A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 130 (129 na Vulgata e na Ave-Maria): De profundis, das profundezas clamo a ti
De profundis
O salmo 130 das Bíblias modernas, 129 na Vulgata e na Bíblia Ave-Maria, é o *De profundis*: «Desde o mais profundo clamei a ti, Senhor», o salmo penitencial que a Igreja reza pelos seus mortos. Abaixo está o texto completo na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica cada versículo, a «copiosa redenção», o lugar do salmo nas Vésperas e no Ofício dos Defuntos de 1962 e a maneira de rezá-lo pelas almas.
Procura o salmo 129 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 128.
1 Canticum graduum. De profundis clamavi ad te, Domine ;
1 Cântico gradual. Desde o mais profundo clamei a ti, Senhor:
2 Domine, exaudi vocem meam. Fiant aures tuæ intendentes in vocem deprecationis meæ.
2 Senhor, ouve a minha voz: Estejam atentos os teus ouvidos à voz da minha deprecação.
3 Si iniquitates observaveris, Domine, Domine, quis sustinebit ?
3 Se observares, Senhor, as nossas maldades: Quem, Senhor, poderá subsistir?
4 Quia apud te propitiatio est ; et propter legem tuam sustinui te, Domine. Sustinuit anima mea in verbo ejus :
4 Mas em ti se acha a propiciação: E pela tua lei pus em ti, Senhor, a minha confiança. A minha alma está confiada na sua palavra:
5 speravit anima mea in Domino.
5 A minha alma esperou no Senhor.
6 A custodia matutina usque ad noctem, speret Israël in Domino.
6 Desde a vigília da manhã até à noite: Espere Israel no Senhor.
7 Quia apud Dominum misericordia, et copiosa apud eum redemptio.
7 Porque no Senhor está a misericórdia: E nêle há copiosa redenção.
8 Et ipse redimet Israël ex omnibus iniquitatibus ejus.
8 E êle mesmo redimirá a Israel de tôdas as suas iniqüidades.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 130 ou salmo 129?
O número 130 é o da numeração hebraica, seguida pelas Bíblias modernas. A Vulgata latina e os Setenta juntam num só os salmos 9 e 10 do hebraico e contam, por isso, o De profundis como salmo 129. É com esse número que o conhecem os livros litúrgicos, os manuais de oração tradicionais e as Bíblias católicas de numeração antiga: tanto a de Figueiredo quanto a Bíblia Ave-Maria trazem o De profundis como salmo 129. O texto é o mesmo; a tabela das correspondências está na página dos Salmos.
Daí duas buscas que se cruzam:
- o salmo 130 da Bíblia Ave-Maria é outro, o Domine, non est exaltatum: «Senhor, o meu coração não se ensoberbeceu» (salmo 131 hebraico, 130 na Vulgata), a alma tranquila como uma criança no colo da mãe, que vem logo depois nas Vésperas;
- o salmo 129 das Bíblias modernas é o Saepe expugnaverunt: «Muitas vêzes me combateram desde a minha mocidade, diga-o agora Israel» (salmo 128 na Vulgata).
Os versículos coincidem quase todos; só a divisão dos versículos 4 e 5 difere um pouco, como se verá.
O que significa o salmo 130? Explicação
O De profundis é um dos quinze cânticos graduais (salmos 119 a 133 da Vulgata), os cantos dos peregrinos que subiam a Jerusalém, e o sexto dos sete salmos penitenciais (salmos 6, 31, 37, 50, 101, 129 e 142 da Vulgata). Oito versículos lhe bastam para percorrer todo o caminho da conversão: o grito, a confissão, a confiança, a espera e a promessa.
O grito (v. 1-2). «Desde o mais profundo clamei a ti, Senhor» (v. 1). E logo: «Senhor, ouve a minha voz: Estejam atentos os teus ouvidos à voz da minha deprecação» (v. 2). O «profundo» não é antes de tudo um lugar, mas um estado: o abismo da alma esmagada pela desgraça e sobretudo pelo pecado. Quem reza não se resigna a ele: clama. E o simples fato de clamar a Deus já é um primeiro movimento de subida. Vem à memória Jonas, que rezou no ventre do peixe: «Clamei desde o ventre do inferno e tu escutaste a minha voz» (Jonas 2,3).
A confissão (v. 3). «Se observares, Senhor, as nossas maldades: Quem, Senhor, poderá subsistir?» É a humildade do penitente. Ninguém pode se apresentar diante de Deus contando com a própria justiça; o último dos salmos penitenciais o repetirá: «Porque não será justificado na tua presença todo o vivente» (salmo 143, 142 na Vulgata).
A confiança (v. 4-5). A virada vem logo: «Mas em ti se acha a propiciação: E pela tua lei pus em ti, Senhor, a minha confiança» (v. 4). O latim diz propitiatio, o perdão que aplaca e reconcilia. A Vulgata fala aqui da «lei» de Deus, onde o hebraico diz "para que sejas temido"; nos dois casos a esperança se apoia no que Deus revelou de si. Depois: «A minha alma está confiada na sua palavra» e «A minha alma esperou no Senhor» (v. 5). As Bíblias modernas põem essas duas frases no versículo 5; Figueiredo, como a Vulgata, começa a primeira já no fim do versículo 4.
A espera e a promessa (v. 6-8). «Desde a vigília da manhã até à noite: Espere Israel no Senhor» (v. 6). Figueiredo segue a Vulgata, a custodia matutina usque ad noctem; as traduções do hebraico falam das sentinelas que esperam a aurora. O salmo termina com uma promessa para todo o povo: «Porque no Senhor está a misericórdia: E nêle há copiosa redenção» (v. 7); «E êle mesmo redimirá a Israel de tôdas as suas iniqüidades» (v. 8). Começou com um grito individual; acaba com a redenção de todos.
A copiosa redenção: a leitura dos Padres
Santo Agostinho, nas Enarrationes in Psalmos, entende o «profundo» como a condição do homem nesta vida mortal e a profundidade do pecado; mas observa que quem clama do fundo do abismo já não está inteiramente engolido por ele, porque clama a Deus.
A «copiosa redenção» do versículo 7 é a de Cristo. São Paulo escreve a Tito que ele «se deu a si mesmo por nós outros, para nos remir de tôda a iniqüidade» (Tito 2,14): é quase palavra por palavra o versículo 8. O Anjo o anunciara a José: «Porque êle salvará o seu povo dos pecados dêles» (Mateus 1,21). E o Apóstolo dá a medida: «Mas onde abundou o pecado, superabundou a graça» (Romanos 5,20).
Não é por acaso que a Igreja canta o De profundis também no Natal. Nas segundas Vésperas da Natividade, o salmo tem a antífona Apud Dominum misericordia, et copiosa apud eum redemptio: o Menino do presépio é a copiosa redenção prometida a Israel.
O salmo 130 na liturgia de 1962
Nas Vésperas de quarta-feira. No Breviário Romano de 1962, o salmo 129 é o terceiro salmo das Vésperas de quarta-feira, com a antífona formada pelas suas primeiras palavras: De profundis clamavi ad te, Domine. Segue os salmos 127 e 128 e precede o Domine, non est exaltatum. Já estava nas Vésperas de quarta-feira antes da reforma de 1911. O Ofício do dia está no breviário, e a Hora é explicada no guia das Vésperas.
No Ofício dos Defuntos. O De profundis é sobretudo o salmo dos mortos. Nas Vésperas do Ofício dos Defuntos, ele é o quarto salmo, depois dos salmos 114, 119 e 120, com a antífona Si iniquitates observaveris, Domine: Domine, quis sustinebit?. Nesse Ofício, cada salmo termina não com o Gloria Patri, mas com o Requiem aeternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis. É a oração própria do dia de Finados, o 2 de novembro.
No Natal e no Sagrado Coração. O salmo é cantado nas segundas Vésperas do Natal, como se disse, e nas Vésperas da festa do Sagrado Coração, com a antífona Apud Dominum propitiatio est, et copiosa apud eum redemptio.
No Missal. O salmo forma o Trato do domingo da Septuagésima, que abre o tempo de preparação para a Quaresma. O Intróito do XXII domingo depois de Pentecostes começa com Si iniquitates observaveris, Domine; o Aleluia e o Ofertório do XXIII domingo retomam De profundis clamavi ad te, Domine. São os últimos domingos do ano litúrgico, quando a Igreja medita sobre o juízo.
O De profundis, oração pelos mortos
A Igreja reza pelos seus mortos porque a Escritura assim ensina: «É logo um santo, e saudável pensamento orar pelos mortos, para que sejam livres dos seus pecados» (II Macabeus 12,46). As almas do purgatório estão, no sentido mais verdadeiro, «no profundo»: já não podem merecer por si mesmas, mas esperam a libertação. Rezar por elas o De profundis é emprestar-lhes a nossa voz.
O uso mais simples é rezar o salmo inteiro e acrescentar o Requiem aeternam: "Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno, e a luz perpétua os ilumine". Outras orações da Igreja pelos falecidos estão reunidas em oração pelos mortos.
Como rezar o salmo 130
- Por um falecido. No dia da morte, no enterro, nos aniversários e durante todo o mês de novembro, terminando com o Requiem aeternam.
- Antes da confissão. O versículo 3 põe a alma na verdade, o versículo 4 na confiança: é uma ótima preparação para a confissão.
- Na angústia. Quando alguém se sente no fundo do poço, o salmo dá palavras à angústia e a volta para a misericórdia.
- Na Quaresma e às sextas-feiras, com os outros salmos penitenciais, em especial o salmo 51 (50 na Vulgata), Miserere.
- À noite, como no Ofício de quarta-feira, para confiar a Deus os seus mortos antes de dormir.
Quanto ao "para que serve o salmo 130" e ao "salmo 130 de cura": o De profundis não é uma fórmula que produza efeitos por si, nem um número de repetições que "funcione". Tratá-lo assim seria superstição, contrária ao primeiro mandamento (Catecismo, n. 2111). Ele cura no sentido mais profundo: leva o pecador ao perdão de Deus e une os vivos aos mortos na esperança. Para a doença, a Igreja tem outras orações e o sacramento da Unção dos Enfermos.
Perguntas Frequentes
O salmo 130 e o salmo 129 são o mesmo?
Sim. O De profundis é o salmo 130 das Bíblias traduzidas do hebraico e o salmo 129 da Vulgata, dos livros litúrgicos e da Bíblia Ave-Maria. O salmo 130 da Vulgata e da Ave-Maria é outro, o Domine, non est exaltatum.
Qual o número do salmo 130 na Bíblia Ave-Maria?
- A Bíblia Ave-Maria segue a numeração da Vulgata, como a de Figueiredo: o De profundis aparece nela como salmo 129. Quem abre a Ave-Maria no salmo 130 encontra o Domine, non est exaltatum.
O que significa "De profundis"?
São as primeiras palavras do salmo em latim: De profundis clamavi ad te, Domine, «Desde o mais profundo clamei a ti, Senhor». O «profundo» é o abismo da desgraça e do pecado, de onde o penitente clama a Deus.
Por que o salmo 130 é rezado pelos mortos?
Porque a Igreja fez dele um salmo do Ofício dos Defuntos, onde se conclui com o Requiem aeternam. As almas do purgatório esperam a «copiosa redenção» de que fala o versículo 7, e a oração dos vivos vem em seu auxílio.
O salmo 130 é um salmo penitencial?
Sim, é o sexto dos sete salmos penitenciais, que na Vulgata são os salmos 6, 31, 37, 50, 101, 129 e 142 (nas Bíblias modernas, 6, 32, 38, 51, 102, 130 e 143). Exprime a contrição de quem reconhece a culpa sem desesperar.
O que diz o salmo 130, versículo 5?
Em Figueiredo: «A minha alma esperou no Senhor». O versículo 4 termina com «A minha alma está confiada na sua palavra». A alma resiste apoiando-se na palavra de Deus, não nas próprias forças.
O que diz o salmo 130, versículo 7?
«Porque no Senhor está a misericórdia: E nêle há copiosa redenção.» A alma deixa de olhar a sua miséria e fixa os olhos em Deus: a redenção é copiosa, abundante, maior que todo pecado. A Igreja canta esse versículo no Natal.
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