A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 121 (120 na Vulgata e na Ave-Maria): Levavi oculos, o Senhor que guarda
Levavi oculos meos
O salmo 121 das Bíblias modernas, 120 na Vulgata e na Bíblia Ave-Maria, é o *Levavi oculos*: «Levantei os meus olhos aos montes, de onde me virá o socorro», e logo a resposta: «O meu socorro vem do Senhor, que fêz o céu, e a terra». Abaixo está o texto completo na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica o sentido de cada parte, os versículos 7 e 8, o lugar do salmo nas Vésperas de 1962 e no Ofício dos Defuntos, e a maneira católica de rezá-lo.
Procura o salmo 120 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 119.
1 Canticum graduum. Levavi oculos meos in montes, unde veniet auxilium mihi.
1 Cântico gradual. Levantei os meus olhos aos montes, de onde me virá o socorro.
2 Auxilium meum a Domino, qui fecit cælum et terram.
2 O meu socorro vem do Senhor, que fêz o céu, e a terra.
3 Non det in commotionem pedem tuum, neque dormitet qui custodit te.
3 Não permita que vacile o teu pé: Nem dormite aquêle que te guarda.
4 Ecce non dormitabit neque dormiet qui custodit Israël.
4 Eis que não adormecerá, nem dormirá o que guarda a Israel.
5 Dominus custodit te ; Dominus protectio tua super manum dexteram tuam.
5 O Senhor está em tua guarda, o Senhor é a tua proteção, êle está à tua mão direita.
6 Per diem sol non uret te, neque luna per noctem.
6 De dia o sol não te queimará: Nem a lua de noite.
7 Dominus custodit te ab omni malo ; custodiat animam tuam Dominus.
7 O Senhor te guarde de todo o mal: Guarde a tua alma o Senhor.
8 Dominus custodiat introitum tuum et exitum tuum, ex hoc nunc et usque in sæculum.
8 O Senhor guarde a tua entrada e a tua saída: Desde agora e para sempre.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 121 ou salmo 120?
É o mesmo salmo com dois números. As Bíblias traduzidas do hebraico, que a maioria dos brasileiros tem em casa, chamam-no salmo 121. A Vulgata latina, o Breviário, o Missal e as Bíblias católicas que seguem a numeração antiga, como a de Figueiredo e a Bíblia Ave-Maria, chamam-no salmo 120. A diferença nasce no começo do Saltério: a Vulgata, seguindo a antiga versão grega dos Setenta, junta num só os salmos 9 e 10 do hebraico, e a partir daí a numeração latina fica quase sempre um número atrás. A tabela completa está na página dos Salmos.
Daí duas confusões frequentes:
- quem abre a Bíblia Ave-Maria no salmo 121 encontra outro cântico, o Laetatus sum, «Eu me alegrei nisto que me foi dito: À casa do Senhor iremos» (salmo 122 hebraico, 121 na Vulgata);
- o salmo 120 das Bíblias modernas é o Ad Dominum cum tribularer, 119 na Vulgata: «Quando me via atribulado clamei ao Senhor: E êle me atendeu».
Os versículos, por sua vez, coincidem: o título «Cântico gradual» faz parte do versículo 1, e os famosos versículos 7 e 8 têm o mesmo número aqui e nas Bíblias modernas.
O que significa o salmo 121? Explicação
O salmo é um cântico gradual, o segundo dos quinze salmos «das subidas» (119 a 133 na Vulgata), que os peregrinos cantavam subindo para Jerusalém nas grandes festas. Pode-se imaginá-lo na estrada: o viajante avista os montes da Judeia, lugar do Templo, mas também de emboscadas e de perigos, e pergunta de onde lhe virá ajuda. Ele mesmo responde; depois, outra voz, talvez a de um sacerdote ou de um companheiro de caminhada, promete-lhe a guarda de Deus.
Todo o salmo gira em torno de uma palavra, repetida como as batidas do coração: guardar. Figueiredo, fiel ao latim custodire, a emprega seis vezes em oito versículos: o Senhor te guarda, guarda Israel, guarda a tua alma, guarda a tua entrada e a tua saída.
O olhar que sobe (v. 1-2). «Levantei os meus olhos aos montes, de onde me virá o socorro» (v. 1). O gesto é o de toda oração: levantar os olhos. Mas o salmista não para nos montes; sobe mais alto, até quem os fez: «O meu socorro vem do Senhor, que fêz o céu, e a terra» (v. 2). Quem fez tudo pode guardar tudo. As Bíblias traduzidas do hebraico dão ao versículo 1 a forma de uma pergunta, «de onde me virá o socorro?»; a Vulgata e Figueiredo leem uma afirmação. O sentido é o mesmo: o socorro não vem das alturas da terra, vem do Criador.
O guarda que não dorme (v. 3-4). «Não permita que vacile o teu pé: Nem dormite aquêle que te guarda» (v. 3). E com mais força ainda: «Eis que não adormecerá, nem dormirá o que guarda a Israel» (v. 4). Os deuses das nações dormem: no monte Carmelo, Elias zombava dos profetas de Baal dizendo que o seu deus «talvez dorme, e necessita que o acordem» (1 Reis 18,27, o III Livro dos Reis de Figueiredo). O Deus de Israel vigia. O peregrino pode dormir na tenda, porque Outro vela por ele. Os discípulos, na barca agitada pela tempestade, acharam que o Senhor dormia e o acordaram: «Mestre, a ti não se te dá que pereçamos?» (Marcos 4,38). Quem dormia era a fé deles.
A sombra à direita (v. 5-6). «O Senhor está em tua guarda, o Senhor é a tua proteção, êle está à tua mão direita» (v. 5). A direita é o lugar do defensor, na batalha e no tribunal. O versículo seguinte detalha essa guarda: «De dia o sol não te queimará: Nem a lua de noite» (v. 6). Para o peregrino, o sol da estrada era um perigo bem real; quanto à lua, muitos antigos acreditavam que ela fazia mal a quem dormia ao relento. O salmo cobre assim o dia e a noite, todas as horas e todos os perigos.
A guarda de toda a vida (v. 7-8). Os dois últimos versículos alargam tudo: «O Senhor te guarde de todo o mal: Guarde a tua alma o Senhor» (v. 7). Não é a promessa de uma vida sem provações, mas de uma vida que nunca sai da mão de Deus; e o que ele guarda antes de tudo é a alma. Depois: «O Senhor guarde a tua entrada e a tua saída: Desde agora e para sempre» (v. 8). Na linguagem da Bíblia, entrar e sair abrangem toda a atividade do homem: sair para o trabalho e voltar para casa, começar e terminar. A última palavra, «para sempre», leva essa guarda para além da morte.
Salmo 121, versículos 7 e 8
São os versículos mais procurados, e com razão: resumem o salmo inteiro. Duas observações ajudam a rezá-los bem.
A primeira: o mal de que Deus guarda é, antes de tudo, o mal que separa dele, o pecado. A Igreja nunca leu aqui uma garantia contra toda doença ou todo acidente; os santos sofreram como os outros homens. Leu a certeza de que nada do que acontece escapa à Providência, e que a alma confiada a Deus está segura nas mãos dele, como Nosso Senhor disse ao Pai na véspera da Paixão: «Quando eu estava com êles, eu os guardava em teu Nome» (João 17,12).
A segunda: a entrada e a saída do versículo 8 incluem a última saída, a morte. Por isso a Igreja canta este salmo no Ofício dos Defuntos, como se verá abaixo. O «desde agora e para sempre» não termina no túmulo.
A leitura dos Padres
Santo Agostinho, nas Enarrationes in Psalmos, detém-se no primeiro versículo. Os montes para os quais se levantam os olhos podem figurar os grandes servos de Deus, profetas e apóstolos, por meio dos quais nos chega a luz das Escrituras; mas esses montes são iluminados por uma luz que recebem. Não se deve, pois, pôr neles a esperança: o socorro vem do Senhor, que fez o céu e a terra. É o lugar justo dos santos na oração cristã: apoiamo-nos neles, mas para subir até Deus.
O salmo lembra a promessa feita a Jacó, que fugia para Harã, na noite da escada: «Eu serei o teu condutor por tôda a parte, por onde fôres» (Gênesis 28,15). A guarda de Deus exerce-se também por meio dos Anjos, como diz o salmo 91 (90 na Vulgata), Qui habitat: «Porquanto mandou aos seus Anjos acêrca de ti: Que te guardem em todos os teus caminhos». Por isso o salmo 121 se reza tão naturalmente junto da oração do Anjo da Guarda.
Pertence à família dos salmos de confiança, ao lado do salmo 23 (22 na Vulgata), Dominus regit me. Onde o salmo 91 cobre a noite e o salmo 23 o pasto, o salmo 121 cobre a estrada. E prepara o salmo gradual seguinte, em que o mesmo olhar sobe ainda mais: «Cântico gradual. Levantei os meus olhos para ti, que habitas nos céus» (salmo 123, 122 na Vulgata).
«O meu socorro vem do Senhor» e o começo da Missa
O versículo 2 soa familiar a todo católico que frequenta a Missa tridentina. Ao pé do altar, depois do salmo Judica me, o sacerdote faz o sinal da cruz dizendo Adjutorium nostrum in nomine Domini, e o povo responde Qui fecit caelum et terram. A fórmula vem propriamente de outro salmo gradual, o salmo 124 (123 na Vulgata): «Nosso socorro está no nome do Senhor, que fêz o céu e a terra». Mas repete ao pé da letra a profissão de fé do nosso versículo: o Deus a quem se pede ajuda é o Criador.
Quem escreveu o salmo 121?
O título deste salmo não traz o nome de Davi: diz apenas «Cântico gradual». No hebraico, alguns salmos graduais levam o nome de Davi e um o de Salomão; este não está entre eles. O autor humano é desconhecido. Uma parte da tradição, porém, atribui o Saltério inteiro a Davi, seu primeiro cantor e modelo, e por isso muitos falam do “salmo 121 de Davi”. O autor principal, como de toda a Escritura, é o Espírito Santo. Sobre a origem do livro, veja quem escreveu os Salmos.
O salmo 121 na liturgia de 1962
Nas Vésperas de segunda-feira. No Breviário Romano de 1962, o salmo 120 da Vulgata é cantado nas Vésperas de segunda-feira, com o Dilexi, o Credidi, o Ad Dominum cum tribularer e o Laetatus sum (salmos 114, 115, 119 e 121 da Vulgata), sob a antífona Auxilium meum a Domino, qui fecit caelum et terram. Já ocupava esse dia antes da reforma de São Pio X (1911), com a antífona Unde veniet auxilium mihi. Toda semana, na tarde do primeiro dia de trabalho, a Igreja levanta os olhos para os montes. O Ofício do dia está no breviário, e a estrutura desta Hora no nosso guia das Vésperas.
Nas Vésperas dos Defuntos. O salmo é também o terceiro das Vésperas do Ofício dos Defuntos, depois dos salmos 114 e 119, com uma antífona tirada do versículo 7: Dominus custodit te ab omni malo: custodiat animam tuam Dominus. Nesse Ofício cada salmo termina não com o Gloria Patri, mas com o Requiem aeternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis. A Igreja canta assim para o falecido a guarda de Deus sobre a sua alma, na hora da sua última «saída».
O Missal de 1962, por outro lado, não tira deste salmo nenhum canto próprio da Missa: o Levavi oculos vive no Ofício.
Como rezar o salmo 121
Este salmo serve para todas as horas, mas a tradição cristã lhe reconhece alguns momentos privilegiados.
- Antes de uma viagem ou de uma peregrinação. É o seu uso mais natural: rezá-lo ao sair de casa, entregando a Deus o caminho com o versículo 8.
- À noite e na insônia. O versículo 4, «não adormecerá, nem dormirá», devolve a inquietação às mãos de quem vigia.
- Por quem amamos e está longe. Filhos, doentes, viajantes, soldados: pede-se para eles a guarda dos versículos 7 e 8.
- Na ansiedade pelo dia de amanhã. É uma oração de confiança na Providência, que conserva e governa todas as coisas; não promete a ausência da cruz, mas a presença do Guarda.
- Por um moribundo ou um falecido. A exemplo do Ofício dos Defuntos, reza-se por quem faz a última viagem, terminando com o Requiem aeternam; ele combina bem com a oração pelos mortos.
Reza-se devagar, versículo por versículo, terminando com o Glória ao Pai. Uma palavra, com calma, sobre o “para que serve”: um salmo não é uma fórmula que age sozinha, nem um amuleto contra o azar, e não há número de repetições que «garanta» uma proteção. Procurar efeitos assim seria cair na superstição que o primeiro mandamento proíbe (Catecismo, n. 2111). O salmo 121 serve para o que a Igreja faz com ele: confiar a Deus a vida inteira, entrada e saída. Os outros salmos que a tradição reza nos perigos estão reunidos em salmos de proteção.
Perguntas Frequentes
O salmo 121 e o salmo 120 são o mesmo?
Sim. O salmo 121 das Bíblias traduzidas do hebraico é o salmo 120 da Vulgata, do Breviário e da Bíblia Ave-Maria. O salmo 121 da Bíblia Ave-Maria é outro, o Laetatus sum, «À casa do Senhor iremos».
O que significam os versículos 7 e 8 do salmo 121?
«O Senhor te guarde de todo o mal: Guarde a tua alma o Senhor.» E depois: «O Senhor guarde a tua entrada e a tua saída: Desde agora e para sempre.» Deus guarda toda a vida do fiel, e antes de tudo a sua alma; entrar e sair resumem todas as suas ações, e o «para sempre» estende essa guarda até a eternidade.
O que significa “levantar os olhos aos montes”?
É o gesto do peregrino que avista os montes de Jerusalém e se pergunta de onde lhe virá o socorro. O versículo seguinte responde: de Deus só, que fez o céu e a terra. Santo Agostinho tira daí uma lição: os montes, figura dos santos, ajudam-nos, mas a esperança deve subir até o Senhor.
O salmo 121 é um salmo de proteção como o salmo 91?
Sim, são irmãos: ambos cantam a guarda de Deus sobre o fiel. O salmo 91 (90 na Vulgata) fala dos perigos da noite e da missão dos Anjos; o salmo 121 acompanha o viajante pelo caminho. Nenhum dos dois é uma fórmula mágica: são orações de confiança.
Quem escreveu o salmo 121?
O título não traz o nome de Davi, apenas «Cântico gradual». Pertence aos quinze salmos graduais cantados pelos peregrinos, e o autor humano é desconhecido. Parte da tradição atribui o Saltério inteiro a Davi; o autor principal é o Espírito Santo.
Quando rezar o salmo 121?
Antes de uma viagem, à noite, na inquietação, por uma pessoa querida que está longe ou por um falecido. A Igreja o canta toda segunda-feira nas Vésperas e nas Vésperas do Ofício dos Defuntos.
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