A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 90 (89 na Vulgata e na Ave-Maria): Domine, refugium, a oração de Moisés
Domine, refugium
O salmo 90 das Bíblias de numeração hebraica é o salmo 89 da Vulgata e da Ave-Maria, *Domine, refugium factus es nobis*: a oração de Moisés, homem de Deus, sobre a eternidade de Deus e a brevidade da vida. Abaixo está o texto completo na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo, e em seguida a explicação. Procura o salmo 90 da Bíblia Ave-Maria, «O que habita à sombra do Altíssimo»? É o salmo 91 (90 na Vulgata).
Procura o salmo 89 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 88.
1 Oratio Moysi, hominis Dei. Domine, refugium factus es nobis a generatione in generationem.
1 Oração de Moisés homem de Deus. Senhor, tu tens sido o nosso refúgio: De geração em geração.
2 Priusquam montes fierent, aut formaretur terra et orbis, a sæculo et usque in sæculum tu es, Deus.
2 Antes que os montes fôssem feitos, ou formada a terra, e a sua redondeza: Desde a eternidade tu és Deus.
3 Ne avertas hominem in humilitatem : et dixisti : Convertimini, filii hominum.
3 Não reduzas o homem ao abatimento; pois disseste: Convertei-vos, filhos dos homens.
4 Quoniam mille anni ante oculos tuos tamquam dies hesterna quæ præteriit : et custodia in nocte
4 Porque mil anos aos teus olhos, são como o dia de ontem, que passou. E como vigia na noite,
5 quæ pro nihilo habentur, eorum anni erunt.
5 coisas que em nada se estimam, assim serão os anos dêles.
6 Mane sicut herba transeat ; mane floreat, et transeat ; vespere decidat, induret, et arescat.
6 De manhã passa como a erva, pela manhã floresce, e passa; à tarde cai, endurece, e se seca.
7 Quia defecimus in ira tua, et in furore tuo turbati sumus.
7 Porque desfalecemos com a tua ira, e com o teu furor somos turbados.
8 Posuisti iniquitates nostras in conspectu tuo ; sæculum nostrum in illuminatione vultus tui.
8 Puseste as nossas maldades à tua vista: O nosso século ao resplendor do teu rosto.
9 Quoniam omnes dies nostri defecerunt, et in ira tua defecimus. Anni nostri sicut aranea meditabuntur ;
9 Porque todos os nossos dias faltaram: E temos sido consumidos pela tua ira: Os nossos anos como aranha serão considerados:
10 dies annorum nostrorum in ipsis septuaginta anni. Si autem in potentatibus octoginta anni, et amplius eorum labor et dolor ; quoniam supervenit mansuetudo, et corripiemur.
10 Os dias da nossa vida são em si setenta anos. E nos mais robustos oitenta anos: E o que passa dêstes não é mais que trabalho e dor. Porque sobreveio mansidão: E seremos arrebatados.
11 Quis novit potestatem iræ tuæ, et præ timore tuo iram tuam
11 Quem conheceu o poder da tua ira: E soube contar quão terrível é a tua sanha?
12 dinumerare ? Dexteram tuam sic notam fac, et eruditos corde in sapientia.
12 Faze que seja assim conhecida a tua destra: E que o nosso coração seja instruído em sabedoria.
13 Convertere, Domine ; usquequo ? et deprecabilis esto super servos tuos.
13 Volta-te para nós, Senhor, até quando? e sê exorável aos teus servos.
14 Repleti sumus mane misericordia tua ; et exsultavimus, et delectati sumus omnibus diebus nostris.
14 Temos sido cheios da tua misericórdia desde a manhã: E nos temos regozijado, e deleitado em todos os nossos dias.
15 Lætati sumus pro diebus quibus nos humiliasti ; annis quibus vidimus mala.
15 Alegramo-nos pelos dias que nos humilhaste: Pelos anos em que vimos males.
16 Respice in servos tuos et in opera tua, et dirige filios eorum.
16 Põe os olhos nos teus servos, e nas tuas obras: E encaminha os filhos dêles.
17 Et sit splendor Domini Dei nostri super nos, et opera manuum nostrarum dirige super nos, et opus manuum nostrarum dirige.
17 E seja o esplendor do Senhor nosso Deus sôbre nós, e encaminha as obras de nossas mãos sôbre nós: E encaminha a obra de nossas mãos.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Procura o salmo 90 da Bíblia Ave-Maria, o da proteção, «O que habita à sombra do Altíssimo, na proteção do Deus do céu descansará»? É o salmo 91 (90 na Vulgata). Esta página traz o outro salmo 90, a oração de Moisés.
Salmo 90 ou salmo 89?
Sob o número 90 cruzam-se dois salmos diferentes, e daí vem muita confusão. Nas Bíblias que seguem a numeração hebraica, o salmo 90 é a oração de Moisés apresentada nesta página. Na Vulgata latina e na Septuaginta, que a Igreja usou na sua liturgia, este mesmo salmo leva o número 89: Domine, refugium factus es nobis.
Mas na numeração da Vulgata, que é a do Breviário, dos livros de oração tradicionais e da Bíblia Ave-Maria, o “salmo 90” é o Qui habitat, a oração de proteção que as Bíblias de numeração hebraica chamam salmo 91. As buscas “salmo 90 ave maria” e “salmo 90 bíblia católica” querem quase sempre esse outro salmo. Guarde a regra:
- salmo 90 (hebraico) = salmo 89 (Vulgata e Ave-Maria): a oração de Moisés, nesta página;
- salmo 91 (hebraico) = salmo 90 (Vulgata e Ave-Maria): o Qui habitat, a oração de proteção.
Do mesmo modo, o salmo 89 das Bíblias de numeração hebraica é o Misericordias Domini, salmo 88 da Vulgata. A tabela completa está na página dos Salmos. Os salmos 89 e 90 da Vulgata se seguem e se respondem: este confessa a fragilidade do homem diante de Deus, o seguinte canta a segurança de quem se refugiou nele.
O que significa o salmo 90? Explicação
O salmo põe frente a frente duas medidas do tempo: a eternidade de Deus e a brevidade do homem. Entre as duas há um só abrigo, e é a primeira palavra do salmo: «Senhor, tu tens sido o nosso refúgio: De geração em geração» (v. 1).
Deus, que é antes dos montes (v. 1-5)
Antes de toda coisa criada, Deus é: «Antes que os montes fôssem feitos, ou formada a terra, e a sua redondeza: Desde a eternidade tu és Deus» (v. 2). O verbo está no presente: Deus não “foi” antes do mundo, ele “é”. O salmista suplica: «Não reduzas o homem ao abatimento; pois disseste: Convertei-vos, filhos dos homens» (v. 3); o chamado à conversão já é uma promessa. Para Deus, toda a duração da história cabe num instante: «Porque mil anos aos teus olhos, são como o dia de ontem, que passou. E como vigia na noite» (v. 4). A vigília da noite eram as poucas horas de um turno de guarda, que passam sem que se perceba.
O homem, erva de um dia (v. 6-10)
Diante dessa eternidade, o homem passa: «De manhã passa como a erva, pela manhã floresce, e passa; à tarde cai, endurece, e se seca» (v. 6). O salmista não se limita a constatar a morte; diz a sua causa: «Puseste as nossas maldades à tua vista: O nosso século ao resplendor do teu rosto» (v. 8). A brevidade da vida está ligada ao pecado, como ensina o Gênesis: «Porque tu és pó, e em pó te hás de tornar» (Gênesis 3, 19).
A imagem da Vulgata é surpreendente: «Os nossos anos como aranha serão considerados» (v. 9), uma teia tecida sem descanso e levada pelo menor sopro. Vem então a conta dos dias: «Os dias da nossa vida são em si setenta anos. E nos mais robustos oitenta anos: E o que passa dêstes não é mais que trabalho e dor» (v. 10).
Aprender a sabedoria (v. 11-12)
Dessa constatação nasce uma oração, não o desespero: «Faze que seja assim conhecida a tua destra: E que o nosso coração seja instruído em sabedoria» (v. 12). A medida da vida se torna uma escola.
A manhã da misericórdia (v. 13-17)
O salmo termina na esperança. Moisés suplica: «Volta-te para nós, Senhor, até quando?» (v. 13). Depois pede uma manhã: «Temos sido cheios da tua misericórdia desde a manhã: E nos temos regozijado, e deleitado em todos os nossos dias» (v. 14). O último pedido consagra o trabalho humano: «E seja o esplendor do Senhor nosso Deus sôbre nós, e encaminha as obras de nossas mãos sôbre nós: E encaminha a obra de nossas mãos» (v. 17). O homem passa, mas a obra que Deus conduz permanece.
Salmo 90, 12: “ensina-nos a contar os nossos dias”
O versículo 12 é o mais procurado do salmo, e aparece sob duas formas. As traduções feitas do hebraico dão-lhe o sentido conhecido de todos: ensina-nos a contar os nossos dias, para alcançarmos um coração sábio. A Vulgata, que Figueiredo traduz, traz Dexteram tuam sic notam fac, et eruditos corde in sapientia: «Faze que seja assim conhecida a tua destra: E que o nosso coração seja instruído em sabedoria» (v. 12).
As duas leituras levam ao mesmo ponto. Contar os próprios dias é saber que estão contados e tirar daí a única conclusão razoável: ordená-los a Deus. Conhecer a destra de Deus é ver a sua mão na medida que ele deu à nossa vida. A sabedoria pedida não é resignação estoica diante da morte, mas a ciência da salvação.
«Mil anos aos teus olhos são como o dia de ontem»
O versículo 4 passou para o Novo Testamento. São Pedro o retoma para responder a quem se impacientava com a demora da volta de Cristo: «Mas isto só não se vos esconda, caríssimos, que um dia diante do Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia» (2 Pedro 3, 8). A aparente lentidão de Deus não é esquecimento: é a eternidade que olha o tempo, e a paciência que deixa aos homens o tempo de se converter.
São Tiago toca a outra face do salmo, a fragilidade do homem: «Porque que coisa é a vossa vida? É um vapor, que aparece por um pouco de tempo, e que depois se desvanecerá» (Tiago 4, 15). E tira a mesma lição de Moisés: não fazer projeto algum sem dizer «Se o Senhor quiser».
Quem escreveu o salmo 90? Moisés, homem de Deus
O título diz: «Oração de Moisés homem de Deus» (v. 1). É o único salmo do Saltério que traz o nome de Moisés, e a leitura tradicional acolhe essa atribuição. O mesmo título, “homem de Deus”, é-lhe dado no Deuteronômio, no início da sua última bênção: «Esta é a bênção, que deu Moisés homem de Deus, aos filhos de Israel, antes da sua morte» (Deuteronômio 33, 1). Sobre a vida do legislador, veja quem foi Moisés.
Costuma-se ler o salmo à luz do fim da travessia do deserto, quando Moisés viu morrer toda a geração saída do Egito, condenada a não entrar na Terra prometida: «Neste deserto ficarão estendidos os vossos cadáveres» (Números 14, 29). Quem tinha visto tantas sepulturas no deserto sabia quanto pesam os dias do homem. Alguns intérpretes modernos datam o salmo de época mais tardia; a tradição da Igreja e dos Padres sempre o leu como a voz de Moisés.
Este salmo é, assim, a fonte bíblica do memento mori cristão: lembrar-se da morte não para desesperar, mas para se tornar sábio. Sobre o que a Igreja ensina do juízo e da vida eterna, veja o que acontece após a morte.
O salmo 89 na liturgia de 1962
Laudes de quinta-feira. No saltério do Breviário Romano de 1962, o salmo 89 da Vulgata é cantado nas Laudes de quinta-feira, o Ofício da aurora, nos dois esquemas: nas Laudes I do ano, com a antífona Domine, refugium factus es nobis, e nas Laudes II dos tempos de penitência, com a antífona Convertere, Domine, et deprecabilis esto super servos tuos. O lugar é eloquente: ao raiar do dia, a Igreja faz o fiel pedir a misericórdia «desde a manhã», e o salmo da brevidade dos dias torna-se a consagração da jornada que começa. Na mesma Hora vem o salmo 36 (35 na Vulgata). Por isso, ele também se canta nas Laudes da Quinta-feira Santa, no Ofício de Trevas. Você pode rezar este Ofício no breviário.
No Missal. O Missal de 1962 o canta várias vezes:
- o intróito da terça-feira da I semana da Quaresma, Domine, refugium factus es nobis a generatione et progenie (v. 1), com o versículo 2 como verso do salmo;
- o gradual do VI domingo depois de Pentecostes, Convertere, Domine, aliquantulum, et deprecare super servos tuos (v. 13), com o versículo 1; o mesmo gradual volta na sexta-feira e no sábado das Têmporas de setembro e no sábado das Têmporas da Quaresma;
- o aleluia do XIII domingo depois de Pentecostes (v. 1) e o gradual do XXI domingo depois de Pentecostes (v. 1-2), Domine, refugium;
- o ofertório da festa de São José Operário, em 1º de maio, Bonitas Domini Dei nostri sit super nos, tirado do versículo 17: a oração sobre «a obra de nossas mãos» torna-se a oração dos trabalhadores cristãos.
Como rezar o salmo 90
Uma palavra sobre a busca “salmo 90 para que serve”: um salmo não é uma fórmula que age sozinha, e atribuir-lhe um efeito automático é superstição, que o Catecismo (n. 2111) condena ao tratar do primeiro mandamento, como já fazia o Catecismo Romano. O salmo serve para rezar com a Igreja. Eis alguns modos:
- De manhã. É a sua hora litúrgica. É uma ótima oração para o começo do dia, ao lado das orações da manhã: pedir a misericórdia «desde a manhã» e que a obra das nossas mãos seja guiada do alto.
- Antes do trabalho. O último versículo é a oração do operário cristão, do estudante, de quem começa uma obra.
- Na passagem dos anos. Fim de ano, aniversário, entrada na velhice: quando o tempo se faz sentir, este salmo ensina a olhá-lo como cristão.
- No luto. Ele não esconde a morte, mas a apoia no refúgio que não passa, «De geração em geração».
- Para meditar a morte. Os mestres espirituais aconselham relê-lo devagar, versículo por versículo, parando nas imagens da erva e da teia de aranha.
Conclui-se, como no Ofício, com o Gloria Patri.
Perguntas Frequentes
O salmo 90 da Bíblia Ave-Maria é este mesmo?
Não. A Bíblia Ave-Maria segue a numeração da Vulgata: o seu salmo 90 é o Qui habitat, a oração de proteção, que está na página do salmo 91 (90 na Vulgata). A oração de Moisés apresentada aqui é, na Ave-Maria, o salmo 89.
Por que o salmo 90 é chamado de salmo 89?
Porque a Vulgata e a Septuaginta, seguidas pela liturgia católica, unem num só os salmos 9 e 10 do hebraico. Daí em diante, a numeração da Vulgata fica um número atrás: o salmo 90 hebraico é o 89 da Vulgata.
Quem escreveu o salmo 90?
O título diz: «Oração de Moisés homem de Deus». É o único salmo cujo título nomeia Moisés, e a tradição da Igreja acolhe essa atribuição. O autor principal é o Espírito Santo, que inspirou toda a Escritura.
O que significa “setenta anos, e nos mais robustos oitenta”?
O versículo 10 dá a medida comum da vida: setenta anos, oitenta para os mais fortes, e o que passa disso «não é mais que trabalho e dor». Não é um limite fixado por Deus para cada pessoa, mas a constatação da condição humana. O salmo tira daí um convite à sabedoria, não à tristeza.
O que diz o salmo 90, 12?
Na tradução de Figueiredo, feita sobre a Vulgata: «Faze que seja assim conhecida a tua destra: E que o nosso coração seja instruído em sabedoria». As Bíblias traduzidas do hebraico falam em aprender a contar os nossos dias. Nos dois casos é a oração de quem quer viver à luz da morte e da eternidade.
O que significa “mil anos são como um dia”?
O versículo 4 ensina que o tempo não mede Deus: toda a história está diante dele como um dia que passou. São Pedro o retoma na sua segunda carta para explicar a paciência de Deus, que adia o juízo para dar aos homens o tempo do arrependimento.
Quando rezar o salmo 90?
Antes de tudo de manhã: o Breviário de 1962 o canta nas Laudes de quinta-feira. Convém também no fim de um ano, num aniversário, no luto e antes de todo trabalho, para pedir que Deus guie a obra das nossas mãos.
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