A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 24 (23 na Vulgata e na Ave-Maria): Domini est terra, o Rei da glória
Domini est terra
O salmo 24 das Bíblias traduzidas do hebraico é o salmo 23 da Vulgata e da Bíblia Ave-Maria: *Domini est terra*, «Do Senhor é a terra», o salmo das portas eternas que se levantam para o Rei da glória. Abaixo está o texto completo da tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica as duas numerações, o sentido do salmo, quem é o Rei da glória e o seu uso no Breviário e no Missal de 1962.
Procura o salmo 23 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 22.
1 Prima sabbati. Psalmus David. Domini est terra, et plenitudo ejus ; orbis terrarum, et universi qui habitant in eo.
1 Para o primeiro dia da semana, Salmo de Davi. Do Senhor é a terra, e tudo o que a enche: A redondeza da terra, e todos os seus habitadores.
2 Quia ipse super maria fundavit eum, et super flumina præparavit eum.
2 Porque êle a fundou sôbre os mares: E a estabeleceu sôbre os rios.
3 Quis ascendet in montem Domini ? aut quis stabit in loco sancto ejus ?
3 Quem subirá ao monte do Senhor? Ou quem estará no seu santo lugar?
4 Innocens manibus et mundo corde, qui non accepit in vano animam suam, nec juravit in dolo proximo suo :
4 O inocente de mãos e limpo de coração, o que não recebeu em vão a sua alma, nem fêz juramentos dolosos ao seu próximo.
5 hic accipiet benedictionem a Domino, et misericordiam a Deo salutari suo.
5 Êste receberá a bênção do Senhor: E a misericórdia de Deus seu salvador.
6 Hæc est generatio quærentium eum, quærentium faciem Dei Jacob.
6 Esta é a geração dos que o buscam, dos que buscam a face do Deus de Jacó.
7 Attollite portas, principes, vestras, et elevamini, portæ æternales, et introibit rex gloriæ.
7 Levantai, ó príncipes, as vossas portas, levantai-vos, ó portas eternas: E entrará o rei da glória.
8 Quis est iste rex gloriæ ? Dominus fortis et potens, Dominus potens in prælio.
8 Quem é êste rei da glória? O Senhor forte e poderoso: O Senhor poderoso na batalha.
9 Attollite portas, principes, vestras, et elevamini, portæ æternales, et introibit rex gloriæ.
9 Levantai, ó príncipes, as vossas portas, levantai-vos, ó portas eternas: E entrará o rei da glória.
10 Quis est iste rex gloriæ ? Dominus virtutum ipse est rex gloriæ.
10 Quem é êste rei da glória? O Senhor das virtudes, êsse é o rei da glória.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 24 ou salmo 23?
Este salmo tem dois números. As Bíblias traduzidas do hebraico o chamam de salmo 24; a Vulgata, a Septuaginta, os livros litúrgicos da Igreja e as Bíblias católicas que seguem a Vulgata, como a Ave-Maria, o contam como salmo 23, porque unem num só os salmos 9 e 10 do hebraico. É o mesmo texto, que em latim começa com Domini est terra, et plenitudo ejus. A tabela completa está na página dos Salmos.
A diferença cria dois equívocos, porque cada um dos dois números designa também outro salmo:
- salmo 23 das Bíblias modernas = salmo 22 da Vulgata e da Ave-Maria: o salmo do Bom Pastor, «O Senhor me governa, e nada me faltará», que está na página do salmo 23 (22 na Vulgata). Quem procura «salmo 23» quase sempre procura esse;
- salmo 24 da Vulgata e da Ave-Maria = salmo 25 das Bíblias modernas: o Ad te, Domine, levavi, «A ti, Senhor, elevei a minha alma», Introito do primeiro domingo do Advento, na página do salmo 25 (24 na Vulgata).
Os números dos versículos, ao contrário, coincidem: o título e a primeira frase formam juntos o versículo 1, e o versículo 7 é o mesmo em todas as Bíblias.
O que significa o salmo 24? Explicação
O título da Vulgata diz: «Para o primeiro dia da semana, Salmo de Davi» (v. 1), em latim prima sabbati. No Templo, cada dia da semana tinha o seu salmo, e este era cantado no primeiro dia, aquele que os cristãos chamam domingo, o dia da Ressurreição. A tradição o liga ao dia em que Davi fez subir a arca da aliança ao monte Sião. O salmo avança como uma procissão em três etapas: a terra inteira, o monte santo, as portas da cidade.
A terra é do Senhor (v. 1-2)
O salmo abre com uma afirmação sem fronteiras: «Do Senhor é a terra, e tudo o que a enche: A redondeza da terra, e todos os seus habitadores». O Deus que vai entrar no seu santuário não é um deus local: foi ele que fundou a terra «sôbre os mares» (v. 2). São Paulo cita o versículo para ensinar aos coríntios que todo alimento vem de Deus: «Porque do Senhor é a terra, e tudo quanto há nela» (I Coríntios 10, 26).
Quem subirá? (v. 3-6)
Chegado ao pé do monte, o cortejo pergunta: «Quem subirá ao monte do Senhor? Ou quem estará no seu santo lugar?» (v. 3). A resposta não é ritual, mas moral: «O inocente de mãos e limpo de coração, o que não recebeu em vão a sua alma, nem fêz juramentos dolosos ao seu próximo» (v. 4). As mãos dizem as obras; o coração, as intenções; receber em vão a própria alma é desperdiçar em coisas vãs a vida dada por Deus.
O salmo 15 das Bíblias modernas (14 na Vulgata) faz a mesma pergunta: «Senhor, quem habitará no teu tabernáculo? Ou quem descansará no teu santo monte?». Cristo lhe dará a resposta plena na sexta bem-aventurança: «Bem-aventurados os limpos de coração: Porque êles verão a Deus» (Mateus 5, 8). O salmo acrescenta que tal é «a geração dos que o buscam, dos que buscam a face do Deus de Jacó» (v. 6).
As portas e o Rei (v. 7-10)
O cortejo está agora diante das portas. Uma voz lhes ordena que se abram: «Levantai, ó príncipes, as vossas portas, levantai-vos, ó portas eternas: E entrará o rei da glória» (v. 7). Os guardas respondem com uma pergunta: «Quem é êste rei da glória?». E vem a resposta: «O Senhor forte e poderoso: O Senhor poderoso na batalha» (v. 8). O diálogo se repete, e a segunda resposta dá o nome inteiro: «O Senhor das virtudes, êsse é o rei da glória» (v. 10). «Senhor das virtudes» traduz o latim Dominus virtutum, o Senhor dos exércitos celestes. As portas são chamadas «portas eternas»: mais antigas do que a cidade, como se o salmo já falasse de outras portas além das de Jerusalém.
Quem é o Rei da glória?
Os Padres respondem a uma só voz: é Cristo. São Justino, no século II, no Diálogo com Trifão, já aplica o salmo à Ascensão: as portas eternas são as do céu, que se abrem diante do Senhor ressuscitado, e as potências celestes perguntam quem é esse rei que sobe com a carne humana. Santo Agostinho, nas Enarrationes in Psalmos, faz disso um desafio aos perseguidores: aquele que julgavam fraco é o Senhor forte e poderoso; aquele que julgavam vencido é o Senhor poderoso na batalha, vencedor da morte. O relato dos Atos, em que «o recebeu uma nuvem que o ocultou a seus olhos» (Atos 1, 9), encontra aqui o seu canto de acolhida.
São Paulo dá a Cristo o próprio título do salmo, quando escreve que os príncipes deste mundo, se tivessem conhecido a sabedoria de Deus, «nunca crucificariam ao Senhor da Glória» (I Coríntios 2, 8). O rei «poderoso na batalha» é o Crucificado vencedor, que a Igreja honra na festa de Cristo Rei.
A liturgia acrescenta outra entrada: a descida aos infernos. No Sábado Santo, como se verá, a Igreja canta Elevamini, portae aeternales: Cristo morto quebra as portas da morada dos mortos e dela faz sair os justos que o esperavam. A tradição espiritual, enfim, lê uma entrada mais íntima, a de Cristo na alma, segundo a palavra do Apocalipse: «Eis aí estou eu à porta, e bato: Se algum ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei eu em sua casa» (Apocalipse 3, 20). As portas a levantar são então as do coração, e as mãos inocentes e o coração limpo, a condição para recebê-lo.
O salmo 24 na liturgia de 1962
No Breviário. O Breviário Romano de 1962, que segue o saltério semanal de São Pio X (1911), reza o salmo 23 na Prima de segunda-feira, com a antífona Innocens manibus et mundo corde ascendet in montem Domini, tirada do versículo 4; seguem-se as duas partes do salmo 19 das Bíblias modernas (18 na Vulgata), Caeli enarrant, outro canto do Criador. Você pode rezá-lo na sua hora no breviário.
O salmo é também um dos mais usados nas Matinas das festas. No Sábado Santo, abre o segundo noturno das Matinas com a antífona Elevamini, portae aeternales, et introibit Rex gloriae; a mesma antífona o acompanha na festa da Circuncisão, a oitava do Natal, e na de Cristo Rei. Volta nas Matinas de Todos os Santos, com a antífona Haec est generatio quaerentium Dominum, da Imaculada Conceição, da Assunção, de São Miguel, das festas de Nossa Senhora e dos comuns dos confessores pontífices, das virgens e da Dedicação de uma igreja, onde a antífona é Tollite portas, principes, vestras.
No Missal. A Missa da Vigília de Natal toma do salmo o versículo do Introito, Domini est terra, e o Ofertório Tollite portas, principes, vestras: et elevamini, portae aeternales, et introibit Rex gloriae. O versículo 7 forma também o Gradual depois da primeira leitura da quarta-feira das Têmporas do Advento. A Comunhão da segunda-feira da Semana da Paixão é o versículo 10: Dominus virtutum ipse est Rex gloriae. E o Ofertório de São Luís Gonzaga (21 de junho) canta os versículos 3 e 4: Quis ascendet in montem Domini… Innocens manibus et mundo corde.
O Domingo de Ramos. No rito da Semana Santa em vigor em 1962, enquanto se distribuem os ramos bentos, canta-se a antífona Pueri Hebraeorum, portantes ramos olivarum, obviaverunt Domino, alternada com os versículos deste salmo: Domini est terra, depois Attollite portas e a pergunta sobre o Rei da glória. O Rei que entra em Jerusalém é o do salmo; veja o Domingo de Ramos.
Como rezar o salmo 24
De manhã. É a hora que o Breviário lhe dá. Rezá-lo ao acordar é abrir a Deus as portas do dia, que, com tudo o que contém, é do Senhor; une-se bem às orações da manhã.
Antes de entrar na igreja ou de comungar. A pergunta do versículo 3 é um exame de consciência brevíssimo: tenho as mãos inocentes e o coração limpo para subir até Deus? Os versículos 7-10 dispõem, em seguida, a receber na Eucaristia o Rei da glória.
No domingo. O título o destina ao primeiro dia da semana: rezá-lo no domingo de manhã é acolher o Ressuscitado no dia da sua vitória.
Com o salmo 27. O desejo de buscar «a face do Deus de Jacó» volta no salmo 27 das Bíblias modernas (26 na Vulgata): «teu rosto hei-de buscar, Senhor».
Conclui-se com o Gloria Patri, como no Ofício.
Perguntas Frequentes
Por que o salmo 24 se chama também salmo 23?
Porque a Vulgata e a Septuaginta, seguidas pela liturgia católica e pela Bíblia Ave-Maria, unem num só os salmos 9 e 10 do hebraico. O salmo 24 das Bíblias modernas é, portanto, o salmo 23 da Vulgata, o Domini est terra. O salmo 23 das Bíblias modernas, o do Bom Pastor, é o 22 da Vulgata.
O que diz o salmo 24, versículo 7?
Na tradução de Figueiredo: «Levantai, ó príncipes, as vossas portas, levantai-vos, ó portas eternas: E entrará o rei da glória». As Bíblias traduzidas do hebraico falam das portas que levantam os seus frontões. Os Padres veem nelas as portas do céu que se abrem a Cristo na Ascensão.
Quem é o Rei da glória do salmo 24?
O próprio salmo responde: o Senhor forte e poderoso, o Senhor das virtudes. Para a tradição cristã é Cristo vencedor da morte, que entra no céu na Ascensão e desce à morada dos mortos para libertar os justos.
Quem pode subir ao monte do Senhor?
O versículo 4 responde: «O inocente de mãos e limpo de coração», quem não gasta a vida em vaidades e não jura para enganar o próximo. É a mesma promessa da bem-aventurança dos limpos de coração, que verão a Deus.
Quem escreveu o salmo 24?
O título o atribui a Davi: «Para o primeiro dia da semana, Salmo de Davi». A tradição o liga à subida da arca ao monte Sião. Como toda a Escritura, é inspirado pelo Espírito Santo.
Quando se reza o salmo 24 na liturgia?
No Breviário de 1962, na Prima de segunda-feira e nas Matinas de muitas festas, entre elas o Sábado Santo, Todos os Santos e Cristo Rei. No Missal, na Vigília de Natal, nas Têmporas do Advento e na distribuição dos ramos no Domingo de Ramos.
A Bíblia inteira offline, com a página marcada e os versículos destacados: a Bíblia católica no aplicativo.
Salmo 23 (24) · com o app
Acesso antecipado