A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 139 (138 na Vulgata e na Ave-Maria): Domine, probasti me, o Deus que me conhece
Domine, probasti me
O salmo 139 das Bíblias modernas é o salmo 138 da Vulgata e da Bíblia Ave-Maria: o *Domine, probasti me*, «Senhor, provaste-me, e conheceste-me». Aqui você encontra o texto completo do Pe. Figueiredo, feito sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica cada parte do salmo, os versículos 13 a 16 sobre a vida no ventre materno, o seu lugar na Páscoa e no Breviário de 1962 e o modo de rezá-lo.
Procura o salmo 138 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 137.
1 In finem, psalmus David. Domine, probasti me, et cognovisti me ;
1 Para o fim, Salmo de Davi. Senhor, provaste-me, e conheceste-me:
2 tu cognovisti sessionem meam et resurrectionem meam.
2 Tu me conheceste ao assentar-me, e ao levantar-me.
3 Intellexisti cogitationes meas de longe ; semitam meam et funiculum meum investigasti :
3 De longe entendeste os meus pensamentos: Observaste a minha vereda, e o curso da minha vida.
4 et omnes vias meas prævidisti, quia non est sermo in lingua mea.
4 E previste todos os meus caminhos: Ainda quando não está a palavra na minha língua.
5 Ecce, Domine, tu cognovisti omnia, novissima et antiqua. Tu formasti me, et posuisti super me manum tuam.
5 Eis-aqui, Senhor, tu conheceste tôdas as coisas, as novíssimas, e as antigas: Tu me formaste, e puseste sôbre mim a tua mão.
6 Mirabilis facta est scientia tua ex me ; confortata est, et non potero ad eam.
6 Maravilhosa se tem feito a tua ciência em mim, sublime é, e não poderei lá chegar.
7 Quo ibo a spiritu tuo ? et quo a facie tua fugiam ?
7 Como me irei do teu Espírito? e para onde fugirei da tua presença?
8 Si ascendero in cælum, tu illic es ; si descendero in infernum, ades.
8 Se subir ao céu, tu ali te achas: Se descer ao inferno, presente nêle estás.
9 Si sumpsero pennas meas diluculo, et habitavero in extremis maris,
9 Se eu tomar as minhas asas ao romper da alva, e fôr habitar nas extremidades do mar:
10 etenim illuc manus tua deducet me, et tenebit me dextera tua.
10 Ainda lá me guiará a tua mão: E me susterá a tua direita.
11 Et dixi : Forsitan tenebræ conculcabunt me ; et nox illuminatio mea in deliciis meis.
11 E disse: Talvez me ocultarão as trevas: Mas a noite se converte em claridade para me descobrir entregue às minhas delícias.
12 Quia tenebræ non obscurabuntur a te, et nox sicut dies illuminabitur : sicut tenebræ ejus, ita et lumen ejus.
12 Porque as trevas não serão escuras para ti, e a noite será iluminada como o dia: Como as trevas daquela, assim são também a luz dêste.
13 Quia tu possedisti renes meos ; suscepisti me de utero matris meæ.
13 Porque tu possuíste os meus afetos: Recebeste-me desde o ventre de minha mãe.
14 Confitebor tibi, quia terribiliter magnificatus es ; mirabilia opera tua, et anima mea cognoscit nimis.
14 Eu te glorificarei, porque assombrosamente tens sido engrandecido: Maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o conhece muito.
15 Non est occultatum os meum a te, quod fecisti in occulto ; et substantia mea in inferioribus terræ.
15 Nenhum dos meus ossos que formaste em secreto, te é a ti oculto: Nem a minha substância nas entranhas da terra.
16 Imperfectum meum viderunt oculi tui, et in libro tuo omnes scribentur. Dies formabuntur, et nemo in eis.
16 Os teus olhos me viram, quando era informe, e no teu livro todos serão escritos: Os dias serão formados, e ninguém nêles.
17 Mihi autem nimis honorificati sunt amici tui, Deus ; nimis confortatus est principatus eorum.
17 Mas para mim têm sido singularmente honrados os teus amigos, ó Deus: Muito se tem fortificado o principado dêles.
18 Dinumerabo eos, et super arenam multiplicabuntur. Exsurrexi, et adhuc sum tecum.
18 Contá-los-ei, e mais que a areia se multiplicarão: Despertei, e ainda estou contigo.
19 Si occideris, Deus, peccatores, viri sanguinum, declinate a me :
19 Se matares, ó Deus, os pecadores: Homens sangüinários, retirai-vos de mim:
20 quia dicitis in cogitatione : Accipient in vanitate civitates tuas.
20 Porque dizeis no vosso pensamento: Tomarão em vão as tuas cidades.
21 Nonne qui oderunt te, Domine, oderam, et super inimicos tuos tabescebam ?
21 Porventura não aborrecia eu, Senhor, aos que te aborreceram: E não me consumia por causa dos teus inimigos?
22 Perfecto odio oderam illos, et inimici facti sunt mihi.
22 Com ódio consumado eu os aborrecia: E êles se tornaram meus inimigos.
23 Proba me, Deus, et scito cor meum ; interroga me, et cognosce semitas meas.
23 Prova-me, ó Deus, e sonda o meu coração: Pergunta-me, e conhece as minhas veredas.
24 Et vide si via iniquitatis in me est, et deduc me in via æterna.
24 E vê, se há em mim caminho de iniqüidade: E conduze-me pelo caminho da eternidade.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 139 ou salmo 138?
É o mesmo salmo com dois números. As Bíblias traduzidas do hebraico, as mais lidas no Brasil, o chamam de salmo 139. A Vulgata latina, a Setenta grega, os livros litúrgicos da Igreja e a Bíblia Ave-Maria o contam como salmo 138, porque juntam num só os salmos 9 e 10 do hebraico; daí em diante a contagem latina fica quase sempre um número atrás. A tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo segue a Vulgata e, com ela, o número 138. Quem procura “salmo 139 católico completo” encontra, portanto, o texto nesta página.
Dois vizinhos levam os mesmos números e causam confusão:
- o salmo 138 das Bíblias modernas é outro canto, uma ação de graças que na Vulgata é o salmo 137: «Eu te glorificarei a ti, Senhor, de todo o meu coração»;
- o salmo 139 da Vulgata é o Eripe me, Domine, o salmo 140 das Bíblias modernas, que você encontra no salmo 139 desta leitura.
Os versículos, neste salmo, têm o mesmo número nas duas contagens: o título «Para o fim, Salmo de Davi» está dentro do versículo 1. O “salmo 139, 14” que tanta gente procura é o versículo 14 desta página. A tabela completa das duas numerações está na página do livro dos Salmos.
O que significa o salmo 139? Explicação
Poucas páginas da Escritura dizem com tanta força aquilo que a teologia chama de atributos de Deus: a sua ciência, que sabe tudo; a sua imensidade, que está em toda parte; o seu poder criador. Mas o salmo não os expõe como um tratado. Fala em segunda pessoa, no face a face da oração. O título o atribui a Davi, e a tradição da Igreja sempre o recebeu assim.
Deus sabe tudo de mim (v. 1-6)
«Senhor, provaste-me, e conheceste-me: Tu me conheceste ao assentar-me, e ao levantar-me» (v. 1-2). O repouso e a ação, os pensamentos ainda distantes (v. 3), até a palavra que ainda não foi dita: «Ainda quando não está a palavra na minha língua» (v. 4). O salmista não se assusta com isso; admira-se: «Maravilhosa se tem feito a tua ciência em mim, sublime é, e não poderei lá chegar» (v. 6). É a mesma exclamação de São Paulo diante dos desígnios de Deus, em Romanos 11: «Ó profundidade das riquezas da sabedoria e da ciência de Deus!»
O versículo 5 acrescenta uma imagem que a liturgia da Páscoa vai retomar: «Tu me formaste, e puseste sôbre mim a tua mão» (v. 5). A mão pousada sobre o homem é ao mesmo tempo a do Criador que modela e a do Pai que protege.
Nenhum lugar para fugir (v. 7-12)
«Como me irei do teu Espírito? e para onde fugirei da tua presença?» (v. 7). O céu, o inferno (aqui, a morada dos mortos), as asas da aurora, os confins do mar: em toda parte «Ainda lá me guiará a tua mão: E me susterá a tua direita» (v. 10). Nem a noite esconde: «Porque as trevas não serão escuras para ti, e a noite será iluminada como o dia» (v. 12).
O que poderia ser o lamento de um homem vigiado torna-se a segurança de um filho. O olhar do qual não se escapa é o olhar que conduz. A Epístola aos Hebreus resume a mesma verdade, no capítulo 4: «E não há nenhuma criatura que esteja encoberta no seu acatamento».
Formado no ventre de minha mãe (v. 13-16)
O salmo desce então até a origem da vida: «Recebeste-me desde o ventre de minha mãe» (v. 13). Figueiredo traduz o latim renes meos, os rins, que na Bíblia designam o íntimo do homem, por «os meus afetos».
O versículo 14 é o mais procurado, e é uma ação de graças: «Eu te glorificarei, porque assombrosamente tens sido engrandecido: Maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o conhece muito» (v. 14). As Bíblias modernas, traduzidas do hebraico, leem ali o louvor de quem se reconhece feito “de modo maravilhoso”. Numa e noutra leitura, o homem que considera a si mesmo, corpo e alma, sobe da obra ao Artífice.
O versículo 15 insiste: «Nenhum dos meus ossos que formaste em secreto, te é a ti oculto» (v. 15). E o versículo 16 vai mais longe: «Os teus olhos me viram, quando era informe, e no teu livro todos serão escritos» (v. 16). O latim imperfectum meum, o meu ser ainda não acabado, designa o embrião. A Igreja lê aqui duas verdades. A primeira é a dignidade de toda vida humana, querida e olhada por Deus desde o primeiro instante: por isso estes versículos são citados com tanta frequência em defesa da criança que ainda não nasceu. A segunda é a Providência, que abraça num só olhar a série dos nossos dias sem tirar nada da nossa liberdade.
Os amigos de Deus e os seus inimigos (v. 17-22)
A Vulgata lê o versículo 17 de modo diferente do hebraico: «Mas para mim têm sido singularmente honrados os teus amigos, ó Deus: Muito se tem fortificado o principado dêles» (v. 17). A Igreja o aplicou aos Apóstolos, como se verá na liturgia. O versículo 18 termina com uma frase breve: «Despertei, e ainda estou contigo» (v. 18).
Os versículos 19-22 falam de um ódio sem reservas aos inimigos de Deus: «Com ódio consumado eu os aborrecia» (v. 22). Santo Agostinho, nas Enarrationes in Psalmos, explica que se odeia neles a iniquidade e se ama neles a criatura de Deus, desejando a sua conversão. É o ódio ao pecado, não ao pecador.
Prova-me, ó Deus (v. 23-24)
O salmo se fecha virando em pedido a sua primeira frase. No começo era uma constatação, agora é uma súplica: «Prova-me, ó Deus, e sonda o meu coração: Pergunta-me, e conhece as minhas veredas» (v. 23). E ainda: «E vê, se há em mim caminho de iniqüidade: E conduze-me pelo caminho da eternidade» (v. 24). Quem sabe que Deus vê tudo já não procura se esconder: abre-lhe o coração e pede que o corrija. É a própria oração do exame de consciência.
“Despertei, e ainda estou contigo”: o salmo da manhã de Páscoa
A tradição ouviu este salmo nos lábios de Cristo, e um versículo é o testemunho mais alto disso. O versículo 18 termina, em latim, com Exsurrexi, et adhuc sum tecum, que Figueiredo traduz «Despertei, e ainda estou contigo». A Igreja fez dessas palavras o início do Intróito da Missa do Domingo de Páscoa: Resurrexi, et adhuc tecum sum, alleluia: posuisti super me manum tuam, alleluia: mirabilis facta est scientia tua, alleluia, alleluia. Junta o versículo 18 aos versículos 5 e 6, e canta como salmo do Intróito os versículos 1 e 2, Domine, probasti me, et cognovisti me.
Na primeira Missa da Ressurreição, portanto, é o Filho ressuscitado que fala ao Pai: ressuscitei e ainda estou contigo, a tua mão está sobre mim. O salmo inteiro muda de luz. O olhar que «provou» o homem é o olhar do Pai sobre o Filho obediente até a morte; a mão pousada sobre ele é a que o tirou do sepulcro. Sobre a festa, veja a página da Páscoa católica.
O salmo 139 na liturgia de 1962
No Breviário. No Breviário Romano de 1962, que segue o saltério semanal de São Pio X (1911), o salmo 138 abre as Vésperas da sexta-feira, dividido em duas partes. A primeira (v. 1-13) tem a antífona Domine, probasti me et cognovisti me; a segunda (v. 14-24), a antífona Mirabilia opera tua, Domine, et anima mea cognoscit nimis, tirada justamente do versículo 14. Seguem o salmo 139, Eripe me, Domine, o salmo 140, Domine, clamavi, e o salmo 141, Voce mea. Você pode rezar essa Hora no breviário do dia e ler o que são as Vésperas. O salmo volta nas segundas Vésperas do Comum dos Apóstolos, com a antífona Confortatus est principatus eorum, et honorati sunt amici tui, Deus, tirada do versículo 17.
No Missal. Além do Intróito Resurrexi da Páscoa, o versículo 17 dá o Intróito Mihi autem nimis honorati sunt amici tui, Deus da festa de São Matias, apóstolo (24 de fevereiro), e o Ofertório da Conversão de São Paulo (25 de janeiro). Volta no Gradual Nimis honorati sunt amici tui, Deus de São Matias e de São Tomé (21 de dezembro), e no verso do Aleluia de São Simão e São Judas (28 de outubro). Os versículos 1-2 servem de salmo do Intróito em várias dessas Missas, entre elas a de São Pedro e São Paulo, a 29 de junho. Os “amigos de Deus” tão honrados são assim, na liturgia, os Apóstolos.
Como rezar o salmo 139
- No exame de consciência. Os versículos 23 e 24 são a melhor preparação para a confissão: pede-se a Deus que nos mostre aquilo que sozinhos não vemos. O nosso exame de consciência pode começar com essas palavras.
- Em ação de graças pela vida. Os versículos 13-16 se rezam por um filho esperado, num batismo, num aniversário.
- Quando se quer fugir de Deus. Depois de uma queda, o salmo lembra que não há noite em que Ele não veja, e que esse olhar é o de um Pai, não o de um acusador.
- Na manhã de Páscoa. Reler o versículo 18 junto com o Intróito Resurrexi ajuda a rezar o salmo com a voz de Cristo ressuscitado.
Muitos procuram “para que serve o salmo 139” ou o recomendam como “oração de proteção”. A resposta católica é simples: ele serve para rezar como a Igreja reza, às sextas-feiras nas Vésperas e na Páscoa no Intróito da Missa, e para pôr a própria vida diante do olhar de Deus. Um salmo não é uma fórmula que age por si mesma: não há número de dias nem de repetições que o torne mais eficaz, e atribuir esse poder a palavras recitadas é o que a Igreja chama de superstição. O que lhe dá força é a fé de quem reza. Termina-se, como no Ofício, com o Glória ao Pai.
Para meditar a dignidade do homem diante de Deus, leia também o salmo 8, Domine, Dominus noster: «Que é o homem, para tu te lembrares dêle?»
Perguntas Frequentes
Por que o salmo 139 é chamado de salmo 138?
Porque a Vulgata, seguida pela liturgia, por Figueiredo e pela Bíblia Ave-Maria, junta num só os salmos 9 e 10 do hebraico e daí em diante conta um número a menos. O Domine, probasti me é o 139 das Bíblias modernas e o 138 da Vulgata. Atenção: o salmo 138 de uma Bíblia moderna é outro texto, que na Vulgata é o 137.
O que diz o salmo 139, versículo 14?
Em Figueiredo: «Eu te glorificarei, porque assombrosamente tens sido engrandecido: Maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o conhece muito». O homem, considerando como Deus o formou, admira a obra e louva o Autor. As traduções feitas do hebraico leem ali o louvor de ter sido feito de modo maravilhoso.
O que dizem os versículos 13 a 16 sobre a vida?
Que Deus conhece e guarda o ser humano desde o ventre materno, «quando era informe», e que conhece a série dos seus dias antes que comecem. A tradição lê neles a dignidade da vida desde a concepção e a Providência divina, que não suprime a nossa liberdade.
O salmo 139 é usado na liturgia da Igreja?
Sim. No Breviário de 1962 abre as Vésperas de toda sexta-feira, em duas partes. No Missal, o seu versículo 18 forma o Intróito Resurrexi do Domingo de Páscoa, e o versículo 17 o Intróito da festa de São Matias.
Quem escreveu o salmo 139?
O título diz «Salmo de Davi», e a tradição da Igreja o atribui ao rei Davi. Alguns exegetas modernos o datam mais tarde por razões de vocabulário; é uma opinião que se pode mencionar sem tê-la por certa. O autor principal, como de toda a Escritura, é o Espírito Santo.
O salmo 139 é uma oração de proteção?
É antes uma oração de confiança e de verdade: «Ainda lá me guiará a tua mão». Quem a reza se põe sob o olhar de Deus e lhe pede que o conduza «pelo caminho da eternidade». A proteção que o salmo promete é a de estar sempre nas mãos do Pai, não o efeito de uma fórmula.
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