A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 7: Domine Deus meus, in te speravi, a oração do inocente caluniado
O salmo 7, *Domine Deus meus, in te speravi*, tem o mesmo número em todas as Bíblias: é a oração de um homem acusado injustamente que não faz justiça com as próprias mãos, mas leva a sua causa ao tribunal de Deus. Abaixo está o texto completo da tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica o sentido do salmo, a leitura dos Padres, o seu lugar nas Completas e no Ofício dos Defuntos e o modo de rezá-lo.
1 Psalmus David, quem cantavit Domino pro verbis Chusi, filii Jemini.
1 Salmo de Davi, que cantou ao Senhor com motivo das palavras de Cus, filho de Jemini.
2 Domine Deus meus, in te speravi ; salvum me fac ex omnibus persequentibus me, et libera me :
2 Senhor, Deus meu, em ti esperei: Salva-me de todos os que me perseguem, e livra-me.
3 nequando rapiat ut leo animam meam, dum non est qui redimat, neque qui salvum faciat.
3 Para que como leão não arrebate ùltimamente a minha alma, quando não haja quem me livre, nem quem me salve.
4 Domine Deus meus, si feci istud, si est iniquitas in manibus meis,
4 Senhor Deus meu, se eu fiz isso, se há iniqüidade nas minhas mãos:
5 si reddidi retribuentibus mihi mala, decidam merito ab inimicis meis inanis.
5 Se paguei mal aos que mo faziam, caia eu com razão debaixo dos meus inimigos sem esperança.
6 Persequatur inimicus animam meam, et comprehendat ; et conculcet in terra vitam meam, et gloriam meam in pulverem deducat.
6 Persiga o inimigo a minha alma, e apodere-se dela, e pise juntamente com a terra a minha vida, e reduza a pó a minha glória.
7 Exsurge, Domine, in ira tua, et exaltare in finibus inimicorum meorum : et exsurge, Domine Deus meus, in præcepto quod mandasti,
7 Levanta-te, Senhor, na tua ira: Mostra a tua grandeza no meio dos meus inimigos. E levanta-te, Senhor, Deus meu, segundo o preceito que tu ordenaste:
8 et synagoga populorum circumdabit te : et propter hanc in altum regredere :
8 E a multidão dos povos se unirá em roda de ti. E por amor desta remonta-te ao alto:
9 Dominus judicat populos. Judica me, Domine, secundum justitiam meam, et secundum innocentiam meam super me.
9 O Senhor julga os povos. Julga-me, Senhor, segundo a minha justiça, e segundo a inocência que há em mim.
10 Consumetur nequitia peccatorum, et diriges justum, scrutans corda et renes, Deus.
10 Será consumida a malícia dos pecadores, e encaminharás ao justo, ó Deus, que sondas os corações e as entranhas.
11 Justum adjutorium meum a Domino, qui salvos facit rectos corde.
11 Justo é o meu auxílio que vem do Senhor, o qual salva os retos de coração.
12 Deus judex justus, fortis, et patiens ; numquid irascitur per singulos dies ?
12 Deus, Juiz justo, forte, e paciente: Ira-se acaso todos os dias?
13 Nisi conversi fueritis, gladium suum vibrabit ; arcum suum tetendit, et paravit illum.
13 Se vós vos não converterdes, vibrará a sua espada: Armou o seu arco, e o tem pronto.
14 Et in eo paravit vasa mortis, sagittas suas ardentibus effecit.
14 Já pôs nêle os instrumentos da morte; já preparou as suas setas ardentes.
15 Ecce parturiit injustitiam ; concepit dolorem, et peperit iniquitatem.
15 Olha como êle pariu a injustiça: Concebeu dor, e pariu a iniqüidade.
16 Lacum aperuit, et effodit eum ; et incidit in foveam quam fecit.
16 O fôsso abriu, e o cavou: Mas precipitou-se na cova por si aberta.
17 Convertetur dolor ejus in caput ejus, et in verticem ipsius iniquitas ejus descendet.
17 A sua dor se voltará contra a sua cabeça: E sôbre a sua fronte recairá a sua iniqüidade.
18 Confitebor Domino secundum justitiam ejus, et psallam nomini Domini altissimi.
18 Glorificarei ao Senhor segundo a sua justiça, e cantarei o nome do Senhor altíssimo.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 7: por que o número é o mesmo?
Na maior parte do Saltério, as Bíblias traduzidas do hebraico e as Bíblias que seguem a Vulgata latina dão dois números diferentes ao mesmo salmo, porque a Vulgata une num só os salmos 9 e 10 do hebraico. Essa diferença, porém, só começa no salmo 10: até o salmo 8, as duas numerações coincidem. O salmo 7 de qualquer Bíblia brasileira é, portanto, o salmo 7 de Figueiredo, do Breviário e dos Padres, e também o salmo 7 da Bíblia Ave-Maria.
Nesta página o título do salmo conta como versículo 1, como na Vulgata. Nas Bíblias que não numeram o título, o versículo «Senhor, Deus meu, em ti esperei», que aqui é o v. 2, aparece como versículo 1, e todos os números ficam um a menos. A tabela completa das duas numerações está na página dos Salmos.
O que significa o salmo 7? Explicação
O salmo 7 é a oração de um inocente acusado sem razão. Desenrola-se como um processo: o pedido de socorro, o juramento de inocência, o apelo ao Juiz, a sentença e o louvor final.
O título: Cus, filho de Jemini (v. 1)
O título liga o salmo a um episódio da vida de Davi: «Salmo de Davi, que cantou ao Senhor com motivo das palavras de Cus, filho de Jemini». «Filho de Jemini» quer dizer homem da tribo de Benjamim, a tribo de Saul. A personagem não aparece com esse nome em nenhum outro lugar da Escritura, e a sua identidade é incerta. Santo Agostinho a identifica com Cusai, o amigo fiel que voltou a Jerusalém para frustrar os planos de Absalão. Outros comentadores pensam em Semei, «um homem da parentela da casa de Saul», que amaldiçoou Davi durante a fuga e a quem o rei chama precisamente «um filho de Jemini» (II Livro dos Reis (2 Samuel), capítulo 16). Em ambos os casos o pano de fundo é a revolta de Absalão, como no salmo 3.
O refúgio (v. 2-3)
«Senhor, Deus meu, em ti esperei: Salva-me de todos os que me perseguem, e livra-me» (v. 2). O latim diz in te speravi: a esperança já é um refúgio. As Bíblias modernas traduzem “em ti me refugio”, e o sentido é o mesmo. O perigo é descrito com uma imagem de caça: o inimigo é um leão que pode arrebatar a alma «quando não haja quem me livre, nem quem me salve» (v. 3).
O juramento de inocência (v. 4-6)
O justo pronuncia então um juramento solene: «Senhor Deus meu, se eu fiz isso, se há iniqüidade nas minhas mãos: Se paguei mal aos que mo faziam, caia eu com razão debaixo dos meus inimigos sem esperança» (v. 4-5). Ele não pretende estar sem pecado diante de Deus; afirma ser inocente daquilo de que o acusam. E acrescenta um traço notável: não pagou o mal com o mal. É já a moral do Evangelho.
«Levanta-te, Senhor» (v. 7-10)
«Levanta-te, Senhor, na tua ira: Mostra a tua grandeza no meio dos meus inimigos» (v. 7). O justo pede ao Juiz que tome o seu lugar, cercado pela «multidão dos povos» (v. 8). A cena se alarga: já não é só a causa de um homem, é o julgamento de todas as nações.
O versículo 9 é o coração do processo: «O Senhor julga os povos. Julga-me, Senhor, segundo a minha justiça, e segundo a inocência que há em mim» (v. 9). Não é orgulho. O justo sabe que só Deus vê o fundo do coração e por isso se entrega a ele, e não ao juízo dos homens. O versículo 10 o diz expressamente: Deus é aquele «que sondas os corações e as entranhas». O latim diz scrutans corda et renes, os corações e os rins, que na linguagem bíblica são a sede dos afetos mais íntimos. O Cristo do Apocalipse toma esse título para si: «eu sou aquêle que sonda os rins e os corações» (Apocalipse, capítulo 2).
O Juiz paciente e o mal que recai (v. 11-18)
«Deus, Juiz justo, forte, e paciente: Ira-se acaso todos os dias?» (v. 12). A paciência de Deus não é indiferença: dá tempo à conversão, mas tem um termo. «Se vós vos não converterdes, vibrará a sua espada» (v. 13).
O salmo descreve então o malvado com precisão de moralista: «Concebeu dor, e pariu a iniqüidade» (v. 15). O pecado tem a sua gestação: é concebido antes de ser dado à luz. São Tiago descreve a mesma geração: «quando a concupiscência concebeu, pare ela o pecado» (Tiago, capítulo 1). E o mal acaba por voltar-se contra o seu autor: «O fôsso abriu, e o cavou: Mas precipitou-se na cova por si aberta» (v. 16); «A sua dor se voltará contra a sua cabeça» (v. 17).
O processo termina em louvor: «Glorificarei ao Senhor segundo a sua justiça, e cantarei o nome do Senhor altíssimo» (v. 18). O justo não celebra a própria vitória, mas a justiça de Deus.
A leitura dos Padres: Cristo acusado
Os Padres ouviram neste salmo a voz de Cristo, acusado sem causa e entregue aos inimigos, que não pagou o mal com o mal e entregou a sua causa ao Pai. São Pedro o resume: «quando o amaldiçoavam, não amaldiçoava: Padecendo, não ameaçava: Mas se entregava àquele que o julgava injustamente» (I Pedro, capítulo 2). Santo Agostinho, nas Enarrationes in Psalmos, insiste na lei do versículo 16: a malícia castiga primeiro aquele que a pratica, porque o pecador se fere a si mesmo antes de ferir o próximo.
O salmo ensina assim ao cristão o que São Paulo pede aos romanos: «Não vos vingueis a vós mesmos, ó caríssimos, mas dai lugar à ira» (Romanos 12, 19). Ele tem parentes no Saltério: o salmo 35 das Bíblias modernas (34 na Vulgata), Judica, Domine, nocentes me, em que o oprimido pede ao Senhor que defenda a sua causa, e o salmo 17 das Bíblias modernas (16 na Vulgata), Exaudi, Domine, justitiam meam, outra oração de um inocente diante do tribunal de Deus.
O salmo 7 é um salmo de maldição?
Não. Muitos procuram o salmo 7 como uma oração “contra os inimigos”, e as palavras sobre a espada, o arco e as setas podem dar essa impressão. Mas o salmo não amaldiçoa ninguém. O justo começa por examinar a si mesmo («se eu fiz isso»), entrega o juízo inteiramente a Deus e constata que o mal recai sobre quem o trama. A única ameaça do salmo é condicional: Deus vibrará a espada sobre quem não se converter, e a sua paciência existe justamente para dar tempo à conversão. Rezar o salmo 7 desejando o mal a alguém seria contradizer o próprio salmo, cujo autor se gloria de não ter pago o mal com o mal.
O salmo 7 na liturgia de 1962
Completas de segunda-feira. No Breviário Romano de 1962, que segue o saltério semanal de São Pio X (1911), o salmo 7 é cantado nas Completas de segunda-feira, dividido em duas partes (versículos 2-10 e 11-18), depois do salmo 6, Domine, ne in furore, sob a antífona Salvum me fac, Domine, propter misericordiam tuam. Antes de dormir, a Igreja entrega a Deus as injustiças do dia e confessa que só ele é juiz. A história dessa Hora está no nosso guia das Completas, e o Ofício do dia, no breviário. Não é, portanto, salmo das Matinas de segunda-feira; antes da reforma de 1911, o salmo 7 era cantado nas Matinas de domingo.
O Ofício dos Defuntos. O salmo 7 pertence também ao primeiro noturno das Matinas dos defuntos, depois dos salmos 5 e 6, com a antífona Nequando rapiat ut leo animam meam, dum non est qui redimat, neque qui salvum faciat, tirada do versículo 3: a Igreja empresta essas palavras à alma que se apresenta ao juízo. Veja também a oração pelos mortos.
A Missa. O Missal de 1962 canta o versículo 2, Domine, Deus meus, in te speravi, na Comunhão do sábado das Têmporas da Quaresma e no versículo do Aleluia do segundo domingo depois de Pentecostes. O versículo 12, Deus judex justus, fortis et patiens, forma o versículo do Aleluia do terceiro domingo depois de Pentecostes.
Para que serve o salmo 7? Como rezar
A pergunta “para que serve o salmo 7?” tem uma resposta simples: serve para o que a Igreja faz com ele, isto é, para rezar. Um salmo não é uma fórmula que funciona sozinha, nem um escudo mágico contra inimigos; atribuir eficácia às palavras independentemente da fé e da conversão de quem reza é superstição, que o Catecismo (n. 2111) e o Catecismo Romano, ao tratar do primeiro mandamento, condenam. Rezado com fé, o salmo 7 convém a várias situações:
- Quando se é acusado injustamente. É o salmo do inocente caluniado: reza-se para entregar a Deus a própria causa, não para desejar a desgraça do adversário.
- Quando vem a tentação de se vingar. Ensina a manter as mãos limpas e a deixar o juízo a Deus.
- Para examinar a consciência. Antes de dizer «se eu fiz isso», é preciso verificá-lo: o salmo é também um exame de consciência.
- À noite, com a Igreja nas Completas, para entregar a Deus o dia que passou.
- Pelos defuntos, com a antífona Nequando rapiat, como no Ofício dos Defuntos.
Conclui-se com o Gloria Patri, o Glória ao Pai.
Perguntas Frequentes
O salmo 7 é o mesmo na Vulgata e nas Bíblias modernas?
Sim. As duas numerações só se separam a partir do salmo 10; o salmo 7 tem o mesmo número em todas as Bíblias, inclusive na Ave-Maria. Os versículos podem diferir de um, conforme a Bíblia conte ou não o título como versículo 1.
O que diz o salmo 7, versículo 2?
Na tradução de Figueiredo: «Senhor, Deus meu, em ti esperei: Salva-me de todos os que me perseguem, e livra-me». É a abertura do salmo; nas Bíblias que não numeram o título, é o versículo 1.
O que significa o versículo 9 do salmo 7?
O justo pede: «Julga-me, Senhor, segundo a minha justiça, e segundo a inocência que há em mim». Ele não se diz sem pecado; afirma a sua inocência na causa de que o acusam e pede a Deus, que sonda os corações, que julgue ele mesmo.
Quem escreveu o salmo 7?
O título o atribui a Davi, «com motivo das palavras de Cus, filho de Jemini». Quem era esse benjamita é incerto: Santo Agostinho o identifica com Cusai, o amigo de Davi; outros pensam em Semei, que amaldiçoou o rei. Como toda a Escritura, o salmo tem por autor principal o Espírito Santo.
Quando a Igreja reza o salmo 7?
No Breviário de 1962, nas Completas de segunda-feira e no primeiro noturno das Matinas do Ofício dos Defuntos. O Missal tira dele a Comunhão do sábado das Têmporas da Quaresma e dois versículos de Aleluia dos domingos depois de Pentecostes.
O salmo 7 serve para se proteger dos inimigos?
É, de fato, a oração de quem é perseguido, e pede a Deus que livre o inocente. Mas não é uma fórmula de proteção que age por si: reza-se com fé, sem desejo de vingança, entregando a causa a Deus e examinando a própria consciência.
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