A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 71 (70 na Vulgata e na Ave-Maria): In te, Domine, speravi, a oração da velhice
O salmo 71 das Bíblias modernas é o salmo 70 da Vulgata, o *In te, Domine, speravi*: «Em ti, Senhor, tenho esperado, não seja eu jamais confundido». É a oração de um homem que confiou em Deus desde o ventre materno e lhe pede que não o abandone na velhice. Abaixo está o texto completo da tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado; o guia explica o significado, a leitura dos Padres, o uso na liturgia de 1962 e a maneira de rezá-lo.
Procura o salmo 70 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 69.
1 Psalmus David, filiorum Jonadab, et priorum captivorum. In te, Domine, speravi ; non confundar in æternum.
1 Salmo de Davi, dos filhos de Jonadab, e dos primeiros cativos. Em ti, Senhor, tenho esperado, não seja eu jamais confundido:
2 In justitia tua libera me, et eripe me : inclina ad me aurem tuam, et salva me.
2 Na tua justiça livra-me, e põe-me a salvo. Inclina para mim o teu ouvido, e salva-me.
3 Esto mihi in Deum protectorem, et in locum munitum, ut salvum me facias : quoniam firmamentum meum et refugium meum es tu.
3 Sejas para mim um Deus protetor, e um asilo seguro: Para me fazer salvo. Porquanto a minha firmeza, e o meu refúgio és tu.
4 Deus meus, eripe me de manu peccatoris, et de manu contra legem agentis, et iniqui :
4 Deus meu, livra-me da mão do pecador e da mão do que procede contra a lei, e do iníquo:
5 quoniam tu es patientia mea, Domine ; Domine, spes mea a juventute mea.
5 Porque tu, Senhor, és a minha paciência. Senhor, tu és a minha esperança desde a minha mocidade.
6 In te confirmatus sum ex utero ; de ventre matris meæ tu es protector meus ; in te cantatio mea semper.
6 Em ti tenho sido confirmado desde antes de nascer: Desde o ventre de minha mãe tu és o meu protetor. Tu fôste sempre o assunto dos meus cânticos;
7 Tamquam prodigium factus sum multis ; et tu adjutor fortis.
7 como portento tenho sido para muitos: E tu favorecedor forte.
8 Repleatur os meum laude, ut cantem gloriam tuam, tota die magnitudinem tuam.
8 Encha-se a minha bôca de louvor, para cantar a tua glória: Todo o dia para celebrar a tua grandeza.
9 Ne projicias me in tempore senectutis ; cum defecerit virtus mea, ne derelinquas me.
9 Não me desampares no tempo da velhice: Quando faltar a minha fortaleza, não me desampares.
10 Quia dixerunt inimici mei mihi, et qui custodiebant animam meam consilium fecerunt in unum,
10 Porque os meus inimigos falaram contra mim: E os que insidiavam a minha alma, tiveram juntos conselho,
11 dicentes : Deus dereliquit eum : persequimini et comprehendite eum, quia non est qui eripiat.
11 dizendo: Deus o desamparou, persegui-o, e prendei-o: Porque não há quem o livre.
12 Deus, ne elongeris a me ; Deus meus, in auxilium meum respice.
12 Ó Deus, não te apartes de mim: Deus meu, volta os teus olhos em meu socorro.
13 Confundantur et deficiant detrahentes animæ meæ ; operiantur confusione et pudore qui quærunt mala mihi.
13 Confundidos sejam, e pereçam os que maldizem a minha alma: Cobertos sejam de confusão e de vergonha os que me procuram males.
14 Ego autem semper sperabo, et adjiciam super omnem laudem tuam.
14 Mas eu sempre esperarei: E acrescentarei louvor sôbre todo o teu louvor.
15 Os meum annuntiabit justitiam tuam, tota die salutare tuum. Quoniam non cognovi litteraturam,
15 A minha bôca anunciará a tua justiça: todo o dia publicará a tua salvação. Porque não conheci a literatura;
16 introibo in potentias Domini ; Domine, memorabor justitiæ tuæ solius.
16 me internarei nas obras do poder do Senhor: Senhor, farei memória só da tua justiça.
17 Deus, docuisti me a juventute mea ; et usque nunc pronuntiabo mirabilia tua.
17 Ensinaste-me, ó Deus, desde a minha mocidade: E eu publicarei as tuas maravilhas, que tenho experimentado até agora.
18 Et usque in senectam et senium, Deus, ne derelinquas me, donec annuntiem brachium tuum generationi omni quæ ventura est, potentiam tuam,
18 E até à velhice e idade avançada: Ó Deus, não me desampares, até que anuncie a fôrça do teu braço a tôda a geração que há de vir: O teu poder,
19 et justitiam tuam, Deus, usque in altissima ; quæ fecisti magnalia, Deus : quis similis tibi ?
19 e a tua justiça, ó Deus, até no mais alto, as maravilhas que fizeste: Ó Deus, quem é semelhante a ti?
20 Quantas ostendisti mihi tribulationes multas et malas ! et conversus vivificasti me, et de abyssis terræ iterum reduxisti me.
20 Quantas tribulações me tens feito provar a mim, muitas e penosas: E voltado a mim, me tens dado vida, e dos abismos da terra outra vez me tens tirado:
21 Multiplicasti magnificentiam tuam ; et conversus consolatus es me.
21 Tens multiplicado a tua magnificência: E voltando-te a mim me tens consolado.
22 Nam et ego confitebor tibi in vasis psalmi veritatem tuam, Deus ; psallam tibi in cithara, sanctus Israël.
22 Porque eu também te louvarei com instrumentos de salmo pela tua verdade: Ó Deus, eu te direi salmo ao som da cítara, Santo de Israel.
23 Exsultabunt labia mea cum cantavero tibi ; et anima mea quam redemisti.
23 Regozijar-se-ão os meus lábios quando cantar os teus louvores: E a minha alma, que redimiste se alegrará.
24 Sed et lingua mea tota die meditabitur justitiam tuam, cum confusi et reveriti fuerint qui quærunt mala mihi.
24 E também a minha língua meditará todo o dia a tua justiça: Quando fôrem confundidos, e envergonhados os que me solicitam males.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 71 ou salmo 70?
Este salmo tem o número 71 nas Bíblias modernas, que seguem o hebraico, e o número 70 na Vulgata, no Breviário, no Missal e na Bíblia Ave-Maria, que unem num só salmo os salmos 9 e 10. É o mesmo texto, e os números dos versículos coincidem: o título está no mesmo versículo 1 que as primeiras palavras. A tabela completa está na página dos Salmos.
Três confusões são frequentes:
- o salmo 70 das Bíblias modernas é o breve Deus, in adjutorium meum intende, «Ó Deus, atende ao meu socorro» (salmo 69 da Vulgata), que no Breviário vem justamente antes do nosso;
- as primeiras palavras, In te, Domine, speravi, são também o começo do salmo 31 das Bíblias modernas (30 na Vulgata), «Em ti, Senhor, esperei», cujos primeiros versículos o nosso retoma quase ao pé da letra; o salmo das palavras de Jesus na cruz, «nas tuas mãos encomendo o meu espírito», é esse outro;
- quem procura o «salmo 71» com o versículo da justiça que floresce nos dias do rei procura, na verdade, o salmo 72 das Bíblias modernas, que na Vulgata e na Ave-Maria é o 71: «Nos dias dêle aparecerá justiça e abundância de paz» (salmo 71 da Vulgata).
Salmo 71 explicação: o que significa?
O título latino, Psalmus David, filiorum Jonadab, et priorum captivorum, não está no hebraico, que não tem título; Figueiredo o traduz «Salmo de Davi, Dos filhos de Jonadab, e dos primeiros cativos» (v. 1). Os filhos de Jonadab são os recabitas, a família fiel que o profeta Jeremias apresenta como exemplo; Deus promete que «Não faltará varão da estirpe de Jonadab, filho de Recab, que esteja sempre na minha presença» (Jeremias 35,19). Os «primeiros cativos» são os da deportação para a Babilônia. O título sugere, portanto, que a oração de Davi foi cantada mais tarde pelos fiéis no exílio; o sentido preciso é incerto.
A confiança de uma vida inteira (v. 1-8)
O salmo começa como um ato de esperança: «Em ti, Senhor, tenho esperado, não seja eu jamais confundido» (v. 1). Depois o olhar volta ao começo: «Senhor, tu és a minha esperança desde a minha mocidade» (v. 5); e mais atrás ainda: «Em ti tenho sido confirmado desde antes de nascer: Desde o ventre de minha mãe tu és o meu protetor» (v. 6). Quem reza conheceu a Deus antes mesmo de conhecer a si mesmo. Para muitos tornou-se «como portento», um homem provado a ponto de causar espanto, «E tu favorecedor forte» (v. 7).
A velhice e os inimigos (v. 9-13)
Vem então o pedido que dá ao salmo o seu rosto: «Não me desampares no tempo da velhice: Quando faltar a minha fortaleza, não me desampares» (v. 9). Os inimigos julgam o velho acabado: «Deus o desamparou, persegui-o, e prendei-o: Porque não há quem o livre» (v. 11). A resposta é uma súplica breve: «Ó Deus, não te apartes de mim: Deus meu, volta os teus olhos em meu socorro» (v. 12).
O louvor que não acaba (v. 14-19)
«Mas eu sempre esperarei: E acrescentarei louvor sôbre todo o teu louvor» (v. 14). O velho não pede para viver para si, mas para transmitir: «Ensinaste-me, ó Deus, desde a minha mocidade: E eu publicarei as tuas maravilhas, que tenho experimentado até agora» (v. 17); «E até à velhice e idade avançada: Ó Deus, não me desampares, até que anuncie a fôrça do teu braço a tôda a geração que há de vir» (v. 18). No versículo 15, o latim diz quoniam non cognovi litteraturam: a salvação não vem da ciência do homem, mas do poder de Deus, em cujas obras o salmista promete entrar (v. 16).
Dos abismos à cítara (v. 20-24)
O olhar se volta para o passado: «Quantas tribulações me tens feito provar a mim, muitas e penosas: E voltado a mim, me tens dado vida, e dos abismos da terra outra vez me tens tirado» (v. 20). O salmo termina em música: «eu te direi salmo ao som da cítara, Santo de Israel» (v. 22), e a alma «que redimiste se alegrará» (v. 23).
A leitura dos Padres: a velhice da Igreja
Santo Agostinho, nas Enarrationes in Psalmos, faz deste salmo a oração da Igreja inteira, que começou com Cristo e atravessa os séculos até a sua velhice, o fim do mundo. Ele se detém no versículo da litteratura, lembrando que outros códices liam negotiationem, o comércio: nos dois casos encontra a mesma lição de humildade, porque quem confia na própria ciência ou nos próprios negócios não entra no poder do Senhor.
A tradição ouviu nele também a voz de Cristo. O versículo 11, «Deus o desamparou», anuncia os insultos do Calvário, e o versículo 20, a Ressurreição: aquele que Deus deixou descer aos abismos, Ele o trouxe de volta. O versículo 6, «Desde o ventre de minha mãe tu és o meu protetor», lembra o salmo 22 (21 na Vulgata), Deus, Deus meus, em que o Justo crucificado diz: «Tu és o meu Deus desde o ventre de minha mãe».
O salmo 70 na liturgia de 1962
As Completas de quinta-feira. No Breviário Romano de 1962, o salmo 70 é cantado, dividido em duas partes, nas Completas de quinta-feira, logo depois do salmo 69, Deus, in adjutorium; a antífona vem desse salmo: Adjutor meus et liberator meus esto, Domine. A Igreja o põe na hora em que o dia termina, como uma imagem da vida que chega ao fim. Você pode rezar essa Hora no breviário e conhecer a sua história no artigo sobre as Completas.
A Quinta-feira Santa. Nas Matinas de Trevas da Quinta-feira Santa, é o terceiro salmo do primeiro noturno, com a antífona Deus meus, eripe me de manu peccatoris, tirada do versículo 4: é a voz de Cristo entregue nas mãos dos pecadores.
No Missal. O intróito da sexta-feira das Têmporas de Pentecostes é Repleatur os meum laude tua, dos versículos 8 e 23, com o versículo 1 como versículo de salmo. A comunhão do XVI domingo depois de Pentecostes e da quinta-feira da IV semana da Quaresma é Domine, memorabor justitiæ tuæ solius: Deus, docuisti me a juventute mea. O começo do salmo volta no gradual do VIII domingo depois de Pentecostes e da segunda-feira da IV semana da Quaresma: Deus, in te speravi: Domine, non confundar in æternum. E os santos jovens o recebem como seu canto: o gradual de São Luís Gonzaga, a 21 de junho, toma os versículos 5 e 6, Domine, spes mea a juventute mea, e o de Santa Teresinha do Menino Jesus, a 3 de outubro, o versículo 5.
Como rezar o salmo 71
- Na velhice. É o salmo dos idosos: agradece os dons de toda uma vida, pede para não ser abandonado quando as forças faltam e faz do tempo que resta um tempo de testemunho.
- Pelos avós e pais idosos. Os filhos podem rezá-lo por eles, sobretudo na doença; acompanha bem a oração pela saúde.
- Na provação longa. Os versículos 20 e 21 lembram que Deus já levantou quem reza, e o fará de novo.
- Para se preparar para a morte. Ele entrega a Deus a última estação da vida.
- À noite, como nas Completas de quinta-feira.
Conclua, como no Ofício, com o Glória ao Pai.
Perguntas Frequentes
Por que o salmo 71 também é chamado de salmo 70?
Porque a Vulgata e os Setenta, seguidos pela liturgia católica e pela Bíblia Ave-Maria, unem num só salmo os salmos 9 e 10 do hebraico. O salmo 71 das Bíblias modernas é o salmo 70 da Vulgata. O salmo 70 das Bíblias modernas é o Deus, in adjutorium, 69 da Vulgata.
Qual é o versículo da velhice no salmo 71?
O versículo 9: «Não me desampares no tempo da velhice: Quando faltar a minha fortaleza, não me desampares». O versículo 18 o retoma: «E até à velhice e idade avançada: Ó Deus, não me desampares».
Para que serve o salmo 71?
A Igreja o canta toda quinta-feira nas Completas e nas Trevas da Quinta-feira Santa. Um católico o reza na velhice, na doença, na provação longa e para se preparar para a morte. Não é uma fórmula de proteção que funcione sozinha: é a oração confiante de quem espera em Deus desde a juventude.
Quem escreveu o salmo 71?
O texto hebraico não tem título. A Vulgata o atribui a Davi e acrescenta a lembrança dos filhos de Jonadab e dos primeiros deportados, como se o salmo tivesse sido cantado por eles. A tradição o recebe como salmo de Davi, inspirado pelo Espírito Santo.
O salmo 71 é o mesmo que o salmo 31?
Não, mas começam da mesma maneira. O salmo 31 das Bíblias modernas (30 na Vulgata) e o salmo 71 (70 na Vulgata) abrem ambos com In te, Domine, speravi, e os seus primeiros versículos são quase idênticos. A continuação é diferente: o nosso salmo é a oração da velhice.
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