A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 123 (122 na Vulgata e na Ave-Maria): Ad te levavi oculos meos, os olhos do servo
O salmo 123 das Bíblias modernas é o salmo 122 da Vulgata e da Bíblia Ave-Maria: o *Ad te levavi oculos meos*, «Levantei os meus olhos para ti, que habitas nos céus», quatro versículos de olhar fixo em Deus. Aqui você encontra o texto completo do Pe. Figueiredo, feito sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica o salmo, a leitura dos Padres, o seu lugar nas Vésperas de terça-feira e na Quaresma, e o modo de rezá-lo.
Procura o salmo 122 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 121.
1 Canticum graduum. Ad te levavi oculos meos, qui habitas in cælis.
1 Cântico gradual. Levantei os meus olhos para ti, que habitas nos céus.
2 Ecce sicut oculi servorum in manibus dominorum suorum ; sicut oculi ancillæ in manibus dominæ suæ : ita oculi nostri ad Dominum Deum nostrum, donec misereatur nostri.
2 Vêde que assim como os olhos dos servos estão pregados nas mãos de seus senhores: Como os olhos da escrava nas mãos de sua senhora: Assim os nossos olhos estão fitos no Senhor nosso Deus, até que tenha misericórdia de nós.
3 Miserere nostri, Domine, miserere nostri, quia multum repleti sumus despectione ;
3 Tem misericórdia de nós, Senhor, tem misericórdia de nós: Porque estamos mui fartos de desprêzo:
4 quia multum repleta est anima nostra opprobrium abundantibus, et despectio superbis.
4 Porque mui cheia está a nossa alma: Sendo objeto de escárnio para os ricos, e de desprêzo para os soberbos.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 123 ou salmo 122?
O número 123 é o da Bíblia hebraica e das Bíblias modernas. A Vulgata latina e a Setenta grega, com as quais a Igreja rezou durante séculos na sua liturgia, juntam num só os salmos 9 e 10 do hebraico: daí em diante a sua contagem é inferior em um, e este salmo se torna o 122, como na Bíblia Ave-Maria e na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo. O texto é o mesmo; reconhece-se pelas primeiras palavras latinas, Ad te levavi oculos meos.
Atenção aos vizinhos:
- o salmo 122 das Bíblias modernas é o Lætatus sum, o canto dos peregrinos que chegam a Jerusalém; na Vulgata é o salmo 121: «Eu me alegrei nisto que me foi dito: À casa do Senhor iremos»;
- o salmo 123 da Vulgata é o Nisi quia Dominus, o 124 das Bíblias modernas, que você encontra no salmo 123 desta leitura;
- o célebre salmo dos olhos erguidos “para os montes” é outro texto: o salmo 121 (120 na Vulgata), Levavi oculos, «Levantei os meus olhos aos montes, de onde me virá o socorro».
Os versículos têm o mesmo número nas duas contagens; o título «Cântico gradual» está dentro do versículo 1. Todas as correspondências estão na página do livro dos Salmos.
O que significa o salmo 123? Explicação
É um dos quinze cânticos graduais, os salmos 119 a 133 da Vulgata, que os peregrinos cantavam subindo a Jerusalém para as festas. Tudo nele se resume num olhar.
O olhar para o céu (v. 1)
«Cântico gradual. Levantei os meus olhos para ti, que habitas nos céus» (v. 1). Dois cânticos antes, o peregrino ainda olhava para os montes, à procura do socorro. Agora o olhar sobe mais alto, até Aquele que habita os céus: nem mesmo o Templo é o último termo, Deus está acima da sua casa.
O servo e a escrava (v. 2)
O versículo 2 desenvolve uma comparação simples e precisa: «Vêde que assim como os olhos dos servos estão pregados nas mãos de seus senhores: Como os olhos da escrava nas mãos de sua senhora: Assim os nossos olhos estão fitos no Senhor nosso Deus, até que tenha misericórdia de nós» (v. 2). O servo de uma casa antiga não fala: observa a mão que manda, que dá o pão ou que corrige. O fiel faz o mesmo: espera tudo de Deus e não desvia o olhar «até que tenha misericórdia de nós». É a perseverança da oração, que não se cansa enquanto a resposta não vem.
O grito do povo desprezado (v. 3-4)
A oração se torna súplica: «Tem misericórdia de nós, Senhor, tem misericórdia de nós: Porque estamos mui fartos de desprêzo» (v. 3). O Miserere nostri é dito duas vezes, no plural: é a voz de um povo, não de um homem só. O versículo 4 diz a causa: a alma está cheia, «Sendo objeto de escárnio para os ricos, e de desprêzo para os soberbos» (v. 4). O salmo não pede vingança; pede apenas a misericórdia de Deus, e termina sem resposta, com os olhos ainda erguidos.
Os olhos do servo: os Padres e o Evangelho
Santo Agostinho, nas Enarrationes in Psalmos, lê os cânticos graduais como os degraus de uma subida do coração: sobe-se pelo amor, não pelos pés. Nota que Deus habita os céus, mas também os santos, que são os seus céus; e que o servo espera da mão do senhor tanto a correção quanto o socorro: a mão que fere para curar é a mesma que usa de misericórdia. O desprezo dos «ricos» e dos «soberbos» é, para ele, o peso que os afortunados deste mundo fazem sentir a quem espera outro bem.
O Evangelho dá rostos a este salmo. O publicano no Templo, conta São Lucas 18, «não ousava nem ainda levantar os olhos ao Céu: Mas batia nos peitos, dizendo: Meu Deus, sê propício a mim pecador». Os dois cegos de Jericó, em São Mateus 20, gritavam: «Senhor, filho de Davi, tem compaixão de nós».
A escrava que tem os olhos nas mãos da sua senhora anuncia Aquela que respondeu ao anjo, em São Lucas 1: «Eis aqui a escrava do Senhor». No Magnificat, Maria canta justamente a inversão que o salmo espera: Deus pôs «os olhos na baixeza da sua escrava» e «Depôs do Trono os poderosos, e elevou os humildes» (Lucas 1,48-52). São Tiago tira daí a regra, no capítulo 4: «Deus resiste aos soberbos e dá a sua graça aos humildes». Para rezar o cântico de Nossa Senhora, veja a página do Magnificat.
O salmo 123 na liturgia de 1962
Nas Vésperas da terça-feira. No Breviário Romano de 1962, reordenado por São Pio X, o salmo 122 da Vulgata abre as Vésperas da terça-feira. A sua antífona resume a oração: Qui habitas in cælis, miserere nobis, tu que habitas nos céus, tem piedade de nós. Seguem-no, na mesma tarde, outros quatro cânticos graduais, os salmos 123 a 126 da Vulgata, até o Nisi Dominus. Você pode rezar essa Hora no breviário do dia; a página sobre as Vésperas explica a sua ordem.
Na Quaresma. O Missal de 1962 lhe dá dois lugares na Quaresma. O Intróito da segunda-feira da primeira semana canta o versículo 2, Sicut oculi servorum in manibus dominorum suorum: ita oculi nostri ad Dominum, Deum nostrum, donec misereatur nobis: miserere nobis, Domine, miserere nobis, com o versículo 1 como salmo. O Trato do terceiro domingo da Quaresma, Ad te levavi oculos meos, qui habitas in cælis, traz os versículos 1 a 3. No começo do jejum e no seu meio, a Igreja se põe diante de Deus como o servo diante do senhor.
O Te Deum. O grito do versículo 3 ecoa também nos últimos versos do Te Deum: Miserere nostri, Domine, miserere nostri. O grande hino de louvor termina com a súplica dos pobres.
Como rezar o salmo 123
- No começo de um trabalho. O servo olha a mão do senhor antes de agir: repetir o versículo 2 é perguntar a Deus o que Ele espera de nós.
- Na zombaria ou no desprezo. Quando se é tido em nada por causa da fé, os versículos 3 e 4 dão palavras que não são nem revolta nem amargura, mas apelo à misericórdia.
- Numa espera longa. O «até que tenha misericórdia de nós» do versículo 2 ensina a não desviar o olhar, mesmo quando a resposta demora.
- Na terça-feira à tarde, com a Igreja. É o seu lugar nas Vésperas: erguem-se os olhos ao fim do dia.
Muitos procuram “para que serve o salmo 123”. Ele serve para aquilo que a Igreja faz com ele: pedir misericórdia, nas Vésperas e na Quaresma, com a humildade do servo. Não é uma fórmula de efeito garantido nem uma oração que funcione pela repetição; o seu valor está no olhar de fé de quem o reza. Reza-se bem com outro cântico gradual, o salmo 130 (129 na Vulgata), De profundis: «Desde o mais profundo clamei a ti, Senhor». Termina-se com o Glória ao Pai.
Perguntas Frequentes
O que diz o salmo 123?
Em Figueiredo, começa assim: «Levantei os meus olhos para ti, que habitas nos céus». Compara o fiel ao servo que olha a mão do senhor e depois suplica duas vezes: «Tem misericórdia de nós, Senhor». O texto inteiro, em português e em latim, está nesta página.
Qual é a explicação do salmo 123?
É uma oração de confiança humilde. O fiel espera tudo de Deus, como um servo do seu senhor, e persevera até que Deus tenha misericórdia. Os versículos 3 e 4 fazem ouvir o lamento de um povo desprezado pelos ricos e pelos soberbos, que entrega a sua causa a Deus sem pedir vingança.
O salmo 123 é um salmo de Davi?
O título diz apenas «Cântico gradual», no hebraico como na Vulgata: não traz o nome de Davi. A tradição atribui a Davi o Saltério como ao seu autor principal, mas não faz deste cântico um salmo davídico no sentido do título.
“Levanto os meus olhos para os montes” é o salmo 123?
Não. Esse salmo é o 121 das Bíblias modernas, salmo 120 da Vulgata e da Bíblia Ave-Maria, Levavi oculos meos in montes. Começa com o mesmo gesto, mas olha para os montes e para o guarda de Israel; este olha diretamente para Aquele que habita os céus.
Quando a Igreja reza o salmo 123?
No Breviário de 1962, abre as Vésperas de toda terça-feira. No Missal, forma o Intróito da segunda-feira da primeira semana da Quaresma e o Trato do terceiro domingo da Quaresma.
O que são os cânticos graduais?
São os quinze salmos 119 a 133 da Vulgata (120 a 134 das Bíblias modernas), que trazem no título «Cântico gradual». O nome vem do latim gradus, degrau: eram cantados pelos peregrinos que subiam a Jerusalém, e os Padres os leram como os degraus da subida da alma até Deus.
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