A Sagrada Bíblia · Figueiredo · Biblia Sacra Vulgata
Salmo 66 (65 na Vulgata e na Ave-Maria): Jubilate Deo, o cântico da ressurreição
O salmo 66 das Bíblias modernas é o salmo 65 da Vulgata e da Bíblia Ave-Maria, o *Jubilate Deo, omnis terra*: «Celebrai a Deus todos os da terra». A Vulgata o intitula «Cântico do Salmo da Ressurreição», e a Igreja o canta sobretudo no tempo pascal. Aqui você encontra o texto completo do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feito sobre a Vulgata, com o latim ao lado, versículo por versículo; o guia explica o salmo, o seu título, o versículo do fogo e da água, o uso na liturgia de 1962 e o modo de rezá-lo.
Procura o salmo 65 na numeração das Bíblias traduzidas do hebraico? Ele está aqui: Salmo 64.
1 In finem. Canticum psalmi resurrectionis. Jubilate Deo, omnis terra ;
1 Para o fim, Cântico do Salmo da Ressurreição. Celebrai a Deus todos os da terra,
2 psalmum dicite nomini ejus ; date gloriam laudi ejus.
2 dizei salmo ao seu nome: Dai a glória ao seu louvor.
3 Dicite Deo : Quam terribilia sunt opera tua, Domine ! in multitudine virtutis tuæ mentientur tibi inimici tui.
3 Dizei a Deus quão terríveis são, Senhor, as tuas obras! Por ocasião do teu grande poder se convencerão de mentira os teus inimigos.
4 Omnis terra adoret te, et psallat tibi ; psalmum dicat nomini tuo.
4 A terra tôda te adore, e te cante a ti salmo: Diga salmo ao teu nome.
5 Venite, et videte opera Dei : terribilis in consiliis super filios hominum.
5 Vinde, e vêde as obras de Deus: Terrível nos conselhos sôbre os filhos dos homens.
6 Qui convertit mare in aridam ; in flumine pertransibunt pede : ibi lætabimur in ipso.
6 Êle tornou o mar em sêco, pelo rio passarão a pé enxuto: Ali nos alegraremos com êle.
7 Qui dominatur in virtute sua in æternum ; oculi ejus super gentes respiciunt : qui exasperant non exaltentur in semetipsis.
7 Êle domina pelo seu poder para sempre, os olhos dêle estão olhando sôbre as gentes: Os que o irritam não se ensoberbeçam dentro de si mesmos.
8 Benedicite, gentes, Deum nostrum, et auditam facite vocem laudis ejus :
8 Bendizei, ó Gentes, o nosso Deus: E fazei que se ouça a voz do seu louvor.
9 qui posuit animam meam ad vitam, et non dedit in commotionem pedes meos.
9 O qual tornou a minha alma em vida: E não permitiu que vacilassem os meus pés.
10 Quoniam probasti nos, Deus ; igne nos examinasti, sicut examinatur argentum.
10 Porquanto nos provaste, ó Deus: Com fogo nos afinaste, como se afina a prata.
11 Induxisti nos in laqueum ; posuisti tribulationes in dorso nostro ;
11 Puseste-nos em cadeias, carregaste tribulações sôbre nossas costas:
12 imposuisti homines super capita nostra. Transivimus per ignem et aquam, et eduxisti nos in refrigerium.
12 Puseste homens sôbre as nossas cabeças. Passamos pelo fogo e pela água: E nos tiraste para o lugar do refrigério.
13 Introibo in domum tuam in holocaustis ; reddam tibi vota mea
13 Entrarei na tua casa com holocaustos: Pagar-te-ei os meus votos,
14 quæ distinxerunt labia mea : et locutum est os meum in tribulatione mea.
14 que pronunciaram os meus lábios. E proferiu a minha bôca na minha tribulação.
15 Holocausta medullata offeram tibi, cum incenso arietum ; offeram tibi boves cum hircis.
15 Oferecer-te-ei holocaustos pingues com perfumes de carneiros: Oferecer-te-ei bois com cabritos.
16 Venite, audite, et narrabo, omnes qui timetis Deum, quanta fecit animæ meæ.
16 Vinde, ouvi todos os que temeis a Deus, e vos referirei quão grandes coisas tem feito à minha alma.
17 Ad ipsum ore meo clamavi, et exaltavi sub lingua mea.
17 A êle pela minha bôca clamei, e o exaltei com a minha língua.
18 Iniquitatem si aspexi in corde meo, non exaudiet Dominus.
18 Se eu visse iniqüidade pegada no meu coração, não me ouviria o Senhor.
19 Propterea exaudivit Deus, et attendit voci deprecationis meæ.
19 Por isso ouviu Deus, e atendeu à voz da minha deprecação.
20 Benedictus Deus, qui non amovit orationem meam, et misericordiam suam a me.
20 Bendito Deus que não rejeitou a minha oração, nem apartou a sua misericórdia de mim.
Latim: Biblia Sacra Vulgata (1592). Português: A Sagrada Bíblia (Figueiredo) (1781-1784).
Salmo 66 ou salmo 65?
As Bíblias traduzidas do hebraico numeram este salmo 66; a Vulgata, o Pe. Figueiredo, o Breviário, o Missal e a Bíblia Ave-Maria o numeram 65, porque juntam num só os salmos 9 e 10 do hebraico. É o mesmo texto, que em latim começa com Jubilate Deo, omnis terra. Os versículos têm o mesmo número nas duas contagens. A tabela completa está na página dos Salmos.
Atenção ao engano mais frequente:
- salmo 66 (hebraico) = salmo 65 (Vulgata e Ave-Maria): o Jubilate Deo, nesta página;
- salmo 66 da Vulgata e da Ave-Maria = salmo 67 (hebraico): o Deus misereatur, «Deus tenha piedade de nós, e nos abençoe», na página do salmo 67 (66 na Vulgata);
- salmo 65 (hebraico) = salmo 64 (Vulgata): o Te decet hymnus, «A ti, ó Deus, te são devidos os hinos em Sião», na página do salmo 65 (64 na Vulgata).
Quem tem nas mãos uma Bíblia Ave-Maria e procura “salmo 66” encontra, portanto, o Deus misereatur; quem procura o Jubilate Deo deve abrir o 65.
O que significa o salmo 66? Explicação
O título (v. 1). A Vulgata, depois da Setenta, o chama «Para o fim, Cântico do Salmo da Ressurreição». Esse título, ausente do hebraico, orienta toda a leitura cristã: a libertação cantada aqui é a da vida que sai da morte.
Toda a terra (v. 1-7). O salmo começa com uma convocação universal: «Celebrai a Deus todos os da terra, dizei salmo ao seu nome: Dai a glória ao seu louvor» (v. 1-2). As nações são chamadas a contemplar as suas obras: «Vinde, e vêde as obras de Deus» (v. 5). A primeira dessas obras é a saída do Egito e a entrada na terra prometida: «Êle tornou o mar em sêco, pelo rio passarão a pé enxuto: Ali nos alegraremos com êle» (v. 6). É a lembrança do mar Vermelho, quando «entraram os filhos de Israel pelo meio do mar sêco» (Êxodo 14, 22), e do Jordão atravessado sob Josué.
No versículo 3, Figueiredo escreve que os inimigos de Deus «se convencerão de mentira»: é o latim mentientur tibi, a homenagem forçada e mentirosa de quem se dobra diante do poder sem o amar.
A prova do povo (v. 8-12). Depois o tom muda. Deus provou o seu povo: «Porquanto nos provaste, ó Deus: Com fogo nos afinaste, como se afina a prata» (v. 10). O fogo purifica a prata sem a destruir. O povo confessa: «Passamos pelo fogo e pela água: E nos tiraste para o lugar do refrigério» (v. 12). O latim diz in refrigerium: é a palavra que o Cânon romano usa para os defuntos, quando pede para eles o locum refrigerii, lucis et pacis, o lugar do refrigério, da luz e da paz.
O testemunho pessoal (v. 13-20). O «nós» se torna «eu». O homem libertado sobe ao Templo para cumprir os votos que «proferiu a minha bôca na minha tribulação» (v. 14), e toma os fiéis por testemunhas: «Vinde, ouvi todos os que temeis a Deus, e vos referirei quão grandes coisas tem feito à minha alma» (v. 16). Confessa a condição da oração atendida: «Se eu visse iniqüidade pegada no meu coração, não me ouviria o Senhor» (v. 18). E termina bendizendo a Deus, «que não rejeitou a minha oração, nem apartou a sua misericórdia de mim» (v. 20).
«Passamos pelo fogo e pela água»
É o versículo mais procurado do salmo, e a sua lógica é a de toda a vida cristã. O fogo e a água são as duas provas extremas: o que queima e o que afoga. O salmo não diz que Deus poupou o seu povo, mas que o fez atravessar: «Passamos». E não termina na prova, mas na saída: «E nos tiraste para o lugar do refrigério».
A prova não é sinal de abandono: é o crisol em que Deus apura o que é seu, «como se afina a prata». Os Padres leram aqui as tribulações da Igreja e dos mártires, e o «refrigério» como o descanso prometido aos eleitos. A própria liturgia dos defuntos usa a mesma palavra quando pede para eles o lugar do refrigério.
O salmo da ressurreição: a leitura cristã
Os Padres, e Santo Agostinho nas Enarrationes in Psalmos, receberam o título grego como uma chave: o salmo canta a ressurreição de Cristo e, nele, a renovação dos que lhe pertencem. A passagem pelo fogo e pela água se torna a da Igreja através das provas desta vida.
O mar transformado em terra seca figura o Batismo, que São Paulo já vê anunciado na travessia do mar Vermelho: «todos foram batizados debaixo da conduta de Moisés, na nuvem e no mar» (I Coríntios 10, 2). Quem sai da pia batismal pode dizer com o salmista que Deus «tornou a minha alma em vida» (v. 9).
O salmo se aproxima do salmo 100 (99 na Vulgata), Jubilate Deo, que retoma a mesma aclamação de toda a terra: «Celebrai com júbilo ao Senhor povos de tôda a terra» (salmo 99, 2); e do salmo 118 (117 na Vulgata), Confitemini Domino, o grande canto pascal.
O salmo 66 na liturgia de 1962
Matinas de quinta-feira. No Breviário Romano de 1962, o salmo 65 se canta nas Matinas de quinta-feira, no primeiro noturno, dividido em duas partes com duas antífonas: Videte opera Domini, et auditam facite vocem laudis ejus (versículos 1-12) e Audite, omnes qui timetis Deum, quanta fecit animæ meæ (versículos 13-20). O versículo do noturno vem do último versículo do salmo: Non amovit Dominus orationem meam. R. Et misericordiam suam a me. Na festa da Epifania o salmo volta no segundo noturno, com a antífona Omnis terra adoret te, et psallat tibi: toda a terra que adora é a dos Magos vindos do Oriente. Você pode rezá-lo no breviário do dia.
O Missal. É um dos salmos mais usados no Missal de 1962, quase sempre em tempos de alegria:
- II domingo depois da Epifania: o Intróito Omnis terra adoret te, Deus (v. 4), com o verso Jubilate Deo, omnis terra; e o Ofertório Jubilate Deo, universa terra (v. 1-2 e 16);
- III domingo depois da Páscoa: o Intróito Jubilate Deo, omnis terra, alleluja, com o verso Dicite Deo, quam terribilia sunt opera tua, Domine (v. 3). O título de «salmo da ressurreição» combina com o tempo pascal;
- IV domingo depois da Páscoa: de novo o Ofertório Jubilate Deo, universa terra;
- V domingo depois da Páscoa: o verso do Intróito Vocem jucunditatis é Jubilate Deo, omnis terra, e o Ofertório Benedicite, gentes, Dominum, Deum nostrum (v. 8-9 e 20), que se repete na Missa da Vigília da Ascensão e na quarta-feira da quarta semana da Quaresma.
Domingo após domingo, o salmo acompanha assim a alegria do tempo da Páscoa.
Para que serve o salmo 66?
Muitos procuram o salmo 66 “para proteção” ou perguntam para que ele serve. A resposta da Igreja está no uso que ela faz dele: é um salmo de louvor e de ação de graças, cantado na Páscoa e nas manhãs de quinta-feira, para agradecer a Deus a libertação recebida. Ele não é uma fórmula de proteção que age por si mesma, nem precisa ser repetido um número certo de vezes; tratar uma oração assim seria superstição, que o Catecismo (n. 2111) condena. A sua força está na fé de quem diz, com o salmista, «Bendito Deus que não rejeitou a minha oração».
Como rezar o salmo 66
É uma oração de agradecimento depois de uma prova superada: uma doença, um luto, uma dificuldade no trabalho ou na família. Os versículos 10-12 dizem o sentido da prova, o versículo 16 convida a contar o que Deus fez, o versículo 20 conclui. Pode-se juntar a uma oração de agradecimento ou ao Te Deum.
O versículo 18 é também um exame de consciência: a oração não é ouvida se o coração se agarra ao pecado. Antes de pedir, convém purificar a intenção. No tempo pascal, o salmo se reza diante de Cristo ressuscitado, como canto da ressurreição de Jesus. Termina-se, como no Ofício, com o Gloria Patri.
Perguntas Frequentes
Por que o salmo 66 é chamado de salmo 65?
Porque a Vulgata e a Setenta, seguidas pela liturgia, por Figueiredo e pela Bíblia Ave-Maria, juntam num só os salmos 9 e 10 do hebraico; daí em diante o número latino fica um atrás. O salmo 66 das Bíblias modernas é, portanto, o salmo 65 da Vulgata, o Jubilate Deo.
Qual é o significado do salmo 66?
É um canto de ação de graças: toda a terra é chamada a louvar a Deus pelas suas obras, depois um fiel conta como Deus o provou e libertou. A Vulgata o chama «Cântico do Salmo da Ressurreição», e a tradição lê nele a passagem de Cristo e do cristão da morte à vida.
O salmo 66 é “Deus tenha piedade de nós e nos abençoe”?
Não. Essas palavras abrem o Deus misereatur, que é o salmo 66 da Vulgata e da Bíblia Ave-Maria, mas o 67 das Bíblias modernas. O salmo 66 das Bíblias modernas é este, o Jubilate Deo, omnis terra.
O salmo 66 é uma oração de proteção?
É sobretudo uma oração de agradecimento por uma proteção já recebida: o povo passou «pelo fogo e pela água» e Deus o tirou para o lugar do refrigério. Pode-se rezá-lo na prova, com confiança, mas não como uma fórmula que protege por si mesma.
O que significa “passamos pelo fogo e pela água”?
É a imagem das provas mais duras, as que queimam e as que afogam. O salmo afirma que Deus fez o seu povo atravessá-las e o levou ao «lugar do refrigério». Os Padres viram aqui as tribulações da Igreja e o descanso dos eleitos.
Quem escreveu o salmo 66?
O título não nomeia nenhum autor, nem no hebraico nem na Vulgata: chama-o apenas «Cântico do Salmo», e a Vulgata acrescenta «da Ressurreição». Como toda a Escritura, tem por autor principal o Espírito Santo.
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Acesso antecipado