccolta, o manual oficial das indulgências anterior à reforma de 1968, enriqueceu este versículo e responso: na edição inglesa de 1910 aparecem 300 dias de indulgência, aplicáveis somente aos defuntos, concedidos por São Pio X em 13 de fevereiro de 1908 a quem o recita com o Requiescant in pace.
E a oração da Igreja por excelência pelos fiéis defuntos é a coleta Fidelium Deus, que o Missal Romano de 1962 põe na primeira Missa da Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, a 2 de novembro:
Fidélium, Deus, ómnium Cónditor et Redémptor: animábus famulórum famularúmque tuárum remissiónem cunctórum tríbue peccatórum; ut indulgéntiam, quam semper optavérunt, piis supplicatiónibus consequántur: Qui vivis et regnas in sǽcula sæculórum. Amen.
Ó Deus, Criador e Redentor de todos os fiéis, concedei às almas dos vossos servos e servas a remissão de todos os seus pecados, para que, pelas nossas piedosas súplicas, alcancem o perdão que sempre desejaram. Vós que viveis e reinais pelos séculos dos séculos. Amém.
Por fim, o salmo penitencial por excelência, o De profundis, que a Igreja canta junto a todo túmulo, começa assim em Figueiredo: "Desde o mais profundo clamei a ti, Senhor" (Salmos 129, 1). Você o encontra rezado por inteiro no nosso guia do Salmo 130 (Salmo 129 na Vulgata): De Profundis. Reze-os pelos seus mortos — e um dia outros os rezarão por você. Estas e outras fórmulas reúnem-se no nosso guia das orações católicas da tradição e na página da oração pelos mortos e pelas almas.
A novena das almas e o Dia de Finados
A forma mais constante de orar pelos defuntos ao longo do ano é a novena das almas: nove dias seguidos de oração pelos fiéis que se purificam no purgatório, reunindo o De profundis, o Requiem aeternam e uma resolução diária aplicada em sufrágio. É a mais indicada para os dias que antecedem o 2 de novembro, mas pode ser feita em qualquer tempo. Para rezá-la com a estrutura completa em latim e português, veja a nossa Novena das Almas do Purgatório. E para o sentido da própria festa, com as suas três Missas e as indulgências do dia, leia o nosso artigo sobre o Dia de Finados, a Comemoração dos Fiéis Defuntos.
Perguntas Frequentes
O purgatório existe mesmo, ou é invenção da Igreja?
O purgatório existe e é dogma de fé, definido pelo Concílio de Florença (1439) e reafirmado pelo Concílio de Trento (Sessão XXV, 1563) a partir das Escrituras e da tradição dos Padres. A Igreja não o inventou: declarou solenemente o que se cria desde os Apóstolos, como prova o uso antiquíssimo de orar pelos mortos.
Onde está o purgatório na Bíblia?
O texto mais explícito é II Macabeus 12, 43-46, onde Judas Macabeu manda oferecer sacrifício pelos pecados dos mortos, e a Escritura conclui que "é logo um santo, e saudável pensamento orar pelos mortos". São Paulo também o supõe em I Coríntios 3, 15, ao falar da alma "salva como por intervenção do fogo".
Quem vai para o purgatório?
As almas que morrem na graça de Deus, mas que ainda têm pena temporal a satisfazer ou pecados veniais a purificar. Quem morre em pecado mortal vai ao inferno; quem morre perfeitamente puro entra logo no céu. O purgatório é para os salvos que precisam ser purificados antes de ver a Deus.
As almas do purgatório se salvam com certeza?
Sim. Toda alma no purgatório está certa de sua salvação eterna — o céu já lhe pertence. Por isso a tradição as chama de "almas santas". Sofrem, mas na esperança, sabendo que cada sufrágio nosso abrevia o tempo que as separa da visão de Deus.
Como posso ajudar as almas do purgatório?
Pela oração, pela esmola, pela penitência, pelas indulgências e, acima de tudo, mandando celebrar a Santa Missa por elas — o sufrágio supremo, segundo o Catecismo de São Pio X. A Igreja recomenda o Requiem aeternam, o Salmo 129 (De profundis), a coleta Fidelium Deus e a novena das almas.
Quanto tempo uma alma fica no purgatório?
A Igreja não o diz. O Concílio de Trento pediu expressamente que se evitassem diante do povo essas questões "mais difíceis e sutis". O que sabemos é que a purificação tem fim e que os nossos sufrágios a abreviam; por isso a Igreja nunca deixa de rezar pelos defuntos, mesmo muitos anos depois da morte.
As almas do purgatório podem rezar por nós?
É uma opinião piedosa, não um dogma. Santo Afonso de Ligório e São Roberto Belarmino ensinavam que sim, e muitos fiéis se recomendam às almas; São Tomás de Aquino era mais reservado. A Igreja não definiu a questão, e a recomendação segura continua sendo rezar por elas.
O aplicativo Iter Fidei traz a Bíblia de Figueiredo, as orações e as novenas, em latim e português, com áudio. Participe do acesso antecipado aqui.
Fontes. II Macabeus 12; I Coríntios 3; Mateus 12; Apocalipse 21; Salmos 129 — Bíblia Sagrada, tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo. Concílio de Florença, decreto Laetentur caeli (1439). Concílio de Trento, Sessão XXV, Decreto sobre o Purgatório (1563). Catecismo Romano do Concílio de Trento (art. 5 do Credo). Catecismo de São Pio X (comunhão dos santos; penitência). Missal Romano de 1962 (2 de novembro, coleta Fidelium Deus). Raccolta (ed. 1910).