A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 4: Cum invocarem, a oração da noite
Cum invocarem
O salmo 4, *Cum invocarem*, é a oração da noite da Igreja: Davi, cercado de detratores, lembra que Deus já o ouviu, convida ao exame do coração no próprio leito e adormece em paz. Abaixo está o texto completo na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica o salmo parte por parte, o célebre versículo «Em paz dormirei nêle mesmo, e repousarei» e o seu lugar nas Completas.
1 In finem, in carminibus. Psalmus David.
1 Para o fim, entre os cânticos, Salmo de Davi.
2 Cum invocarem exaudivit me Deus justitiæ meæ, in tribulatione dilatasti mihi. Miserere mei, et exaudi orationem meam.
2 Quando eu invocava, me ouviu o Deus da minha justiça: Na angústia me alargaste. Tem compaixão de mim, e ouve a minha oração.
3 Filii hominum, usquequo gravi corde ? ut quid diligitis vanitatem, et quæritis mendacium ?
3 Filhos dos homens, até quando sereis de pesado coração? por que amais a vaidade, e buscais a mentira?
4 Et scitote quoniam mirificavit Dominus sanctum suum ; Dominus exaudiet me cum clamavero ad eum.
4 Sabei pois que o Senhor tem feito maravilhoso ao seu santo, o Senhor me ouvirá quando eu clamar a Êle.
5 Irascimini, et nolite peccare ; quæ dicitis in cordibus vestris, in cubilibus vestris compungimini.
5 Irai-vos e não queirais pecar: Do que dizeis nos vossos corações compungi-vos nos vossos leitos.
6 Sacrificate sacrificium justitiæ, et sperate in Domino. Multi dicunt : Quis ostendit nobis bona ?
6 Sacrificai sacrifício de justiça, e esperai no Senhor: Muitos dizem: Quem nos patenteará os bens?
7 Signatum est super nos lumen vultus tui, Domine : dedisti lætitiam in corde meo.
7 Gravado está, Senhor, sôbre nós o lume do teu rosto: Deste alegria no meu coração.
8 A fructu frumenti, vini, et olei sui, multiplicati sunt.
8 Pelo produto do seu trigo, vinho e azeite se multiplicaram.
9 In pace in idipsum dormiam, et requiescam ;
9 Em paz dormirei nêle mesmo, e repousarei.
10 quoniam tu, Domine, singulariter in spe constituisti me.
10 Porque tu, Senhor, de uma maneira singular me tens firmado na esperança.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 4: o número muda na Vulgata?
Não. O salmo 4 tem o mesmo número nas Bíblias traduzidas do hebraico, na Vulgata, na Bíblia Ave-Maria e na tradução de Figueiredo. As duas numerações só se separam a partir do salmo 9, que a Vulgata conserva inteiro e o hebraico divide em dois. Quem procura “salmo 4 ave maria” ou “salmo 4 católico” está, portanto, no lugar certo. A tabela completa das correspondências está na página dos Salmos.
O que muda é a numeração dos versículos. Figueiredo, como a Vulgata, conta o título como versículo 1 e divide a última frase em dois versículos. Por isso o versículo do sono em paz é aqui o v. 9, seguido do v. 10, ao passo que nas Bíblias que não contam o título como versículo ele é o versículo 8. Quem procura “salmo 4 8” procura, quase sempre, a mesma frase.
O que significa o salmo 4? Explicação
O salmo 4 é uma oração da noite. Começa com a lembrança de um pedido atendido, dirige-se a quem despreza o justo, dá-lhe uma lição de sabedoria e termina no sono tranquilo de quem entregou a vida a Deus. O título, «Para o fim, entre os cânticos, Salmo de Davi» (v. 1), liga-o ao rei profeta e à música do Templo. Ele vem logo depois do salmo 3, que contava o despertar de Davi no meio dos inimigos: «Eu dormi e estive sepultado no sono: E levantei-me, porque o Senhor me amparou». Lá era a manhã; aqui é a noite, e a tradição muitas vezes aproximou os dois.
Versículo 2: a lembrança de ter sido ouvido
«Quando eu invocava, me ouviu o Deus da minha justiça: Na angústia me alargaste. Tem compaixão de mim, e ouve a minha oração» (v. 2). A oração apoia-se na experiência: Davi não pede no vazio, lembra que Deus já o escutou. A imagem é bonita: a tribulação aperta, e Deus abre espaço; o latim diz dilatasti mihi, “tu me alargaste”. O coração apertado pela prova se dilata. E essa experiência sustenta o novo pedido.
Versículos 3-6: a lição aos filhos dos homens
O salmista volta-se agora para os adversários: «Filhos dos homens, até quando sereis de pesado coração? por que amais a vaidade, e buscais a mentira?» (v. 3). O coração pesado, gravi corde na Vulgata, é aquele que já não se levanta para Deus, esmagado pelas coisas da terra. A vaidade é o que não tem consistência; a mentira, o que promete a felicidade sem dá-la.
Vem depois uma advertência: «Sabei pois que o Senhor tem feito maravilhoso ao seu santo, o Senhor me ouvirá quando eu clamar a Êle» (v. 4). Aquele que eles desprezam, Deus o tornou admirável (mirificavit, diz a Vulgata). Os Padres entenderam este «santo» de Cristo, que o Pai glorificou ressuscitando-o.
O versículo 5 é um dos mais ricos do salmo: «Irai-vos e não queirais pecar: Do que dizeis nos vossos corações compungi-vos nos vossos leitos» (v. 5). A ira não é condenada em si mesma; deve ficar sem pecado. São Paulo retoma estas palavras na Carta aos Efésios, dando-lhes justamente uma cor de fim de dia: «Se vos irardes, seja sem pecar: Não se ponha o sol sôbre a vossa ira» (Efésios 4,26). E o leito, lugar do descanso, torna-se lugar da compunção: antes de dormir, retoma-se no silêncio o que se disse e pensou, e pede-se perdão. É, em germe, o exame de consciência da noite.
O versículo 6 dá o remédio: «Sacrificai sacrifício de justiça, e esperai no Senhor». O sacrifício de justiça é o de uma vida reta, oferecida com coração puro. E o mesmo versículo traz a pergunta da multidão, sempre atual: «Muitos dizem: Quem nos patenteará os bens?» (v. 6).
Versículos 7-8: a luz do rosto de Deus
A resposta é um dos versículos mais meditados pela tradição: «Gravado está, Senhor, sôbre nós o lume do teu rosto: Deste alegria no meu coração» (v. 7). A Vulgata diz signatum est, como um selo impresso na cera. Santo Agostinho vê aí a imagem de Deus gravada na alma racional, que o pecado obscurece sem apagar e que a graça restaura. Santo Tomás de Aquino cita este versículo na Suma Teológica para explicar a lei natural: a luz da razão, pela qual distinguimos o bem do mal, é em nós como uma impressão da luz divina. O homem foi feito, diz o Gênesis, segundo a palavra de Deus: «Façamos o homem à nossa imagem e semelhança» (Gênesis 1,26). A luz do rosto de Deus é a sua verdadeira riqueza.
A essa alegria interior opõe-se a abundância exterior dos outros: «Pelo produto do seu trigo, vinho e azeite se multiplicaram» (v. 8). Trigo, vinho e azeite são os bens da terra; não bastam para dar a paz. O justo tem menos, mas tem a alegria que Deus põe no coração.
Salmo 4, versículo 9: «Em paz dormirei nêle mesmo, e repousarei»
É o versículo mais procurado do salmo e a conclusão de tudo: «Em paz dormirei nêle mesmo, e repousarei» (v. 9), «Porque tu, Senhor, de uma maneira singular me tens firmado na esperança» (v. 10). Em latim: In pace in idipsum dormiam, et requiescam; quoniam tu, Domine, singulariter in spe constituisti me. As Bíblias traduzidas do hebraico dizem algo como "em paz me deito e logo adormeço", e muitos brasileiros sabem a frase de cor.
O sentido literal. É a paz do justo que, tendo entregado a sua causa a Deus, pode dormir sem medo no meio dos inimigos. A sua segurança não vem de guardas nem de riquezas, mas de Deus só: singulariter, «de uma maneira singular», tu somente.
Santo Agostinho e o idipsum. Agostinho deteve-se nas duas palavras latinas in idipsum, que Figueiredo traduz «nêle mesmo». Ouviu nelas o próprio nome de Deus, Aquele que é sempre o mesmo e não muda: o justo adormece na paz do Imutável. No livro IX das Confissões ele conta como, retirado em Cassicíaco depois da conversão, lia este salmo e se inflamava com ele; e este versículo o fazia exultar, porque encontrava nele o repouso que as vaidades do versículo 3 lhe tinham negado.
O sono de Cristo. Os Padres viram também aqui o repouso de Cristo no sepulcro, adormecido na paz e na esperança da Ressurreição; é a mesma esperança do salmo 16 (15 na Vulgata): «E além disso também a minha carne repousará em esperança». E, depois de Cristo, a boa morte do cristão, que adormece no Senhor. O sono de cada noite torna-se assim imagem e ensaio do último sono.
O salmo 4 na liturgia de 1962
Nas Completas de domingo. No Breviário Romano de 1962, o salmo 4 abre as Completas de domingo, a última Hora do Ofício, rezada antes do descanso da noite, sob a antífona Miserere mihi, Domine, et exaudi orationem meam, tirada do versículo 2. Seguem-no o salmo 91 (90 na Vulgata), Qui habitat, a grande oração de proteção, e o salmo 134 (133 na Vulgata), que convida os servos do Senhor a bendizê-lo durante a noite: «Eis-aqui bendizei agora ao Senhor, todos os servos do Senhor».
Antes da reforma de São Pio X (1911), o rito romano rezava estes salmos nas Completas todas as noites, junto com os primeiros versículos do salmo 30 da Vulgata, In te, Domine, speravi; o saltério reformado os conservou no domingo. A Hora está explicada no nosso guia das Completas, e o Ofício do dia, no breviário.
No Sábado Santo. O salmo volta no coração da Semana Santa. Nas Matinas do Sábado Santo, o Ofício das Trevas, ele abre o primeiro noturno com a antífona In pace in idipsum dormiam et requiescam. A Igreja o canta junto ao sepulcro de Cristo, antes do salmo 14 e do salmo 15 da Vulgata, cuja antífona é Caro mea requiescet in spe. A oração da noite de Davi torna-se a oração do Sábado Santo.
Em Corpus Christi. Nas Matinas da festa do Santíssimo Corpo de Cristo, o salmo 4 é cantado com uma antífona que relê o versículo 8 à luz da Eucaristia: A fructu frumenti et vini multiplicati fideles in pace Christi requiescunt, “multiplicados pelo fruto do trigo e do vinho, os fiéis repousam na paz de Cristo”.
Na Missa. O versículo 2 dá a antífona da Comunhão da terça-feira da primeira semana da Quaresma: Cum invocarem te, exaudisti me, Deus justitiae meae.
Como rezar o salmo 4
- À noite, antes de dormir. É o seu lugar próprio. Pode-se rezá-lo sozinho ou dentro das Completas, unindo-se à oração da Igreja, e terminá-lo com o Gloria Patri. Combina com as outras orações da noite.
- Para o exame de consciência. O versículo 5, a compunção no próprio leito, dá o método: retomar o dia diante de Deus, arrepender-se do que foi dito ou feito de mal e, se for o caso, rezar um ato de contrição antes de adormecer.
- Depois de uma raiva. Com São Paulo, o salmo pede que o sol não se ponha sobre a ira: reza-se para se reconciliar antes da noite.
- Na insônia e na inquietação. O versículo 9 repete-se devagar, como uma respiração: dormirei em paz, porque tu, Senhor, me firmaste na esperança.
- Junto de um doente ou de um moribundo. O sono em paz é também o da morte cristã.
Uma palavra serena sobre a procura de “salmo 4 para dormir”: o salmo não é um remédio que faz efeito por si, nem uma fórmula a repetir um certo número de vezes. Tratá-lo assim seria superstição, que o primeiro mandamento proíbe (Catecismo, n. 2111). Ele ajuda a dormir do modo como a Igreja o reza: pondo o dia nas mãos de Deus, pedindo perdão e descansando na confiança. Outros salmos da noite estão reunidos em salmos para dormir.
Perguntas Frequentes
O salmo 4 é o mesmo na Vulgata e na Bíblia Ave-Maria?
Sim. O número 4 é igual em todas as Bíblias, porque as numerações hebraica e latina só se separam a partir do salmo 9. Mudam apenas os números de alguns versículos, conforme a Bíblia conte ou não o título como versículo 1.
O que diz o salmo 4, versículo 8?
Nas Bíblias que não contam o título, o versículo 8 é o do sono em paz. Em Figueiredo, que segue a Vulgata, ele está dividido entre o versículo 9, «Em paz dormirei nêle mesmo, e repousarei», e o versículo 10, «Porque tu, Senhor, de uma maneira singular me tens firmado na esperança».
Por que o salmo 4 fala em dormir e repousar?
Porque é uma oração da noite: todo o salmo conduz ao sono confiante do último versículo, e o versículo 5 convida ao exame de consciência no próprio leito. Os Padres viram nesse sono também o repouso de Cristo no sepulcro e a morte serena do cristão.
Quando a Igreja reza o salmo 4?
No Breviário de 1962, nas Completas de domingo; antes de 1911, nas Completas de todas as noites. Também no primeiro noturno das Matinas do Sábado Santo e nas Matinas de Corpus Christi.
O que significa o versículo 7 do salmo 4?
«Gravado está, Senhor, sôbre nós o lume do teu rosto»: Deus imprimiu a sua luz na alma, como um selo na cera. Santo Agostinho lê aí a imagem de Deus no homem; Santo Tomás, a luz da razão natural, pela qual distinguimos o bem do mal.
Quem escreveu o salmo 4?
O título o atribui a Davi: «Para o fim, entre os cânticos, Salmo de Davi». A tradição o lê como a oração do rei provado, que conserva em Deus uma confiança inteira e pode dormir em paz. Como toda a Escritura, tem por autor principal o Espírito Santo.
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