A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 46 (45 na Vulgata e na Ave-Maria): Deus noster refugium, Deus é o nosso refúgio
Deus noster refugium
O salmo 46 das Bíblias modernas é o salmo 45 da Vulgata, o *Deus noster refugium et virtus*: o canto de confiança da cidade de Deus, que não teme quando a terra treme, porque «O Senhor dos exércitos é conosco». Abaixo está o texto completo da tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica o significado, a correspondência dos versículos mais procurados, a leitura dos Padres e o lugar do salmo na liturgia de 1962.
Procura o salmo 45 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 44.
1 In finem, filiis Core, pro arcanis. Psalmus.
1 Para o fim, aos filhos de Coré, para os arcanos, Salmo.
2 Deus noster refugium et virtus ; adjutor in tribulationibus quæ invenerunt nos nimis.
2 O nosso Deus é refúgio, e esfôrço: Favorecedor nas tribulações, que com excesso nos tem compreendido.
3 Propterea non timebimus dum turbabitur terra, et transferentur montes in cor maris.
3 Por isso não temeremos ainda que seja comovida a terra: E trasladados os montes ao meio do mar.
4 Sonuerunt, et turbatæ sunt aquæ eorum ; conturbati sunt montes in fortitudine ejus.
4 Bramaram, e turbaram-se as suas águas: Estremeceram os montes pela sua fortaleza.
5 Fluminis impetus lætificat civitatem Dei : sanctificavit tabernaculum suum Altissimus.
5 O ímpeto do rio alegra a cidade de Deus: Santificou o seu Tabernáculo o Altíssimo.
6 Deus in medio ejus, non commovebitur ; adjuvabit eam Deus mane diluculo.
6 Deus está no meio dela, ela não será comovida: Deus a ajudará desde o raiar da manhã.
7 Conturbatæ sunt gentes, et inclinata sunt regna : dedit vocem suam, mota est terra.
7 As nações se conturbaram, e os reinos se humilharam: Deu a sua voz, moveu-se a terra.
8 Dominus virtutum nobiscum ; susceptor noster Deus Jacob.
8 O Senhor dos exércitos é conosco: Nosso amparador o Deus de Jacó:
9 Venite, et videte opera Domini, quæ posuit prodigia super terram,
9 Vinde, e vêde as obras do Senhor, as maravilhas, que pôs sôbre a terra:
10 auferens bella usque ad finem terræ. Arcum conteret, et confringet arma, et scuta comburet igni.
10 Que aparta as guerras até à extremidade da terra. Quebrará o arco, e romperá as armas: E queimará ao fogo os escudos.
11 Vacate, et videte quoniam ego sum Deus ; exaltabor in gentibus, et exaltabor in terra.
11 Cessai, e vêde que eu sou o Deus: Serei exaltado entre as gentes, e serei exaltado na terra.
12 Dominus virtutum nobiscum ; susceptor noster Deus Jacob.
12 O Senhor dos exércitos é conosco: Nosso amparador o Deus de Jacó.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 46 ou salmo 45?
É o mesmo salmo com dois números. As Bíblias modernas seguem a numeração hebraica e o chamam de salmo 46; a Vulgata latina, a Bíblia grega dos Setenta e os livros litúrgicos da Igreja o contam como salmo 45, porque unem num só salmo os salmos 9 e 10 do hebraico. A partir daí, a numeração latina fica um número atrás. A tradução de Figueiredo segue a Vulgata, e por isso o salmo aparece aqui na página 45. Na Bíblia Ave-Maria, que também segue essa numeração, este salmo é igualmente o 45.
Daí nasce uma confusão frequente. Quem procura o «salmo 45» numa Bíblia moderna encontra outro texto, o canto das núpcias do rei, Eructavit cor meum, que na Vulgata é o salmo 44. E o salmo 46 da Vulgata é a aclamação Omnes gentes, plaudite manibus, «Tôdas as gentes aplaudi com as mãos» (salmo 47 das Bíblias modernas). A tabela completa das duas numerações está na página dos Salmos.
Os versículos 1, 5 e 10: por que os números mudam?
Figueiredo, como a Vulgata, conta o título do salmo como versículo 1. Muitas Bíblias evangélicas não o contam, e seus números ficam então um versículo atrás dos nossos. É por isso que se procura tanto o «salmo 46 1», o «salmo 46 5» ou o «salmo 46 10»:
| Nesta página | Nas Bíblias que não contam o título | Começo do texto de Figueiredo |
|---|---|---|
| v. 2 | 46,1 | «O nosso Deus é refúgio, e esfôrço…» |
| v. 5 | 46,4 | «O ímpeto do rio alegra a cidade de Deus…» |
| v. 6 | 46,5 | «Deus está no meio dela…» |
| v. 10 | 46,9 | «Que aparta as guerras…» |
| v. 11 | 46,10 | «Cessai, e vêde que eu sou o Deus…» |
O célebre «salmo 46 10», o versículo do silêncio diante de Deus, é aqui o versículo 11.
Salmo 46 explicação: o que significa?
O título diz: «Para o fim, aos filhos de Coré, para os arcanos, Salmo» (v. 1). Os filhos de Coré eram uma família de cantores levitas do Templo. A expressão «para os arcanos», em latim pro arcanis, traduz uma palavra hebraica que se entende geralmente como indicação musical; seu sentido exato é incerto. O salmo tem três estrofes, e as duas últimas terminam com o mesmo refrão.
Deus refúgio no meio do abalo (v. 2-4)
«O nosso Deus é refúgio, e esfôrço: Favorecedor nas tribulações, que com excesso nos tem compreendido» (v. 2). É o versículo mais conhecido do salmo, e é uma profissão de fé: o refúgio não é um lugar, é o próprio Deus. Em latim, Deus noster refugium et virtus: refúgio e força. A consequência vem logo: «Por isso não temeremos ainda que seja comovida a terra: E trasladados os montes ao meio do mar» (v. 3). O salmista imagina o pior, o mundo que volta ao caos, as águas que bramam e os montes que estremecem (v. 4). Mesmo então, quem se apoia em Deus não vacila.
O rio que alegra a cidade de Deus (v. 5-8)
Ao estrondo do mar o salmo opõe um rio tranquilo: «O ímpeto do rio alegra a cidade de Deus: Santificou o seu Tabernáculo o Altíssimo» (v. 5). Ora, Jerusalém não tem rio; tem apenas as águas de Siloé, que Isaías descreve como «as águas de Siloé, que correm em silêncio» (Isaías 8,6). O salmo fala, portanto, de outro rio: a presença de Deus que faz viver a sua cidade, aquele que Ezequiel verá sair do Templo e o Apocalipse do trono de Deus e do Cordeiro. Santo Agostinho reconhece nele o dom do Espírito Santo, que sacia e alegra a cidade santa, a Igreja, segundo a palavra do Senhor: «O que crê em mim, como diz a Escritura, do seu ventre correrão rios d'água viva» (João 7,38).
A razão da firmeza da cidade vem em seguida: «Deus está no meio dela, ela não será comovida: Deus a ajudará desde o raiar da manhã» (v. 6). A cidade não é inexpugnável por causa das suas muralhas, mas porque Deus a habita. O socorro chega «desde o raiar da manhã», a hora em que, na Escritura, Deus liberta os seus depois da noite da provação. As nações se agitam, e basta que Ele fale: «Deu a sua voz, moveu-se a terra» (v. 7).
Vem então o refrão: «O Senhor dos exércitos é conosco: Nosso amparador o Deus de Jacó» (v. 8). Em latim, Dominus virtutum nobiscum. «Deus conosco» é o próprio nome que a Escritura dá ao Messias: «E apelidá-lo-ão pelo nome de Emanuel, que quer dizer, Deus conosco» (Mateus 1,23). O que o salmo cantava da cidade, a Encarnação cumpriu: Deus veio habitar no meio do seu povo.
«Cessai, e vêde» (v. 9-12)
A última estrofe convida a contemplar: «Vinde, e vêde as obras do Senhor, as maravilhas, que pôs sôbre a terra» (v. 9). Essas maravilhas são paradoxais: Deus vence como Aquele «Que aparta as guerras até à extremidade da terra. Quebrará o arco, e romperá as armas: E queimará ao fogo os escudos» (v. 10). O Senhor dos exércitos não é um deus da guerra: a sua vitória é a paz.
Depois o próprio Deus toma a palavra: «Cessai, e vêde que eu sou o Deus: Serei exaltado entre as gentes, e serei exaltado na terra» (v. 11). O latim diz Vacate, et videte quoniam ego sum Deus: ficai livres, parai, e vede. A tradição monástica amou esse verbo vacare: desocupar-se para Deus, cessar a agitação para olhar para Ele. O Evangelho o diz à sua maneira: «Entretanto só uma coisa é necessária» (Lucas 10,42). O refrão volta para concluir (v. 12).
A ocasião do salmo e a leitura dos Padres
O texto não nomeia o acontecimento que o inspirou. Vários comentadores o ligam à libertação de Jerusalém no tempo do rei Ezequias, quando o exército de Senaquerib, que sitiava a cidade, foi ferido numa só noite: «veio o anjo do Senhor, e matou no campo dos assírios cento e oitenta e cinco mil homens» (2 Reis 19,35, o IV Livro dos Reis de Figueiredo). A cidade cercada foi salva sem combate, ao amanhecer. É uma hipótese; o salmo, de propósito, fala de modo geral, para que todas as gerações o possam cantar.
Os Padres alargaram o olhar. A cidade de Deus é a Igreja, que as tempestades da história não derrubam porque Cristo está no meio dela. É também a Jerusalém celeste, onde ressoará a voz: «Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens, e êle habitará com êles» (Apocalipse 21,3). O salmo 87 (86 na Vulgata), Fundamenta ejus, outro canto dos filhos de Coré, diz o mesmo numa linha: «Coisas gloriosas se têm dito de ti, ó cidade de Deus».
A liturgia aplica estes versículos também à Virgem Maria: ela é o tabernáculo de que o salmo diz: «Santificou o seu Tabernáculo o Altíssimo»; é a cidade em que Deus habitou e que não foi abalada.
O salmo 45 na liturgia de 1962
Matinas de quarta-feira. No Breviário Romano de 1962, que segue o saltério semanal reorganizado por São Pio X em 1911, o salmo 45 da Vulgata é rezado nas Matinas de quarta-feira, logo depois das duas partes do Eructavit, com a antífona Adjutor in tribulationibus Deus noster. O versículo que segue esse grupo retoma o refrão: V. Dominus virtutum nobiscum. R. Susceptor noster, Deus Jacob. O ofício do dia pode ser rezado no breviário.
Epifania. Nas Matinas da Epifania, a antífona do salmo é Fluminis impetus lætificat, alleluja, civitatem Dei, alleluja: o rio que alegra a cidade de Deus é aqui lido à luz do Jordão e do Batismo do Senhor.
Festas de Nossa Senhora e das virgens. No Comum das virgens e nas festas da Bem-aventurada Virgem, o salmo é cantado nas Matinas, depois do Eructavit, com a antífona Adjuvabit eam Deus vultu suo: Deus in medio ejus, non commovebitur, tirada do versículo 6. Na Assunção, na Imaculada Conceição e em Nossa Senhora de Lourdes, a antífona vem do versículo 5: Sanctificavit tabernaculum suum Altissimus.
Outros ofícios. Na Dedicação de uma igreja, a antífona é a palavra de Jacó em Betel, Erit mihi Dominus in Deum, et lapis iste vocabitur domus Dei: a igreja de pedra é o tabernáculo santificado pelo Altíssimo. No Comum de vários mártires, Ecce merces sanctorum copiosa est apud Deum.
Na Missa. O gradual da festa de Santa Águeda, a 5 de fevereiro, e o das Santas Perpétua e Felicidade, a 6 de março, cantam os versículos 6 e 5: Adjuvabit eam Deus vultu suo: Deus in medio ejus, non commovebitur.
Como rezar o salmo 46
- No medo. O versículo 2 se reza sozinho, devagar, quando a angústia sobe: Deus é refúgio e força, socorro na tribulação.
- Quando o mundo parece desabar. Doença, luto, desemprego, guerra: os versículos 3 e 4 permitem nomear o caos sem se entregar a ele.
- Pela casa, pela paróquia, pela cidade. O versículo 6, «Deus está no meio dela», reza-se pelos seus. Pode-se uni-lo ao salmo 91 (90 na Vulgata), Qui habitat, e aos outros salmos de proteção.
- Pela paz. O versículo 10 pede a Deus que quebre as armas e faça cessar as guerras; acompanha bem a oração pela paz.
- Para a oração silenciosa. O versículo 11, Vacate, et videte, é um convite a parar e reconhecer que Deus é Deus.
- À noite. O refrão dos versículos 8 e 12 pode ser a última palavra do dia, no espírito das Completas.
Um salmo não é uma fórmula que age sozinha: é oração, e vale pela fé e pela confiança de quem o reza com a Igreja. Conclua, como no Ofício, com o Glória ao Pai.
Perguntas Frequentes
Por que o salmo 46 também é chamado de salmo 45?
Porque a Vulgata e os Setenta, seguidos pela liturgia e pela tradução de Figueiredo, unem os salmos 9 e 10 do hebraico. Daí em diante a numeração latina fica um número atrás: o salmo 46 das Bíblias modernas é o salmo 45 da Vulgata e da Bíblia Ave-Maria.
O que diz o salmo 46, versículo 10?
Nesta página, o versículo 10 diz que Deus «aparta as guerras até à extremidade da terra» e quebra o arco e as armas. Nas Bíblias que não contam o título, o versículo 10 é o que aqui é o 11: «Cessai, e vêde que eu sou o Deus». Um segue o outro: Deus faz cessar os combates e pede aos homens que parem para reconhecê-lo.
Qual é o tema central do salmo 46?
A confiança em Deus presente no meio do seu povo. Mesmo que a terra trema e as nações se agitem, a cidade em que Deus habita não será abalada. O refrão o resume: «O Senhor dos exércitos é conosco».
Quem escreveu o salmo 46?
O título o atribui aos filhos de Coré, família de cantores do Templo. Vários comentadores o ligam à libertação de Jerusalém cercada por Senaquerib, no tempo do rei Ezequias; é uma hipótese. A tradição o lê como profecia da Igreja, a cidade de Deus.
O salmo 46 é o mesmo de “Castelo Forte”?
Não. “Castelo Forte” é um hino composto por Lutero, inspirado neste salmo, mas é uma composição humana, e não o texto da Escritura. O salmo, tal como a Igreja sempre o rezou, é o que está nesta página, Deus noster refugium et virtus.
Quando a Igreja reza o salmo 46?
No Breviário de 1962, toda quarta-feira nas Matinas, e nas Matinas da Epifania, das festas de Nossa Senhora, das virgens e da Dedicação de uma igreja. Na Missa, os versículos 5 e 6 formam o gradual de Santa Águeda e das Santas Perpétua e Felicidade.
Posso rezar o salmo 46 em latim?
Sim. O texto latino está ao lado do português nesta página. Comece pelo Deus noster refugium et virtus e guarde o refrão Dominus virtutum nobiscum, susceptor noster Deus Jacob.
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