A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 23 (22 na Vulgata e na Ave-Maria): Dominus regit me, o salmo do Bom Pastor
Dominus regit me
O salmo 23 das Bíblias modernas é o salmo 22 da Vulgata e da Bíblia Ave-Maria: o *Dominus regit me*, que o Pe. Antônio Pereira de Figueiredo traduz «O Senhor me governa, e nada me faltará». Aqui você encontra o texto completo de Figueiredo, feito sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica o significado de cada imagem, o versículo 4, a leitura dos Padres, o lugar do salmo na liturgia de 1962 e o modo de rezá-lo.
Procura o salmo 22 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 21.
1 Psalmus David. Dominus regit me, et nihil mihi deerit :
1 Salmo de Davi. O Senhor me governa, e nada me faltará:
2 in loco pascuæ, ibi me collocavit. Super aquam refectionis educavit me ;
2 Em um lugar de pastos ali me colocou. Êle me conduziu junto a uma água de refeição:
3 animam meam convertit. Deduxit me super semitas justitiæ propter nomen suum.
3 Converteu a minha alma. Levou-me por veredas de justiça, e por amor do seu nome.
4 Nam etsi ambulavero in medio umbræ mortis, non timebo mala, quoniam tu mecum es. Virga tua, et baculus tuus, ipsa me consolata sunt.
4 Pois ainda quando andar no meio da sombra da morte, não temerei males: Porquanto tu estás comigo. A tua vara, e o teu báculo, êles me consolaram.
5 Parasti in conspectu meo mensam adversus eos qui tribulant me ; impinguasti in oleo caput meum : et calix meus inebrians, quam præclarus est !
5 Preparaste uma mesa diante de mim, à vista daqueles que me angustiavam. Ungiste com o óleo pingue a minha cabeça: E o meu cálice que embriaga quão precioso é!
6 Et misericordia tua subsequetur me omnibus diebus vitæ meæ ; et ut inhabitem in domo Domini in longitudinem dierum.
6 E a tua misericórdia irá após de mim todos os dias da minha vida. E a fim de que eu habite na casa do Senhor, por diuturnidade de dias.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 23 ou salmo 22?
É o mesmo salmo com dois números. As Bíblias feitas sobre o hebraico, que são as mais lidas no Brasil, o chamam de salmo 23. A Vulgata latina, a Setenta grega, os livros litúrgicos da Igreja e a Bíblia Ave-Maria o contam como salmo 22, porque juntam num só os salmos 9 e 10 do hebraico; daí em diante a contagem latina fica um número atrás. Por isso quem procura “salmo 22 ave maria” e quem procura «salmo 23» procuram o mesmo texto: o do Bom Pastor, nesta página. A tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo segue a Vulgata e, com ela, o número 22.
A confusão inversa também é comum. O «salmo 22» das Bíblias modernas não é o do pastor, mas o grande salmo da Paixão, que Nosso Senhor rezou na Cruz: na Vulgata é o salmo 21, Deus, Deus meus. Em resumo:
- salmo 23 (hebraico) = salmo 22 (Vulgata e Ave-Maria): O Senhor me governa, nesta página;
- salmo 22 (hebraico) = salmo 21 (Vulgata e Ave-Maria): Deus, Deus meu, olha para mim: Por que me desamparaste?
Os versículos têm o mesmo número nas duas contagens, porque aqui o título «Salmo de Davi» está dentro do versículo 1.
O que significa o salmo 23? Explicação
Seis versículos bastam a este salmo para dizer toda a vida da alma com Deus. Ele traz o título «Salmo de Davi», e a tradição ouve nele a voz do pastor de Belém que se tornou rei. Quem guardava as ovelhas do pai e as arrancava da boca do leão e do urso, como conta a Saul no I Livro dos Reis (1 Samuel), capítulo 17, sabia o que um pastor deve ao rebanho. Aqui ele o diz de Deus.
O pastor que conduz (v. 1-3). O primeiro versículo contém todo o resto: «O Senhor me governa, e nada me faltará». O latim diz Dominus regit me, o Senhor me rege, me guia; o hebraico diz “o Senhor é o meu pastor”. Os dois sentidos se encontram: o pastor do Oriente não empurra o rebanho, caminha à frente dele. A ovelha que o segue não carece de nada, não porque possua tudo, mas porque quem a guia sabe do que ela precisa.
Vêm depois as imagens da paz: «Em um lugar de pastos ali me colocou. Êle me conduziu junto a uma água de refeição» (v. 2). A «água de refeição» é a aqua refectionis da Vulgata, a água que refaz as forças, onde as versões do hebraico falam de “águas tranquilas”. E ainda: «Converteu a minha alma. Levou-me por veredas de justiça, e por amor do seu nome» (v. 3). O pastor não se limita a alimentar: traz de volta a ovelha desgarrada e a recoloca no caminho reto. E o faz «por amor do seu nome», não pelos méritos da ovelha, mas por ser fiel a si mesmo.
A sombra da morte (v. 4). É o versículo mais procurado, e tem uma seção própria logo abaixo. Repare que aqui o salmo muda de pessoa: até agora se falava de Deus, agora se fala com Ele. Na hora do perigo a ovelha não raciocina sobre o pastor; volta-se para ele.
A mesa, o óleo e o cálice (v. 5). A imagem muda de novo: o pastor se torna o anfitrião que recebe. «Preparaste uma mesa diante de mim, à vista daqueles que me angustiavam. Ungiste com o óleo pingue a minha cabeça: E o meu cálice que embriaga quão precioso é!» Os inimigos continuam ali, mas assistem impotentes ao banquete servido ao justo. O óleo derramado na cabeça era, no Oriente, a honra feita ao convidado. O cálice «que embriaga», calix meus inebrians, é a taça que transborda.
A casa do Senhor (v. 6). O salmo termina olhando para o fim do caminho: «E a tua misericórdia irá após de mim todos os dias da minha vida. E a fim de que eu habite na casa do Senhor, por diuturnidade de dias». A misericórdia não só vai à frente, mas vem atrás, como o pastor que fecha a fila para que nenhuma ovelha fique para trás. «Por diuturnidade de dias» traduz o latim in longitudinem dierum: por longos dias, sem fim. A casa do Senhor era, para Davi, o santuário de Sião; para o cristão, é o Céu. Quem subirá até lá é a pergunta do salmo seguinte, o salmo 24 (23 na Vulgata), Domini est terra.
Salmo 23, 4: «não temerei males: Porquanto tu estás comigo»
Em Figueiredo o versículo diz: «Pois ainda quando andar no meio da sombra da morte, não temerei males: Porquanto tu estás comigo. A tua vara, e o teu báculo, êles me consolaram» (v. 4). Em latim: Nam etsi ambulavero in medio umbræ mortis, non timebo mala, quoniam tu mecum es. As Bíblias modernas costumam falar de um “vale escuro” ou “vale da sombra da morte”.
A confiança do salmo não tem nada de ingênuo. A sombra da morte é real: a doença, a perseguição, o luto, a própria agonia. O que afasta o medo não é a ausência do perigo, mas uma presença: quoniam tu mecum es. A vara traz de volta a ovelha que se afasta, o báculo afasta o lobo; e os dois, diz o salmo, «me consolaram». Até a correção de Deus faz parte da sua ternura.
Este versículo tem uma longa história de oração. É o consolo de quem assiste um moribundo, de quem espera o resultado de um exame, de quem atravessa uma noite de angústia. Pode ser repetido sozinho, como uma jaculatória: Non timebo mala, quoniam tu mecum es.
“O Senhor é o meu pastor” ou «O Senhor me governa»?
Quem procura o “salmo 23 original” precisa saber que o original é hebraico. Ali o primeiro versículo diz algo como “o Senhor é o meu pastor, nada me falta”, e é essa a forma que as Bíblias modernas tornaram familiar. A Vulgata, que São Jerônimo corrigiu sobre o grego da Setenta, diz Dominus regit me, et nihil mihi deerit, e Figueiredo, que traduz a Vulgata, escreve «O Senhor me governa». Não é um erro, mas outra face da mesma palavra: o pastor de Israel é ao mesmo tempo guia e rei, e Davi, rei e pastor, sabia disso melhor do que ninguém.
As diferenças continuam nos versículos seguintes: a «água de refeição» corresponde às “águas tranquilas”, o «cálice que embriaga» à “taça transbordante”, a «diuturnidade de dias» ao “para sempre” de várias versões. O texto desta página é o que a Igreja latina cantou durante séculos e que os santos rezaram; para escolher uma Bíblia para a leitura diária, veja qual a melhor Bíblia católica.
O Bom Pastor: a leitura dos Padres
Nosso Senhor aplicou a si mesmo a imagem: «Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a própria vida pelas suas ovelhas», diz em São João, capítulo 10. O pastor do salmo não é, portanto, apenas o Deus de Israel em geral: é o Verbo feito carne, que conduz o rebanho até dar a vida por ele. O Apocalipse retoma a mesma figura no fim da história, quando o Cordeiro se torna o pastor dos eleitos e os leva «às fontes das águas da vida» (Apocalipse 7).
Santo Agostinho, nas Enarrationes in Psalmos, ouve neste salmo a Igreja que fala a Cristo: é o Senhor Jesus quem a apascenta, e, porque a apascenta, nada lhe falta. O salmo se torna assim a oração de todo batizado, que se sabe guiado, alimentado e defendido.
Os Padres que instruíam os recém-batizados foram mais longe. Santo Ambrósio, no tratado Sobre os Mistérios (cap. 8, n. 43), mostra os neófitos que saem da fonte batismal e caminham para o altar com as palavras deste salmo nos lábios; São Cirilo de Jerusalém, nas Catequeses mistagógicas, faz a mesma leitura. A água para onde o pastor conduz figura o Batismo, o óleo na cabeça a unção do santo crisma, a mesa preparada e o cálice a Eucaristia. Lido assim, o Dominus regit me é um resumo dos sacramentos da iniciação: o pastor não leva apenas ao pasto, dá como alimento a sua própria carne.
O lugar do salmo no Saltério também fala. Ele vem logo depois do salmo 21 da Vulgata, o salmo da Cruz. O pastor que guia com tanta doçura é Aquele que atravessou primeiro a sombra da morte, com as mãos e os pés traspassados. Por isso a ovelha pode dizer «tu estás comigo» até dentro da morte: o seu pastor passou por ali antes dela.
O salmo 23 na liturgia de 1962
Na Prima de quinta-feira. No Breviário Romano de 1962, que segue o saltério semanal reorganizado por São Pio X em 1911 (constituição Divino afflatu), o salmo 22 abre a Prima de quinta-feira, a hora que inicia o dia de trabalho, sob a antífona In loco pascuæ ibi Dominus me collocavit, “em lugar de pastos ali o Senhor me colocou”. Toda semana a Igreja entrega o seu trabalho à guia do pastor. Você pode rezá-lo na sua hora no breviário do dia.
Na Sexta do domingo. O primeiro versículo serve de versículo da hora de Sexta aos domingos: V. Dominus regit me, et nihil mihi deerit. R. In loco pascuæ ibi me collocavit.
No Ofício dos Defuntos. A Igreja o canta também nas Matinas dos mortos: com os salmos 24 e 26 da Vulgata (25 e 27 do hebraico), forma o segundo noturno, sob a antífona In loco pascuæ ibi me collocavit. A alma que acaba de atravessar a sombra da morte é entregue ao pastor que a leva para a sua casa. Por isso o salmo convém aos funerais e à oração pelos mortos.
No Missal. O Missal de 1962 o usa na Quaresma: o Gradual do sábado da terceira semana, dia em que se lê a história de Susana caluniada, é o versículo 4, Si ambulem in medio umbræ mortis, non timebo mala; a antífona da Comunhão do sábado da quarta semana retoma os versículos 1 e 2, Dominus regit me, et nihil mihi deerit. E o versículo do Aleluia da Missa de São Pio X, a 3 de setembro, canta os versículos 5 e 6, a mesa, o óleo e o cálice.
Esses usos não se confundem com o “salmo responsorial” dos lecionários reformados depois de 1969, onde o mesmo texto volta com um refrão: a forma tradicional o canta inteiro no Ofício, com o Gloria Patri.
Como rezar o salmo 23
De manhã. É a hora que o Breviário lhe dá. Rezado ao acordar, entrega o dia à guia de Deus: não se pede que o caminho seja fácil, mas ser levado «por veredas de justiça».
Depois da Comunhão. Os Padres leram aqui a mesa e o cálice do Senhor. Repeti-lo devagar em ação de graças, depois da Missa, é reconhecer na Hóstia recebida a mesa de que fala o salmo: «Preparaste uma mesa diante de mim».
Na provação e no luto. O versículo 4 é a oração de quem atravessa a noite. À cabeceira de um moribundo ou por um falecido, o salmo inteiro diz a fé da Igreja na casa para onde o pastor conduz os seus.
Com outros salmos de confiança. A piedade o une de bom grado ao salmo 91 (90 na Vulgata), Qui habitat, a oração de proteção, e ao salmo 121 (120 na Vulgata), Levavi oculos, o salmo do viajante; outros estão reunidos em salmos de proteção.
Uma palavra sobre o “salmo 23 para proteção” ou “para que serve”. Um salmo não é uma fórmula que age por si mesma, nem uma garantia contra a prova: atribuir a palavras repetidas um efeito automático é superstição, que o primeiro mandamento proíbe, como ensina o Catecismo Romano. O salmo 23 não promete que a sombra da morte não virá; promete que o pastor estará lá. Reze-o sem pressa, deixando pousar cada imagem, e termine com o Gloria Patri, como no Ofício.
Perguntas Frequentes
Por que o salmo 23 é chamado de salmo 22?
Porque existem duas numerações do Saltério. A Vulgata e a Setenta, seguidas pela liturgia católica e pela Bíblia Ave-Maria, o contam como salmo 22; o hebraico e a maior parte das Bíblias modernas, como salmo 23. É o mesmo texto, o Dominus regit me.
Quem escreveu o salmo 23?
O salmo traz o título «Salmo de Davi», Psalmus David na Vulgata, e a tradição o atribui ao rei Davi, que foi pastor antes de ser ungido por Samuel. Como toda a Escritura, foi escrito sob a inspiração do Espírito Santo, autor principal do texto.
Quem é o pastor do salmo 23?
É o próprio Deus, e a tradição o reconhece sobretudo em Cristo, que se chamou o bom pastor que dá a vida pelas ovelhas (João 10). Os Padres leram na água, no óleo, na mesa e no cálice o Batismo, a Crisma e a Eucaristia.
O que diz o versículo 4 do salmo 23?
Em Figueiredo: «Pois ainda quando andar no meio da sombra da morte, não temerei males: Porquanto tu estás comigo» (v. 4). Ensina que a confiança não suprime a prova, mas a atravessa com Deus presente.
Em que hora do Breviário se reza o salmo 23?
No Breviário de 1962 ele abre a Prima de quinta-feira, e o seu primeiro versículo é o versículo da Sexta aos domingos. Também está no segundo noturno das Matinas do Ofício dos Defuntos.
Por que o salmo 23 é rezado pelos mortos?
Porque fala da sombra da morte atravessada sem medo e termina na casa do Senhor. A Igreja o pôs nas Matinas do Ofício dos Defuntos, onde o canta pelas almas que esperam a visão de Deus.
O salmo 22 “Deus meu, por que me desamparaste” é o mesmo salmo?
Não. É o salmo 22 do hebraico, salmo 21 da Vulgata e da Ave-Maria: o salmo da Paixão. No Saltério ele vem logo antes do salmo do pastor, e os Padres leram os dois juntos: primeiro a Cruz, depois o pasto.
Posso rezar o salmo 23 em latim?
Sim, e é um belo costume. Começar por Dominus regit me, et nihil mihi deerit une você ao canto da Igreja no Breviário e no Missal; nesta página o latim da Vulgata está ao lado de cada versículo.
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