A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 70 (69 na Vulgata e na Ave-Maria): Deus, in adjutorium, o grito de socorro
O salmo 70 das Bíblias modernas é o salmo 69 da Vulgata, o *Deus, in adjutorium meum intende*: cinco versículos de súplica cujo primeiro abre todas as Horas do Ofício divino. Aqui você encontra o texto completo na tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica o significado do salmo, o ensinamento de Cassiano e de São Bento, o seu lugar na liturgia de 1962 e o modo de rezá-lo.
Procura o salmo 69 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 68.
1 In finem. Psalmus David in rememorationem, quod salvum fecerit eum Dominus.
1 Para o fim, Salmo de Davi. Em memória de que o Senhor o havia salvado.
2 Deus, in adjutorium meum intende ; Domine, ad adjuvandum me festina.
2 Ó Deus, atende ao meu socorro: Senhor, vem logo para ajudar-me.
3 Confundantur, et revereantur, qui quærunt animam meam.
3 Confundidos sejam, e envergonhados, os que buscam a minha alma.
4 Avertantur retrorsum, et erubescant, qui volunt mihi mala ; avertantur statim erubescentes qui dicunt mihi : Euge, euge !
4 Voltem-se atrás, e sejam envergonhados os que me desejam males. Voltem-se logo cheios de confusão os que me dizem: Bem, bem.
5 Exsultent et lætentur in te omnes qui quærunt te ; et dicant semper : Magnificetur Dominus, qui diligunt salutare tuum.
5 Regozijem-se, e alegrem-se em ti todos os que te buscam, e os que amam a tua salvação digam sempre: Engrandecido seja o Senhor.
6 Ego vero egenus et pauper sum ; Deus, adjuva me. Adjutor meus et liberator meus es tu ; Domine, ne moreris.
6 Mas eu sou necessitado e pobre: Ó Deus, socorre-me. O meu favorecedor, e o meu libertador és tu: Senhor, não te demores.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 70 ou salmo 69?
Este salmo tem dois números, conforme a Bíblia que você abre. As Bíblias modernas seguem a numeração hebraica e o chamam salmo 70; a Vulgata latina, a Septuaginta grega, o Breviário, o Missal e os Padres o contam como salmo 69. A Bíblia Ave-Maria segue a numeração da Vulgata: nela este salmo também é o 69. O texto é um só, o que começa com Deus, in adjutorium meum intende. A diferença vem do começo do Saltério: a Vulgata une num só salmo os salmos 9 e 10 do hebraico, e a contagem fica um número atrás durante a maior parte do livro (a tabela completa está na página dos Salmos).
Daí dois enganos frequentes:
- o salmo 70 da Vulgata e da Ave-Maria não é este, mas o seguinte, o 71 das Bíblias modernas: o In te, Domine, speravi, oração do ancião que esperou em Deus desde a juventude;
- o salmo 69 das Bíblias modernas é a grande lamentação Salvum me fac, «Salva-me, ó Deus: Porque as águas têm entrado até à minha alma», que na Vulgata é o salmo 68.
Nesta página o título do salmo é o versículo 1, e a oração começa no versículo 2.
O que significa o salmo 70? Explicação
Cinco versículos bastam a este salmo, e tudo está neles: a angústia, o apelo, a confiança. O título diz: «Para o fim, Salmo de Davi. Em memória de que o Senhor o havia salvado» (v. 1). O latim in rememorationem, “para fazer memória”, é uma oração destinada a lembrar a Deus a aflição do seu servo, e ao servo a fidelidade de Deus.
O apelo (v. 2). O salmo não tem preâmbulo. Começa pelo grito: «Ó Deus, atende ao meu socorro: Senhor, vem logo para ajudar-me». Duas vezes o nome de Deus, duas vezes o pedido, e uma palavra que diz a urgência: festina, apressa-te. Quem reza assim não tem mais tempo para frases longas. Nem sequer descreve a sua desgraça: chama.
Os inimigos confundidos (v. 3-4). Seguem dois pedidos contra quem o persegue: «Confundidos sejam, e envergonhados, os que buscam a minha alma». Que voltem atrás os que lhe desejam o mal, e os que zombam dele: «Voltem-se logo cheios de confusão os que me dizem: Bem, bem». O latim Euge, euge é um grito de triunfo maligno ou de falsa admiração. A vergonha pedida não é vingança: é o desejo de que o mal seja desmascarado e cesse.
A alegria dos que buscam a Deus (v. 5). O salmo se volta então para os fiéis: «Regozijem-se, e alegrem-se em ti todos os que te buscam, e os que amam a tua salvação digam sempre: Engrandecido seja o Senhor». O Magnificetur Dominus responde ao Deus, in adjutorium: o grito de socorro se torna louvor.
O pobre (v. 6). A conclusão volta a quem reza: «Mas eu sou necessitado e pobre: Ó Deus, socorre-me. O meu favorecedor, e o meu libertador és tu: Senhor, não te demores». O salmo termina como começou, com um pedido urgente. O pobre nada tem a oferecer senão a sua pobreza, e é justamente isso que funda a sua confiança: nada espera de si, tudo espera de Deus.
Um salmo tirado do salmo 40
Este salmo repete, quase palavra por palavra, o final do salmo 40 (39 na Vulgata), Exspectans exspectavi, nos versículos 14 a 18. As diferenças falam por si. Lá o salmista diz: «Seja do teu agrado, Senhor, o livrares-me»; aqui, simplesmente, pede socorro. Lá conclui: «Mas eu sou mendigo, e pobre: O Senhor está cuidadoso de mim»; aqui pede: «Ó Deus, socorre-me». Lá Deus é «Favorecedor meu, e protetor meu»; aqui, favorecedor e libertador. O salmo 70 é mais despojado, mais insistente: um grito separado do seu contexto para ser uma oração por si mesma, que se leva sempre consigo.
No Saltério, ele vem logo depois do Salvum me fac, a grande súplica do justo submerso nas águas, de que é como um resumo; e o segue o In te, Domine, speravi, que desenvolve a mesma confiança do pobre até a velhice. Os dois são cantados juntos nas Completas de quinta-feira (veja abaixo).
Cassiano e São Bento: a oração de todas as Horas
Nenhum versículo da Escritura teve, na tradição da oração, um lugar comparável. No começo do século V, São João Cassiano relata nas Conferências (a décima, a do abade Isaac sobre a oração) o ensinamento dos antigos monges do Egito: para guardar a lembrança contínua de Deus, transmitiam como uma fórmula este único versículo, Deus, in adjutorium meum intende; Domine, ad adjuvandum me festina. O abade Isaac explica que ele convém a todos os estados da alma: à tentação e à tristeza, mas também à alegria e ao fervor, em que precisamos de Deus para não cair no orgulho. Ele contém a invocação de Deus, a confissão humilde da própria fraqueza, a vigilância e a confiança. É preciso, diz, meditá-lo sem cessar, no trabalho, no caminho, à mesa, e adormecer com ele.
No século seguinte, São Bento o inscreve na sua Regra: no capítulo 18, manda começar as Horas com este versículo, seguido do Gloria Patri e do hino. Pela Regra beneditina, e depois pelo Breviário Romano, ele se tornou o limiar de toda a oração da Igreja.
Os Padres ouviram aqui também a voz de Cristo e dos seus membros, a Igreja perseguida. Santo Agostinho, nas Enarrationes in Psalmos, detém-se no Euge, euge: há dois tipos de perseguidores, os que insultam e os que bajulam, e a língua do bajulador é mais perigosa do que a mão de quem fere. A Epístola aos Hebreus lembra que Cristo, «nos dias da sua mortalidade, oferecendo com um grande brado, e com lágrimas, preces e rogos ao que o podia salvar da morte, foi atendido» (Hebreus 5,7): no Deus, in adjutorium ressoa a oração do Getsêmani, que o cristão faz sua.
O salmo 69 na liturgia de 1962
A abertura de todas as Horas. No Breviário Romano de 1962, cada Hora do Ofício divino começa com o primeiro versículo deste salmo. O sacerdote ou o cantor diz Deus, in adjutorium meum intende, fazendo o sinal da cruz; o coro responde Domine, ad adjuvandum me festina; segue o Gloria Patri, com o Alleluia ou, da Septuagésima à Páscoa, o Laus tibi, Domine, Rex æternæ gloriæ.
Nas Matinas, precede-o o Domine, labia mea aperies, tirado do Miserere; nas Completas, o Converte nos, Deus, salutaris noster. Só se cala nos três últimos dias da Semana Santa e no Ofício dos Defuntos, que começam sem ele. Quem reza o ofício tradicional o diz, portanto, oito vezes por dia, das Matinas às Completas: é o modo pelo qual a Igreja reconhece, cada vez que começa a rezar, que não pode rezar sem Deus. Você pode rezar o ofício do dia no breviário.
O salmo inteiro. No saltério semanal, o salmo 69 é cantado por inteiro nas Completas de quinta-feira, com o salmo seguinte, In te, Domine, speravi, sob a antífona Adjutor meus et liberator meus esto, Domine, tirada do versículo 6. A Igreja o coloca na hora da noite, antes do sono, quando a alma se entrega a Deus para a noite. Sobre a história dessa Hora, veja a página sobre as Completas.
A Quinta-feira Santa. Nas Matinas de Trevas da Quinta-feira Santa, o salmo é o segundo do primeiro noturno, com a antífona Avertantur retrorsum, et erubescant, qui cogitant mihi mala: a Igreja o põe nos lábios de Cristo na noite da traição.
Na Missa. O versículo 2 forma o Introito do 12º domingo depois de Pentecostes e da quinta-feira da segunda semana da Quaresma, Deus, in adjutorium meum intende: Domine, ad adjuvandum me festina, com o versículo Avertantur retrorsum. O Gradual da segunda-feira da segunda semana da Quaresma canta o versículo 6, Adjutor meus et liberator meus esto: Domine, ne tardaveris, e o Ofertório da quinta-feira da quarta semana retoma Domine, ad adjuvandum me festina.
Como rezar o salmo 70
Este salmo foi feito para ser sabido de cor e dito na hora da necessidade. Eis alguns modos de rezá-lo, recebidos da tradição.
- Para começar toda oração. Fazer como a Igreja: abrir a oração da manhã ou da noite com o sinal da cruz e o Deus, in adjutorium, seguido do Glória ao Pai. Assim você se põe, mesmo sozinho, na oração da Igreja inteira.
- Na tentação. É o uso que Cassiano ensinava. Ao primeiro assalto da ira, do desânimo, de um pensamento impuro, repetir por dentro: «Ó Deus, atende ao meu socorro». O Senhor disse aos discípulos: «Vigiai, e orai para que não entreis em tentação» (Mateus 26,41); este versículo é a forma mais simples dessa oração vigilante. Ele cabe como uma jaculatória em qualquer instante do dia.
- No perigo ou na angústia. Quando faltam as palavras, o salmo inteiro diz tudo em cinco versículos. Pode-se uni-lo ao salmo 91 (90 na Vulgata), Qui habitat.
- À noite, com a Igreja nas Completas de quinta-feira, ou todas as noites antes de dormir: entregar a noite Àquele que se apressa em socorrer.
- Em latim, ao menos o primeiro versículo: está ao alcance de todos e une você à oração de todos os séculos cristãos.
Para que serve o salmo 70? Serve para pedir socorro a Deus, e é assim que a Igreja o usa. Não é uma fórmula que age sozinha, nem uma “oração forte” que se repete um número fixo de vezes para obter um resultado: atribuir esse poder a palavras é superstição, que o primeiro mandamento proíbe. Ele vale pela fé e pela confiança de quem o reza. Diga-o com calma, sem pressa, apesar do seu festina: a pressa se pede a Deus, não a quem reza.
Perguntas Frequentes
Qual é o salmo 70 na Bíblia católica?
Nas Bíblias modernas, o salmo 70 é o Deus, in adjutorium meum intende, «Ó Deus, atende ao meu socorro», que a Vulgata, a Bíblia de Figueiredo e a Bíblia Ave-Maria numeram 69. É o texto dado no alto desta página, com o latim ao lado.
Por que o salmo 70 tem o número 69 na Vulgata?
Porque a Vulgata e a Septuaginta unem num só salmo os salmos 9 e 10 do hebraico. A diferença de um número continua depois por grande parte do Saltério. O texto é o mesmo.
O salmo 70 e o salmo 71 são o mesmo salmo?
Não. O salmo 71 das Bíblias modernas é o In te, Domine, speravi, que a Vulgata numera 70. Os dois salmos se seguem, e a Igreja os canta juntos nas Completas de quinta-feira: o primeiro é um grito de socorro, o segundo a confiança de uma vida inteira.
Quem escreveu o salmo 70?
O título o atribui a Davi: «Salmo de Davi. Em memória de que o Senhor o havia salvado». A Igreja sempre acolheu essa atribuição. O texto retoma o final do salmo 40, também atribuído a Davi.
O salmo 70 serve contra as tentações?
É o uso que os monges do deserto ensinavam, segundo Cassiano: repetir o primeiro versículo ao primeiro sinal da tentação, como pedido de socorro a Deus. Não age por si mesmo; é uma oração breve que pede a graça e exprime a confiança.
Por que toda Hora do Breviário começa com este salmo?
Porque a Igreja acolheu o uso dos antigos monges, atestado por Cassiano e fixado por São Bento: começar a oração pedindo ao próprio Deus que nos ajude a rezar. O versículo confessa a nossa pobreza e a nossa confiança antes de qualquer outra palavra.
O salmo 70 é um salmo penitencial?
Não está entre os sete salmos penitenciais (6, 31, 37, 50, 101, 129 e 142 na Vulgata). Mas tem o tom do pobre que nada pode por si, e a Igreja o usa muito na Quaresma, no Introito, no Gradual e no Ofertório de várias Missas.
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