A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 1: Beatus vir, os dois caminhos do justo e do ímpio
Beatus vir
O salmo 1, *Beatus vir*, abre todo o Saltério: bem-aventurado o homem que medita a lei do Senhor de dia e de noite, árvore plantada junto às águas, enquanto o ímpio passa como o pó que o vento leva. Aqui você encontra o texto completo do Pe. Figueiredo, feito sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica o salmo verso a verso, a leitura dos Padres e o seu lugar na liturgia de 1962.
1 Beatus vir qui non abiit in consilio impiorum, et in via peccatorum non stetit, et in cathedra pestilentiæ non sedit ;
1 Bem-aventurado o varão que não se deixou ir após o conselho dos ímpios, e que não se deteve no caminho dos pecadores, e que não se assentou na cadeira da pestilência.
2 sed in lege Domini voluntas ejus, et in lege ejus meditabitur die ac nocte.
2 Mas a sua vontade está posta na lei do Senhor, e na sua lei meditará de dia e de noite.
3 Et erit tamquam lignum quod plantatum est secus decursus aquarum, quod fructum suum dabit in tempore suo : et folium ejus non defluet ; et omnia quæcumque faciet prosperabuntur.
3 E será como a árvore, que está plantada junto às correntes das águas, que a seu tempo dará o seu fruto: E cuja fôlha não cairá: E tôdas as coisas que êle fizer, serão prósperas.
4 Non sic impii, non sic ; sed tamquam pulvis quem projicit ventus a facie terræ.
4 Não assim os ímpios, não assim: Senão como o pó que o vento espalha de cima da face da terra.
5 Ideo non resurgent impii in judicio, neque peccatores in concilio justorum :
5 Por isso os ímpios não ressurgirão no juízo; nem os pecadores na congregação dos justos.
6 quoniam novit Dominus viam justorum, et iter impiorum peribit.
6 Porque o Senhor conhece o caminho dos justos: E o caminho dos ímpios perecerá.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 1: o número muda na Bíblia católica?
Não. Para o salmo 1 não há confusão possível: as Bíblias traduzidas do hebraico, a Vulgata latina, a Bíblia Ave-Maria e a tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo o chamam todas de salmo 1. As duas numerações só se separam no salmo 9, porque a Vulgata junta num só os salmos 9 e 10 do hebraico; a tabela completa está na página do livro dos Salmos.
Os versículos também coincidem. O salmo não tem título, de modo que o versículo 1 já é a primeira palavra da oração: quem procura “salmo 1, 1-3” encontra abaixo, com os mesmos números, os três versículos do justo.
O que significa o salmo 1? Explicação
O salmo 1 tem apenas seis versículos. Não é uma súplica nem um hino de louvor: é uma lição de sabedoria, posta como prefácio à entrada dos cento e cinquenta salmos. Tudo o que o Saltério dirá depois, o lamento, a ação de graças, a penitência, supõe a escolha que este salmo põe diante de cada alma. Os caminhos são dois, o do justo e o do ímpio, e não levam ao mesmo lugar.
O movimento é simples. Os três primeiros versículos descrevem o homem feliz, primeiro pelo que recusa, depois pelo que ama, enfim pelo que se torna. O quarto inverte o quadro. Os dois últimos levam o olhar até o juízo.
Versículo 1: ir, deter-se, assentar-se
«Bem-aventurado o varão que não se deixou ir após o conselho dos ímpios, e que não se deteve no caminho dos pecadores, e que não se assentou na cadeira da pestilência» (v. 1). A primeira palavra do Saltério é uma bem-aventurança, Beatus, e começa por uma tripla recusa.
Os verbos se sucedem como as etapas de uma queda: vai-se, depois se para, depois se senta. Os lugares também: o conselho, o caminho, a cadeira. Os comentadores antigos viram aí os graus do pecado, que começa por um mau conselho escutado, torna-se um hábito em que a pessoa se instala e acaba no ensino do mal, quando já não basta pecar e se faz disso profissão. A «cadeira da pestilência» traduz ao pé da letra o latim cathedra pestilentiæ, a cátedra da peste; o hebraico fala da roda dos zombadores, e as Bíblias modernas traduzem assim. As duas imagens se encontram: o escárnio das coisas santas é um contágio.
Versículo 2: a lei amada e meditada
A recusa é apenas o limiar. O justo é aquele cuja «vontade está posta na lei do Senhor, e na sua lei meditará de dia e de noite» (v. 2). O latim diz in lege Domini voluntas ejus: a sua vontade, o seu desejo, está na lei. Não se trata de uma obediência forçada, mas de um amor. Meditar, na linguagem da Bíblia, é repetir a meia-voz, ruminar um texto até que ele se torne o pensamento de quem o reza. A mesma ordem fora dada a Josué, no capítulo 1 do seu livro: «Mas meditarás nêle de dia e de noite». O salmo mais longo do Saltério, o salmo 119 (118 na Vulgata), Beati immaculati, não fará outra coisa senão desenvolver este versículo em cento e setenta e seis versículos.
Versículo 3: a árvore junto às correntes das águas
É o versículo mais citado: «E será como a árvore, que está plantada junto às correntes das águas, que a seu tempo dará o seu fruto: E cuja fôlha não cairá: E tôdas as coisas que êle fizer, serão prósperas» (v. 3). A árvore não produz a água de que vive: recebe-a, porque foi plantada no lugar certo. Assim a alma justa não tira a sua fecundidade de si mesma, mas da graça, que a água viva figura em toda a Escritura.
O profeta Jeremias retoma a mesma imagem e dá a sua chave, no capítulo 17: «Bem-aventurado o varão, que confia no Senhor», e ele «será como a árvore, que é transplantada sôbre as águas». O fruto «a seu tempo» diz que Deus pede cada coisa na sua hora; a folha que não cai, a perseverança.
Versículos 4-6: o pó e o juízo
Depois tudo se inverte: «Não assim os ímpios, não assim: Senão como o pó que o vento espalha de cima da face da terra» (v. 4). A Setenta e a Vulgata dobram a negação, non sic impii, non sic, como para insistir. À árvore enraizada responde aquilo que não tem nem raiz nem peso: o pó, a palha leve que o vento leva.
O versículo 5, Figueiredo o traduz bem perto do latim non resurgent: «Por isso os ímpios não ressurgirão no juízo; nem os pecadores na congregação dos justos» (v. 5). Santo Agostinho explica que os ímpios ressuscitarão, sim, mas não para serem julgados como aqueles cuja causa ainda está por examinar: já estão julgados, segundo a palavra do Senhor em São João 3: «Mas o que não crê, já está condenado». O último versículo dá a razão de tudo: «Porque o Senhor conhece o caminho dos justos: E o caminho dos ímpios perecerá» (v. 6). Conhecer, aqui, não é só saber: é reconhecer, guardar, aprovar. O caminho dos ímpios não precisa ser destruído; perde-se por si mesmo, como uma trilha que a areia apaga.
Quem escreveu o salmo 1?
O salmo 1 não traz título nenhum, nem no hebraico nem na Vulgata. A tradição o põe, como o conjunto do Saltério, sob o nome de Davi, o rei profeta que é o seu autor principal; vários antigos pensavam também que ele foi posto à frente da coleção como introdução ao livro inteiro. O Novo Testamento atesta que a ordem já estava fixada: São Paulo, nos Atos dos Apóstolos, cita o salmo seguinte dizendo «como também está escrito no Salmo segundo». O autor primeiro, aqui como em toda a Escritura, é o Espírito Santo. Para a questão do conjunto, veja quem escreveu os Salmos.
Por que o salmo 1 é o primeiro do Saltério?
Porque é a porta. Antes de ensinar a rezar, o Saltério põe o leitor diante de uma escolha, e só quem escolhe a lei do Senhor pode rezar os outros cento e quarenta e nove salmos com o coração. O salmo 1 forma, com o seguinte, o duplo pórtico do livro: o primeiro opõe o justo e o ímpio; o salmo 2, Quare fremuerunt gentes, ergue o olhar dos indivíduos para as nações e mostra o Cristo rei contra a revolta delas: «Os reis da terra se sublevaram, e os príncipes se coligaram contra o Senhor, e contra o seu Cristo».
A oposição dos dois caminhos volta muitas vezes no livro, por exemplo no salmo 37 (36 na Vulgata), Noli æmulari. Nosso Senhor a retomou no Sermão da Montanha, em São Mateus 7: «Porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que guia para a perdição», enquanto «estreita é a porta, e que apertado o caminho, que guia para a vida».
O salmo 1 nos Padres: Cristo, o varão bem-aventurado
Santo Agostinho abre as suas Enarrationes in Psalmos com uma afirmação que sustenta toda a sua leitura: o varão bem-aventurado do primeiro versículo é antes de tudo Nosso Senhor Jesus Cristo. Só ele nunca se deixou ir após o conselho dos ímpios; e Agostinho o opõe ao primeiro homem, Adão, que deu ouvidos ao conselho da serpente e se afastou de Deus. O Saltério se abre, então, com o retrato do novo Adão, e cada cristão só é esse homem feliz nele e pela sua graça.
Os Padres amaram também a árvore do versículo 3. Vários viram nela a Cruz, plantada junto às águas do Batismo, e no fruto dado «a seu tempo» o da Redenção, na hora fixada pelo Pai. O Apocalipse fecha a Escritura com a mesma árvore, no capítulo 22: «a Árvore da Vida, que dá doze frutos, produzindo em cada mês seu fruto». Essa leitura espiritual não suprime o sentido literal, que continua sendo um ensinamento moral: dá-lhe fundamento, porque só se é árvore fecunda permanecendo enxertado em Cristo, que disse em São João 15: «O que permanece em mim, e o em que eu permaneço, êsse dá muito fruto».
O salmo 1 na liturgia de 1962
O primeiro salmo do domingo. No Breviário Romano de 1962, que segue o saltério semanal de São Pio X (1911), o salmo 1 abre o primeiro noturno das Matinas do domingo, com a antífona Beatus vir qui in lege Domini meditatur, seguido dos salmos 2 e 3. Cada domingo, portanto, a Igreja retoma o Saltério desde o começo e põe a semana inteira sob a bem-aventurança do Beatus vir. Você pode acompanhar o Ofício do dia no breviário.
Na Páscoa. As Matinas da Ressurreição começam pelo mesmo salmo, mas a antífona o põe nos lábios de Cristo ressuscitado: Ego sum qui sum, et consilium meum non est cum impiis, sed in lege Domini voluntas mea est, alleluia. É a leitura de Santo Agostinho tornada oração da Igreja.
Nas festas. O salmo abre também as Matinas de outras festas, com antífonas tiradas dos seus versículos. No Comum de vários mártires: Secus decursus aquarum plantavit vineam justorum, et in lege Domini fuit voluntas eorum, a árvore do versículo 3 tornada a vinha dos justos. Em Todos os Santos: Novit Dominus viam justorum, qui in lege ejus meditantur die ac nocte. Em Corpus Christi, a antífona Fructum salutiferum gustandum dedit Dominus mortis suæ tempore vê no fruto da árvore a Eucaristia, que o Senhor nos deu a provar no tempo da sua morte.
Na Missa. A Comunhão da Quarta-feira de Cinzas é tirada dos versículos 2 e 3: Qui meditabitur in lege Domini die ac nocte, dabit fructum suum in tempore suo. A Quaresma começa com a promessa da árvore que dá fruto. O versículo 1 é também o salmo do Intróito na festa de São João Câncio, a 20 de outubro.
Como rezar o salmo 1
- No começo do dia ou da semana. Como abre o Saltério e o Ofício do domingo, abre bem um tempo novo: dizê-lo de manhã é escolher o próprio caminho antes de pôr-se a caminho.
- Antes de ler a Escritura. Louva quem medita a lei «de dia e de noite»; prepara para a leitura lenta da Bíblia, aquela que se rumina. Para escolher uma tradução, veja qual a melhor Bíblia católica.
- Diante de uma tentação ou de uma má companhia. Os três verbos do versículo 1 formam um exame de consciência brevíssimo: escutei? parei? sentei-me?
- Em latim, ao menos o primeiro versículo. Beatus vir qui non abiit in consilio impiorum: poucas palavras bastam para unir-se à voz da Igreja, que canta este salmo desde sempre.
Termina-se, como cada salmo do Ofício, com o Glória ao Pai.
Perguntas Frequentes
O que diz o salmo 1, versículos 1 a 3?
Que é bem-aventurado o homem que não segue o conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores e não se assenta na «cadeira da pestilência» (v. 1); que põe a sua vontade na lei do Senhor e a medita de dia e de noite (v. 2); e que será como a árvore plantada junto às correntes das águas, que dá fruto a seu tempo e não perde as folhas (v. 3).
Qual é o significado do salmo 1?
É uma lição sobre os dois caminhos. O justo, enraizado na lei de Deus, dá fruto e permanece; o ímpio, sem raiz, é levado como o pó. O salmo termina no juízo: Deus conhece e guarda o caminho dos justos, e o dos ímpios se perde.
Quem é o “varão bem-aventurado” do salmo 1?
No sentido literal, todo homem que escolhe a lei de Deus. Santo Agostinho ensina que é antes de tudo Cristo, o único que nunca cedeu ao conselho dos ímpios, o novo Adão; os cristãos o são nele e pela sua graça.
Por que Figueiredo diz «os ímpios não ressurgirão no juízo»?
Porque traduz ao pé da letra o latim non resurgent impii in judicio. As Bíblias feitas do hebraico dizem que os ímpios “não subsistirão” no juízo. Santo Agostinho explica que os ímpios ressuscitarão, mas não para uma causa ainda por examinar: quem recusa a Deus, diz o Evangelho, já está julgado.
Quando a Igreja reza o salmo 1?
No Breviário de 1962, abre as Matinas de todo domingo e, com antífonas próprias, as Matinas da Páscoa, de Corpus Christi, de Todos os Santos e do Comum de vários mártires. Na Missa, os versículos 2 e 3 formam a Comunhão da Quarta-feira de Cinzas.
Posso rezar o salmo 1 em latim?
Sim, e é uma bela forma de rezá-lo com a Igreja. O texto latino da Vulgata está ao lado do português nesta página, versículo por versículo; o primeiro versículo, Beatus vir qui non abiit in consilio impiorum, já basta para começar.
A Bíblia inteira offline, com a página marcada e os versículos destacados: a Bíblia católica no aplicativo.
Salmo 1 · com o app
Acesso antecipado